Contos Aleatórios sobre elas – Adessa

Adessa

 

Primeira Parte

A dúvida toma conta de cada passo que dou. Talvez eu devesse ter dado ouvidos a Tia Marli, ela estava certa, vir aqui foi um erro.

_ Boa noite senhorita, posso apanhar o seu casaco?

_ Ah sim, obrigada.

_ Adessa, você veio!

Tudo o que eu queria era chegar e ficar escondida em um canto, mas com essa sorte que tenho, claro que a escandalosa da Lola seria a primeira a me notar.

_ Olá Lola. Como você está?

_ Estou ótima! Melhor agora por saber que você e a Laura conseguiram se entender.

Falsa.

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A história de hoje é…

Laura

Primeira Parte

A dúvida toma conta de cada passo que dou. Talvez eu devesse ter dado ouvidos a Tia Marli, ela estava certa, vir aqui foi um erro.

_ Boa noite senhorita, posso apanhar o seu casaco?

_ Ah sim, obrigada.

_ Adessa, você veio!

Tudo o que eu queria era chegar e ficar escondida em um canto, mas com essa sorte que tenho, claro que a escandalosa da Lola seria a primeira a me notar.

_ Olá Lola. Como você está?

_ Estou ótima! Melhor agora por saber que você e a Laura conseguiram se entender.

Falsa.

_ Venha, faço questão que se sente ao meu lado para colocarmos a conversa em dia, afinal, não nos falamos desde de setembro. Já se passou quase um ano!

_ Claro, me dê apenas um minuto irei cumprimentar a Rachel e o Guilherme.

E espero não ter que falar com você novamente.

_ Oi pessoal.

_ Oi Dessa!

_ Olá! Que bom que resolveu aparecer.

_ Não comemore Guilherme, ainda posso sair correndo.

_ Pensei que você e a Lau já haviam se perdoado.

_ Laura me chamou de interesseira oportunista e eu disse que ela é uma estúpida que será infeliz para o resto da vida. Não são palavras fáceis de perdoar, para nenhuma das duas.

_ Mas não foi ela mesma quem te convidou?

_ Sim.

_ Mas convidou para esfregar na cara Guiga, a Adessa sabe disso. Não sabe amiga?

_ Sei sim Raquel! Não tenho dúvidas da falta de sinceridade dela ao me ligar. Laura precisa provar ao mundo que sabe o que está fazendo, então por que não convidar a amiga mentirosa e interesseira para ser uma das madrinhas? Não existe melhor maneira de me perdoar, com o complemento de mostrar à todos como confia no amado noivo.

_ Por falar em noivos.

Eu e a Laura eramos muito unidas, nosso grupo teve inicio com nossa amizade. Brigávamos sim, brigávamos muito, mas nunca foi nada sério, que durasse mais de um dia. Até pararmos de nos falar no aniversário dela do ano passado.

Durante a festa, o Vitor, na época namorado dela, tentou me beijar à força. Eu sou bem esquentadinha e esse sujeito não me descia fazia muito tempo. Estourei na hora dizendo boas verdades na cara dele, depois fui imediatamente contar à Laura. Ela ouviu tudo e depois foi embora, sem falar nada. Pensei que tinha ido terminar com o escroto, mas não. No dia seguinte foi até minha casa falar comigo.

“_ Você inventou aquela história para me fazer terminar com o Vitor e ficar com ele pra você. Eu deveria saber que você é uma vadia cretina!”

Discutimos muito naquele dia, foi horrível sim, mas não sei bem se me arrependo de tudo o que eu disse. Parece que a Laura retrocedeu, esqueceu tudo o que formava aquela personalidade linda que tinha. A mulher independente que conheci se deixou enterrar e não é mais a mesma pessoa.

Não sei se acredito nessa alegria que ela está mostrando durante o ensaio de casamento.

_ Oi Adessa.

_ Oi Laura.

 

Continua…

 

 

 

Outros textos que você pode adorar

Uma mulher – nada – de bem

Fim da linha

Atemporal

Rivalidade feminina Música

Rivalidade feminina na música pop: por quê?

Rivalidade feminina definitivamente é meu tema da vez. Já falei sobre ele nos meus dois últimos posts nesta coluna, que você pode ler aqui e aqui.

 

Disputas entre fanbases são o tipo de coisa que a gente até pensa que ficou lá em 2012, mas elas ainda são reais – e intensas. Um rápido passeio por portais do gênero pode chegar a ser assustador para os mais desavisados.

