Libertando-me

Estava pensando em plena véspera de aniversário, que muito do meu crescimento emergiu dos meus maiores desalentos. Nos meus desesperados momentos de solidão que eu aprendi a lidar com o jeitinho que a vida tem de nos fazer crescer.

Músicas tristes, festas, álcool, amores tapa buraco, orações milagrosas, livros de autoajuda. Nada disso, absolutamente nada, me fez evoluir tanto quanto o meu próprio caos pessoal. O meu próprio caos fez com que eu aprendesse o que é a liberdade em sua essência.
Quando tinha 15 anos achava que a liberdade era sair a hora que eu quisesse, aos 18 achei que era apenas me sustentar, agora vejo a liberdade como um estado de alma e não físico.

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Você partiu, mas tá tudo bem

Você partiu,

Mas por mim tudo bem… Estava na hora de esvair minha mente com algo novo que eu adoraria te contar ou com alguns daqueles planos do passado que eu compartilhei contigo.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Comecei a fumar o dobro de cigarros que antes, o que vem me causado uma náusea imensa todas as noites, me despertando o desejo de tentar parar mais uma vez com o vício.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Minhas lágrimas noturnas me renderam excelentes rimas non sense sobre amor e travesseiro.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Agora aprendi a sentir um samba triste ao invés de só escutá-lo.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Em meio a minha solidão e resistência de recomeçar eu aprendi coisas incríveis como sentir saudades de quem está vivo.

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Acredite na (sua) beleza

E isso não é apenas um slogan da Boticário

 

Foto: Rock This Town

 

Lembro muito bem desse comercial e do quanto me marcou. Um mundo cinza, onde todas as mulheres são visualmente iguais enquanto uma moça procura pelo batom vermelho que dá cor e identidade a si própria. Apenas com imagens, a Boticário responde que não, não seria bom um mundo sem a vaidade.

Para além dessa mensagem, o que realmente captei nesse comercial de uma grande empresa de cosméticos foi a valorização da personalidade. Muito além da vaidade, do culto à beleza, ali vi o respeito e incentivo ao estilo individual, ao “ser você mesma” que tanto ouvimos e defendemos, mas dificilmente praticamos. É um trabalho árduo se aceitar e se assumir, em um mundo com tantas tendências, referências, padrões.

Independentemente do grupo social que se encontra ou deseja fazer parte – aqui exemplifico com gêneros musicais: sertanejo, hippie, rock, samba, forró –, você precisa estar a par do look e referências visuais. Cabelo alisado, peças de cor específica, olhos claro, muita/pouca maquiagem, acessórios alegres, despojados ou artesanais. Cada um tem sua etiqueta, seu ingresso de entrada e aceitação.

Não venho aqui criticar a moda ou as etiquetas sociais. Possuo pouco embasamento para tanto. Só venho aqui para reafirmar o título. Acredite na sua beleza. Por vivência pessoal, nunca me senti parte de um grupo específico de amigos, me considerando sempre o patinho feio. Ou minha roupa não combina, ou a forma de expressão não se encaixa, ou mesmo sou expansiva demais no meio de tantos introvertidos.
A gente nunca se acha bonita o suficiente do jeito que é. Sempre tem algo que você quer melhorar ou forçar para si mesma. Mas por que insistir em um biquíni da moda se ele não valoriza o formato do seu corpo? Por que usar lente de contato colorida se aquela não é a cor dos seus olhos? Por que usar shorts curtos e apertados apenas porque tem lindas pernas e precisa mostrá-las em nossa cultura?

Há uma linha tênue entre achar algo bonito porque lhe agrada e achar algo bonito porque é tendência, é novidade. Você não precisa ser clássica, hipster, despojada, fashion para ser percebida. Você precisa ser apenas você. É o seu nariz ou cabelo, seja como forem, que te tornam quem você é – porque você é única. Quando a beleza vem nós, ela se expressa de uma maneira muito mais poderosa e plena. Porque é uma energia interior, única e exclusivamente nossa.

Percebo isso apenas por agora, depois de anos tentando me sentir igual: nossa beleza é bela porque somos quem somos. É a beleza verdadeira. É aquela beleza que representa o batom vermelho do comercial. Quando o utilizamos em um mundo estético tão fordista, nos tornamos únicas. Acredite na sua beleza e seja o seu batom vermelho. Dê cor ao jeito que você é.

