sociedade idolatra machistas

Dudu Camargo é a prova que nossa sociedade idolatra machistas

Antes de tudo, uma contextualização: no dia 18/06, foi ao ar uma edição do Programa Silvio Santos, com participação de Maisa e Dudu Camargo no Jogo das 3 Pistas. Na ocasião, o apresentador começou a fazer “brincadeiras”, dizendo que eles deveriam formar um casal, já que ambos estavam solteiros. Além de dizer que o rapaz não fazia seu tipo, a insistência de Silvio a levou a criticar o rapaz e chamá-lo de engessado. Durante o quadro, as brincadeiras e as provocações se seguiram, e ainda com o ingresso de Dudu em certo ponto.

sociedade idolatra machistas
Incentivado por Silvio, Dudu dançou em torno de Maisa para provocá-la (Imagem: reprodução/internet)

Alguns dias depois, Dudu Camargo foi ao programa da Sônia Abrão, que não apenas defendeu o comportamento do apresentador, como rechaçou as críticas de Maisa. Nessa ocasião, inclusive, Dudu disse que convidou a garota para dormir com ele. E a mesma que criticou a “grosseria” de Maisa, gargalhou com um claro episódio de assédio. Lembrando ainda que Maisa é menor de idade (tem recém completados 15 anos) e Dudu já é um adulto de 19.

Até selinho o rapaz recebeu de Sônia (Imagem: reprodução/internet)

A novela se seguiu. Durante a última gravação de seu programa, Silvio Santos convidou Maisa para participar do Jogo dos 3 Pontinhos. E achou uma boa ideia fazer uma “surpresa” para a garota, levando Dudu Camargo sem avisar a menina. Sem suportar mais humilhações, assédio e provocações, Maisa teria abandonado o palco do programa aos prantos.

E no meio de toda essa polêmica, ainda surgiu nas redes sociais um relato de Robert Oliveira, que se diz ex-namorado de Dudu Camargo. O rapaz denunciava no texto que eles tiveram um relacionamento permeado por abusos psicológicos, físicos e sexuais. A assessoria de Dudu insiste que o conteúdo da postagem é falsa e que “Dudu é hétero”, bem como pretende processar Robert, ainda que haja na web fotos dos dois juntos e um vídeo em que eles dão um selinho.

Robert Oliveira e Dudu Camargo (Imagem: reprodução/internet)

Continuando sobre a repercussão que Dudu recebeu com tudo isso. O rapaz participou, no último domingo (25/06), do programa Pânico na Band. Quem está familiarizado com seu conteúdo já consegue imaginar o tipo de cena que ele protagonizou. Não faço a menor questão de incluir esse tipo de imagem aqui, então quem tiver interesse pode ver neste link (Fonte: Diva Depressão). Já na segunda-feira seguinte (26), participou do talk show The Noite, apresentado por Danilo Gentili.

Para entender o que tudo isso significa, é muito importante fazer um exercício de distanciamento. Primeiro: nas redes sociais, Maisa recebeu um amplo apoio na forma como tratou Silvio Santos e Dudu Camargo. Se nos limitarmos a considerar esse espaço de amostra da reação do público, podemos ter uma interpretação favorável à garota. Mas mesmo esse apoio, no entanto, não foi unânime: assim como Sonia Abrão, muitos a consideraram grossa e/ou exagerada. Mesmo no ambiente em que recebeu o maior suporte, Maisa ainda encontrou opositores.

Segundo: numa primeira vista, a repercussão oferecida a Dudu aparenta vir apenas de seus semelhantes. Os programas onde ele teve palco são conhecidos pelo seu machismo escrachado (no caso do Pânico e The Noite), sua toxicidade e o desprezo pela dignidade humana. Mas mesmo nesses ambientes, é importante refletir sobre o que significa toda essa visibilidade que ele vem recebendo. E o que a audiência desses programas diz não apenas sobre a TV brasileira, como sobre o seu público.

A emissora de Silvio Santos constantemente comemora seu espaço garantido nas televisões brasileiras (muitas vezes apoiado por polêmicas)

Silvio Santos continuou se aproveitando da situação que beneficiava Dudu Camargo, contra o bem estar de Maisa. Importante abrir um parêntese para algo importante: a atitude do apresentador já no primeiro programa era errada de inúmeras formas. Insinuações e “brincadeiras” sobre relacionamentos podem ser meramente inconvenientes, mas a forma como ele as fez (como se o temperamento da garota fosse justificado por “sua falta de namorado”) já era machista por si só. E fazer esse tipo de brincadeira com uma menina de apenas 15 anos, dizendo inclusive que já estava na hora dela casar e pensar em ter filhos (!!!), é absurdo.

Retomando, sabemos que Silvio Santos gosta de alimentar sua audiência com boas doses de polêmica (não é de se espantar que o The Noite seja de sua emissora). De certo modo já era de se esperar algum tipo de atitude como a tomada em sua última gravação. Ele é, afinal, não apenas um dos que têm todo o caráter para dar palco para um indivíduo como Dudu Camargo, como aquele que o deu desde o início. O pseudo-jornalista (já que não é nem formado, nem competente) apresenta o telejornal sensacionalista Primeiro Impacto, bem adequado para o seu perfil caricato. Telejornal esse, do SBT.

Imagem: reprodução/internet

SBT esse, de Silvio Santos. O mesmo Silvio Santos que submeteu Maisa a tamanho assédio e humilhação. O mesmo Silvio Santos que levou Dudu Camargo mais uma vez a seu programa para aumentar a humilhação da menina. Que permite programas como o The Noite. E dono da emissora com a segunda maior audiência do Brasil. Do programa vice de audiência em seu horário – inclusive no domingo 18/06.

Não só é importante ver todos os envolvidos diretos nessa situação, como os indiretos. Essa audiência toda não é coisa de nicho. Nichos não sustentam por muito tempo – muito menos com tanto alcance – toda essa repercussão positiva. O problema é geral, e denuncia algo grave sobre nossa sociedade: ela não é apenas machista, como aplaude o machismo.

