A única coisa que fere é manhã pós-amor

Novo livro de Aline Dias mergulha na prosa poética

O verão de Aline Dias foi na Bahia, com a promessa de que voltaria com um livro. Em seu regresso para Vitória, percebeu que suas vivências e jornadas pelo litoral baiano se transformaram em páginas de prosa e poesia. “A única coisa que fere é manhã pós-amor” é o terceiro livro de Aline, “pequeno porque está muito denso”, afirma. No vídeo abaixo, a escritora e jornalista capixaba, de mudança para Recife (PE), fala sobre a construção espontânea e intensa da obra, da viagem de autoconhecimento e  a coragem para se jogar.

Lançamento

“A única coisa que fere é manhã pós-amor” será lançado em Vitória, seguindo para outras duas cidades, pertencentes à jornada da escritora: Iúna (ES) e Trancoso (BA). Acompanhe o evento no Facebook. O livro também pode ser adquirido no valor de R$15,00 pela página da Editora Cousa.

A autora

Aline Dias nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, em 1988. Publicou “Vermelho” (2012), “Além das Pernas,” (2015) e organizou a coletânea “Sem a Loucura não Dá” (2017), com contos inspirados em músicas de Sergio Sampaio. Aprendeu a chorar este ano e acredita no amor.

A única coisa que fere é manhã pós-amor

Editora: Cousa

Páginas: 63 páginas
Valor: R$ 15,00

Jornalista cultural escreve sobre literatura contemporânea

Livros por Lívia: jornalista escreve sobre suas leituras

No ar há quatro anos, blog reúne resenhas de autores contemporâneos

www.livrosporlivia.com

 

     Baiana de Salvador, Lívia Corbellari reside no Espírito Santo desde os sete anos de idade – Vitória é sua cidade natal do coração. Aos 27, a jornalista cultural mantém uma profunda relação com a literatura desde suas primeiras leituras. “Me encanta muito conhecer outras histórias. A leitura sempre me ajudou a lidar com meus próprios problemas”, lembra.

Suas resenhas literárias deram vida ao Livros por Lívia, blog que reúne reportagens e resenhas de autores contemporâneos. Hoje com quatro anos de funcionamento, o endereço é referência na divulgação de obras capixabas, sendo ponte também de outros projetos, a exemplo do Cachaçada Literária, evento propõe aproximar o público leitor dos escritores de forma descontraída – com sarau, apresentações musicais e drinks especiais. Nessa simples entrevista para coluna Ideia D´elas, Lívia Corbellari fala sobre a trajetória do blog, literatura feminina e o mercado de editoras independentes.

“Finalmente estamos tendo voz”

Lívia Corbellari

ANA: O Livros por Lívia¸ até onde sei, começou com o objetivo de publicar resenhas de obras capixabas. Como foi o desenrolar desse objetivo?

LÍVIA CORBELLARI: Na verdade, no começo era muito mais amplo. Eu resenhava tudo que eu lia, livros capixabas, de outros estados, de outros países. Em 2013, eu trabalhava como jornalista cultural no Século Diário [jornal online de Vitória] e recebia muitos livros de diversas editoras. Fui percebendo que quando resenhava um livro daqui, o retorno era muito mais legal, o autor vinha falar comigo e muitas pessoas iam atrás do livro porque não sabiam que tinha literatura de qualidade sendo produzida aqui.

O Livros por Lívia nasceu como um portfólio desses textos que eu escrevia para o jornal e aos poucos foi ganhando vida própria. Foi nesse momento que resolvi focar nos autores daqui. Depois o blog foi desenvolvendo outros trabalhos envolvendo autores capixabas, como produção de eventos, lançamentos de livros, assessoria para escritores e o próprio Cachaçada Literária.

ANA: Escrever sobre literatura requer um conhecimento aprofundado, mais sensível às palavras e leitura. Quando e como se deu sua relação com a literatura?

LÍVIA: De fato, a leitura quando você vai escrever sobre a obra é diferente. Às vezes, leio duas vezes. A primeira só para me divertir mesmo e a segunda para escrever, onde separo trechos interessantes, faço observações, busco referências. Sobre a minha relação com a literatura, não lembro bem quando começou. Acho que desde que aprendi a ler, eu estou lendo rsrsrs. Claro que essa relação foi mudando com o tempo. Acho que me encanta muito conhecer outras histórias, a leitura sempre me ajudou a lidar com meus próprios problemas.

