Corpo infinito

Meu bem, quero te mostrar uma coisa:

Meu corpo.

Vem que eu te deixo tocar cada dobra, passar seus dedos em cada curva, volume, cada linha que me desenha. Eu te quero é me desenhando com suas mãos, sentindo minha pele arrepiar com seu toque. Te deixo apertar minha bunda com toda força, mas tem que mostrar que gosta, que minha bunda é gostosa desse jeito mesmo. Te deixo morder minhas coxas grossas e depois ir subindo aos poucos, me deixando tensa de tesão, dentro de mim. Eu tenho lábios lindos – em cima e embaixo, externo e interno. São carnudos, macios e ultra sensíveis. Se você quiser, te deixo fazer um estrago com eles, você vai ficar louco. Nego, quero sentir seu corpo quente ao meu, pele com pele, mão com mão, peito com peito, órgão com órgão. Entra e sai, entra e fica, sai e volta. Fundo. Profundo.

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Essa beleza de corpo

Projetos fotográficos exaltam a diversidade do corpo feminino

 

Ocupa Corpos – Foto: Thais Carletti

 

 

– Você ama o seu corpo do jeito que ele é?

 

Começar a matéria com uma pergunta dessas não tem como intenção te afastar das linhas a seguir. Na verdade, é um questionamento, que essa autora sempre procurou fazer e percebeu que todas as respostas, suas e de algumas amigas, são negativas. As imperfeições estão lá e sempre são apontadas. Estria, celulite, espinha, assimetria, gorduras localizadas, coxas finas ou grossas demais, pouca cintura, braço largo, pouca bunda, muito seio – nada belo o bastante para se admirar.

Mas se são as imperfeições que nos definem, deveríamos nos enxergar naturalmente belas. Afinal, não há perfeição. “O que a mídia impõe para a gente são corpos esculturais de revistas. O padrão é absurdo, impossível de alcançar, até por que essas imagens vinculadas não são corpos reais de mulheres, mas sim vítimas de um tratamento de imagem irreal”, afirma a fotógrafa Thais Carletti.

Foi através desse questionamento, sobre objetificação da mulher e os casos de revenge porn, que Thais criou, em 2015, o projeto fotográfico Ocupa Corpos. Com a proposta de valorizar e refletir sobre a libertação sexual e corporal, a fotógrafa produz ensaios nus de mulheres das mais diversas imperfeições. Não há correção ou camuflagem. É o corpo ocupando seu espaço, a mulher presente como ela é.

Outro que surgiu no mesmo ano com a proposta de libertação do corpo feminino, também em Vitória (ES), é o Corpos Libres, da curitibana Juliana Guariza. Na época em que fixou residência na capital capixaba, Juliana criou o projeto inspirada em suas amigas locais – uma delas, inclusive, a própria Thais Carletti –, voltado para esse outro olhar mais generoso com o próprio corpo. “Minhas amigas realmente transformaram minha ideia do que é ser mulher em sociedade. Além delas genuinamente se apoiarem entre si, elas não pediam desculpas por serem o que elas são. Elas não se encaixam em padrões e lutam pelo direito de ser o que elas quiserem ser. Para mim essa autenticidade é inspiradora”, reflete.

 

 

Libertar-se
A naturalidade e o conforto da modelo são prioridade para ambas fotógrafas. Juliana busca ambientes acolhedores e externos, onde a luz natural seja trabalhada – “acho que combina com essa natureza selvagem da mulher”. A espontaneidade e a identificação com o espaço também importam no momento do ensaio, “para se sentir confortável com as fotos e mais importante consigo mesmas. É uma espécie de conversa com o próprio corpo, e o que eu faço é registrar essa conversa”, explica Thais Carletti.

 

 

 

Nos ensaios, vemos mulheres de todas as formas, tamanhos e perfis. Não há padrão e nem restrição, apenas o libertar-se. De tantas belezas femininas que suas lentes registraram, as fotógrafas não carregam apenas a experiência profissional, mas também subjetiva, de mulher para mulher, Afinal, conforme colocado nas primeiras linhas dessa matéria, amar nosso corpo do jeito que ele é não é uma realidade majoritária. Mas o que é a beleza feminina?

