Libertando-me

Estava pensando em plena véspera de aniversário, que muito do meu crescimento emergiu dos meus maiores desalentos. Nos meus desesperados momentos de solidão que eu aprendi a lidar com o jeitinho que a vida tem de nos fazer crescer.

 

Arte Egon Schiele

Músicas tristes, festas, álcool, amores tapa buraco, orações milagrosas, livros de autoajuda. Nada disso, absolutamente nada, me fez evoluir tanto quanto o meu próprio caos pessoal. O meu próprio caos fez com que eu aprendesse o que é a liberdade em sua essência.
Quando tinha 15 anos achava que a liberdade era sair a hora que eu quisesse, aos 18 achei que era apenas me sustentar, agora vejo a liberdade como um estado de alma e não físico.

Quando a dureza do coração se transforma em calmaria e depois em dureza de novo, e calmaria, e por aí em diante até chegar no equilíbrio perfeito onde os sentimentos não são mais necessidades e sim complementos de uma alma que já transborda por si só.
A saudade, as coisas que deixei pra trás, o amor próprio que aprendi a cultivar sem ajuda mas por mim mesma. Admiração,coragem acabaram se tornando fundamentos que construí em meu próprio eu, tornou-me densa. Mais densa do que todos os amores que achei que seriam eternos, do que todas as amizades fogo de palha, de todas as questões vividas que me arrebentavam a alma.
Hoje eu aprendi que a liberdade nasce de mim, do meu amor por mim mesma, na confiança do meu eu, das minhas palavras boas para comigo, e da certeza que a minha felicidade só pode ser dada pelo meu próprio eu, e que ela sempre esteve lá, eu que não tinha fé que meus braços podiam alcançá-la.
A idade não traz diplomas, nem casamentos, nem nada sólido(independente do desejado)  se você não estiver sólida. Se eu não tivesse trocado minhas certezas de boteco por experiências de “óleo quente na ferida” talvez eu nunca estivesse escrevendo esse texto . Quando parei de me culpar, e deixei ir tudo que me podava, quando parei de me comparar com outras vidas e passei a olhar para meu progresso do ontem para hoje foi que me libertei.
É uma delícia a descoberta de que pertenço a mim mesma, que todo ódio e correntes vinham de mim. Hoje sei o que sou, e amo ser essa pessoa consciente de suas escolhas, responsabilidades e principalmente a mulher consciente de não ser apenas completa mas inundada.

A história de hoje é…

Laura

Primeira Parte

A dúvida toma conta de cada passo que dou. Talvez eu devesse ter dado ouvidos a Tia Marli, ela estava certa, vir aqui foi um erro.

_ Boa noite senhorita, posso apanhar o seu casaco?

_ Ah sim, obrigada.

_ Adessa, você veio!

Tudo o que eu queria era chegar e ficar escondida em um canto, mas com essa sorte que tenho, claro que a escandalosa da Lola seria a primeira a me notar.

_ Olá Lola. Como você está?

_ Estou ótima! Melhor agora por saber que você e a Laura conseguiram se entender.

Falsa.

_ Venha, faço questão que se sente ao meu lado para colocarmos a conversa em dia, afinal, não nos falamos desde de setembro. Já se passou quase um ano!

_ Claro, me dê apenas um minuto irei cumprimentar a Rachel e o Guilherme.

E espero não ter que falar com você novamente.

_ Oi pessoal.

_ Oi Dessa!

_ Olá! Que bom que resolveu aparecer.

_ Não comemore Guilherme, ainda posso sair correndo.

_ Pensei que você e a Lau já haviam se perdoado.

_ Laura me chamou de interesseira oportunista e eu disse que ela é uma estúpida que será infeliz para o resto da vida. Não são palavras fáceis de perdoar, para nenhuma das duas.

_ Mas não foi ela mesma quem te convidou?

_ Sim.

_ Mas convidou para esfregar na cara Guiga, a Adessa sabe disso. Não sabe amiga?

_ Sei sim Raquel! Não tenho dúvidas da falta de sinceridade dela ao me ligar. Laura precisa provar ao mundo que sabe o que está fazendo, então por que não convidar a amiga mentirosa e interesseira para ser uma das madrinhas? Não existe melhor maneira de me perdoar, com o complemento de mostrar à todos como confia no amado noivo.

_ Por falar em noivos.

Eu e a Laura eramos muito unidas, nosso grupo teve inicio com nossa amizade. Brigávamos sim, brigávamos muito, mas nunca foi nada sério, que durasse mais de um dia. Até pararmos de nos falar no aniversário dela do ano passado.