PS: E ainda é curioso que a idade justifique tanto as besteiras que Dudu (jovem demais) e Silvio Santos (velho demais) fazem. Mas não protege Maisa em instante algum. Nem do que passou, nem das críticas por sua suposta “grosseria”.

impunidade

Impunidade masculina segue firme (e nós seguimos com medo)

A violência contra a mulher é um mal sistêmico ao qual absolutamente todas estamos sujeitas. A configuração de nossa sociedade é o que nos empurra para essa situação, onde as que não sofreram ainda alguma situação de violência de gênero aprenderam a conviver com o medo dela.

E a forma como são tratados os agressores não apenas cria sentimentos de injustiça e impotência, como também reforça a insegurança. No caso do estupro, por exemplo, estima-se que apenas 3% das denúncias resultam em condenação no Brasil. TRÊS-POR-CENTO. É importante lembrar que calcula-se também que apenas 35% dos estupros no Brasil são notificados. Isso significa que 65% dos casos de estupro não têm a menor chance de condenação.

Impunidade
Imagem: Istoé

Em meio a isso, uma sugestão de lei em tramitação no Senado Federal torna crime hediondo e inafiançável a falsa comunicação de estupro. Atualmente ela se encontra aberta para votação do público, com 21.255 votos a favor e 20.297 votos contra.

Para uma comunicação de crime ser considerada falsa, é necessário muito pouco. Os números acima já demonstram o quanto nosso sistema ainda precisa evoluir para agir adequadamente perante casos de violência sexual. Com nosso judiciário atual, uma denúncia considerada falsa não necessariamente é falsa.

Se essa lei for aprovada, ao não conseguirem reunir provas suficientes (que muitas vezes não existem, pois nem toda violência sexual deixa marcas físicas), além do medo de ver seus agressores impunes, mulheres abusadas também deverão temer a cadeia.

A impunidade masculina conta ainda com ferramentas poderosas para sua própria manutenção. Quanto mais alta sua posição na pirâmide social, maior a chance de um homem não pagar pelos seus atos. E a ausência de penalidade não aparece apenas no âmbito judicial, mas contempla todos as esferas da sociedade.

Sempre que um caso de assédio, estupro, violência doméstica ou qualquer outra opressão de gênero repercute na mídia, uma boa parcela da população se arma em defesa do agressor. Vide textos já postados aqui no blog, sobre os casos dos atores José Mayer e Johnny Depp.

São tantos exemplos, alguns já repetidos diversas vezes, mas as listas crescem cada vez mais. Assédio na Playboy. Abuso e assédio sexual por Cassey Affleck. Agressão e violência psicológicas televisionadas em reality show. Goleiro Bruno. Isso, para citar apenas alguns dos casos que repercutiram este ano. E ainda estamos em abril.

 

Da esquerda para a direita: André Luís Sanseverino e Marcos Aurélio de Abreu (presidentes da Playboy), Casey Affleck, Marcos e Bruno. (Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio via Canva)

 

Os dois últimos devem ser comentados aqui. A espetaculização de um caso de violência contra a mulher marcou o caso do Big Brother Brasil, em que Marcos (37 anos) agrediu diante de câmeras sua parceira Emily (21).

Providências tomadas pela Globo? Nenhuma. Ao menos não até que a polícia do Rio de Janeiro começar a investigar o caso e determinar a expulsão do participante. Isso, pouco depois da repercussão do caso José Mayer, que resultou apenas no afastamento do ator. Novamente, reforçando: a emissora não fez nem a sua obrigação.

O público também tem a sua parcela de culpa na criação do circo em torno da situação, já que é a audiência que guia as ações da emissora e sua insistência em sustentá-la. Importante lembrar que, inclusive, Marcos teve a preferência do público para ficar no programa mesmo depois que as agressões viralizavam pela internet, e à época de sua expulsão, a hashtag “forcamarcos” chegou aos Tredding Topics no Twitter.

Para fechar (ao menos por enquanto), no dia 22 de abril, Marcos publicou uma carta aberta para Emily em que se colocava como vítima da situação, inclusive a culpabilizando por denunciar sua agressão. E além de ele continuar recebendo apoio, internautas agora caem na mesma linha de raciocínio e acusam Emily de falsa e aproveitadora, espalhando a nova hashtag “emilyjudas”.

Já sobre o goleiro Bruno, caso antigo que voltou a receber atenção este ano com a soltura do jogador, dois pontos. O primeiro: acusado de mandar matar e ocultar o corpo da ex-companheira Eliza Samúdio (que estava grávida), Bruno tem fã-clube, assédio (positivo) de público em busca de selfies e autógrafos e foi contratado pelo time Boa Esporte Clube. Tratado como celebridade por um número muito maior de pessoas que se esperaria de alguém que ainda nem mesmo pagou pelo seu crime.

Segundo ponto: o Boa amargou a péssima repercussão da contratação, perdendo patrocinadores. Bruno voltou à prisão por decisão STF. É um ponto positivo, sim, mas que infelizmente não apaga todos os pontos negativos que já vivenciamos. É sempre bom lembrar que cada vitória conta, mas uma sociedade machista sempre nos colocará em risco.

Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” Simone de Beauvoir

É por isso que é tão importante não nos silenciarmos. Para não deixarmos que nossos direitos nos sejam tomados e para lutar para que agressores sejam punidos. E outra coisa que eu sempre insisto quando reclamam da repercussão que damos para esses casos, como se “não soubessemos perdoar”:

Muitos deles têm como única punição a repercussão negativa espalhada por nós. Se você é um dos que nos criticam, por favor: nos deixem falar. Já é tão pouco comparado com o que realmente é justo, e querem nos calar. Nos deixe ao menos fazer algo, mesmo que seja pouco, para tentar equilibrar essa balança. Porque o mundo está cheio de advogados para os homens, contra muito poucos promotores. E isso não é, de forma alguma, justiça.