“Autenticidade. Estar confortável na própria pele. E todas as pequenas peculiaridades do corpo de cada uma que as fazem únicas. Eu percebo que essas mulheres que fotografei têm tem muita vontade de abraçar e amar suas imperfeições. São elas que as fazem únicas. Falo também por mim mesma, eu precisei me libertar de muitas questões que eu tinha com meu corpo para ter mais sensibilidade para fazer esses retratos“, conta Juliana Guariza.

“Todas as vezes que eu fotografo eu aprendo principalmente a me relacionar melhor com meu próprio corpo. A gente precisa se amar muito e sempre, e com todas essas mulheres eu repenso que tipo de relação eu tenho comigo mesma. E o objetivo do projeto é criar essa discussão: é preciso falar de nudez, é preciso falar de feminismo, é preciso naturalizar e amar os corpos”, Thais Carletti. Amar os corpos. Amar nosso corpo. Amar-se. Uma atividade tão complexa que requer exercícios diários. Uma vez que que você se liberta, no entanto, você enxerga. É uma beleza de corpo. E é só seu.

Ocupa Corpos e Corpos Libres são projetos autorais que seguem em atividade no ano de 2017. Visite a página de cada e conheça mais:

Ocupa Corpos
Instagram: @ocupacorpos
https://ocupacorpos.wordpress.com/

Corpos Libres
Facebook / Instagram: @corposlibres
https://corposlibres.tumblr.com/

 

 

Vamos falar de sexo mesmo? – por Ana Clara Squilanti

Reprodução/Internet

Que a descoberta pela sexualidade começa na infância, todo mundo sabe. Uma das histórias mais pitorescas que eu conheço é de um grupo de amigas que eventualmente se reuniam no sábado à noite, para jogar baralho e assistir pornô. Na verdade o truco, o buraco e o tapão eram o energético que havia na época para mantê-las acordadas até às 02h da manhã, quando começava o Cine Privê na Bandeirantes. Sim, com 12, 13 anos meninas assistiam Emanuelle no Espaço. E sabe quando foi rolar as discussões sobre erotismo e excitação? Anos depois, já adultas. À adolescência coube um enorme hiato sobre o tema. O engraçado é que ficavam excitadas mas não compreendiam, e ninguém nunca se colocou a entender também, pelo menos não naquela época.
Lembro das primeiras tentativas vitoriosas que tive me masturbando, e de, logo após atingir o orgasmo, ter sentido uma pontinha de dolo, vergonha. Eu, sozinha na escuridão do meu quarto, estava me sentindo culpada por ter gozado. Por mais que eu tenha parado a minha relação com a igreja na catequese, esse comportamento reflete o quanto o pensamento cristão ainda está incutido em nós, afinal, foi com ele que surgiu a ideia de que o sexo só deveria ser feito para a procriação, e que logo culminou na troca do prazer por medo, censura e culpa. Acredito ser essa culpa o nutrimento da falta de diálogo sobre prazer, e consequentemente da falta dele .Fui compartilhar essas experiências bem mais tarde, já madura. 
Conversas sobre sexo acontecem sim, claro, em qualquer roda de amigas, mas comecei a analisá-las mais minunciosamente recentemente. “E aí, rolou?”, “Sim!”, “Foi bom?”, “Foi legal”.“Você gozou?”, foi perguntado vez ou outra, e, sinceramente, nas poucas vezes em que a palavra gozo foi pronunciada, consecutivamente foi acompanhada de um olhar ou uma palavra repressora. “Você se masturba?” tem às vezes igual impacto. Meio estranho isso, ser liberado falar sobre o tamanho do membro do companheiro, motel e lingerie, mas ser tabu falar sobre tesão e orgasmo.O diálogo se sucede sim, entre algumas, mas raramente é algo discutido confortavelmente numa mesa de bar.O pior é que eu sinto que isso não é por mal, talvez seja algo até inconsciente. A sexualidade da mulher é tão reprimida que chega a ser obsceno assumir ela. A mulher tem que ser sexy, mas sexual, só entre quatro paredes e com o companheiro, se não soa feio, vulgar. 
Mais do que ser vergonhoso falar que você tem satisfação na cama, é assumir que você não tem. Parece que isso te faz menos mulher. E foi assim, timidamente, após inúmeros anos de amizade e mais anos ainda de vida sexual ativa, que uma amiga me contou que achava nunca ter tido um orgasmo. Achava, ou seja, nunca teve mesmo. Sei que ela ficou envergonhada ao falar isso, e eu em contrapartida fiquei muito triste. Triste por ela nunca ter experienciado isso, triste pelas relações que ela já teve, pela apatia dos homens com quem ela já se deitou por não se sensibilizarem com isso. Triste por mim e por todas as mulheres que já permanecemos com tesão após o companheiro desmontar em êxtase para o lado, triste por saber que algumas de nós não nos tocamos e não sabemos do que gostamos, por todas nós que não compartilhamos isso e que, infelizmente, ainda vemos isso como normal. Triste, ainda mais, por saber que esse tipo de situação é constante. 
Não vou entrar no mérito da questão do sexo ser feito, no mínimo, a dois, e de que se espera que os dois se satisfaçam com ele, mas sim no fato de nós, mulheres, ainda não conversamos sobre isso. Não na intensidade que deveríamos. Se a problematização é lenta, a busca pela solução também é. Nós não vamos buscar prazer na cama, nem desfrutar dele, se não começarmos a ver a sua falta como um dilema. 