Imagem: Pexels/reprodução

A Filha do Vento

Imagem: Pexels/reprodução
Este é um texto em prosa inspirado pela música “The Blower’s Daughter”, de Damien Rice. Para uma experiência mais completa, leia enquanto escuta o player no final do post. Você também pode ler a tradução aqui.

Depois de tanto tempo, foi engraçado perceberem naquela reunião que continuavam os mesmos. Haviam tido um rápido mas marcante encontro anos antes. E aquele dia parecia, se não um flashback, uma remontagem com a essência original.

Tudo bem, as mudanças eram grandes. Além de não estarem mais juntos, ele encontrara uma nova pessoa que o fazia muito bem. Como ela previra à época do rompimento, ele superou e soube tocar a vida como antes dela.

Já ela mantinha o mesmo espírito. Sempre fora livre. Agora ainda mais, já que ele fora o último homem a quem se ligou com alguma amarra.

Mas algo mantinha-se. E ele sentia culpa por ter de admitir que superara, mas não a esquecera. Vê-la reavivou o sentimento apenas adormecido dentro dele.

O reencontro se deu no litoral, na praia onde costumavam frequentar em períodos diferentes, um sem saber do costume do outro. E a inevitável coincidência aconteceu. Chegava a ser estranho que ambos tenham ido à costa em pleno inverno.

Mesmo estando ao lado da noiva, para ele foi inevitável se distrair ao vê-la. Gastou um pouco de seu tempo para apresentá-las, e todo o resto relembrando o passado e se inteirando sobre a vida da ex-namorada.

Ele podia ver em seus olhos que ela conseguira o que tanto queria, que seu espírito voava livre. Mas também notava que faltava algo… Um brilho… Faltava-lhe amor?

Mas o que fosse, ele não podia fazer nada. Ela fizera sua escolha. Entre pertencer a ele e não pertencer a ninguém, escolhera a segunda opção.

E ele podia perceber isso enquanto ela era a única a mergulhar nas águas gélidas do mar, sem medo. De fato, em nada ela se parecia com os outros.

Assim era ela… De alma solta, tanto que era impossível pegá-la. Afinal, era a filha do vento. E o vento não se prende.

Sereias

 

“Eu daria tudo por um pouco de silêncio agora”

A frase inevitavelmente se repetia de novo e de novo no interior da cabeça loura repousada tristemente sobre um par de braços frágeis. Estes por sua vez se cruzavam sobre o parapeito da varanda de uma cobertura onde uma festa acontecia. Pela relativamente pouca altura do prédio, ali fora o som do trânsito chegava com facilidade. Do lado de dentro, a seleção agitada do aspirante a DJ fazia as paredes vibrarem brevemente.

Silêncio parecia uma ideia muito distante. A blusa de cetim fino e mangas compridas não era o bastante para bloquear o frio da noite litorânea, em pleno mês de maio. A escolhera pensando no calor humano que agora fazia questão de rejeitar. Sair não resolvera muita coisa com relação ao barulho, mas ao menos agora tinha um pouco de ar para respirar e não precisava encarar tanta gente se divertindo ou querendo interagir com ela.

“Quero ir embora”

Aos poucos ia conseguindo organizar os próprios pensamentos acima da zoeira constante, ainda que eles continuassem reincidentes. Sabia que sua amiga para quem dera carona estava se divertindo o bastante para não ir procurá-la, então definitivamente não queria atrapalhá-la. A outra muito provavelmente acabaria indo embora com algum rapaz, mas não podia contar com isso. Mas ela continuava mal por ainda estar ali. E isso só aumentava o ódio por sua própria mania de se preocupar tanto com os outros, até em momentos como aquele.

Seu estômago embrulhava levemente, e era incapaz de dizer se por nervosismo ou por estar há tanto tempo sem comer. Passara o dia correndo de lá para cá e se preocupando com cabelo, unhas, roupa e maquiagem, de modo que só beliscara alguns petiscos desde o almoço. Podia ser isso. Ou podia ser a ansiedade que ela não podia manifestar fazendo mal de dentro pra fora, inclusive fisicamente. Mentalmente ela já sabia que não estava nada bem.

