“Por enquanto”: HQ sobre automutilação busca por financiamento coletivo

Por Enquanto

 

Vanessa Bencz é jornalista, palestrante e autora de quatro livros publicados. Há 5 anos, seu trabalho gira principalmente em torno de problemas da adolescência como bullying, depressão e violência familiar. Seu novo projeto é a HQ “Por Enquanto”, que está em financiamento coletivo no Catarse até amanhã às 23H59.

Segundo Vanessa, “‘Por Enquanto’ trata de Ana, 16 anos, que pratica automutilação. Ela foi vítima de violência dentro de casa e na escola. Por conta disso, se torna a chamada ‘aluna problema’. Esta poderia ser a história de muitos estudantes brasileiros que vivenciam rotinas difíceis e depressão.”

Eu conheci a autora em um grupo de Facebook. Lendo um pouco sobre seu trabalho e os textos que ela costuma postar em seu perfil, fui “intrometida” e pedi para adicioná-la. Ela aceitou, e desde então, tenho lido seus relatos sobre suas palestras, seus livros e sua determinação em fazer da vida escolar uma experiência melhor.

Palestra e livros
Vanessa palestra principalmente em escolas, para estudantes de Ensino Médio (Imagem: arquivo pessoal)

Foi isso, somado à importância dos assuntos tratados em “Por Enquanto”, que me motivou a entrevistar Vanessa sobre o projeto. Confira abaixo:

 

Tamires Arsênio: O que te motivou a começar a falar sobre temas como saúde mental, bullying e etc?

Vanessa Bencz: O que me motivou foi a necessidade dos estudantes ouvirem sobre isso. Quando comecei a fazer palestras, há cinco anos, a intenção era falar sobre a importância da leitura para os alunos de escolas públicas. Mas percebi que havia assuntos mais graves e urgentes a serem discutidos. Como eu vou incentivar um estudante a ler, se ele está sofrendo violência na escola? Ou dentro de casa? É questão de prioridades. Então, comecei a falar sobre bullying, sobre depressão na adolescência, sobre ferramentas emocionais de busca por ajuda e superação.

 

Tamires: Você pode falar um pouco sobre suas publicações anteriores? Elas sempre seguem essa temática?

Vanessa: Sou mãe orgulhosa de quatro livros, e o quinto está nascendo! Meu primeiro livro, “Relato do Sol”, foi lançado em 2011 e trata-se de contos que produzi durante a faculdade. Meu segundo livro se chama “Memórias de uma Jornalista Distraída”, que também são contos, mas desta vez sobre minha carreira como repórter de jornal diário. Meu terceiro material é a história em quadrinhos “A Menina Distraída”, de 2014, que é minha publicação de estréia nos assuntos de bullying, violência e depressão. A quarta obra foi lançada em 2016 e se chama “Leia Quando Chegar em Casa”. São relatos que coletei nas escolas do Brasil inteiro como palestrante. O quinto livro está sendo financiando agora. É uma história em quadrinhos chamada “Por Enquanto”, que vai falar especificamente de automutilação, depressão na adolescência, bullying e suicídio.

 

A menina distraída
Em sentido horário: capa de A Menina Distraída, destaque da personagem Ana e sua reformulação (Imagem: arquivo pessoal)

 

Tamires: De onde surgiu a inspiração para a HQ Por Enquanto?

Vanessa: Por Enquanto é um spin-off de “A Menina Distraída”. Trata-se da história de Ana, uma personagem que era coadjuvante na MD e que agora ganhou uma história toda para ela. Ana foi a personagem mais comentada da MD, então, nada mais justo do que homenageá-la agora. Na MD falamos sobre bullying, violência e dificuldades de aprendizado. Agora, em “Por Enquanto”, continuo com a temática da violência – acrescentando temas totalmente pertinentes à adolescência, como depressão, suicídio e automutilação. Chamei a desenhista Yasmin Moraes para trabalhar comigo e estou muito motivada com este material.

 

T: Quem são as pessoas envolvidas no projeto?

V: Somos eu (autora), a ilustradora Yasmin Moraes e a namorada da Yasmin, Ruth Pavanello Bianchini, que serviu como referência visual para nossa personagem e está dando a maior força no financiamento.

 

Vanessa e Yasmin
A autora Vanessa e a desenhista Yasmin. Os filtros das fotos podem ser utilizados no seu perfil do Twitter ou Facebook clicando aqui (Imagens: arquivo pessoal)

 

T: Quantas “Anas” você já conheceu ao longo da vida?

V: Digamos que conheço uma todos os dias. São incontáveis Anas – e na versão masculina também. É uma pena que seja tão comum encontrar crianças e adolescentes com uma realidade tão triste e negligenciada. A escola deveria ser um local de segurança, aprendizado e amizade. Mas geralmente não é! O sistema educacional tem criado espaços perigosos em que jovens são julgados, criticados e destruídos. Até os professores saem perdendo, porque são desvalorizados. Eles são jogados dentro das salas de aula com a responsabilidade absurda de construir conhecimento dentro de cabecinhas machucadas e doentes.