Ana Clara Squilanti, cis, branca, (meio) hétero e há 27 anos em constante desconstrução. 

Gosto de dar ao meu violeta mais violência – Por Carlar

Reprodução/Internet

Eu sentia suas mãos percorrendo todo o meu corpo, eu estava em transe, seus beijos eram quentes e intensos. eu sentia, era intenso, as luzes estavam mais evidentes.. e seu rosto, seu rosto era a coisa mais linda que eu já havia visto. 

03:57 da manhã – Festa no meio do nada
 Descemos do carro dele, estava frio, eu vestia um vestido vinho, meias oito quartos, ele, uma calça jeans qualquer, uma camiseta vermelha e uma jaqueta com capuz, estava lindo.. do jeito que gosto, tinha uma barba e bigode garboso, seu nome era Bruno. Íamos em direção a festa, a música era boa, as pessoas eram bonitas, o clima estava ótimo, ele segurava minha cintura enquanto entravamos na festa, passamos por algumas pessoas se beijando perto dá entrada, era quente lá dentro, as luzes eram fortes, tinha um forte cheiro de maconha, muitas bebidas e algumas balas.
 Fomos direto ao bar, pra esquentar logo de cara a noite, eu peguei um whisky, ele, uma cerveja, nos olhávamos enquanto bebíamos, a música era muito alta, mal dava para conversar… Terminamos as bebidas, levantei da cadeira e fui dançar, ele me olhava com um olhar penetrante, como se desejasse meu corpo nu em cima do dele, estava meio alta pelo whisky, mas ainda sim estava encantada por aquele rapaz… Várias músicas tocando, muitas pessoas dançando, mas os nossos olhares não se perdiam, ele estava sentando tomando mais algumas bebidas, mas seus olhos não saiam de mim, dos meus quadris balançando pra lá e pra cá, eu estava dançando pra ele, só pra ele, eu sorria, ele sorria de volta enquanto enrolava as pontas de seu bigode. Eu já estava dançando a muito tempo, mas meu corpo não se cansava, eu tocava meu corpo me insinuando para ele, e eu percebia, seu olhar sobre mim, não pôde evitar mais que isso, ele se levantou e veio em minha direção, não olhava para ninguém, passou por todo mundo até encontrar meu corpo quente e suado em meio a multidão.
 Outra música começava, a batida dela era estonteante, estávamos nos beijando em meio a pista de dança, nada mais importava ali, seu bigode passava pelo meu pescoço me deixando alucinada, em resposta eu arranhava e apertava suas costas, paramos de nos beijar, ele olhou para mim e sorriu, estava com duas balas na mão, não falou nada.. mas seu olhar disse tudo, de imediato tomei a bala, e ele também, pegamos algum drink, bebemos e voltamos para o canto da pista, a mesma música se repetia e ela já estava fazendo minha cabeça, aquilo era incrível, seu rosto era lindo, eu não me cansava daquilo, nos beijávamos, nos beijávamos muito, senti que o efeito da bala estava batendo, aquela não seria a primeira vez que eu tivera tomado, mas com toda certeza seria a vez mais inesquecível, me virei de costas para ele, ele segurou minha cintura, eu dançava pra ele, rebolava com suas mãos na minha cintura, ele beijava meu pescoço, a música ficava mais rápida e mais alta, eu já estava louca, sua boca mais quente beijando meu pescoço por trás, suas mãos desciam até as minhas coxas, apertando com força, eu sorria, não estávamos mais ligando para nosso meio, o tesão já era notável, precisávamos sair dali…