“Eu preciso ir embora”

Estava prestes a chorar quando um susto a tirou um pouco de seus pensamentos. Um grito longo e agudo foi se espalhando pelo ambiente, a alcançando nitidamente quando todo o som da festa cessou. A injeção de adrenalina instantaneamente a fez se virar e correr de volta para dentro. Era difícil distinguir rostos ou interpretar a confusão que se passava, mas a certo ponto todos pareciam entrar em um consenso e se aglomerar próximo à porta do banheiro.

“O que tá acontecendo?”
“Meu Deus, não acredito!”
“Ai, não consigo ver…”

Ela também não conseguia ver. O grupo de pessoas se amontoara tanto que criara uma forma compacta e difícil de transpor. No meio daquele empurra-empurra frenético e principalmente contra qualquer rapaz de estatura normal seu corpo pequeno não tinha muita vez. Se demorasse um pouco mais, talvez a eletricidade da ação diminuísse e ela acabaria pensando melhor, desistindo e aproveitando a confusão para ir embora de fininho – a amiga arrumaria um jeito, afinal.

“É o Túlio mesmo, gente?”

Ouvir aquele nome era o que faltava para manter seu estado de alerta. Ou melhor, para aumentá-lo ainda mais. A ansiedade se manifestou trazendo a dicotômica sensação de arrepio e calor, com uma leve acentuação no suor. O nome, naquela situação específica, causara ainda mais curiosidade sobre o que estava acontecendo. Normalmente ouvi-lo a faria ficar ainda mais desconfortável e impelida a ir embora, mas algo a fez permanecer e se empenhar um pouco mais na tentativa de entranhar-se na multidão. Era como se algum tipo de intuição lhe desse um palpite vago.

Não foi fácil vencer a barreira humana que a separava do foco de toda aquela atenção. Teve de fazer coisas que em outras situações rejeitaria por serem humilhantes, como se abaixar e passar por sob as axilas de alguém. Mas aos poucos foi conseguindo se aproximar do centro e se posicionar de forma a não ser muito massacrada. Em determinado ponto, ficou mais difícil avançar, e teve que se dar por satisfeita com a distância que alcançou. Ali, no entanto, ao se erguer nas pontas dos pés e se apoiar nos ombros de alguém, ela já conseguiu ver…

Seu olhar surpreso foi de encontro exatamente a aquele outro par de olhos, vidrados e turvos pela água que escorria sobre ele. O corpo na banheira parecia ter sido cuidadosamente ajeitado para ficar sentado sob o chuveiro ligado, que continuava a encher a banheira transbordante. Só então ela percebeu a enorme poça, que começava a se extender pela porta afora. Mas isso não era exatamente o que prendia sua atenção nesse momento. Ela continuou encaranto aquele rosto jovem e inerte por uns segundos, sentindo… paz.

Devia ficar mal por se sentir assim pela morte (e provável assassinato) de alguém? Nem se preocupava com isso, na verdade. Só conseguia pensar em como todo o asco, o medo, a vergonha e a incerteza pareciam ter sido lavados de dentro dela, desde o momento em que viu aqueles olhos cobertos pela água, pacificadora. Quando recuperou a própria reação, tornou a se esgueirar em meio à multidão, agora no sentido contrário. Parecia mais fácil agora, seja pela menor resistência dos demais a cederem espaço, seja por sua própria sensação de leveza.

Depois de se esquivar de todos e voltar ao espaço aberto da sala de estar, teve sua atenção tomada por uma uma pessoa que, ao contrário de todos os demais presentes, estava totalmente alheia à situação. Uma mulher mais ou menos da sua idade estava sentada calmamente sobre um dos pufs da festa, com os cabelos blorange presos em um coque frouxo lateral. Sua pele era dourada, mas dourada mesmo; ela brilhava suavemente. Provavelmente usava algum glitter corporal ou coisa assim…

E estava olhando diretamente para ela. Era estranho para sua timidez, mas ela não se sentiu desconfortável com a encarada. Segurou o olhar, assim como a outra, que se levantou lentamente do acento, sempre a fitando. A ruiva só se virou quando começou a andar em direção à saída, sempre de forma displicente, mas hipnotizante. Um lampejo de racionalidade a impediu de seguir a mulher misteriosa pela porta da frente. A polícia já devia estar chegando – ouvira alguém ligar em meio à confusão -, não poderia abandonar o local.