 

Por Enquanto
Páginas de Por Enquanto (imagem: arquivo pessoal)

 

T: Você já viu de perto o resultado do seu trabalho? Pode contar algum caso específico?

V: Após uma palestra, uma garota de 16 anos me falou o seguinte: “Vanessa, eu morava com meu pai. Mas ele era uma má influência para o meu irmão pequeno (8 anos) porque era alcoolatra e cometia furtos. Me mudei para a casa da minha mãe para que meu irmão pudesse ter uma vida melhor. Ele ainda não sabia ler. Entretanto… comecei a ser abusada durante as madrugadas pelo meu padrasto. Não sei o que faço: não sei se volto para a casa do meu pai e exponho meu irmão a ele, ou se continuo na minha mãe onde meu irmão finalmente está aprendendo a ler e aguento os abusos do meu padrasto.”

Quando ela me contou isso, choramos juntas. Dei para ela um exemplar de A Menina Distraída e falei: “Eu quero que tu aceite este presente. Quero que esta história em quadrinhos te lembre todos os dias que tu precisa ser uma guerreira. Lembre-se que estou contigo. Tenha coragem de denunciar, por favor!”

Voltei pra casa e chorei muito. Dias se passaram. Semanas. Meses. Se passou um ano, e eu nunca mais encontrei com esta garota.

Em março de 2017, eu estava em uma escola qualquer de Joinville palestrando sobre bullying. Contei, com muito orgulho, que estou lutando para lançar uma nova história em quadrinhos. Encerrei a palestra e perguntei para a plateia se alguém queria falar alguma coisa. Lá do fundo do auditório levantou uma garota. Ela estava chorando.

Era ela! A garota pediu o microfone e disse: “Você, Vanessa, me deu coragem de denunciar aqueles crimes. Denunciei no dia seguinte daquela tua palestra. Meu irmão aprendeu a ler com a tua HQ. Obrigada por existir.”
Existe melhor sentimento do que a construção coletiva da felicidade? Eu diria que não.

 

Vanessa Bencz
Vanessa com a HQ “A Menina Distraída” (Imagem: arquivo pessoal)

 

T: Qual resultado você espera para a HQ?

V: Que sensibilize as pessoas para este assunto. Que levante debates, que coloque holofotes em assuntos essenciais para o bem estar dos estudantes. Que os leitores aprendam o significado de valores como empatia e respeito, e os coloquem em prática.

 

“Por Enquanto” está em financiamento em https://www.catarse.me/porenquanto#_=_ . Você pode ser um apoiador com a partir de 10 reais. Confira as fotos das recompensas na galeria abaixo:

 

Sexualização feminina não é estilo p**ra nenhuma

Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio/via Canva

Quando acreditamos estar vencendo barreiras e prestes a viver uma ótima era como mulheres consumidoras de cultura pop/nerd, a verdade nos dá uma rasteira e mostra que esse ambiente (como todos os outros) continua extremamente tóxico para nós.

Sim, as produções têm cada vez mais colocado a mão na consciência e percebido o óbvio: mulheres também são público. Isso vale em filmes, HQs, livros, séries e outros conteúdos tradicionalmente voltados para o público masculino (mas que sempre foram amplamente consumidos por mulheres).

Eu, particularmente, comecei a ler quadrinhos seriamente há pouco tempo. Antes, consumia mais revistas justamente voltadas para o público feminino (colecionei W.I.T.C.H. por muito tempo) ou misto (e dá-lhe MSP nas minhas seleções).

Quando meu interesse em expandir esse consumo aumentou, eu já estava inserida no feminismo e pendendo a consumir produtos feitos sobre mulheres e por mulheres. Entretanto, apesar de estar ficando cada vez mais fácil encontrar conteúdos que se adequem ao primeiro requisito, o segundo continua escasso.

A nova revista da Miss Marvel foi uma das responsáveis pelo aumento do meu interesse por quadrinhos, e foge totalmente do padrão de personagens sexualizadas. Por trás de sua produção, nomes femininos. Imagem: reprodução/internet

E isso provavelmente explica por que a gente continua se decepcionando com a indústria cultural. Eu mal havia elogiado a Marvel (que, em detrimento da DC, estava reduzindo bastante a sexualização de personagens femininas e dando cada vez mais protagonismo para elas), e me surge a polêmica da capa variante da Invincible Iron Man que trazia a personagem Riri Williams, de apenas 15 anos, objetificada.