 Ele segurava minhã mão me puxando pelo meio de todas aquelas pessoas, pelo efeito da bala eu enxergava todos meio embaçados e lentos, somente eu e ele estávamos em movimento,ele sorria muito pra mim, eu também sorria, mordendo o canto dos lábios, eu já sabia o que me esperava, meu corpo estava implorando por ele, estava implorando para senti-lo dentro de mim, era o que eu queria, era o que precisávamos.. Saímos da festa, parecia ser cedo, quase 5 da manhã, as luzes da festa ainda brilhavam muito do lado de fora, a música estava abafada, porém ainda alta, me agarrou pela cintura e me beijou, me contou o que iriamos fazer, eu estava delirando com aquilo!, então sai depressa na frente dele, dançando, sorrindo, me virando de costas para vê-lo, ele estava com o capuz, ascendendo seu beck, lindo, excitante e explodindo de tesão. 
Chegamos ao seu carro, antes de entrar eu me deitei de costas sobre o capô, tudo estava mais lento que o normal, mas ele me tocava e era como se tocasse a alma, eu senti tudo a mais, era intenso, eu estava sensível, era violento com seus tapas na minha bunda, era incrível! ele beijava minhas pernas e eu me sentia no céu, bem, eu estava diante dele e as estrelas eram como pisca-piscas incandescentes.. Ele olhava todo o meu corpo, apreciava cada canto, era indecente, era vulgar. Me virou de frente e subiu pelas minhas pernas beijando os meus peitos, eu arranhava suas costas por debaixo da camiseta e o fiz tirar, passei minha mão arranhado por toda sua barriga e sua tatuagem no peito, as luzes das estrelas só refletiam seu corpo sobre o meu.. tirei meu vestido, puxei ele para cima e o beijei.. beijei seu pescoço, beijei sua boca.. Ele me olhava nos olhos e eu sorria, senti suas mãos passando entre minhas pernas, enquanto minhas mãos passeavam por suas costas, eu estava molhada, gemendo, implorando por ele.. E ele percebeu isso… 
05:03 Da manhã – Estacionamento 
Eu sentia suas mãos percorrendo todo o meu corpo, eu estava em transe, seus beijos eram quentes e intensos eu sentia, era muito intenso, as luzes estavam mais evidentes, tinha hematomas, mas eu gostava, gostava de dar mais violência ao meu violeta, e somente ele sabia como me dar. Ascendi meu cigarro enquanto ele dormia.. e seu rosto, seu rosto era a coisa mais linda que eu já havia visto… estávamos exaustos, chapados, agora dentro de um carro, depois de ter terminado a foda mais incrível de toda nossa vida. 
Carlar.

Sobriedade Ébria

Imagem: Reprodução/Internet

Acordo com a cabeça ainda rodopiando sem parar. Nos ouvidos parece que entra uma banda inteira de percussão que, auxiliada por um zumbido distante, cria uma música mal orquestrada. O corpo parece sustentar o peso de um lutador de sumô, mesmo ocupando pouco mais que o espaço de uma bailarina.