Em vez disso voltou para a varanda, agora não em busca de silêncio, mas de outra coisa. Sozinha, lá ela finalmente pode soltar um longo suspiro de alívio e deixar surgir um sorriso discreto no canto dos lábios, sem o perigo de ser vista. Tirou um maço de cigarros de dentro da bolsa de mão e acendeu um, se debruçando novamente sobre o parapeito. Se deixou ficar ali por alguns minutos.

Estava quase terminando o cigarro quando viu. O apartamento dava de frente para a praia, deserta, exceto… A tal mulher estava agora andando na areia, soltando os cabelos que caíam suavemente pelas costas, sua aura fascninante sempre presente. Ela parecia estranhamente decidida ao ir em direção ao mar noturno e gélido. A visibilidade era pouca, proporcionada apenas pela lua e alguns postes no asfalto, mas a loura não parou de observar aquela caminhada.

Quando começou a chegar próximo à beira foi se despindo, mas não estava usando traje de banho. Não hesitou nem quando seus pés tocaram a água fria e continuou, até finalmente estar numa produndidade que lhe permitia mergulhar. E sumiu. Uma pequena angústia tomou conta de sua observadora enquanto ela ficava dois, três minutos submersa sem reaparecer.

Mas como já havia acontecido tantas vezes naquela noite, a emoção logo foi substituída por outra, quando por um instante um brilho emergiu, como se flertasse com o ar. Ela podia jurar por todas as coisas sagradas que uma cauda com escamas douradas fez um movimento suave de C até bater novamente na água e desaparecer novamente. E apenas pela segunda vez naquela noite inteira, ela sorriu.

Amor mesma

"Eu estou chegando ao meu eu, querido ex-amor."
Foto: Ana Luiza Calmon

 

Sabe amor, todo dia lembro de você ao acordar e ao dormir. Todo dia lembro na minha rotina de algum momento ao seu lado, bom e ruim. Lembro do seu toque – tão ardente! Nossa química era forte demais, envolvente. Encostamos nossas bochechas e ali eu senti um quente amor. Ainda não senti o mesmo novamente. Mas ai eu lembro do quanto você me diminuía! Eu mal recebia parabéns no meu próprio aniversário… Meus planos? reduzidos a pó por você. Meus projetos? legais…

Sabe, eu senti que te amava de verdade quando pelo seu simples sorriso tão sincero de felicidade eu me emocionei. Eu senti alegria imensa por te ver feliz! Mas em todos os momentos em que a felicidade era minha, o silêncio era predominantemente violento. Como se entrasse em meu peito e arrancasse o pulsar da minha pura e lúdica alegria.

Eu perdi meu sorriso com você. Tanto perdi que até você reconheceu… Esse meu sorriso largo, grande e contagiante, que gera empatia nas pessoas. Você me calou amor! Perdi meu eu e nem percebi de tão distante que já permanecia. Foi preciso você partir, você deixar os pedaços já semi mortos em mim, para eu voltar.

Ainda não regressei por completo. É um quebra-cabeça, onde a cada dia procuro a peça certa para cicatrizar os rasgos profundos aqui deixados. Todo dia, lembro de você ao acordar e ao dormir. Mas todo dia eu também lembro de mim mesma, de quem fui ao seu lado. Eu estou chegando ao meu eu, querido ex-amor. Estou chegando a um tipo de amor que representa a química mais verdadeira que irei encontrar: eu mesma.

[Não] Cale-se! – Por Nathalia Lourenço

Cale-se, não pode sair por ai dando sua opinião.

Bem vindos ao meu mundo, no qual sou obrigada a ouvir essa frase todos os dias. As vezes dita com outras palavras, mas sempre com o objetivo de me manter calada.
Para aqueles que não me conhecem, sou uma garota de 22 anos que não tem medo das palavras. Trato as palavras como minhas amigas, pois elas o são. Elas me permitem expressar meus pensamentos, sentimentos e coisas que não seriam possíveis por outros meios. Elas me ajudam a construir o que desejo, sem nunca me julgar ou me repreender. Elas me fazem livre, para espalhar alegrias, compartilhar tristezas e dividir frustrações.
Mas as pessoas, essas tem medo das palavras.
Medo de que suas palavras as joguem contra elas mesmas. Medo que palavras alheias joguem outrem contra elas. Medo de usar palavras erradas. Medo de usar as palavras certas demais.
Esse receio todo faz as pessoas pensarem muito em suas palavras quando só as deveriam dizer. As palavras se tornam sua prisão. E talvez por estarem presas, as pessoas supõe que o mundo seria melhor se não apenas uma ou outra pessoa estivesse trancada dentro de si mesma, mas que todas estivessem em igual posição.
Mas por ser amiga das palavras, por ter sua compreensão, apoio e ser empoderada por elas, não sou capaz de atender a tal pedido. Não sou capaz de pensar demais sobre elas. Não sou capaz de editar meus pensamentos e sentimentos. Não sou capaz de frustrar a mim mesma e as minhas palavras para agradar a outrem. Não sou capaz de não ser eu mesma.