 

 

Fonte: @reasonyoutalita

 

Apesar de render piadas, o cenário de guerra, no entanto, denuncia algo extremamente grave: a mais pura misoginia. É verdade que no universo dos fandoms a rivalidade é bem comum, mesmo em assuntos que não envolvam, necessariamente, figuras femininas – vide disputas como Marvel x DC Comics, por exemplo.

Mas quando vamos para o campo das divas pop, a coisa fica muito mais séria. A rivalidade não só cria uma atmosfera hostil, como vira uma desculpa para serem destiladas ofensas machistas e ataques baixíssimos.

 

Rivalidade feminina - música
Alguns comentários coletados hoje em páginas do Facebook

 

O fato desse público ser composto principalmente por pessoas LGBT+ ainda reforça algo importante: gays também podem ser misóginos. Homens gays ainda são homens, e o fato deles sofrerem um tipo de opressão não apaga aquelas que eles venham a causar. Mulheres hétero sofrem machismo mas podem ser homofóbicas, não é? Opressões podem se complementar, mas não se anulam. E são justamente homens gays os que mais vemos perpetuando a rivalidade no universo da música pop.

 

O papel da mídia

Acontece que, como é falado diversas vezes no meio feminista, não é tão fácil resistir a uma opressão, muito menos a conceitos sociais que somos ensinadas a reproduzir. Em parte este é um dos motivos de existir sim rivalidade entre mulheres. E o ambiente competitivo – mercadologicamente falando – da música, com charts, premiações, e todo tipo de disputa do tipo “quem é melhor” apenas contribui para seu surgimento.

No entanto, mesmo quando a rivalidade simplesmente não existe, ela pode ser vista como extremamente lucrativa. A indústria musical faz rios de dinheiro com brigas reais, e disso é apenas um pulo para serem insinuadas em situações irreais. Afinal de contas, tudo é válido enquanto o dinheiro estiver entrando.

 

Money
Topa tudo por dinheiro

 

Tudo isso com aval – e incentivo – da mídia, que constrói narrativas inteiras ao redor dessas disputas, e do público, que compra um lado – mesmo nas situações onde não há lados a serem comprados. E isso se mostra também de forma sutil, não apenas com os ataques mostrados no início do texto, mas também com insinuações, alfinetadas e coisas do tipo.

Lutar contra a rivalidade feminina não necessariamente significa que não possam existir desavenças reais, muito menos que todas as mulheres devam passar pano umas para as outras. Existem sim ocasiões em que mulheres são nocivas e dignas de repreensão. E também não queremos culpabilizar mulheres que estão inseridas numa sociedade que as ensina a competirem entre si.

O que não pode acontecer é a naturalização desses discursos, especialmente quando isso significa inocentar os principais responsáveis pela sua manutenção. A crítica deve ser feita sempre ao sistema machista e suas consequências. E podemos sim apontar os problemas do comportamento de mulheres que reproduzem machismo, mas isso não é desculpa para julgá-las sem compreender o que há por trás disso.

 

Mas é só com as mulheres?

Como sempre, tudo fica mais gritante quando fazemos a comparação com o outro gênero. Na música, especificamente, além da competição entre homens não resultar em ataques direcionados ao sexo masculino e suas vidas pessoais, ela é definitivamente muito menos acirrada. Isso também em todas as esferas: indústria, mídia e público.

Fãs do Bruno Mars e do Drake não aproveitam toda matéria sobre eles para falarem mal um do outro, visando exaltar seus ídolos. Por que fãs da Lady Gaga e da Katy Perry precisam fazer o mesmo?

A coexistência entre homens talentosos e/ou que fazem sucesso parece ser algo completamente natural e aceitável. Mulheres, no entanto, só podem ser boas se forem melhores que as outras. E isso não é nada normal.

5 Produções que subvertem a rivalidade feminina

Há duas semanas, eu postei um texto sobre a falta de filmes, séries e etc sobre amizade feminina e o excesso de produções sobre rivalidade entre mulheres. Prometi que traria semana passada uma lista de obras que subvertem esse conceito machista, mas alguns contratempos me fizeram atrasar um pouco. Eu tardo, mas não falho, e aqui está ela!

Como recorte, trouxe produções que ou poderiam optar por seguir o caminho da rivalidade, mas não o fazem, ou que propositalmente trazem uma rivalidade e a abandonam (transformando-a em amizade, ou não). Apesar disso, sabemos que elas não são perfeitas e podem apresentar falhas (por exemplo, quanto à diversidade). Outro recorte: optei apenas por séries ou filmes dos quais nunca falei aqui no blog.