ANA: Para a produção das resenhas literárias, quais critérios você utiliza para escolher a obra a ser resenhada e como esta análise é feita?

LÍVIA: Meu critério é muito subjetivo. Eu leio de tudo, mas acabo resenhando só o que eu gosto. Ainda não consigo escrever textos negativos sobre os livros, quando não gosto, prefiro não escrever. Eu faço críticas e aponto as questões que não gostei, mas não me sinto uma crítica literária porque me falta estudo, acaba sendo algo intuitivo mesmo. Minhas resenhas são sobre o que senti lendo o livro, elas quase beiram a crônicas.

Escritoras capixabas: Cora Made

ANA: Como você avalia o mercado editorial e a produção literária capixaba?

LÍVIA: A literatura produzida aqui é muito diversa, temos romances policiais, contos longos, contos curtos, poesia de diversos estilos e temos escritores e escritoras produzindo em igualdade e muitos escritores das idades mais variadas. A literatura tem se voltado cada vez mais para mercados pequenos e de nicho e aqui no estado temos esse mercado bem dinâmico também.

ANA: Em Vitória, temos um crescimento visível de escritoras e poetas. Mulheres escrevendo sobre mulheres. Qual a importância desse novo movimento da literatura feminina para nossa cidade?

LÍVIA: Esse movimento é muito importante e é incrível. Vejo as meninas se movimento em todas as áreas e não só na literatura, finalmente estamos tendo voz. Claro que o caminho ainda é muito logo, mas estamos dando um primeiro passo para as novas gerações terem muito mais espaço do que nós tivemos.

ANA: Quais obras de escritoras que te marcaram você recomenda?

LÍVIA: A teus pés, de Ana Cristina Cesar; Um útero é do tamanho de um punho, de Angelica Freitas; Amora, de Natalia Borges; Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi; Afazeres domestico, de Lilian Aquino.

ANA: E escritoras capixabas?

LÍVIA: Aline dias, Isabella Mariano, Fabíola Colares, Sarah Vervloet, Cora Made, Benadette Lyra e Ingrid Carrafa.

Acompanhe as resenhas e os projetos divulgados pelo blog

Site: www.livrosporlivia.com

Facebook: @livrosporlivia

Quatro livros de simples leitura sobre feminismo

 

A introdução do feminismo desde cedo se faz fundamental para o inicio de um empoderamento e para a quebra da sociedade machista construída pela cabeça patriarcal que vem perdurando de séculos ate os dias atuais.

Por esse motivo fiz uma seleção de livros com historias, e introduções ao feminismo de fácil leitura para todas com uma linguagem acessível a todas.

 

(divulgação)

     1-     Capitolina (Varias autoras) 

Uma seleção de textos de diversos temas escritos por feministas na revista virtual Capitolina (As ilustrações também.

 

 

(divulgação)

     2-     Eu quero ser eu (Clara Averbuck)

Com humor, senso critico e sensibilidade, a escritora Clara Averbuck conta a historia de uma menina rebelde que se recusava a mudar sua opinião para se encaixar na normalidade do mundo atual

 

 

(divulgação)

 3-  O Que É O Feminismo (Branca Moreira)

O livro da Branca Moreira confronta os problemas vivenciados pelas mulheres na sociedade atual fazendo um paralelo com os tempos medievais.

 

(divulgação)

     4-     Feminismo e política (Flavia Birolli e Luis Felipe Miguel)

O livro destaca temas de debates feministas e políticos explicando as teorias de forma simples fazendo com que todas as mulheres compreendam e se familiarizem com o assunto.

AMOR (IM)PROVÁVEL

Quando a noite cai, surge a mais solitária das estrelas. Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno, brilho esse que atrai muitos olhares. Nenhum que a fizesse feliz. Não posso dizer que ela não conhecia a felicidade, mas garanto a vocês, ela estava incompleta. Sempre cercada de outros como ela, sempre cercada de outros diferentes dela, sempre olhando ao redor à procura de algo mais.