Virgínia Woolf e a luta pelo espaço da mulher – Parte II

Como seguir o caminho do feminismo sempre remendado pela sociedade? 

 

Foto: Google Imagens

 

No Entendendo o Feminismo da semana passada (12/04), publicamos a primeira parte do texto Profissões para Mulheres, da ensaísta, escritora e editora britânica, Virgínia Woolf. O texto foi produzido especialmente para um encontro entre profissionais na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, pela qual a escritora foi convidada para falar sobre suas experiências profissionais. Era 21 de janeiro de 1931, ano em que muitas mulheres começaram a ingressar no mercado de trabalho britânico. Hoje publicamos a segunda parte do texto, lido por Woolf nesse encontro.

 

Profissões para mulheres

Parte II

 

Mas retomando a história de minhas experiências profissionais. Recebi uma libra, dez xelins e seis pences por minha primeira resenha, e comprei um gato persa com esse dinheiro. E aí fiquei ambiciosa. Um gato persa é uma coisa ótima, disse eu; mas um gato persa não chega. Preciso de um carro. E foi assim que virei romancista – pois é muito estranho que as pessoas nos deem um carro se a gente contar uma história para elas. E é ainda mais estranho, pois a coisa mais gostosa do mundo é contar histórias. É muito mais agradável do que escrever resenhas de romances famosos. Mas, se é para atender à secretária de vocês e lhes contar minhas experiências profissionais como romancista, preciso falar de uma experiência muito esquisita que me aconteceu como romancista. E, para entende, primeiro vocês têm de tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Acho que não estou revelando nenhum segredo profissional ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser o mais inconsciente possível. Ele precisa se induzir a um estado de letargia constante. Ele quer que a vida siga com toda a calma e regularidade. Enquanto escreve, ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas um dia depois do outro, um mês depois do outro, para que nada venha a romper a ilusão em que vive – para que nada incomoda ou perturbe os misteriosos movimentos de farejar e sentir ao redor, os saltos, as arremetidas e as súbitas descobertas daquele espírito tão tímido e esquivo, a imaginação.

Desconfio que seja o mesmo estado de espírito para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês imaginem uma moça sentada com uma caneta na mão, passando minutos, na verdade horas, sem molhar a pena no tinteiro. Quando penso nessa moça, a imagem que me ocorre é alguém pescando, em devaneios à beira de um lago fundo, com um caniço na mão. Ela deixava a imaginação vaguear livre por todas as pedras e fendas do mundo submerso nas profundezas de nosso ser inconsciente. Então vem a experiência, a experiência que creio ser muito mais comum com as mulheres do que com os homens que escrevem. A linha correu pelos dedos da moça Um tranco puxou a imaginação. Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes maiores. E então bateu em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada, tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do sonho. E de fato ficou na mais viva angústia e aflição. Falando sem metáforas, ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela, como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe dizia que os homens ficariam chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que escrevem – ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois, embora sensatamente o homens e permitam grande liberdade em tais assuntos, duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a mesma liberdade nas mulheres.

Então, essas foram duas experiências muito genuínas que tive. Foram duas das aventuras de minha vida profissional. A primeira – matar o Anjo do Lar – creio que resolvi. Ele morreu. Mas a segunda, falar a verdade sobre minhas experiências do corpo, creio que não resolvi. Duvido que alguma mulher já tenha resolvido. Os obstáculos ainda são imensamente grandes – e muito difíceis de definir. De fora, existe coisa mais simples do que escrever livros? De fora, quais os obstáculos para uma mulher, e não para um homem? Por dentro, penso eu, a questão é muito diferente; ela ainda tem muitos fantasmas a combater, muitos preconceitos a vencer. Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez?

São perguntas que gostaria de lhes fazer, se tivesse tempo. Na verdade, se insisti nessas minhas experiências profissionais, foi porque creio que também sejam as de vocês, embora de outras maneiras. Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto – quando nada impede que uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública –, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver as dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente. Toda a questão, como eu vejo – aqui neste salão, cercada de mulher que praticam pela primeira vez na história não sei quantas profissões diferentes –, é de importância e interesse extraordinário. Vocês ganharam quartos próprios na casa que até agora era só dos homens. Podem, embora com muito trabalho e esforço, pagar o aluguel. Estão ganhando suas quinhentas libras por ano. Mas essa liberdade é só o começo; o quarto é de vocês, mas ainda está vazio. Precisa ser mobiliado, precisa ser decorado, precisa ser dividido. Como vocês vão mobiliar, como vocês vão decorar? Com quem vão dividi-lo, e em que termos? São perguntas, penso eu, da maior importância e interesse. Pela primeira vez na história, vocês podem fazer essas perguntas; pela primeira vez, podem decidir quais serão as respostas. Bem que eu gostaria de ficar e discutir essas perguntas e respostas – mas não hoje. Meu tempo acabou, e paro por aqui.

 

*Virgínia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942. 

 

 

 

Virgínia Woolf e a luta pelo espaço da mulher – Parte I

Como seguir o caminho do feminismo sempre remendado pela sociedade? 

 

Foto: Google Imagens

 

Mudar a opinião comum de uma sociedade requer séculos de insistência, argumentação e luta. É como lutar contra uma árvore plantada e cuidada diariamente desde o século 19, criando suas raízes hoje inabaláveis. Assim foi com o machismo. Assim é o preconceito em geral, bem como as crenças populares – manga com leite. E por mais que exista um grupo forte, consolidado na sensatez, a cegueira permanece. Lidar com uma nova verdade, a cegueira branca, desperta medo, raiva e violência.

O feminismo é uma prova disso. A inserção da mulher no mercado de trabalho, no seu reconhecimento enquanto cidadã, eleitora, consumidora ativa, formadora de opinião e líder, são acontecimentos presentes no mundo que tiveram o start na era industrial, no século XVIII. Ainda assim, presenciamos declarações impostas e generalizadas sobre o verdadeiro lugar e função da mulher para com ela mesma, a família e humanidade.