Apesar dos contras e da escassez de obras assim, é bom saber que ao menos temos opções. Vamos valorizar o que temos, e torcer para que haja cada mais espaço para essa subversão. Espero que gostem!

 

Meninas Malvadas

 

Meninas Malvadas

Sinopse: Cady Heron foi criada na África e educada em casa por seus pais biólogos. Sua família então se muda para os EUA, e ela precisa se inserir no Ensino Médio e se adaptar ao convívio social, já com 16 anos. Na nova escola, ela tem que lidar com as “panelinhas” e rivalidades estudantis, e ainda encarar as Plásticas, grupo de populares lideradas por Regina George.

Um clássico quando falamos desse assunto. A essência de Meninas Malvadas é exatamente a ideia de que mulheres não precisam ser rivais umas das outras. E o ato do final (não custa nada avisar: SPOILER), quando Cady quebra a coroa de rainha do baile e distribui para todas as meninas, é um símbolo e tanto disso.

 

Don't Trust The Bitch in Apartment 23

 

 

Don’t Trust The Bitch in Apartment 23

Sinopse: June é uma jovem do interior que se muda para Nova York em busca de um sonho. Certinha, com pouco trato social e (aparentemente) ingênua, ela vai morar com Chloe (a “Bitch” do título). Esta tenta aplicar em June o mesmo golpe que aplica às que vieram antes dela: infernizar sua vida ao ponto dela querer sair e deixar o dinheiro do adiantamento. Mas June se prova muito mais determinada que o esperado, não só vencendo Chloe em seu próprio jogo, mas também conquistando seu respeito e sua amizade.

Chloe e June são completos opostos. Logo no começo elas se encontram em uma situação de conflito, mas acabam se tornando amigas. Obviamente essa amizade não é perfeita (principalmente porque Chloe não se apega às pessoas). Mesmo assim, há um certo respeito por suas diferenças. Até há momentos em que uma tenta mudar a outra, mas isso serve apenas para elas aprenderem que essas divergências não precisam necessariamente atrapalhar a relação.

 

 

Legalmente Loira

Sinopse: Depois de ser dispensada pelo namorado, Warner, por ser superficial demais, Elle decide entrar no mesmo curso de Direito que ele, para provar sua inteligência. Vivian, nova namorada de seu ex, acaba se tornando sua rival também dentro do curso. Elle passa por vários obstáculos e enfrenta a descrença de muitos, mas acaba aprendendo que o curso pode ser mais que apenas uma forma de impressionar um homem.

Aqui temos a situação clássica da rivalidade feminina: a disputa por um homem. Mas esse filme, além de trazer a jornada de Elle enquanto descobre que não precisa impressionar homem nenhum (podendo ainda ser inteligente e gostar de coisas superficiais ao mesmo tempo), ainda desconstrói a rivalidade na raiz. (SPOILER) Quando Vivian descobre que Warner não era confiável, ela percebe também que não tinha motivos para perseguir Elle, e ainda aprende a respeitar sua personalidade.

 

Encantada

 

Encantada

Sinopse: A princesa Giselle é enfeitiçada para fora do reino de contos de fadas de Andalasia e vai parar em Manhattan, no mundo real. Lá ela conhece o advogado de divórcios Robert e sua filha Morgan. Enquanto Giselle descobre o novo mundo e enfrenta os perigos do seu próprio, ela e Robert começam a se envolver aos poucos.

Antes de conhecer Giselle, Robert era noivo de Nancy. A personagem poderia ser a figura típica da megera de comédias românticas. Aquela que geralmente aterroriza o/a(s) filho/a(s) do protagonista masculino, não aceita o término do relacionamento e ainda serve de contraponto para a “perfeição” da mocinha. Isso não acontece aqui. Nancy não chega a se tornar amiga de Giselle, mas elas nunca chegam a ser rivais. (SPOILER vai que, né) E ao término do relacionamento, quando Giselle obviamente acaba ficando com Robert, Nancy ainda tem um final feliz ao lado do príncipe Edward, pretendente anterior da princesa. Para esse filme ficar ainda melhor, só se a figura da bruxa malvada fosse trocada por um vilão.