A noite caiu, Sirius surgiu. Sua procura estava quase no fim quando se deparou com o olhar do Astrônomo. Seus lindos olhos a atraíam de forma extrema, era como se eles fizessem um pedido… “Sorria para mim, minha linda estrela”. E assim ela o fez.

E essa cena foi se repetindo por muitas noites. Eles se encontravam (da maneira que lhes era possível), conversavam, sorriam, se olhavam, se sentiam, se amavam. Mas Sirius tentava ir contra tudo o que se passava. Como poderia se deixar apaixonar por alguém tão inalcançável? Jamais poderiam ficar juntos!

Ela quis aumentar a distância entre eles, mas não conseguiu. E de que forma? Não era possível se afastar, tarde demais para fugir e intenso demais para ignorar.

Ao mesmo tempo em que ela negava seus sentimentos, ela também se apegava. Passou a enxergar um homem incrível. “Ele é tão inteligente, dedicado, carinhoso, verdadeiro, apaixonado… eu estou apaixonada”, assim ela começou a pensar.

O Astrônomo alcançou o coração da estrela. E de tal forma, que não foi necessário criar uma galáxia para viverem juntos, Sirius desceu do céu só para poder entregar todo o amor que ele despertou dentro dela. Não era mais necessário procurar por algo que a fizesse feliz. A estrela mais brilhante do céu noturno uniu-se a um Astrônomo para provar ao mundo que o amor existe para todos. Não importa onde você está.

Cinco poemas contemporâneos escritos por brasileiras

                                                 Foto: Tumblr


Todos já conhecem (por vezes idolatram) os clássicos da poesia, constituído em grande maioria por homens, e alguns clichês cometidos pela sentimentalidade.
Pensando nisso fiz uma seleção de cinco poemas contemporâneos não apenas escrito por mulheres, mas por mulheres brasileiras que marcam o cenário da poesia atual com força, leveza, e diferencial.
   1-    Da menina, a pipa
 
Da menina a pipa
e a bola da vez
e quando a sua íntima
pele, macia seda, brincava
no céu descoberto da rua
um barbante áspero,
másculo cerol, cruel
rompeu a tênue linha
da pipa-borboleta da menina.

E quando o papel 
seda esgarçada 
da menina
estilhaçou-se entre
as pedras da calçada
a menina rolou
entre a dor 
e o abandono.

E depois, sempre dilacerada,
a menina expulsou de si
uma boneca ensangüentada
que afundou num banheiro
público qualquer.
– Conceição Evaristo, em “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.


     2-    memória (I)

As unhas não guardam
marcas dos amores que,
delicadas, destroçaram.

Os olhos não retêm
a memória das imagens
indecifradas.

Com a lembrança pousada
na praia antiga de um beijo,
procuro
desatenta
traçar o mapa do desejo,
sua secreta geografia.

  – Ana Martins Marques

3-    Bendita palavra

No escuro dos olhos fechados me equilibrar do desejo
a cama fluída como mar
o peito macio de ar e de risos
sussurros suspiros sumiços no espaço
Detesto seus banhos em outras banheiras
e as músicas lindas que tinha por lá
tudo teu bonito eu quero
o de antes – o de antes
Quero o que dói e o que grita
teu suor, teus sonhos ruins
quero ser cura e veneno
quero o prazer mais pequeno que você puder sentir
Quando o planeta rugir
e o infinito for possível em todas as direções
quero ser um nos teus dentes
teu nome em mim feito um filho
feito gente
feito carne de pegar
 – Maria Rezende  livro “Bendita palavra”, Editora 7Letras]

 4- Dans L´air

Tínhamos a mesma idade 
Quando vimos o mar 
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
Rimbaud e eu –

Por isto 
Pisamos telhados 
Ao invés do chão
     Por isto 
     Machucamos nossos amores
     Com nossas próprias mãos

Por isto 
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe 

     Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.
 – Barbara Lia

     5-    Eu-Mulher

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
– Conceição Evaristo, em “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Dama da noite – por Ana Paula Lopes