Avançamos em diretos cidadãos, retrocedemos quanto a violência doméstica. Avançamos no mercado de trabalho, retrocedemos na disparidade salarial. Avançamos na Lei Maria da Penha, retrocedemos nos casos diários de assédio e estupro.

Trata-se de um trabalho de costureira. Você faz o corte e começa a costura, mas a linha arrebenta. Refaz a linha, refaz o caminho, mas novamente arrebenta. Começa de novo. Refaz. Refaz. Refaz. Vamos remendando até um dia chegar lá. E é um remendar que está sendo feito há séculos.

Virgínia Woolf, ensaísta, escritora e editora britânica, observou e escreveu sobre essa luta constante em um momento importante da Inglaterra. Em 21 de janeiro de 1931, ano em que muitas mulheres começaram a ingressar no mercado de trabalho do país monarca, Woolf foi convidada para um encontro na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, onde leu o texto Profissões para Mulheres. Publicamos hoje a primeira parte, sendo a segunda disponibilizada na próxima quarta, sempre na coluna Entendendo o Feminismo.

 

Profissões para mulheres

Parte I

 

Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer. Minha profissão é a literatura; e é a profissão que, tirando o palco, menos experiência oferece às mulheres – menos, quero dizer, que seja específicas das mulheres. Pois o caminho foi aberto muitos anos atrás – por Fanny Burneym Aphra Behn, Harriet Martineau, Jane Austen, George Eliot ¹ -; muitas mulheres famosas e muitas outras desconhecidas e esquecidas vieram antes, aplainando o terreno e orientando meus passos. Então, quando comecei a escrever, eram pouquíssimos os obstáculos concretos em meu caminho. Escrever era uma atividade respeitável e inofensiva. O riscar da caneta não perturbava a paz do lar. Não se retirava nada do orçamento familiar. Dezesseis pences bastam para comprar papel para todas as peças de Shakespeare – se a gente for pensar assim. Um escritor não precisa de pianos nem de modelos, nem de Paris, Viena ou Berlim, nem de mestres e amantes. Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras, antes de dar certo nas outras profissões.

Mas vamos à minha história – ela é simples. Basta que vocês imaginem uma moça num quarto, com uma caneta na mão. Só precisava mover aquela caneta da esquerda para a direita – das dez à uma. Então ela teve uma ideia que no fundo é b em simples e barata – enfiar algumas daquelas páginas dentro de um envelope, colar um selo no canto de cima e pôr o envelope na caixa vermelha d esquina. Foi assim que virei jornalista; e meu trabalho foi recompensado no primeiro dia do mês seguinte – um dia gloriosíssimo para mim – com uma carta de um editor e um cheque de uma libra, dez xelins e seis pences. Mas, para lhes mostrar que não mereço muito ser chamada de profissional, que não conheço muito as lutas e as dificuldades da vida de uma mulher profissional, devo admitir que, em vez de gastar aquele dinheiro com pão e manteiga, aluguel, meias e sapatos ou com a conta do açougueiro, saí e comprei um gato – um gato lindo, um gato persa, que logo me criou sérias brigas com os vizinhos.

Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento? Mas esperem aí. Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre um romance de um homem famoso. E quando eu estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, “O Anjo do Lar”. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era exatamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo. E, quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto.

Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura”. E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro – digamos, umas quinhentas libras anuais? –, e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir. Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela.

Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo em busca de aventuras. Mas foi uma experiência real; foi uma experiência inevitável para todas as escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atividade de uma escritora.

Mas continuando minha história: o Anjo morreu, e o que ficou? Vocês podem dizer que o que ficou foi algo simples e comum – uma jovem num quarto com um tinteiro. Em outras palavras, agora que tinha se librado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é “ela mesma”? Quer dizer, o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato esta é uma das razões pelas quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da maior importância.

 

*Virgínia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942.

** Continua na próxima quarta-feira (19), na coluna Entendendo o Feminismo

 

A ‘Cidade Persa’ de Marjane Satrapi

Nascida em Rasht e crescendo durante os primeiros anos da guerra Irã- Iraque em Teerã, a franco-iraniana Marjane Satrapi o qual adotou o nome artístico de Marjane Ebhamis anos mais tarde, passou a ser conhecida como a primeira mulher do Oriente Médio a ser indicada ao Oscar por sua série animada adaptada de seus quadrinhos, Persépoles, que retrata da sua infância até a vida adulta.
Crescendo num âmbito familiar instruído e politizado, pois seus pais eram comunistas, Marjane foi criada ouvindo histórias sobre os rebeldes e a queda do governo do Xá, Ruhollah Khomeini,  formando suas próprias opiniões sobre diversos assuntos, como os diretos femininos e religião. Ainda na pré adolescência, ao desafiar o sistema fanático de seu rígido colégio, seus pais decidiram manda-la para morar com uma amiga da família na Áustria, visando livrar-la da represália ditatorial.
Já em Viena ela começou estudar no Liceu Francês de Viena durante todo ensino médio, o qual nesse período teve que sair da casa dos amigos da família, passando pela casa de oito homossexuais, diversas republicas estudantis e pensionatos, o qual desse último, passou a morar nas ruas, adquirindo assim uma pneumonia grave que quase a levou a morte.
De volta a Teerã, mesmo rodeada pelos parentes e pela família, incluindo sua tão amada avó, dona de um perfume peculiar emanado das margaridas em seus seios, presas ao sutiã, Marji, apelido carinhoso de menina, adquirira uma depressão profunda. Após sair do momento depressivo, decidiu por se casar com Reza aos 21 anos por conta das leis iranianas de proibirem o namoro, forçando o matrimônio, mas contrariou as mesmas restrições três anos depois, pedindo o divórcio num país onde as mulheres que o conseguem , passam a ser vistas como constantemente prostitutas.
Com o seu diploma de Comunicação Visual pela faculdade de Belas Artes, a Universidade Islâmica Azad, Marjane se mudou para Estrasburgo, França, mas atualmente mora em Paris, onde trabalha como autora e ilustradora livros infantis.