 

Grande Menina, Pequena Mulher

 

Grande Menina, Pequena Mulher

Sinopse: Molly é uma jovem mimada que nunca precisou trabalhar, vivendo da fortuna deixada por seu falecido pai, um famoso astro do Rock. No entanto, ela é roubada por seu contador, sendo obrigada a arrumar um emprego. Molly acaba então como babá da pequena Ray, uma precoce menina de 8 anos.

A maturidade que falta a Molly, mesmo já passando da hora, mais que sobra a Ray. As duas vivem em pé de guerra em boa parte do filme por isso. Com o tempo, Molly vai aprendendo ao lado de Ray a ser mais madura, ao mesmo tempo em que conquista seu respeito e entende melhor seu comportamento. A amizade que as duas cultivam ainda é um exemplo de respeito acima da divergência etária.

Bônus:

É bônus, então posso trazer item repetido de outro post (já falei desse jogo aqui).

 

 

Life is Strange

Sinopse: Life is Strange conta a história de Max, uma estudante de fotografia que presencia o assassinato de uma jovem e ao impedi-lo, descobre ter o poder de voltar no tempo. Os primeiros momentos do jogo mostram um sonho de Max (que mais tarde se revela como um presságio) em que uma enorme tempestade ameaça Arcadia Bay, a cidade fictícia onde se passa a história, levando a garota a tentar salvá-la.

O jogo é definido pelas escolhas do jogador. Além da trama principal, várias subtramas e aspectos da história podem mudar de acordo com as ações da protagonista. (SPOILER) Entre elas, sua relação com os personagens, como Victoria Chase. Logo no começo do jogo ela é a jovem rica e popular, rival de Max. Entretanto, dependendo das suas escolhas ao longo da história (como apoiar ou zombar de Victoria em algum momento), essa rivalidade pode ser deixada de lado.

É uma forma interessante de observar como a rivalidade não é necessariamente algo inevitável na convivência feminina, e o quanto nossas próprias escolhas (na vida real) podem influenciar na sua manutenção ou subversão.

Gostaram da lista? Têm mais sugestões? Deixem nos comentários!

Por que é mais fácil achar produções sobre rivalidade do que sobre amizade feminina?

 

A ideia de que mulheres são rivais por natureza é um dos conceitos machistas mais sutis entre os que encaramos no dia a dia. Ele parece inofensivo, mas quando paramos para pensar melhor sobre isso vemos que não é.

Uma das formas de chegar a essa constatação é pensando no poder que a união e a amizade feminina podem ter. A forma como a naturalização da rivalidade feminina sabota a criação desses laços é apenas um dos problemas, sobre o qual a Jade já falou nesse post aqui.

Na cultura pop, essa ideia é presente em músicas, filmes, séries, animações, novelas, livros e até em narrativas da imprensa… É extremamente fácil encontrar produções que se sustentem nela ou a reforcem. O oposto, nem tanto.

 

Bad Blood
Imagem do clipe da música Bad Blood, da Taylor Swift (reprodução/internet)

 

É até grave pensar que, enquanto histórias sobre amizades masculinas são muito populares e até consagradas como clássicos, relatos sobre união entre mulheres são bem menos comuns.

Sim, também há grandes histórias sobre inimigos masculinos. Mas é importante lembrar que há diferenças não tão sutis assim no tratamento da rivalidade masculina e da feminina. Enquanto a primeira é pautada geralmente em motivos ideológicos ou de poder, a segunda costuma ser jogada como inevitável ou motivada por interesses românticos.

Isso faz com que seja muito importante a valorização de produções sobre amizade e/ou união feminina. Algumas delas, como já mencionado, são fortes exemplos do que mulheres juntas podem fazer.

 

Mad Max
Mad Max: Estrada de Fúria (imagem: reprodução)

 

Outras, não tão pretensiosas, ao menos servem para mostrar que nada se compara a ter uma amiga mulher. Elas nos entendem em nossos conflitos e necessidades, ao mesmo tempo que podem apresentar vivências completamente diferentes das nossas.

 

Quatro Amigas e um Jeans Viajante
Quatro Amigas e um Jeans Viajante (imagem: reprodução)

 

Há ainda as produções que fazem uma completa (ou ao menos parcial) desconstrução da rivalidade feminina, sobre as quais trarei uma lista no meu próximo post. São histórias que em um primeiro momento parecem se render ao conceito machista, mas que em algum ponto o desconstroem e passam uma mensagem oposta.