No princípio, era apenas uma estrela, um pequeno ponto brilhante entre tantos que enfeitava a infinita escuridão daquela noite de outono. Não era nenhuma estrela especial. Apenas uma ideia solta, flutuando no céu. Sabe-se lá por que razão não se perdeu no espaço. Talvez porque soubesse que ser somente mais uma entre tantas não era suficiente, talvez porque estivesse presa a Terra, porque estivesse presa a você.
Todas as noites a estrelinha aparecia no céu e ficava horas piscando consigo mesma, tentando de todo modo imaginar o que se passava em sua mente. Pobre estrelinha… descobriu que, na verdade, o que a prendia a você era amor, em toda a sua pureza e simplicidade.
Mas uma estrela não pode amar um homem. Ela está tão longe, tanto que seu calor nunca tocaria o coração de seu amado. Pôs-se, então, a chorar lá do céu. Vendo as lágrimas de luz que lançava sobre a Terra, a bondosa Lua se compadeceu da estrela:
– Diga-me, filha, por que chora?
– Meu amado, senhora Lua, nem sabe que existo. Eu, daqui de cima, só posso brilhar e esperar que ele me veja. Mas parece que ele nunca olha pra mim…
– Compreendo sua dor. Gostaria de poder ajudá-la de alguma forma.
– Oh, não! – disse a estrelinha se apagando entre soluços – A menos que consiga me mandar à Terra, não há nada que possa fazer. 
A Lua sorri redondamente mostrando toda sua face iluminada de sol. 
– Acho que posso ajudá-la… – respondeu a Lua – mas você deve saber que para descer até ele, não poderá ir com sua forma original. Diga-me o que gostaria de ser, entre qualquer dos seres terrestres, e lhe realizarei o pedido.
A estrelinha lançou um ultimo brilho sobre você, que estava sentado sozinho na praça com uma flor nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê…
– Faça de mim uma flor – pediu a estrelinha – mas que possua o mais doce perfume, para que ele saiba que estou lá.
Assim a Lua fez. Logo que a cidade adormeceu, ela desceu à Terra, mas já sem seu brilho de estrela, agora era uma flor, tão branca, tão pequena e tão delicada que passaria despercebida a olhos desatentos. Seu perfume, porém, era tão doce que chegava a ser enjoativo a narizes mais sensíveis. 
Orgulhosa de si mesma, a estrelinha que agora era flor, agradeceu a Lua com um balanço de suas folhas ao vento, ao que a Lua respondeu com um sorriso de luz.
Com o passar dos dias, a flor crescia e expandia rapidamente seus ramos e flores, mas você parecia não se importar com a presença de uma nova planta na praça. Vinha até ela, sentava-se ao no banco seu lado, mas nem olhava para a pobre flor que insistia em envolvê-lo com seu perfume. 
O que haveria de se passar em sua mente sempre que vinha para a praça se assentar naquele banco? E a flor se irritava por não entender você. Queria gritar para que você ouvisse, queria que você a notasse ao seu lado. Mas flores não falam, assim como as estrelas.
Foi quando a flor percebeu que se as estrelas não podiam amar um homem, as flores também não, pois nenhuma das duas tem o poder de confessar esse amor. De que valeu então abandonar sua vida de estrela para se tornar uma simples flor presa a terra por suas raízes que não a deixavam se mover? Como doía vê-lo partir todas as noites sem que nada ela pudesse fazer que não fosse deixá-lo ir.
Se uma flor pudesse chorar, aquele seria o momento, já que havia se tornado tão simples, se rendido tão completamente a um amor impossível. Uma flor não podia amar um homem, pois este nunca entenderia este amor. 
Numa dessas noites que você ia a praça, a flor conseguiu, enfim, ver o motivo de seus passeios noturnos por ali. A sombra de uma moça que se formou pela janela atraiu como ímã seus olhos atentos. Era ela a dona de seu coração.
A florzinha ficou triste, pois sabia que não podia competir com uma mulher de verdade, nem que fosse somente com sua sombra, pois flores não têm olhos sedutores, nem lábios delicadamente pintados. Nunca poderia abraçá-lo, nem sequer dizer o quanto o amava.
Então a florzinha chorou lagrimas de orvalho. Lágrimas que foram logo acolhidas pelo brilho da bondosa Lua.
– E desta vez, minha filha, por que chora?
Pobre florzinha… Soluçava perfumosa de arrependimento. Como pode acreditar que o simples fato de estar na Terra faria você se apaixonar? Respondeu envergonhada de sua ingenuidade:
– Meu amado, senhora Lua, nem sabe que existo. Eu, daqui de baixo, só posso me perfumar e esperar que ele me veja, mas parece que nunca olha pra mim… Acho que me enganei. Ser flor de nada adianta.
– Pois me diga então o que gostaria de ser?
A flor suspirou a brisa da madrugada. Sabia o que queria, mas sentiu medo de estar novamente enganada ou se arrepender mais tarde. E o temor se tornou maior do que a força que ela tinha para lutar pelo seu amor. Talvez aquele fosse mesmo um amor impossível. Até que ponto vale a pena lutar por uma utopia?
– Se não for pedir demais – a flor secava nas folhas suas lágrimas de orvalho – gostaria de voltar para a minha antiga vida no céu. Voltar a ser estrela.