A invisibilidade da mulher gamer vs a objetificação feminina nos jogos

Cristina Santos, mulher gamer que EXISTE

O post que eu ia trazer hoje seria apenas uma lista sobre games e personagens femininas fortes. Só que, logo no início da minha pesquisa, eu acabei mudando de ideia por achar um reforço para algo que na verdade todo mundo já sabe. Você talvez tenha visto um tweet que comparava os resultados das buscas no Google “bombeiro” e “bombeira”, que inclusive rendeu um post do Buzzfeed com algumas outras profissões.

Que sexualização feminina existe a gente já cansou de falar e repetir (mesmo que alguns indivíduos insistam em se fazer de surdos), mas a comparação ajuda a explicitá-la ainda mais. Pois bem, acontece que na minha PRIMEIRA pesquisa pro post, ao jogar inocentemente as palavras “mulheres videogame” no Google, o resultado que obtive foi esse:

De 21 imagens, 13 são sexualizadas, sendo que entre as que não são apenas duas não carregam estereótipos (e são basicamente a mesma imagem). Seguindo a ideia do tweet e do Buzzfeed, experimentei digitar as palavras “homens videogame” e ver o que apareceria. Obviamente, o resultado foi BEM diferente, como você pode ver abaixo:

Zero, absolutamente ZERO sexualização. Várias imagens de bancos de fotos, alguns memes, charges e… estereótipos sobre mulher. O mais “grave” contra homens pode ser a piadinha de que eles largam tudo por um videogame. Mas a contrapartida nessas mesmas piadas é a ideia que mulheres são impacientes e encaram isso como megeras. E, claro, jamais poderiam jogar com seus parceiros, onde já se viu? Videogame pra mulher só se for ferramenta de sedução, mesmo. E essa ideia se reforça quando você desce para as páginas seguintes:

Mesmo na pesquisa sobre homens, ainda aparecem aqui e ali imagens de mulheres sexualizadas

Lembrando que essas pesquisas dão destaque aos resultados mais acessados pelo público. Como isso se relaciona à forma como a sociedade enxerga mulheres gamers (e em geral)? São raros os ambientes realmente receptivos e acolhedores ao nosso gênero, e o universo nerd e principalmente o gamer levam essa máxima a níveis elevados. Mesmo representando 52,6% do público de jogos no Brasil, ainda somos vistas como minoria. E a maioria das mulheres já sofreu algum tipo de assédio ou preconceito nesses espaços, levando muitas a diminuírem o hábito e se afastarem.

Somos invisíveis como consumidoras, mas não como produto. Ou ao menos os nossos corpos não são. Personagens e principalmente protagonistas femininas são menos comuns nos jogos, e, quando aparecem, muitas vezes são postas como meros atrativos para o olhar masculino.

Imagens dos jogos Soul Calibur, Street Fighter, Dragon‘s Crown e Mortal Kombat

Em jogos de luta e RPGs online essa característica é gritante, com personagens sempre curvilíneas e com trajes minúsculos. No segundo, a diferença na forma como personagens masculinos e femininos são tratados explicita ainda mais. Enquanto o visual dos primeiros é trabalhado pensando em funcionalidade e verossimilhança, o dos segundos notavelmente não se preocupa com essas questões.

“‘Armaduras femininas em Fantasia’: uma análise – A ‘armadura com seios’: porque armaduras ajustam ao corpo, não é mesmo? – A ‘armadura com seios +’: Caso você não tenha percebido onde estão os seios, aqui está uma dica sutil! – A ‘qual a porra do sentido’: porque, sério, QUE?” (tradução livre) Além de tudo, a “boob plate” (armadura com seios) ainda poderia matar quem a usasse

Felizmente, esse cenário tem apresentado mudanças, mesmo que lentamente.  Um estudo aponta que a sexualização feminina nos videogames tem diminuído, principalmente se comparado ao seu boom no final da década de 90. Um exemplo claro da forma como o mercado tem notado a necessidade de mudança é o reboot de Tomb Raider. Lara Croft sempre teve sua sensualidade muito explorada (e provavelmente foi uma das personagens que mais contribuíram para a explosão da sexualização), no entanto, em 2013 a personagem voltou com uma aparência mais natural, humanizada e discreta.

Com curvas menos acentuadas (e absurdas) e menos pele à mostra, a sensualidade ainda existe, mas é bem mais sutil

Como tudo na vida, a busca por uma melhor representação nos videogames é uma luta diária. Muitos jogos (como vários de luta e RPG já citados) ainda seguem a mesma cartilha de objetificação e tantos deles não parecem querer mudar a fórmula. Mas saber a importância que isso tem para a gente e a forma como esses valores refletem no tratamento das mulheres no ambiente gamer é muito importante. Não somos objetos. Somos consumidoras e, como consumidoras, queremos nos identificar com as personagens com as quais jogamos, e não nos sentirmos como um mero produto.

Ps: Quanto à lista que citei no primeiro parágrafo, fica para um próximo post. Aguardem que ela ainda virá!

O feminismo e o ensino fundamental

 

Imagem reprodução/internet

 Muito tem se falado sobre feminismo nos últimos anos. O movimento cresceu assim como o ódio por ele.

Mas em dias em que meninas ainda na infância são alvos de pequenos gestos machistas, de opressões mascaradas de brincadeiras e baixa estima, precisamos mais do que nunca iniciar ainda mais cedo a educação aliada ao feminismo.
E eu explico.

Em algumas escolas da região, meninas são obrigadas a passar parte do intervalo, recreio, ou chame como quiser, sentadas para que os meninos possam correr livremente, sem as tocar, sem as observar ou fazer “brincadeiras” sobre seus corpos ainda em formação.