 

Meninas Malvadas
Meninas Malvadas (imagem: reprodução/internet)

 

Em resumo, os meios de comunicação e a arte podem sempre ser ferramentas para reforçar ou reverter elementos machistas. Com a rivalidade feminina não é diferente. Quando escolhemos valorizar a desconstrução dela estamos, ao mesmo tempo, abrindo nossos próprios olhos para a importância da amizade feminina, e preparando o terreno para que mais mulheres enxerguem o mesmo.

Edit: não vou deixar uma resposta explícita à pergunta do título (apesar de ter algumas opiniões. Spoiler: todas envolvem machismo). Prefiro deixar em aberto, para promover a reflexão. E você, o que acha?

 

Desculpa, mas é um simples desabafo.

Hoje cheguei em minha cidade natal para matar a saudade que sinto da minha família. Sempre que vou visitá-los acabo saindo para passear  com alguém, e dessa vez não foi diferente, sai com minha vozinha e uma de minhas primas.

Entre uma sessão e outra do supermercado, o assunto que surgiu foi o casamento da minha tia, que está muito próximo, e a necessidade de encontrar uma roupa que esconda todas as nossas gorduras. Nossa família só tem gordas e a preocupação em se boicotar é constante, principalmente com minhas primas adolescentes. Percebi como a festa do casamento aumentou ainda mais a gordofobia existente entre elas, “não tem vestido bonito para mim”, “nenhuma blusa vai esconder que sou gorda”, “vou de calça, para apertar minha barriga”.

Como é difícil ver como elas se menosprezam apenas para agradar toda uma sociedade que não as quer bonitas, mas sim padronizadas e adestradas.

Em uma das lojas em que estivemos paramos para escolher biquínis (o casamento será em um sítio com piscina), aí sim foi um menosprezo total. Não é fácil transmitir amor próprio, na verdade isso é impossível, não podemos transferir. Porém, a desconstrução que eu tenho cada dia mais não as alcança da mesma forma.

Estar de acordo com o que os outros querem é prioridade, cabelo liso e longo, corpo sarado, roupas da moda. Não conseguimos ser nós mesmos no dia a dia, imagina em uma festa de casamento? Onde tudo é  milimetricamente criticado.

Isso foi mais um desabafo eu acho, bem diferente dos textos que procuramos oferecer à vocês. Desculpe por isso, é que me canso do mal que provocam em mim e em todas as mulheres do mundo.

Você não é obrigada a ter sororidade, mas também não nasceu desconstruída

A sororidade é uma das coisas mais complicadas no feminismo. Eu falo “complicada” tanto no sentido de dificuldade, quando de complexidade. A maioria de nós, quando decide exercer a sororidade, acaba sendo testada e desafiada de inúmeras formas.

Eu já tive (e tenho ainda) momentos em que quis mandar a sororidade pro quinto dos infernos e ser grosseira com alguma mulher. E sei que muitas passam pelo mesmo que eu. Nossa paciência é pequena, e a tentação de rachar mina às vezes é grande. A gente passa tanta raiva e já levamos tanta porrada nessa vida, que acabamos ficando na defensiva – ou no ataque, mesmo –, até com outras mulheres.

Além disso, é bem problemático cobrar sororidade de quem é mais oprimida que a gente. A mina que foi estuprada NÃO é obrigada a ser didática ou a “pagar com amor” quando diminuem a dor pela qual ela passou. A negra NÃO é obrigada a ver como irmã a branca que a oprime – direta ou indiretamente. A gorda NÃO é obrigada a ter paciência com a mulher que reclama de “magrofobia”

Sororidade é uma coisa linda, mas não podemos exigir que você tenha com quem te oprime. Só parar para pensar em como o discurso “mas somos todas mulheres!” se assemelha à fala masculina “somos todos seres humanos”. Sim, é absurdo.

“Mana, sou magra mas também sofro, vamos todas lutar juntazzzzzzzzzz” (reprodução/internet)

Aqui eu quero lembrar de que nós (e acredito que todas nós) já estivemos no papel dessa mulher. Sabemos bem que ainda são raras as pessoas nascidas em lares feministas (talvez na próxima geração isso mude), e que portanto quase todas as que estão hoje na luta trilharam um caminho até ela.Em contrapartida, nós temos que tomar muito cuidado para não cairmos na armadilha de deixar o sangue ferver demais e acabar criando rivalidade com as mulheres que ainda não são desconstruídas. Não vou nem entrar no mérito da tecla sempre batida quando é esse assunto (de que assim estamos afastando mulheres da luta).