A Lua se espantou com o pedido.
– Mas e o seu amado? Vai desistir do amor sem lutar por ele? Vai deixar o pessimismo vencê-la assim?
– E de que vale ser otimista se a realidade nos mostra sempre o quanto nossos sonhos não se realizam?
A Lua foi obrigada a aceitar a opinião da florzinha. Porém, naquele instante, lhe veio uma luz, uma idéia que poderia ajudar a pequena flor.
– Eu lhe tenho uma sugestão – sorriu a Lua – Eu lhe transformo em mulher, por uma única noite, para que possa confessar seu amor. Voltarei para saber sua decisão final.
E assim aconteceu. Na noite seguinte, assim que você se sentou na praça, a Lua lançou sobre a florzinha um raio de luz encantado e a florzinha se transformou na mais bela moça que você já tinha visto. A pele tão branca, macia e aveludada que mais lembravam as próprias pétalas da flor que havia sido. Os olhos eram brilhantes como um par de estrelas roubadas do céu. O cabelo longo e negro como a noite lhe caia sobre um dos ombros, transado com flores, e o vestido que lhe cobria o corpo era de uma seda branca nunca vista por ninguém.
Vendo-se naquele corpo, a florzinha (que antes era estrela e agora era mulher) soube o que deveria fazer. Viu a sombra da moça na janela e, engolindo seco, foi até você.
– Boa noite. – ela disse sorrindo.
– Boa noite. – você respondeu.
A moça pensou por um instante e continuou:
– É sua namorada? A moça da janela?
Você se espantou com a pergunta atrevida da moça. Pensou por um momento e respondeu:
– Não.
– Mas você gosta dela, não é verdade?
Você já ia responder quando se deu conta da situação: estava falando de sua vida particular com uma desconhecida que acabara de chegar e que, julgando pela aparência dela, nem era dali.
– E quem é a senhorita?
– Eu… – ela pensou – Sou uma amiga. Mas você não respondeu a minha pergunta. Você ama aquela moça?
– Amo, mas de que adianta? Ela nem sabe que eu existo… Eu, pobre que sou, não sou digno nem mesmo de sua sombra projetada na janela. Daqui da praça, tudo que posso fazer é apreciá-la em seu quarto e esperar que, quem sabe um dia, ela me veja, mas parece que nunca olha pra mim.
A moça compreendeu, pois percebeu que mesmo entre seres de uma mesma espécie, poderia existir amor não correspondido. Que você sofria do mesmo mal que ela, sem que nenhum dos dois tivesse coragem para se declarar. Estava ali um perfeito triangulo amoroso. Mais uma vez o silêncio se espalhou pela praça.
Foi nesse momento que a moça soube que a coisa certa a fazer, nem sempre é aquilo que mais nos agrada. Que amar muitas vezes significa fazer sacrifícios para ver a pessoa amada feliz. Percebeu que juntos nunca ia dar certo. Era mulher a menos de cinco minutos, o que ela poderia saber sobre a vida em sociedade, sobre civilização, sobre família, sobre ser mulher? Ser humana exigia responsabilidades que ela desconhecia. E uma estrela nasceu para brilhar por conta própria e não para depender de outro ser. Mesmo que esse ser fosse você.
Tirou de seu cabelo cada uma das flores e, com elas, fez um belo buquê. Colocou-o em suas mãos como se entregasse a você o puro coraçãozinho dela e disse num sorriso triste:
– Tome estas flores. Entregue-as a sua amada e diga o quanto à ama. Ela saberá retribuir esse amor.
Dizendo isso, ela lhe abraçou forte e longamente. O abraço que esperou tanto para receber era agora um abraço de despedida. E a moça chorou sobre seu peito. Pela primeira vez, eram lágrimas reais, lágrimas doidas e apaixonadas que você não compreendeu. Então ela o deixou ir. 
E você foi. Quando olhou para trás e não viu mais a moça, pensou ter tido uma alucinação. Mas as flores eram reais e as lágrimas em seu peito também. Você bateu à porta. Uma velha senhora atendeu.
– Como posso ajudá-lo?
Você hesitou por um instante antes de responder:
– A sua filha está em casa?
A senhora soltou uma risada.
– Filha? O moço deve ter se confundida de casa. Eu moro sozinha.
Você se sentiu tonto. Ou aquela mulher não queria que você falasse com sua filha ou algo muito estranho estava acontecendo. Não era aquela mulher a dona da sombra na janela, pois a sombra ainda estava lá. 
– A senhora tem certeza que não mora com outra moça em casa?
– Claro que sim – a senhora respondeu um pouco desconfiada. – Só eu de Deus.
– Mas a sombra de uma moça que eu vejo todas as noites com a senhora, de quem é?
A senhora sorriu. Você não entendeu. Então ela o levou até o quarto de sua amada. 
– Viu? – a senhora explicou – Este é meu atelier. Eu sou costureira. A sombra que você vê pela janela não passa de um manequim.
Você pediu desculpas e se afastou da casa entristecido. Trazia o coração partido por saber que tinha se entregado a alguém que não era real, a uma simples imagem, uma boneca. O perfume das flores em suas mãos ainda o envolvia, lembrou-se da misteriosa moça e olhou para o céu. Mal sabia você que quem mais sofria com isso era a pobre estrelinha, que desistiu de seu grande amor por uma mentira.