Em algumas escolas é ensinado às meninas que devem se omitir perante os meninos. Que devem não se misturar, não devem fazer as mesmas atividades porque não são apropriadas para meninas.

Como se isso já não fosse ruim, as meninas são as únicas que sofrem a ditadura do uniforme, a advertência pelo tamanho do short, a pressão para estarem sempre alinhadas.

E tem mais: em casa, a rotina dessas meninas não muda. Pois os pais, por hora despreparados, incentivam a anulação das meninas, bem como romantizar os relacionamentos abusivos de desde a infância da criança.

Percebemos que as escolas que se intitulam a extensão de nossas casas, tomaram como regra punir as meninas por serem mulheres. Ora, é mais fácil do que ensinar o respeito aos meninos, afinal eles são homens. É isso é normal, não é?

Se um colega bate em você, isso é sinal de que ele te ama. Se ele puxa seu cabelo é demonstração de carinho. Se ele te zoa no intervalo é porque secretamente é apaixonado. Se ele passa a mão em seu corpo sem a sua permissão, você devia agradecer por ele te achar linda.

Esse tipo de atitude reforça o machismo e seus privilégios. Esses meninos precisam aprender que ser criança não invalida a crueldade de seus atos. E é na escola onde a gente começa a nossa formação social. É na escola que aprendemos como ser indivíduos de uma sociedade. E é nesta mesma escola que todos deveriam se sentir seguros e confortáveis, independente de sua condição sexual ou gênero.

Isso só vai mudar quando ensinarmos nossas meninas a não se calar. Quando ensinarmos que elas são mais especiais e importantes do que está refletido em um espelho. Que elas podem e devem experimentar toda e qualquer atividade escolar, desde o futebol até a horta comunitária. Que elas não vieram ao mundo para servir e sim para somar. Que elas são lindas, cada uma com sua característica, e que ninguém que diga o contrário deve ser levado em conta.

Isso vai mudar quando meninos, homens, forem punidos por invadir os corpos das nossas meninas. Quando forem punidos por agredirem e violarem o espaço delas. Quando entenderem que mulheres devem ser respeitadas. Quando pararem de responsabilizar as mulheres pelos seus atos.

Temos um longo caminho. Mas pra começar precisamos apenas de um passo.

A Liberdade do Poder

Image: Reprodução/Google

     “Onde estão minhas meninas?” pergunta Taylor Momsen em um show do The Pretty Reckless, na Argentina, em julho de 2012. No show, que eu já vi infinitas vezes, ela usa uma bota de cano longo, que fica acima dos joelhos, e uma camiseta do Che Guevara. Sim, apenas isso. O cabelo loiro, longo e fino chega até a cintura e a sexualidade transmitida vai além da ausência de sutiãs e meias. Vai além dos estereótipos, além do salto, do lápis preto, do rock no fundo: é liberdade que vaza.

     A representatividade da mulher que me transmite liberdade me faz vagar sobre a vida real. Aquela fora do palco, fazendo eu me encontrar com uma adolescente de 17 anos, que foi criada através da ideologia de mulheres comportadas e futuras mães de família. Cair no estereótipo de “boa moça” nunca esteve nos planos, mas a ideologia era forte e persistente. “Aumenta esse shorts”, “sobe esse blusa”, “eu não quero você transando por aí”. Legal, mas e o que eu quero? E a minha liberdade? E o meu prazer? Onde fica?

     Parece tendência podar asas de meninas que querem voar, porque, claro, pássaros fora de gaiolas são donos de si mesmos e sabe-se lá o que pode acontecer. Imagina se elas aprendem a se amar e descobrem, dentro delas, a liberdade da auto-suficiência?  A ideia de uma mulher mandando no próprio sexo deixa a sociedade em choque, já que é a sociedade que nos obriga a seguir roteiros escritos para nós, só que por outras pessoas. Querem que vivamos histórias que não são nossas, com pessoas que não se importam. Porque, seremos sensatas, eles não se importam. Eles não nos querem opinando, pensando, crescendo, vivendo. Mas, pasmem, quem tem que querer, seja o que for, somos nós.

     Não acredito que algum dia a sociedade vá deixar as nossas meninas em paz, mas eu me tornei uma fonte de criação de asas e, cada vez mais, pregadora da liberdade e do direito de viver a vida à sua própria forma. O tabu do sexo nos cria como se querer algo fora dos padrões fosse algo incomum, mas não é. Afinal, o que são padrões? Somos mais do que listas riscadas e mulheres sem histórias. Somos mais do que padrões.

     Hoje sinto minha liberdade vazar. Pelos olhos, pelos dedos, pela boca. Hoje eu entendo que tesão é dizer sim quando quer e, principalmente, falar não; é se permitir querer mudar e poder voltar ao começo quantas vezes quiser. É se sentir bem com suas escolhas e viver com elas; é ser amiga da pequena morte e, ao mesmo tempo, não querer dormir. Liberdade é poder.

     Que poder nunca nos falte.

Exercitando o pensamento crítico: FRIENDS

Reprodução/internet


Este é a o segundo post da experiência que eu me propus a fazer aqui. Leia se quiser entender melhor. Ele também foi feito voltado para pessoas que já assistiram/assistem FRIENDS. Se você for “leigo”, perdoe-me se o texto ficar um pouco confuso.

 

    Depois de falar sobre um dos meus filmes favoritos, é a hora de uma das minhas séries favoritas. “FRIENDS” divide com “Doctor Who”, o topo do ranking das minhas paixões televisivas (não, eu não consigo escolher uma só). Comecei a assisti-la em 2010, fora de ordem, pela Warner. Não foi a primeira série que assisti freneticamente (deve ter sido alguma da Nickelodeon), mas foi a primeira que me fez ir atrás de séries.

