Corpo em cena

Sinto meu corpo preso na maré de sentimentos.
O equilíbrio que busco a longo prazo me puxa para o fundo do mar.
A âncora é pesada, repleta de durezas e cobranças.

Autopunição
Desrespeito
Intolerância
Se eu deixar, afundo.
Eu já quis.

Não vou mentir, o desespero bate.
A ansiedade e autocobrança em fazer dar certo me imundam.
Eu quero prosperar e alcançar o que acredito,
mas as ondas me puxam com tanta força que eu ainda não consigo domá-las.

Doi.

Sinto meu corpo encharcado não dos respingos da água.
É tudo lágrima.
Vocês me exigem o equilíbrio e a liderança de um ninho fraco.
Eu não sou matriarca.
Sou prole aprendendo a voar.

Para onde carregamos nossos braços quando livres?
Para onde nos levam nossas pernas?
Ainda não sou a leveza do corpo.
Não consigo voar pelo oceano, não consigo boiar sobre as ondas.

 

Foto: Ana Luiza Calmon

 

Pescoço, quando duro, trava o corpo.
Joelho falha quando falta equilíbrio.
Cabeça lateja sempre que falta oxigênio.
E os dentes gritam por voz quando falta expressão.

Meu cabelo quebrou quando faltou amor. Próprio.
Violei meu corpo de todas as formas para fazer tudo certo, para vocês.
Não quero ser boneca de pano vivendo remendada.

Sou inteira, sem retalhos.
Tentam apagar essa luz que vive acesa dia e noite, ensolarado ou nublado.
A luz pode até diminuir sua intensidade de vez e quando, mas ela sempre volta radiante.
É como um farol. O maior guia para um inteiro oceano.

Meu corpo segue preso na maré.
Não afunda, mas também não volta para a terra firme.
Não sou de falsas estabilidades. Tudo pertence ao mar, tudo navega com ou sem ondas.
Meu corpo pode travar e recuar, mas ele sempre avança.

A maré de sentimentos vai e volta, fica cheia e rasa.
Mas eu permaneço aqui.
Viva, forte e iluminada.
Meu corpo segue em cena.

 

Foto: Ana Luiza Calmon

Corpo infinito

Meu bem, quero te mostrar uma coisa:

Meu corpo.

Vem que eu te deixo tocar cada dobra, passar seus dedos em cada curva, volume, cada linha que me desenha. Eu te quero é me desenhando com suas mãos, sentindo minha pele arrepiar com seu toque. Te deixo apertar minha bunda com toda força, mas tem que mostrar que gosta, que minha bunda é gostosa desse jeito mesmo. Te deixo morder minhas coxas grossas e depois ir subindo aos poucos, me deixando tensa de tesão, dentro de mim. Eu tenho lábios lindos – em cima e embaixo, externo e interno. São carnudos, macios e ultra sensíveis. Se você quiser, te deixo fazer um estrago com eles, você vai ficar louco. Nego, quero sentir seu corpo quente ao meu, pele com pele, mão com mão, peito com peito, órgão com órgão. Entra e sai, entra e fica, sai e volta. Fundo. Profundo.

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 É tão agressivo assim limpar sujeira? E a sensibilidade do resíduo, como fica?

Helena sabe o que quer, mas não vê como pesar esse custo. Ela vai atrás, mas quem a segue e distancia ainda mais? Se vê cercada de pontos finais, algumas reticências e se aborrece com a quebra da continuidade. Helena quer. O quê? Viver(se). Ser. Clarear a vista nublada da miopia emocional dessa avenida de cruzamentos, semáforos e ladeiras. Mas então há subidas e descidas? E o topo, quanto dura? O verde apagou… Tudo agora é vermelho. O sangue pula das gengivas de Helena quando escova os dentes. É tão agressivo assim limpar sujeira? E a sensibilidade do resíduo, como fica? Tem tártaro nesse molho. Bom… é forte mas doce. Como Helena. Um toque azedo também, aquele azedinho na medida que faz falta no meio de tanto açúcar refinado. Amarelo seria o equilíbrio? Helena não clareia a mente para todos nem para si, sequer consegue clarear seus dentes. Não há retorno para o que foi nem desejo para voltar-se. Ela só segue a avenida a pé, sentindo a leveza do seu corpo limpar tanto vermelho. Helena não busca o branco. Espera por uma nova paleta de cor.

Eu sou meu próprio mar

Não preciso de um marinheiro para me navegar. Quero que ele fique se for para acompanhar meu movimento.  O controle não faz parte da minha travessia, mesmo o mar entende que as ondas do meu cabelo formam seu próprio caminho. Elas se tornam. O marinheiro tentou tomar posse dessas ondas. Ele quis prendê-las num coque, deixá-las menos selvagens e mais retas. Desde quando onda forma linha?  Marinheiro que é marinheiro respeita e compreende o mar, se deixa levar.  Entende essa mansidão que logo se transforma em tempestade, que vem chegando sereno, logo expande e te abraça para o fundo. Como estar com um homem que não aprecia as ondas? Não há fórmula para domar o oceano. Ele é seu próprio domínio, sua casa, sua morada, ele também só deixa entrar quem se entrega e mergulha profundo, não importa o tamanho. Só se apaixona pelo mar quem ama sua intensidade e imprecisão. Sei da minha impulsividade e fraqueza. Sei também da minha força, minha feminilidade. Só quero que o marinheiro entenda: sou eu quem escolho minha forma. São as minhas ondas que me levam.

ceder

Ceder

Um bicho sem nenhum senso de nada abanando o rabo, balançando o rabo, babando, sacudindo. Eu-festa. Cheiro, dedo, olho, desaconselhável. Eu que sempre trava, peso, ombro doído. Eu que sempre chão agora tenho asas. Meu bem, eu preciso pousar em algum momento, mas estou acoplada ao mundo no céu. Estou fodendo. Não tomei nenhuma droga. Não bebi nenhuma gota. A garganta estava completamente seca. Um bicho com sede de boca e de barba. Um olho com sede de tudo que a vida pode pra sempre. Não consigo ser gente depois de ver de dentro o homem da minha vida.