Antes de levantar, levo as mãos lentamente ao rosto, detectando crostas de rímel e delineador onde não deveriam estar. Ótimo. Como se minhas olheiras precisassem de ajuda para ficarem mais escuras. Mas já estou acostumada a não ser uma bela visão pela manhã. Com a aparência de uns 40 anos e os reflexos e a velocidade de pensamento de uma senhora de 80, não seria um pedaço de papel plastificado que me convenceria ter apenas 27.

Depois de quase cinco minutos parada na mesma posição, baixo o braço e percebo uma presença da qual me esquecera. Ao meu lado ainda repousa em sono profundo um conjunto de ombros largos, pernas compridas, barriga um pouco saliente e cabeça de menino. Não consigo reprimir a raiva por aquele rosto angelical permanecer imaculado, enquanto o meu parece o retrato do inferno.

Pudera, aos 22 anos minhas ressacas também eram leves como a dele. Como eu fui ficar tão mais suscetível aos efeitos do álcool em apenas cinco anos? Ok, antes eu era mais fã de cerveja e vinho, e minha inseparável companheira atual, a vodca, sempre teve a fama de arrasadora. Mas não dá para negar que as visitas que ela me fazia naquela época não deixavam tantos estragos.

Ainda remoendo a inveja pelo novinho, me levanto, tentando tomar o cuidado de não acordá-lo. No fundo, acho que eu poderia cair sobre ele que não o despertaria. Quais são as chances de um organismo tão fresco e vivo ter entrado em coma alcoólico? Não, seria muita canalhice se mesmo assim ele continuasse bonito. E eu posso ter levado muita pancada da vida, mas sei que ela não pode atingir esse nível de injustiça.

Vou cambaleando até o banheiro, desesperada por uma ducha gelada antes de ir tomar um café bem preto. Passo reto pelo espelho, tentando evitar o contato com meu reflexo até mesmo pela visão periférica. Com certa dificuldade, puxo a porta de correr do box; aquela porcaria sempre trava, e é lógico que ela iria fazer o máximo de barulho justo quando eu quero ser silenciosa. Mas, aparentemente, isso não incomoda o rapaz na minha cama.

Entro e vou direto abrir o chuveiro, distraída. Foda-se se eu molhar o resto do banheiro todo, depois eu seco. Melhor que sofrer de novo para fechar essa porcaria dessa porta. No entanto, segundos antes de a água começa a cair, percebo uma calcinha pendurada na torneira. Turquesa, toda de renda e definitivamente não é tamanho PP. Não é minha. Eu só uso preto ou branco e sempre de algodão, porque é o máximo que se consegue fazer quando compra lingerie – e qualquer roupa, na verdade – na sessão infantil.

Aí sim, finalmente, minha amnésia alcoólica vai passando. Maldita vodca. Primeiro, me vem um flash daquela mesma calcinha, dessa vez envolvendo um corpo bem mais desenvolvido que o meu. De pele morena, cheia de curvas e apresentando uma desenvoltura de fazer inveja ao tirar a calça jeans. Os olhos fixos nos meus, enquanto o garoto (que agora dorme feito uma pedra) beijava sua nuca. Mas a lembrança das ações dele são borradas, porque claras me vem apenas as dela.

Logo em seguida, me recordo do sorriso que ela me deu no bar onde eu estava com esse rapaz, num encontro às escuras organizado por uma amiga em comum. Além de bonito, ele era até interessante e eu nunca me incomodei com idade, mas sua falta de atitude durante a conversa denunciava: se não era virgem, só transara com uma única pessoa. Com esforço, me obrigava a lembrar de que ele estava saindo de um namoro longo e o dava um desconto.

