uma mulher nada de bem

Uma mulher – nada – de bem

Short curto e cabelos na cintura

Via de baixo para cima pela falta de altura

Inocência minha pela falta de idade

Mas metralhavam a moça por estar à vontade

Apelido não positivo é o que mais chovia

E, vira e mexe, na rua eu a via

As mulheres daqui a olhavam com desdém

As mesmas que se auto chamavam “mulheres de bem”

O tempo então, como sempre, voava

E sempre que a mesma moça passava, eu olhava

Percebi que xingava a moça sem nem perceber

Até que um dia pensei “O que ela fez para você?”

Me choquei com a resposta, pois não havia nenhuma

Se ela quiser, use salto, vestido ou pluma

Dali senti a liberdade saindo de dentro

Quando aprendi a ver a moça sem julgamento

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Esvaziar-se

Esvaziar-se

 

Ahhhh…
O suspiro escapa por entre meus lábios
Cansados. Cansada
O corpo pesado, mas frágil
De leve, só o ar, que vaza

As vozes ecoam por cada canto
Os vultos se impõe à minha volta
As perguntas se repetem
Elas se repetem
Se repetem

Mas eu não digo que sim
Não digo que não
Nem talvez
Eu só me calo

As vozes dizem por mim
O sim, o não e o talvez
As vozes sabem melhor que eu
Elas falam, GRITAM, sussurram
Por mim

É, elas sabem melhor que eu
Elas sabem melhor que eu?
Emudecida, pesada, frágil
Facilmente deslocada
Para onde as vozes me levam

Pregresso

Ai está ele de novo
Nem ao menos cheguei ao meu destino
E meu corpo já reage com demasiada euforia
A ultima vez? Trezentos e sessenta e cinco luas atrás.
Ainda suspiro com tais momentos

Uma simples chamada
Onomatopeia capaz de violar um cofre há muito trancado
Revelando segredos, relembrando carícias acompanhadas de olhares maliciosos

Aí está ele mais uma vez
Nem ao menos cheguei ao meu destino
E o vento frio da montanha já me trouxe seu cheiro

Consigo ver suas ondas
Estão na cor água marinha
Já faz dez minutos que estacionei
Não quero sair do carro
Não quero sentar à mesa
Não quero relembrar
Consigo ver seus lábios
Vermelhos

Aí está ele novamente
Aquele arrepio

Rennata – por Sara Tude

 

Algo nela me chamou atenção
Não sei dizer o que
Nem sei dizer porquê
Mas essa menina me fez perceber
Não sei dizer o que
Mas talvez, a realidade
Um outro lado da verdade
Algo despertou quando ouvi a sua oração
“Ele não sabe a minha história
A minha pele pode ser branca,
Mas ele não sabe a minha história.
Ele não sabe a minha dor
Ele não sabe a minha cor
Ele não sabe o caminho
Que os meus pés arranharam para chegar até aqui.
Para abrir a boca e dizer
Racista?
Minha pele pode ser branca
Mas ele não sabe a minha história
Ele não sabe os meus sufocos
Ele não sabe as minhas lágrimas
Ele não sabe as minhas dores
A minha mátria
Ele não sabe a minha luta
Ele não sabe a minha fome
De justiça
De igualdade
De minoria
Mas eu também sou maioria
Eu sou maior
E também posso ser
Ele não sabe que eu já sou
Eles não sabem que já somos
E sempre fomos
Sempre estivemos aqui
Para abrir a boca e dizer
Racista?”
Oração mais sincera
Clamor de quem se desespera
Não espera
Corre
E vive
E luta
E sofre
E vive
E ama
Confesso que foi assim que ela
Fez chamar à minha atenção
E depois disso, que descoberta!
Me desmontei e me desmonto
Dia após dia
A pensar naquela história
Naquela menina
Que vive
Ama
Corre
Existe
E ela é
Uma
Duas
Três
Várias
Muitas
Dores e flores
Num espelho, que reflete a realidade
Uma outra versão da verdade
O outro lado da rua pela qual ouso caminhar
E me arrisco a enxergar
O que muitos me esconderam
A realidade bate à porta
E eu, com prazer,
A deixo entrar.

Me chamo Sara, tenho 19 anos, sou geminiana, artista, bailarina, poetiza, professora de dança contemporânea e apaixonada pela arte em todas as suas formas de expressão.