Quem escreve

                                
Sou Ana Paula Lopes, jornalista e mestranda em Linguística da UFV. Natural de Viçosa, já me classifiquei em dois concursos de literatura nas categorias conto e história infantil. Sinto-me muito feliz em poder contribuir com o blog mostrando um pouquinho do meu trabalho.

A atual literatura russa tem rosto de mulher: um pouco sobre Svetlana Alexievic

                                                                 

                                      Foto: Divulgação



Com suas obras engajadas e revolucionárias,Svetlana  Alexievich. É a segunda homenageada da Flip deste ano (festa literária que começará no próximo sábado em Paraty)

Assumidamente feminista, a jornalista e escritora possui obras diferencias que vão muito além de uma crônica ou um trabalho documental jornalístico, seus livros possuem um tom revolucionário e amostral que fazem sua escrita única.

A bielorrussa venceu o premio Nobel, sendo a 14ª mulher a ser reconhecida na história da premiação, com a obra “As vozes de Tchernóbil”. O livro soa como um coro de choro sofrido, reunindo depoimentos tocantes e por muitas vezes desesperadores de homens e mulher que sofreram com o desastre radioativo.

Já em sua obra recém-lançada “A guerra não tem rosto de mulher” Svetlana estampou o protagonismo feminino no exercito vermelho durante a segunda guerra, mostrando que a mulher estava presente mesmo em um uma situação que é sempre ligada ao sexo masculino.

Com um trabalho que discorre através da crônica habitual até a literatura engajada, aos problemas e conflitos da antiga URSS, até os problemas que afetam sua nação atualmente, seus livros são fundamentais para quem possui interesse por história, engajamento feminino e protagonismo proletário.