Durante a festa, o Vitor, na época namorado dela, tentou me beijar à força. Eu sou bem esquentadinha e esse sujeito não me descia fazia muito tempo. Estourei na hora dizendo boas verdades na cara dele, depois fui imediatamente contar à Laura. Ela ouviu tudo e depois foi embora, sem falar nada. Pensei que tinha ido terminar com o escroto, mas não. No dia seguinte foi até minha casa falar comigo.

“_ Você inventou aquela história para me fazer terminar com o Vitor e ficar com ele pra você. Eu deveria saber que você é uma vadia cretina!”

Discutimos muito naquele dia, foi horrível sim, mas não sei bem se me arrependo de tudo o que eu disse. Parece que a Laura retrocedeu, esqueceu tudo o que formava aquela personalidade linda que tinha. A mulher independente que conheci se deixou enterrar e não é mais a mesma pessoa.

Não sei se acredito nessa alegria que ela está mostrando durante o ensaio de casamento.

_ Oi Adessa.

_ Oi Laura.

 

Continua…

 

 

 

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A vida das borboletas

imagem: tumblr

Uma vez, como costuma acontecer todos os dias, eu me perdi nos meus pensamentos e meio que do nada me veio em mente o ciclo de vida das borboletas. Sem querer, comecei a examinar cada fase que elas vivem, a começar por quando elas ainda estão no ovo. É nessa fase que elas começam a se desenvolver, e ainda estão despreparadas para enfrentar o mundo.

Depois que saem do ovo, elas são apenas larvas, lagartas que têm como “tarefa” se alimentarem e crescerem. Essa é a fase mais longa de suas vidas, e mesmo que não seja a mais graciosa, é a na qual elas mais passam por preparações para a fase seguinte. Então formam um casulo ao redor do próprio corpo, ficam na fase de pupa, quando elas passam por um período em que ficam lá dentro, longe do resto do mundo, para desenvolver suas asas. No fim dessa fase, elas passam pelo maior desafio: sair do casulo.

Elas se esforçam ao máximo para conseguir, e assim preparam suas asas para a fase seguinte. Se não passarem por isso, suas asas ficam fracas, e seu destino provavelmente é ser pega por algum predador. Então vem a mais graciosa das fases, quando se tornam borboletas, e abrem suas asas para o mundo. Porém essa é a mais curta de todas. Por fim, após o acasalamento, elas põem seus ovos, e logo em seguida morrem, mas não sem antes deixar novos “projetos” de borboletas.

Nossas vidas são muito mais semelhantes às das borboletas do que costumamos pensar. Nós também passamos por essas fases. Cada uma da vida das borboletas equivale a uma nossa. A fase do ovo é quando nós também estamos despreparados para enfrentar o mundo, e nos desenvolvemos aprendendo a cada dia. Quase sempre, nessa fase estamos envolvidos por uma proteção que pode ser a de nossos pais, ou até a de nossa própria timidez.

Quando ela é uma lagarta é equivalente ao momento em que continuamos crescendo e aprendendo, mas não estamos mais envolvidos por essa proteção, e às vezes o que nos faz desenvolver são os erros e feridas que sofremos ao explorar esse mundo novo. Geralmente também é a nossa fase mais longa, pois precisamos aprender muito na vida, e como com as borboletas, não é nossa fase de mais destaque.

Passamos pela fase de pupa em um momento crucial de nossas vidas, quando também abrimos mão de algo que amamos por muito tempo para completarmos nosso crescimento. Esse objeto de nossa estima muda para cada pessoa, e quase sempre ele retorna a nós. Sair do casulo também é um desafio para as pessoas. É uma grande provação pela qual passamos, que nos exige muito esforço, porém é ela que nos faz melhores para o futuro, e muitas vezes sem isso não podemos seguir fortes.

E então vêm as nossas asas. É o fruto de tudo pelo que passamos durante a vida, quando nos desenvolvemos por completo. Essa fase não quer dizer necessariamente reconhecimento, mesmo que alguns o consigam, mas sim um crescimento para nós mesmos.

Quando chega o fim de nossas vidas, colocamos os nossos “ovos”. Aqui essa palavra não quer dizer exatamente nossos filhos (mesmo que possa incluí-los), mas aquilo que deixamos para o futuro, e até mesmo nossas marcas na história.

Essas fases não devem ser confundidas com faixas etárias, pois elas pouco se influenciam pela idade. As fases se embaralham para cada pessoa, podendo algumas simplesmente “pularem” algumas fases, ou virem a não completar esse ciclo. O que deve ser levado em consideração é que nós mesmos não devemos tentar interferir nele, pois todas essas fases são necessárias para nos tornarmos alguém a ser lembrado, como uma graciosa borboleta.