Em um passado distante, eu mesma não me entendia com as palavras, as pensava demais, as guardava demais. Mas percebi que ao permitir que elas fossem livres, quem estava livre era eu.

Nathalia Lourenço

Sobre encontrar o amor sem abrir mão de si mesma

sobre encontrar o amor sem abrir mão de si mesma

Nunca imaginei que sentiria uma paixão arrebatadora, até porque sempre liguei coisas do coração com perda de autonomia e razão, mas o tempo passou (impressionantemente de modo muito rasteiro) e eu me deparei com uma pessoa que roubou completamente meus pensamentos insanos e as minhas risadas escandalosas.

Meu medo da entrega podou com que eu me entregasse e eu relutei de todas as maneiras que pude, mas cheguei à conclusão de que estaria fazendo pior merda se deixasse o fulano sair da minha vida por não ter certeza do que realmente é amar.

Com o tempo de relacionamento percebi que não precisava abrir mão de nada para se amar, vi que era possível ser de alguém sendo completamente minha, e percebi que estava entregue a uma paixão saudável que me fazia amadurecer e preenchia a minha vida com uma magia que a solidão nunca tinha sido capaz de fazer.

Foi então, em um domingo à noite enquanto fazia uma retrospectiva da minha vida e escolhas que resolvi escrever esse texto para mulheres que pensam exatamente como eu pensava.

Querer ficar sozinha é algo completamente válido e normal, até porque ninguém será capaz de te fazer feliz se primeiramente você não for capaz de se fazer feliz, mas dai até abrir mão completamente de viver algo intenso e verdadeiro com um alguém pode (e vai) te render muitos arrependimentos futuros.

Dividir suas historias, loucuras, devaneios com alguém que saiba valorizar cada uma dessas coisas é uma verdadeira delicia, olhar nos olhos dessa pessoa e saber que ela admira cada qualidade sua, e apesar de conhecer os seus defeitos está disposto a viver contigo tudo que tiver que viver.

Por esses e outros motivos, percebi que o verdadeiro sentimento que faz com que você comece uma relação com alguém é aquele que não te impede de viver e sim aquele que te liberta, abre seus horizontes enquanto te faz sentir capaz de ser e fazer o que quiser no mundo.

O que prende, sufoca, intoxica e te impede de ser livre nunca deve ser rotulado como amor e tão pouco merece ser vivido.

O amor não te dá escolhas entre viver um romance ou uma carreira, não te obriga a formar uma família, e tão pouco dá palpite em suas roupas, comportamento, amizades.

O verdadeiro amor te apoia, enche a cara contigo, e faz com que você se sinta livre para só assim sentir de verdade cada segundo da sua vida valendo a pena.

Quem é você?!

Ela sabe o que eu penso. De olhos vendados e braços abertos para toda e qualquer aventura, é assim que eu a sinto sob o olhar de um vazio: Serena, imutável, ausente.

Um pequeno momento em que me recolho ao inatingível, ao mais próximo do miserável e longínquo sonhador. Sou o contento de um instante perpetrado nessa eternidade de sonhar.  Fantasia pura, tocada pelo desejo daquela que, com gestos de loucura, coexiste em minhas invenções de por um pardo momento não existir.

Atravesso com olhar intrigante e desiludido a ambição dos movimentos que se combinam. Tudo ali se constrói em um cenário de muitos sentidos.  Quem me dera se, de verdade, eu estivesse presente nas percepções de um segundo.

 Usurpada pelo espectro de um ser irredutível na sua rigidez mais tangível para não estar ali, toco vacilante a imagem que me seduz.  Fecho meus olhos e me sinto parte singela de uma realidade que se contempla com os pés fora do chão. Ao fechar a porta, é como se tivesse perdido para sempre o caminho que me levaria de volta para casa.