     Relutei muito em ver na ordem, para não ter vazio existencial, mas um dia a vontade de ver tudo foi maior que o medo de não ter mais o que assistir. Atualmente estou revendo aos poucos os episódios pelo box que me dei de presente na Black Friday do ano passado. Sim, sou fã, estou em grupos da série, faço inúmeras referências a ela, salvo várias imagens e gifs, sou 100% Mondler shipper, mas isso não me impede de ver seus problemas. A máxima que eu levo não só para esta coluna e para o blog, como para a vida, é que é possível ser fã e raciocinar direito.

     Foto do meu Instagram pessoal pra provar: meu box aí

     Enfim, protocolo seguido, vamos aos elementos que eu quero apontar. Lembrando da questão do cuidado com o anacronismo: ser algo do passado não ameniza as falhas, mas as vezes as “justifica” até certa medida. “FRIENDS” foi exibida entre 1994 e 2004, numa época em que preocupações sobre representatividade, por exemplo, estavam só engatinhando. E esse é, inclusive, o maior problema da produção.

     Além do núcleo principal – não apenas dos protagonistas, mas de todos os recorrentes – ser inteiro caucasiano, em 10 anos de série, apenas 2 pessoas não-brancas apareceram em mais de um episódio. É tanta brancura que nem sei como os dentes do Ross ainda ofuscaram alguém no s6e8. Esse é um padrão que infelizmente era muito forte na época. Ou a série era “de negros” (como “Um Maluco no Pedaço”), ou o elenco é branquíssimo. E isso é algo que ainda hoje tem melhorado beeeeeem devagar.

Charlie e Julie, únicas personagens não-brancas a aparecerem em mais de um episódio. Ambas saíram com o Ross, tendo Charlie saído também com o Joey. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio, via Canva

      A questão LGBT, apesar de mais presente, não é apresentada da melhor forma possível. Até dá para considerar progressista a presença, como personagens recorrentes, de um casal de duas mulheres, que ainda por cima compartilhavam a guarda de um filho com o pai biológico. Mas algumas das piadas sobre isso têm caráter lesbofóbico gritante, mesmo sendo reprovadas pelos próprios personagens da série – o que acaba parecendo uma tentativa falha de amenização, já que o público ri da piada, e não do contexto.

     Sem falar de Charles Bing, pai do Chandler, que na verdade é trans e carrega estereótipos, piadas preconceituosas e desinformações sobre gênero/sexualidade. Apesar da maioria dessas brincadeiras serem feitas sob a ótica de um filho “traumatizado” e mostrando sua lenta desconstrução, há o mesmo problema da situação anterior. O que causa o riso é a ridicularização da personagem trans, e não o preconceito dos demais.

Kathleen Turner como Charles Bing/Helena Handbasket. A personagem é tratada como gay, drag queen, trans, cross-dresser… Enfim, uma enorme confusão. Imagem: reprodução/internet

      A série ainda traz uma falha que as grandes produções até hoje insistem em repetir: a escalação de uma atriz cis para uma personagem trans, o que reduz as já limitadas oportunidades para essas pessoas. E reforça a higienização, uma vez que a sociedade e a mídia em si tendem a acolher (quando acolhem) apenas trans com passabilidade cis.

     Outro problema gritante em “FRIENDS” é a gordofobia. Foram várias as vezes em que o peso de alguém rendeu deboches, e “Fat Monica” é tratada quase como uma personagem à parte, que serve apenas como piada. Na verdade, a série praticamente não tem personagens gordos que não estejam ali única e exclusivamente para provocar risadas pelos estereótipos, em vez de serem tratados como pessoas reais.

    Ainda não dá para não ver o problema do machismo que permeia vários episódios. Apesar das protagonistas femininas serem liberadas sexualmente, outros personagens e até elas mesmas ocasionalmente praticam slut shame umas com as outras. Há piadas que se sustentam em estereótipos de gênero, como o episódio em que Joey estava “virando uma mulher”. E mais uma vez, várias piadas e objetificações são falsamente amenizadas pela reprovação de outros personagens (tá aí algo que parece uma constante).

Imagem: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio, via Canva

    O ódio criado em cima da Emily também é desproporcional, já que sua reação era totalmente coerente com o trauma que havia sofrido. E, por fim, Ross é extremamente machista e um clássico “nice guy”. Mas salvo raríssimas exceções, isso nunca é posto como algo tão negativo quanto de fato é (o que renderia um post inteiro à parte).

    Eu poderia me prolongar em cada tópico e citar situações específicas que me incomodaram (como o fato da Phoebe, personagem com maior potencial feminista da série, ter feito uma vez um comentário desmerecendo a causa). Infelizmente, como típica série americana dos anos 90 que é, FRIENDS tem inúmeros problemas.

Phoebe sobre feministas: “Nós podemos dirigir. Nós podemos votar. Nós podemos trabalhar. O que mais essas garotas quererm?” Ok, não preciso explicar por que isso tá errado, né? Espero que não. Imagem: reprodução/internet

    Mas isso, apesar de me entristecer, não me impede de ainda amá-la. Assim como eu citei vários pontos negativos, eu poderia citar muitos positivos. Mas esse não é o foco desta série de posts, então só me limito a dizer que, quando nós assistimos às coisas que gostamos criticamente, podemos até sofrer um pouco. Mas isso faz muito bem para a nossa consciência, além de até mesmo nos ajudar a valorizar ainda mais as coisas boas.

Reprodução/internet
“Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade” está bloqueado Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade

Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade

 “Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade” está bloqueado Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade
Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio

Eu não sabia se eu deveria mesmo escrever sobre esse assunto na coluna, porque ele está um pouco passado e já foi falado inúmeras vezes. Muitos dos vídeos, textos e comentários feitos, inclusive, continham quase tudo que eu penso sobre. Mas eu sinto que se eu não fizer isso eu estarei sendo omissa, então vou tentar passar minha visão mais pessoal.

À época das notícias sobre a agressão de Johnny Depp à ex-mulher Amber Heard, eu cheguei a elaborar um textinho para postar aqui sobre o assunto, mas por transtornos pessoais acabei não conseguindo. Nele eu falava que se tivesse que escolher um dos dois para oferecer meu benefício da dúvida, seria ela.