Conhecendo Toni Morrison

                                                Foto: Divulgação


Chloe Anthony Wofford, a primeira mulher negra a ganhar um Nobel de literatura devido a seus romances que relatavam a árdua realidade vivida pela população negra americana, principalmente as mulheres.
Ler Toni Morrison é uma experiência que vai além de se aventurar através de uma historia, é como se aprofundar em um estudo de raça, gênero e historia, sua obra cultiva a necessidade de refletir e discutir esses assuntos.
Com um vasto e premiado acervo publicado, mergulhado em literatura afro-americana, a também professora universitária possui obras multifacetadas que discorre de romances a literatura infanto-juvenil, marcando com sua escrita forte, realista (e infelizmente mais atual do que deveria) a história da literatura americana.
Mais sobre suas principais obras:
Amada: Conta a história de uma ex-escrava nos anos posteriores a guerra civil, mostrando com lirismo a condição cruel do negro no século XIX

O olho mais azul: História voltada a menina Pecola, personagem que vivia marginalizada e rejeitada devido a sua cor. Em um país onde todas as atenções eram voltadas a pessoas bancas, fazia com que a pequena Pecola rezasse todos os dias para obter olhos azuis. 

A poética necessária : Ana Cristina Cesar


Aproveitando o mês de aniversario, e também a Flip deste ano que homenageia a autora, selecionei cinco fragmentos para se (re) apaixonar por essa mulher que retalhava cotidianos transformando-os em poesia marginal.
 Sempre recriando a si mesma, Ana era a perfeita mistura da modernidade e cotidianos turbulentos escrevia com uma sentimentalidade intensa e passional, assim como todo o resto de sua vida.

        1-    Samba canção:
    “ fui mulher vulgar, 
      meia-bruxa, meia-fera, 
      risinho modernista 
      arranhando na garganta,
      malandra, bicha,  
      bem viada, vândala, 
     talvez maquiavélica, 
     e um dia emburrei-me, 
     vali-me de mesuras “



  2-    pouso a mão no teu peito
   mapa de navegação
   desta varanda
    hoje sou eu que
    estou te livrando
    da verdade

    3-     Fevereiro:
Quando desisto é que surges
Quando ruges é que caio.
Quando desmaio é que corres
 Quando te moves me acho
Quando calo me curas
E se te misturo me perco…”


      4-    Ciúmes:  
“Sinto ciúmes desse cigarro que você fuma tão distraidamente.”

5-    Esqueceria outros:
“Pelo menos três ou quatro rostos que amei Num delírio de arquivística organizei a memória em alfabetos como quem conta carneiros e amansa no entanto flanco aberto não esqueço e amo em ti os outros rostos”

Apesar da grandiosa obra é bem difícil encontrar fragmentos da poetisa na internet, mas é possível encontrar sua coletânea realizada pela companhia das letras no link: https://companhiadasletras.paginaviva.com.br/carrinho.cfm?id_ProdutoLoja=9788535923629 

Para eles – por Sara Tude

Para eles não é com quem eu me deito
Para eles não é com quem acordo
Para eles é quem assina
Para eles é quem dissemina
Para eles não é quem me faz rir
Para eles não é quem me faz gozar
Para eles é quem aparece
Para eles é o que parece
Para eles não é sobre ser feliz
É sobre ser correto
Para eles não é sobre ser família
É sobre ser estatuto
Para eles não é sobre fé
É sobre religião
Para eles não é sobre aceitação
É sobre negação
Para eles não é sobre escolha
É sobre tradição 
Para eles não é sobre liberdade
É sobre sacrifício
Para eles não é sobre sentir
É sobre escolher
Para eles não é sobre querer
É sobre poder
Para eles não é sobre corpo 
É sobre sexo
Para eles não é sobre desejo
É sobre trauma 
Para eles não é sobre afeto
É sobre carência
Para eles não é sobre beleza
É sobre aparência 
Para eles não é sobre gosto
É sobre vício 
Para eles não é sobre ser
Para eles não é sobre amar
Para eles não é sobre Deus
Para eles eu não passo de um conceito
Muito bem estruturado
Totalmente programado
Para carregar a minha cruz
Enquanto só o que eu quero
É ser

Quem Escreve

                                      
Me chamo Sara, tenho 19 anos, sou geminiana, artista, bailarina, poetiza, professora de dança contemporânea e apaixonada pela arte em todas as suas formas de expressão.