A arte era de J. Scott Campbell e teve que ser alterada (às pressas e com um resultado bem ruim, diga-se de passagem). O desenhista reclamou das críticas dizendo que sua intenção era desenhar “uma jovem mulher atrevida e em fase de crescimento”. A justificativa, que leva em conta características menos importantes (e às vezes até inexistentes) de personagens femininas já é clássica.

Da esquerda para a direita: a primeira capa com a personagem a ser apresentada, a versão original da capa feita por Campbell e a versão modificada. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio

O grupo que sai em defesa de Campbell alega que esse é o seu estilo, que reclamar disso é limitar um artista. Seria como reclamar do surrealismo da obra de Dali. Ou, pegando algo ainda mais próximo, reclamar da sexualização das personagens de Milo Manara, famoso por suas histórias eróticas.

Este, por sinal, está envolvido em outro acontecimento que foi um belo tapa na cara das mulheres consumidoras de HQs. Na verdade, foram dois absurdos reunidos em pouquíssimo tempo. Primeiro: Milo Manara e Frank Cho foram protagonistas de um painel na Comic Com italiana sobre… mulheres no quadrinhos.

Cho também é conhecido por retratar personagens femininas extremamente sexualizadas e desproporcionais. Manara pode ter sido revolucionário quando surgiu, mas hoje em dia é só mais um homem desenhando mulheres sob uma ótica masculina – não tem absolutamente nada de novo nisso. Os dois são as ÚLTIMAS pessoas que se pode esperar em um painel decente sobre desenhar mulheres.

Segundo: os dois teriam “unido forças para combater a censura nos quadrinhos” e blablablá. Nisso, Manara presenteou Cho com uma ilustração da Mulher-Aranha ainda mais sexualizada que sua famosa capa para uma edição da revista da heroína. Seria algo apenas de mau gosto e material de punheta presente para o Cho, se este não tivesse a brilhante ideia de publicar a imagem explícita no seu Facebook. E ainda se vangloriar pela sua “luta contra tabus”.

Ninguém é obrigado a ver essa imagem escrota explícita, então deixo a borrada aqui e quem quiser pode clicar acima ou aqui pra ser redirecionado a ela

Eu vou evitar falar sobre o choro de Cho, que até eu que estou há pouco tempo no mundo dos quadrinhos não aguento mais. Deixo aqui um texto excelente do Collant Sem Decote sobre o mesmo caso e que foca nesse aspecto.

Agora eu vou tentar fazer uma convergência sobre os dois casos e o que mais me incomodou sobre eles. Claro, além da ofensiva objetificação das duas personagens (que atinge as mulheres em geral). Eu estou falando da defesa incansável, para não falar endeusamento, dos três artistas.

Já era de se esperar que a tal “broderagem” entraria em cena nesse contexto, assim como a galera conservadora/machista. Mas nesse caso entram também os que, assim como Cho, se acham subversivos e destruidores de tabus, e ainda os que colocam artistas masculinos num pedestal intocável.

O argumento do estilo ecoa por todo lado em que alguém se posiciona a favor deles. Mas vamos lá, não é no mínimo curioso que TRÊS artistas envolvidos em polêmicas recentes tenham como “estilo” a sexualização? Manara ainda é um artista de nicho (mas que curiosamente estava em um painel sobre quadrinhos para um público amplo). Mas Campbell e Cho estão inseridos num meio bem menos específico.

Tão repetitivo que chega a cansar, sério. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio/via Canva

Meio esse que usa o corpo feminino como produto há tanto tempo que isso provavelmente nunca foi realmente marca de estilo. É algo que todo mundo faz. O diferente, inclusive, é a criação de personagens femininas que sejam mais que apenas adereços de cena para agradar os olhos (e os hormônios) masculinos.

Campbell postou em seu Facebook uma arte (desvinculada) com uma releitura da Riri. E provou ali que era capaz sim de sair de sua zona de conforto (o tal do “estilo”), respeitando a proposta da personagem. Será que era tão difícil assim fazer o mesmo em um trabalho oficial?

“Riri Rethink” (Riri reimaginada), legenda que Campbell deu para a própria postagem. Imagem: reprodução/J. Scott Campbell

Não dá pra chamar de estilo algo que se repete incansavelmente, na indústria cultural como um todo e também especificamente nos quadrinhos. No máximo é mais do mesmo com algumas variações pessoais. Também não dá pra chamar de estilo algo que estereotipa, ofende e oprime um grupo de pessoas.

Enfim, indo na vibe boca suja do título desse texto, não dá pra aceitar que um monte de homens escrotos siga fazendo trabalhos ofensivos. E que um monte de cuzão no público os defenda como intocáveis apenas por serem homens e atenderem suas “necessidades” sexuais. Não, não é defender estilo porra nenhuma: é só privilégio masculino, mesmo.

[ATUALIZAÇÃO: a imagem postada por Campbell acabou se tornando capa variante da edição #2 de Invincible Iron Man. Veja a arte finalizada aqui]