Isso não apenas porque “mulheres são sempre inocentes” ou qualquer coisa do tipo. Há evidências contra ele mas não provas concretas, coisa que dificilmente teremos dado o acordo feito entre os dois. Mas isso leva também a não haver provas da inocência dele (e consequente mentira dela).

Meu benefício fica com a Amber simplesmente pela observação de padrões. Como o fato de ela ter retirado as acusações e aceitado um acordo, comum nesses casos (salvo proporções), ainda mais quando o homem é mais influente que a mulher. E o descrédito pelas acusações é um dos motivos que fazem investigações de crimes contra a mulher não irem adiante. Outro padrão que se repete é a invariável culpabilização da vítima. Cheguei a ler recentemente ela sendo julgada por ter retirado a ação, tendo mentido ou não (o que demonstra tanta falta de empatia que eu mal consigo expressar).

Finalmente, há o fator importância que eu já citei. Ele, por ser homem, já tende a ter a imagem mais protegida pela sociedade. Winona Ryder foi pega roubando em lojas e sua carreira nunca mais foi a mesma. Mel Gibson, entre outras ações deploráveis, bateu na ex-namorada e segue renomado. Sendo Depp alguém mais expressivo dentro do meio em que eles estão (e tendo uma legião de fãs absurdamente fiéis, por sinal), isso se potencializa. A imagem de Amber é que fica manchada, tendo mentido ou não. Ela inclusive correu risco de perder seu papel no filme da Liga da Justiça à época das denúncias.

Bojack Horseman. Imagem: O Filme é Legal, Mas

Depois de explicar minha posição sobre o caso em si, é hora de falar sobre a escalação. Harry Potter é uma coisa tão ligada à minha vida e à minha história que eu nem lembro mais como eu era antes de conhecer a saga. Fui apresentada a ela aos 8 anos, quando minha tia me indicou o primeiro livro – “já que você gosta tanto de ler, tá saindo filme dele agora” –, e depois disso não parei mais. O fato de ter tido contato com ela tão jovem ajuda a mesclá-la ao que eu sou, mas não dá para negar que é uma obra com potencial transformador.

Os livros falam sobre tolerância, respeito, amizade, coragem e outros valores que são essenciais para qualquer ser humano. Valores que, por mais óbvios que pareçam, não são todos tão facilmente encontrados assim. Caso contrário, não existiria tanta injustiça e opressão no mundo, e nem este blog em que agora escrevo precisaria existir. Mas há pessoas que sabem a importância dessas questões e me atrevo a dizer que algumas delas aprenderam isso com Harry Potter. Não sem bases: leitores de Harry Potter são menos propensos a serem preconceituosos, segundo estudos.

J.K. Rowling esteve em um relacionamento abusivo antes da fama e chegou a ser agredida pelo ex-marido. Este fato foi uma parte triste e importante da sua trajetória, tendo inclusive contribuído para sua depressão, que mais tarde inspiraria a criação dos Dementadores (e quem os conhece e/ou teve a doença sabe o quanto ambos podem ser terríveis).

É por esses motivos que para mim (e para uma boa parcela do público) a saga é simplesmente incompatível com a presença do Johnny Depp, ainda mais em um papel de destaque como Grindelwald. Eu entendo que contratos são complicados e que as gravações provavelmente ocorreram antes das acusações, mas por bem menos atores são substituídos. Jammie Waylett, que interpretou Crabbe, não retomou o papel no último filme por ter sido condenado por porte de drogas. Para seu azar, Waylett nunca teve o renome de Depp.

Isso, sem falar que o diretor David Yates defendeu a escolha amenizando o acontecimento e, em outras palavras, reforçando a ideia de que “vida pessoal não interfere em vida profissional”. Ou seja, dando a entender que Depp seria escolhido de todo modo. Como eu citei acima, isso seria verdade se substituições não fossem feitas apenas pela vida pessoal dos atores, e se a imagem de um filme não estivesse intrinsecamente ligada à imagem de sua equipe.

Seguir dando destaque e defendendo um ator acusado de violência contra a mulher é reforçar a sensação de impunidade com a qual nós já estamos tão acostumadas a conviver. Todas as nossas ações são políticas, absolutamente tudo. Por que uma produção audiovisual de amplo alcance e influência, que inclusive prega ideais de justiça, não o seria?

Mais um ponto que me incomoda: o fato de eu rejeitar a escolha por motivos ideológicos leva as pessoas a descartarem todos os meus outros motivos. MESMO se Johnny Depp não estivesse envolvido nessas polêmicas eu não teria gostado. O fato de ele ser americano e o personagem alemão (ou coisa do tipo) é o menor dos problemas (mas é um deles).

Eu já fui fã dele, e costumava defender que, apesar dos trabalhos ruins, ele também podia ser muito bom. Mas eu não era cega e sabia que quanto mais “pop” era o filme, pior era sua atuação. E qualquer coisa ligada ao nome Harry Potter é inegavelmente pop. Ir de um vilão tão bem interpretado como o Voldemort de Ralph Fiennes para um Grindewald muito provavelmente caricato não me agrada nem um pouco.

E os dois aspectos nem precisam ser totalmente desassociados. Yates defendeu a escolha com base na ideia de que Depp seria o melhor para o papel. O fato dele não ser só dá mais força para a ideia de que não importa nem se a pessoa está envolvida em um caso de agressão, nem se ele não é tão essencial assim para a trama: ele vai seguir impune.

Por fim, lembro que sim, eu realmente acredito na ressocialização e recuperação das pessoas, mas isso não significa que eu deva aceitar impunidade. E é isso que esse caso GRITA em todos os seus aspectos. Sem falar que em menos de um ano após as denúncias Depp já está sendo não apenas defendido, mas também vangloriado e recebendo aplausos. E, meus amigos, se isso não é um belo tapa na cara de qualquer pessoa que luta pelo fim da violência contra a mulher e sua banalização, eu não sei mais o que é.