Mas isso não foi o bastante para que eu evitasse trocar olhares com aquela morena que me comia de longe. Vez ou outra eu sorria de volta, quando o garoto levava o copo de caipirinha à boca e me ignorava por uns segundos. Ela demorou mais umas três doses nossas e duas dela para vir nos abordar em nossa mesa. Àquela altura nossa conversa estava descontraída, mas nada íntima, então nenhum dos dois se opôs à sua interação.

Ela disse que se sentia incomodada de beber sozinha na outra mesa e que já havia visto meu companheiro de conversa umas duas vezes na faculdade. Isso fez com que eu me perguntasse se ela era tão jovem quanto ele – o que não parecia. Minha dúvida foi esclarecida com alívio quando ele se recordou de que ela era veterana do curso em que ele havia acabado de ingressar.

Depois de mais umas duas doses, nós três parecíamos amigos de longa data e ríamos e conversávamos alto demais para um bar tão pequeno. Eu sentia o olhar crítico dos outros frequentadores atravessando a nossa pele, e parecia que não era a única a perceber. Num rompante, ela se lembrou de que havia uma baladinha open bar rolando ali no bairro. Até que não era má ideia. Concordamos.

Ela se levantou e me puxou pelo braço, fazendo subir um calafrio pela minha coluna. Esse verão infernal nos obriga a sair com roupas frescas até à noite, então nossa pele não podia deixar de se roçar. Ao garoto ela apenas estendeu a mão, que ele logo apanhou e lá fomos nós, um apoiando o outro, atrás da próxima parada da noite.

Outro flash me vem à mente, dessa vez de nós duas dançando juntas e provocativamente na pista, enquanto nosso parceiro de noitada apenas nos observa. Nenhum dos três podia reclamar de não estar se divertindo. De olhos sempre colados uma na outra, estávamos mais soltas que nunca. Antes de finalmente partirmos para o meio da multidão, tomamos mais uns três ou quatro drinks na periferia da balada.

Com o efeito do álcool a toda, eu só queria extravasar. Enquanto dançávamos, íamos nos aproximando mais a cada segundo, o primeiro passo sempre dado por ela. Logo estávamos a poucos centímetros de distância, distância essa ficando ainda mais curta dependendo do movimento que fazíamos na dança. Para sua surpresa – e minha também, lembrando agora – fui eu quem aboliu por completo o espaço entre nós e levei meus lábios aos dela. E foi só o primeiro dos vários beijos que demos àquela noite.

Em seguida, me assaltam várias imagens de nós três no meu apartamento, nossos perfumes misturados ao cheiro do álcool que exalava não apenas de nossas bocas (quase sempre ocupadas umas com as outras), como de nossos corpos cada vez mais quentes. Eu tentava aproveitar ao máximo aquelas duas pessoas ali em minha presença, mas minha atenção sempre se voltava para ela. Não que o garoto estivesse se saindo mal, mas ela parecia ter uma força intensa que me atraía de forma inexplicável.

Ela, por sua vez, parecia não estar muito preocupada em dividir seu tempo entre nós dois. Dava atenção para ele apenas de vez em quando, quase sempre porque eu estava fazendo o mesmo. Seu interesse parecia ser mesmo em mim. Não foi difícil desconfiar que ela desejava que estivéssemos apenas nós duas naquele lugar. Em geral, era a minha boca que ela beijava, o meu corpo que ela explorava e o meu prazer que ela propiciava.

Mas… E agora? Onde ela está? Antes de entrar no banho não ouvi qualquer som que denunciasse sua presença, nem percebi qualquer outro traço seu antes dessa calcinha pendurada na torneira. Minha última lembrança da noite anterior foi de ter adormecido entre meus dois parceiros, então também não vi quando ela acordou. Agora me lembro que ela não me disse seu nome…

Por ideia dela, nos chamávamos por apelidos a noite toda. Ideia de bêbado, mesmo. Eu era Lolita, menção ao meu pequeno tamanho. O rapaz (cujo nome eu até sabia, mas agora simplesmente não consigo me lembrar) era Romeu. E ela era Capitu. Não poderia ser mais preciso. Não apenas seus olhos eram de ressaca, como suas lembranças só fazem piorar a ressaca pela qual passo agora. Ela veio como uma onda e foi embora da mesma maneira, sem nem se despedir…