Não estou dizendo que o fato de já termos feito bobagens na vida anule os erros das outras pessoas. Se nós mudamos, é porque reprovamos as atitudes do nosso passado, afinal de contas. Não, não precisamos passar a mão na cabeça de ninguém.

O que estou falando é que muitas vezes nossa gana de berrar aos quatro ventos a nossa militância pode nos colocar num pedestal que não existe. Ser feminista não é suficiente para que você seja uma pessoa melhor: isso é exercício.  E ser uma pessoa melhor definitivamente não é a mesma coisa que se sentir superior.

Sororidade em ação (gif meio fora de contexto, sim). Imagem: reprodução/internet

Se somos empoderadas e feministas, é porque tivemos oportunidade para sê-lo. E se isso não é um privilégio, sinceramente, eu não sei mais o que pode ser. Por isso eu sempre tento pensar duas vezes antes de rachar mina, já que na minha condição de classe média, graduada e com pleno acesso (e filtro) à internet, seria extremamente elitista da minha parte fazê-lo apenas porque eu posso.Além de tudo isso, temos que medir nossas palavras em especial porque muitas vezes não enxergamos nossos próprios privilégios. E ser feminista pode ser considerado um deles sim. Não é apenas uma escolha, uma vez que existem mulheres inseridas em ambientes com pouca informação, ou que minam suas autoestimas, ou nos quais simplesmente aprenderam que a opressão que sofrem é correta.

Mais uma vez, ninguém está falando que devemos passar a mão na cabeça de todas as mulheres do mundo e que seremos condenadas eternamente por perdermos a cabeça com alguma delas. Mas o mínimo que podemos fazer é nos esforçarmos para não usar nosso feminismo para oprimir nossas irmãs, já que é exatamente o oposto que procuramos.

sororidade
“Pra mim já chega. Pra mim definitivamente já chega” (tradução livre). Sugestão pra quando começar a perder a paciência e perceber que vai começar a rachar mina: simplesmente sair da discussão. (Imagem: reprodução/internet)

Pela eterna união do #movimentovamosjuntas

Imagem: Vamos Juntas?

Na próxima vez que estiver em uma situação de risco, observe: do seu lado pode estar outra mulher passando pela mesma insegurança. Que tal irem juntas?

Vamos juntas?

 

Hoje eu quero realizar um post sobre uma das idéias mais incríveis desse mundo: o movimento Vamos Juntas?.
Moro em uma cidade do interior, e sempre que saio do trabalho tenho uma reta para atravessar até chegar à minha casa. Essa reta está quase sempre deserta e o fato da minha cidade ser pequena não diminui muito o meu medo. Já tive cães andando atrás de mim, o que me deixou assustada, assim como já tive bêbados me chamando, pedindo para que eu esperasse porque queria conversar comigo.
Hoje novamente ouvi passos atrás de mim, mas dessa vez eram de uma moça que estava saindo da escola noturna. Isso me deixou mais tranquila. Olhei para ela e perguntei se poderia pegar carona em sua companhia, ela logo me deu um sorriso e disse estar justamente tentando me alcançar.
Falei pra ela que essa nossa atitude de querer andar uma ao lado da outra só fortalece o movimento Vamos Juntas?,  foi quando ela me perguntou que movimento era essa do qual eu falava. E é nesse ponto que eu quero chegar, nem todas as mulheres conhecem esse projeto e ainda tem várias que a considera uma perda de tempo.
 
Portanto, resolvi explicar para minha parceira da reta deserta e a todas as mais que se mostram interessadas/necessitadas do que é que eu estou falando.
 
Imagem: Vamos Juntas?
   
Vamos Juntas? É um movimento criado pela jornalista Babi Souza no ano de 2015. A Babi apenas publicou no seu perfil pessoal do Facebook a ideia de que as mulheres não precisam andar sozinhas pela rua, é muito melhoror se unir para atravessar uma praça deserta. Como a própria criadora do movimento diz, só as mulheres entendem o medo que as outras mulheres sentem ao andar por aí.
 
Cada vez mais mulheres compartilham na pagina oficial do movimento como suas vidas foram modificadas ao se unirem umas as outras e ajudam no crescimento desse projeto.
 
O movimento se mostra tão importante na união feminina que possui grande força na sororidade. Não é apenas andarmos juntas nas ruas e depois dizer adeus, é ESTARMOS JUNTAS. União total na luta pela igualdade, segurança e valorização da mulher.
 