Aline Dias

 

Assista ao vídeo poesia: Elas Declamam – Ceder

 

Autora Convidada

Aline Dias nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, em 1988. Publicou “Vermelho” (2012), “Além das Pernas,” (2015) e organizou a coletânea “Sem a Loucura não Dá” (2017), com contos inspirados em músicas de Sergio Sampaio. Aprendeu a chorar este ano e acredita no amor. O texto “Ceder” integra as páginas de seu mais recente livro, “A única coisa que fere é manhã pós-amor” (2017). Assista a entrevista com a autora.

Marcela

Marcela,

   Nós temos uma usina hidrelétrica no peito. Não cabemos em pouco. Queremos muito da gente mesmo e dos outros. Sem querer exigimos mais do que a realidade oferece. A realidade nunca nos foi palpável. Rasa demais, a propósito. Queremos é invenção, virar de ponta cabeça. Queremos o estômago saindo pela garganta, taquicardia. Que mundo fosse mais rasgado que toque na ponta dos dedos. Que fosse mais pele quente, mais braços, mais pernas. Olhos grandes encarando a gente do lado de cá. A gente faz prece vendo a ressaca do mar, porque a gente respeita a força da sua existência. Tudo que explode e lava tem nosso respeito. Diz: como é que podemos viver sempre ladeira abaixo, ladeira acima? Se arrebentar e se refazer tantas vezes. Com que cara a gente se ergue? Só sei que sobrevivemos. E ainda sobra cara para bater e peito aberto. Marcela, quantos navios já naufragaram no seu oceano?

   Assista ao vídeo poesia: Elas Declamam – Marcela,

 

Autora convidada

Maria Gabriela Verediano escolhe a cada dia quando vai ser Maria, quando vai ser Gabi, quando Gabriela e quando a gravidade de um nome composto. Maria não tem medo de nada, e o que sente escreve. Gira, gira, gira, e sonha. E samba. E mostra. Ela escreve no blog Sambaprasmoças

 

atemporal

Atemporal

Tic tac, tic tac

Para mim funciona diferente.

Diferente de você,

Dela,

Dos outros,

Diferente de mim.

Por vezes passei por ele com indiferença,

Mas hoje corro atrás, só quero andar lado a lado.

 

Há quem não goste de ver o tempo passar.

As despedidas, muitas mudanças, velhice, vem a morte.

Então voltemos,

Voltemos tudo o que for possível

E ficaremos lá.

Escolha o melhor momento

Pressione o botão e fique por lá.

Atrás.

Vegete!

 

Você quer continuar,

Ou melhor, atropelar, sobrepor a ordem certa.

Nada está certo!?

Por que esperar? Não precisa.

Apenas se erga até o fim de tudo.

É necessário acelerar os dias

Para que o melhor surja,

Esse é o seu momento.

Perder tudo.

 

O meio é mais adequado a mim.

Lembra-se? Lado a lado.

Sentir cada brisa gélida,

Ouvir todas as notas,

Talvez conhecer ontem, amar hoje, terminar amanhã.

Hoje!!

Esse é o único momento.

Moça,

 

 

 

Escrevo uma carta para tu. Eu sei que ainda doi, mas resista. A dor tá indo, a vontade de um Oi também. Aguenta! Logo, mais amor surge.

 

 

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nem sua, nem meu
ainda não somos:
seus
meus
nossos.
ainda não somos eus.

 

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Mas não adianta insistir moça, a flor se abre quando ela quer, quando sente. Pétala quando cai é renovação, um novo começo pra essa flor, seja acompanhada ou só(lidão). Quando fechada, a flor não quer mais seu toque, a flor não quer mais seu amor.
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Eu disse para ele, moça, pelo menos pretendo em meus pensamentos:

 

– Eu preciso achar novas temperaturas como a sua, mas sem tantas oscilações. Nosso Kelvin deveria permanecer em zero absoluto.
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Ai, moça, o concreto virou porta. E a porta, poesia. Eu que antes via de olhos fechados, passei a enxergar. Sorri.

Dança morena

Foto: Ana Luiza Calmon

 

a morena sempre te esperou

sentada, feliz, sorridente

alongou os cabelos para te fazer feliz

todo o tempo do mundo valia a pena quando ela estava com você.

 

a morena sempre achou que você chegasse já

porque era tudo amor

e a saudade apertava.

 

mas a morena viu que você nunca chegaria

aquele amor virou mágoa

e a saudade apenas memória.

 

hoje a morena tem cachos

lindas ondas que moldam seu rosto

ela continua sorridente e alegre.

 

mas agora ela dança como nunca

movimenta seu corpo como dona de si própria

seus olhos abriram para o mundo.

 

Foto: Ana Luiza Calmon