Só quando já estou fechando o chuveiro que percebo que me esqueci de pegar uma toalha. O banheiro já está todo molhado, e o calor continua infernal, então corro até a porta para pegar uma e me secar. Dessa vez sem me preocupar com a visão periférica, uma imagem fora de foco chama minha atenção e paro no meio do caminho, me voltando para o espelho. O vapor atrapalhou um pouco a nitidez da escrita feita com batom vermelho – o mesmo que ela estava usando na noite anterior –, mas ainda dá para ler perfeitamente.

Fico por alguns segundos ali parada, encarando o espelho, que reflete meu corpo mirrado e meus seios minúsculos. Mas agora eu já não ligo para minha aparência de pré-adolescente. A água escorre de mim e molha o pouco do chão do banheiro que ainda estava seco, e isso também não me incomoda. Tudo que faço é sorrir e continuar encarando a mensagem. Em seguida pego minha toalha, me seco e me enrolo nela. Saio do banheiro cantarolando uma das músicas da balada da noite anterior.

Dirijo-me novamente para o quarto, tiro o pedaço de pano que me envolve e me deito novamente ao lado do garoto. Dou-lhe um beijo de leve na boca, o que o faz se mexer e resmungar um pouco. Não está em coma, afinal, ainda bem. Não ia gostar de ter de levar ninguém ao pronto socorro a esta hora. Só me ocupo de fechar bem meus olhos e adormecer novamente, quem sabe até sonhar com a minha Capitu. Se for para encarar uma ressaca, que seja a dela, então.

Que me perdoem os monogâmicos, mas sexo a três é fundamental

   
                                                                                                 

Tomei a liberdade de parafrasear Vinícius de Moraes, com o único propósito de reconstruir percursos “monocromáticos” da nossa vida sexual, em especial, a das mulheres. Embora criada para ser criança, adulta e assalariada, portanto, sem paralelos que dispusessem e esquadrinhassem toda a lógica onipresente e, por que não, onipotente da sexualidade, tão logo compreendi as maravilhas inequívocas de um bom e prazeroso sexo a três. Encerrada em um quarto sem televisão e com horários para comer, dormir e estudar, desde pequena alimentei a curiosidade primitiva da espécie humana de se tocar, e foi aí que tudo começou.
Sob os lençóis de uma cama que mal me cabia em movimentos ainda desjeitosos, haja vista a tentativa incipiente de me fazer gozar, tentei exaustivamente descobrir meu corpo através da escuridão que monopolizava todo o meu quarto e que, hoje, a reconheço como metáfora de uma vida feminina, que, não raro, se mantém atada à necessidade de jamais enxergar – sua própria sexualidade.
 
Ainda zelosa nos cuidados inseguros de não me dizer erótica, libertina, ou qualquer outro termo carregado de problemáticas conservadoras que remontam aos primórdios da nossa sociedade, sempre me mantive fiel à experiência de mim mesma. Me toquei em pensamentos, entre linhas e trechos de livros desconexos ou criados para alavancar imagens de uma memória ainda pouco à vontade com as descobertas do auto prazer, me toquei com travesseiros, filmes, revistas e, enfim, me toquei com os dedos.
Desde então, descortinei tabus que maquiam a sexualidade e aprisionam pelos pés a mais audaciosa das mulheres. Agora grande, compreendo as vantagens de um dia ter me tocado e entendido, ainda que sozinha, que meu sexo e a capacidade de me autoamar já nascem comigo. Hoje, após, felizmente, também já ter descoberto os milagres de uma boa e bela lambida na boceta, me conservo partidária de um dedo no clitóris até que meus pés se comprimam e meu corpo ganhe uma pequena curvatura acentuada pela explosão súbita e impetuosa reproduzida por sinais sonoros que arranham todo meu corpo até ganhar os ouvidos do sujeito que integraliza a exigência nada pueril de um bom e saboroso sexo a três.