O movimento já possui mais de 340 mil seguidoras, e cresce cada dia mais. Já até temos um livro que a babi escreveu, é o “Vamos juntas? O Guia da sororidade para todas”.
Entende qual o real valor disso tudo? Você não está sozinha, todas temos medo. Só que todas temos a força para nos unir e nos defender, só precisamos aumentar a corrente para ver isso acontecendo.
 
Depois de hoje, sei que minha parceira da reta deserta passou a ser mais uma com a qual sei que poderei contar quando estiver com medo de seguir meu caminho para casa.

Glossário feminista

Minhas flores e meus espinhos, a alguns dias eu estava participando de uma conversa sobre as diversas formas usadas por machista para atacar as mulheres. O assunto estava tomando um caminho legal, repleto de bons argumentos e tal, até que a palavra misógino foi incluída em um dos comentários, pois logo em seguida uma garota que participava da conversa perguntou: “O que é isso?”.
Eu levei um susto quando percebi a duvida dela, porque ela se declarava feminista com veemência, mas ficou claro que ela não sabia exatamente a abrangência dessa luta.
OBVIO que ninguém tem a obrigação de saber de tudo, mas para opinar sobre determinado assunto é necessário, primeiramente,  possuir um conhecimento prévio do mesmo. E é por isso que estou aqui hoje.
Está surgindo aqui no blog a coluna ‘Entendendo o feminismo’, e vamos inicia-la com um glossário para as leigas e leigos no assunto, um dicionário completo (o mais completo possível) para quem tem alguma duvida sobre esse universo ou quer dar o primeiro passo para se tornar uma miga emponderada.
Vamos lá?
FEMINISMO: é um movimento social, filosófico e político que tem como objetivo direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores patriarcais, baseados em normas de gênero.
MISANDRIA: é o ódio, aversão, preconceito ou desprezo a pessoas do sexo masculino.
MISOGINIA: ódio ou aversão às mulheres.
SEXISMO: se refere à discriminações sexuais e conjuntos de idéias ou ações que privilegiam um indivíduo de determinado sexo (gênero ou orientação sexual).
FILANDRIA: admiração ou amor pelo sexo masculino. Paixão por homens e carinho especial pelo sexo masculino. Gostar de estar na companhia masculina, achar belo o corpo do homem, assim como todo o universo masculino.
SORORIDADE: união poderosa e transformadora entre mulheres, que visa romper com o estigma de rivalidade. A sororidade é importante para fortalecer a ação coletiva do movimento feminista.
EMPODERAMENTO: (conscientização) é um processo de aquisição de ferramentas para combater nossas opressões. É quando nos tornamos mais fortes para desconstruir os papéis que nos impõem e para lutar por equidade.
MACHISMO: é o comportamento, expresso por opiniões e atitudes, de um indivíduo que recusa a igualdade de direitos e deveres entre os gêneros sexuais, favorecendo e enaltecendo o sexo masculino sobre o feminino. Tipo de opressão que a sociedade patriarcal produz contra mulheres. Ele se expressa de diversas formas, das mais evidentes até as mais sutis.
PATRIARCADO: Sistema social baseado no controle dos machos sobre as fêmeas, em que estes ocupam uma posição central. O patriarcado é o sistema no qual o machismo se baseia – é sob ele que se conformaram historicamente os privilégios da classe masculina em relação à classe de mulheres.

FEMINISMO RADICAL (radfem): é uma perspectiva dentro do feminismo que exige um reordenamento radical da sociedade em que a supremacia masculina é eliminada em todos os contextos sociais e econômicos. As feministas radicais procuram abolir o patriarcado, papéis tradicionais de gênero e  acreditam em um comportamento de gênero condicionado.

FEMINISMO INTERSECCIONAL: defende a intersecção entre diversas opressões: de gênero, raça e classe social.
EQUIDADE: igualdade, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos.
MANSPLAINING: o termo, que vem do inglês, quer dizer algo como “explicação masculina”. Você logo vai se lembrar de algum exemplo de um conhecido seu, homem, tentando te explicar um assunto que você provavelmente domina mais que ele.
MANTERRUPTING: do inglês “interrupção masculina”, é quando um homem constantemente interrompe uma mulher falando.
GASLIGHTING: que é quando uma pessoa tenta te convencer de que você está louca, paranoica e, com isso, invalidar seus sentimentos. O gaslighting está geralmente associado ao relacionamento abusivo, sendo utilizado pelo parceiro para o controle da mulher.
SLUTSHAMING: quando julgamos uma mulher por ter comportamentos “de vadia”, o que quer que isso signifique. Basicamente, é quando se repudia uma mulher por dispor de sua sexualidade e de seu corpo livremente.

TOKEN: tokenizar é quando uma pessoa, acusada de alguma opressão, já vem com a resposta pronta “Mas eu até tenho amigos que são…”, como uma tentativa de invalidar a crítica que está recebendo.

SILENCIAMENTO: no contexto feminista, é o apagamento da voz das mulheres, através de diversos artifícios, como descreditar suas opiniões ou mesmo através de violência.

REPRESENTATIVIDADE: ato de representar uma minoria e trazer à ela força e formas de seguir com a sua luta.

PROTAGONISMO: relaciona-se à ideia de que a principal voz dentro do feminismo deve ser daquelas a quem ele mais atende, ou seja, as mulheres.

TERF: sigla para “Trans Exclusionary Radical Feminists” (inglês para “Feministas Radicais Trans-Excludentes”). O que isso significa? A ênfase é na exclusão – um ato intencional – e a implicação é que isso é baseado em preconceito e na discriminação propositada.

FEMINISMO LIBERAL (libfem): possui foco na livre iniciativa, que é individual. Para o feminismo liberal, portanto, agimos de acordo com o livre-arbítrio. Exemplos da ideologia das libfem: quando a mulher “consente” não há estupro, quando a mulher intervém no próprio corpo aproximando-o do padrão de beleza hegemônico ela está exercendo liberdade de escolha sobre si.

Ufa! É muita coisa não é? Mas ainda não acabou, nos próximos posts iremos nos aprofundar mais nesses termos para que possamos entende-los melhor. Faremos postagens específicas sobre cada vertente do feminismo e sobre como podemos ser atingidas direta e indiretamente por tudo isso.
Ficou com dúvida sobre alguma coisa ou percebeu que me esqueci de algo? Então deixa nos comentários, assim você ajudara a elevar cada vez mais os nossos conhecimentos.
Beijos e até a próxima.

Carta a mim mesma, quatro anos atrás

Você ainda não me conhece. Essa versão de você, a quem esta carta se dirige, ainda não tem a menor ideia do que é ser quem eu sou. As únicas verdades que você conhece são as que já vivenciou, por isso eu compreendo se você não conseguir aceitar minha carta ainda. Mas eu preciso te avisar: um dia, em outra fase da sua vida, haverá uma outra “você” que compreenderá cada palavra que eu escrevo aqui. No momento, o que quero não é que concorde comigo, nem que sinta empatia por mim. Só o que eu quero é que você saiba que eu te entendo.
 
Entendo quando você se olha no espelho e se acha desinteressante. Não, você não é. Mas eu sei que você aprendeu a acreditar que essa é a verdade. Te ensinaram isso. E certas coisas, por termos aprendido de uma forma tão aguda, para nós parecem naturais e corretas. Mesmo que elas não sejam, de forma alguma.
 
Também entendo a forma como você vê o mundo e as pessoas. Sua dificuldade de identificação com algumas coisas e os ideais que você formou ao redor disso. Sei que ainda é difícil para você abraçar as irmãs que agem e pensam de um jeito diferente do seu. Você ainda não vivenciou a sororidade*, por isso eu sei que você pode não ser ainda capaz de empregá-la.
 
E, acima de tudo, entendo que você não me entenda. Porque eu sei que não foi por mágica que você chegou ao ponto em que está agora, então também não será assim que sairá dele. Tudo ao seu redor construiu sua mente agora, assim como construiu a mente de muitas das nossas irmãs. Eu as entendo.
 
E justamente por entender tudo isso eu estou aqui, te dando hoje o abraço que ninguém te deu ainda. Não, não é um abraço de autocompaixão, mas de pura e sincera compreensão. Pode parecer inútil fazê-lo agora que você não existe mais (a não ser na memória do que eu fui um dia). Mas, simbolicamente, eu quero que esse abraço se estenda além de você.
 
Quero que ele chegue a cada uma das meninas que ainda são como eu era quatro anos atrás. Meninas que ainda não receberam esse apoio de uma irmã. E que elas saibam que eu as entendo. E quero que, um dia, elas também possam escrever esta mesma carta a uma versão passada de si mesmas. Porque seguir em frente é aceitar o que já fomos.
Assinado: Você, sabe.
 

*Sororidade: sentimento de amor e união entre mulheres, formando uma grande irmandade feminina.