Sobre as ausências de alma

(Foto: Divulgação) 

Eu sempre me senti sozinha mesmo em meio a multidão e achei que isso era apenas um dos meus sintomas depressivos, mas com o tempo tive certeza de que não era só isso.

A falta de dialogo e corpo a corpo nas relações cotidianas me assustava de um modo inexplicável, sai do ensino médio e semestres de faculdade se passaram, e comecei a perceber que minhas amizades corpo a corpo estavam se tornando virtuais. Já quase não encontrava meus amigos e meu único modo de contato com a grande maioria era via facebook.

O fato que que esses trilhões de amigos que tenho no facebook em sua grande maioria já foram meus amores, “crushs”, amigos, conhecidos, e hoje não passam de um numero que estampam a minha  pagina, e infelizmente com alguns nem virtualmente eu mantenho um simples dialogo mais.

Nem precisei de tanta terapia interpessoal para perceber que o que estava faltando na minha vida eram pessoas de alma cheia, olho no olho, sentir o calor, a conversa, e as risadas, discutir politica, sociedade, literatura, sexo, que seja, mas não apenas através de um comentário. 

Acho as relações ciberculturais super importantes para uma construção ativista , talvez, mas sinto falta da revolução humana, de sentir a vida em conjunto como ela é.

Pode parecer besteira, ou mais um texto critico a sociedade atual (se soa assim não foi a intenção) mas tudo que eu queria dizer nesse desenrolar de palavras e que sinto falta da verdade, de amigos do pulsar do meu coração com novidades, desleixos  e loucuras, ser humana me faz falta.  

Quatro livros de simples leitura sobre feminismo

 

A introdução do feminismo desde cedo se faz fundamental para o inicio de um empoderamento e para a quebra da sociedade machista construída pela cabeça patriarcal que vem perdurando de séculos ate os dias atuais.

Por esse motivo fiz uma seleção de livros com historias, e introduções ao feminismo de fácil leitura para todas com uma linguagem acessível a todas.

 

(divulgação)

     1-     Capitolina (Varias autoras) 

Uma seleção de textos de diversos temas escritos por feministas na revista virtual Capitolina (As ilustrações também.

 

 

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     2-     Eu quero ser eu (Clara Averbuck)

Com humor, senso critico e sensibilidade, a escritora Clara Averbuck conta a historia de uma menina rebelde que se recusava a mudar sua opinião para se encaixar na normalidade do mundo atual

 

 

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 3-  O Que É O Feminismo (Branca Moreira)

O livro da Branca Moreira confronta os problemas vivenciados pelas mulheres na sociedade atual fazendo um paralelo com os tempos medievais.

 

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     4-     Feminismo e política (Flavia Birolli e Luis Felipe Miguel)

O livro destaca temas de debates feministas e políticos explicando as teorias de forma simples fazendo com que todas as mulheres compreendam e se familiarizem com o assunto.

AMOR (IM)PROVÁVEL

Quando a noite cai, surge a mais solitária das estrelas. Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno, brilho esse que atrai muitos olhares. Nenhum que a fizesse feliz. Não posso dizer que ela não conhecia a felicidade, mas garanto a vocês, ela estava incompleta. Sempre cercada de outros como ela, sempre cercada de outros diferentes dela, sempre olhando ao redor à procura de algo mais.

A noite caiu, Sirius surgiu. Sua procura estava quase no fim quando se deparou com o olhar do Astrônomo. Seus lindos olhos a atraíam de forma extrema, era como se eles fizessem um pedido… “Sorria para mim, minha linda estrela”. E assim ela o fez.

E essa cena foi se repetindo por muitas noites. Eles se encontravam (da maneira que lhes era possível), conversavam, sorriam, se olhavam, se sentiam, se amavam. Mas Sirius tentava ir contra tudo o que se passava. Como poderia se deixar apaixonar por alguém tão inalcançável? Jamais poderiam ficar juntos!

Ela quis aumentar a distância entre eles, mas não conseguiu. E de que forma? Não era possível se afastar, tarde demais para fugir e intenso demais para ignorar.

Ao mesmo tempo em que ela negava seus sentimentos, ela também se apegava. Passou a enxergar um homem incrível. “Ele é tão inteligente, dedicado, carinhoso, verdadeiro, apaixonado… eu estou apaixonada”, assim ela começou a pensar.

O Astrônomo alcançou o coração da estrela. E de tal forma, que não foi necessário criar uma galáxia para viverem juntos, Sirius desceu do céu só para poder entregar todo o amor que ele despertou dentro dela. Não era mais necessário procurar por algo que a fizesse feliz. A estrela mais brilhante do céu noturno uniu-se a um Astrônomo para provar ao mundo que o amor existe para todos. Não importa onde você está.

[Não] Cale-se! – Por Nathalia Lourenço

Cale-se, não pode sair por ai dando sua opinião.

Bem vindos ao meu mundo, no qual sou obrigada a ouvir essa frase todos os dias. As vezes dita com outras palavras, mas sempre com o objetivo de me manter calada.
Para aqueles que não me conhecem, sou uma garota de 22 anos que não tem medo das palavras. Trato as palavras como minhas amigas, pois elas o são. Elas me permitem expressar meus pensamentos, sentimentos e coisas que não seriam possíveis por outros meios. Elas me ajudam a construir o que desejo, sem nunca me julgar ou me repreender. Elas me fazem livre, para espalhar alegrias, compartilhar tristezas e dividir frustrações.
Mas as pessoas, essas tem medo das palavras.
Medo de que suas palavras as joguem contra elas mesmas. Medo que palavras alheias joguem outrem contra elas. Medo de usar palavras erradas. Medo de usar as palavras certas demais.
Esse receio todo faz as pessoas pensarem muito em suas palavras quando só as deveriam dizer. As palavras se tornam sua prisão. E talvez por estarem presas, as pessoas supõe que o mundo seria melhor se não apenas uma ou outra pessoa estivesse trancada dentro de si mesma, mas que todas estivessem em igual posição.
Mas por ser amiga das palavras, por ter sua compreensão, apoio e ser empoderada por elas, não sou capaz de atender a tal pedido. Não sou capaz de pensar demais sobre elas. Não sou capaz de editar meus pensamentos e sentimentos. Não sou capaz de frustrar a mim mesma e as minhas palavras para agradar a outrem. Não sou capaz de não ser eu mesma.

Em um passado distante, eu mesma não me entendia com as palavras, as pensava demais, as guardava demais. Mas percebi que ao permitir que elas fossem livres, quem estava livre era eu.

Nathalia Lourenço

Era pra ser? Não era pra ser! – Por Luara Alves de Abreu



Há dias em que ecoo esta frase quase como um mantra. Gosto de acreditar na ilusão de que tudo tem um destino porque querendo ou não, de certo modo é reconfortante você pensar que não pode fazer nada pra mudar o que te acontece.


Mas hoje me peguei reflexiva… Vi que uma amiga que namorava há anos, já tava até morando junto, terminou o relacionamento. É engraçado que fico mais em choque que os próprios envolvidos. Poxa, eles pareciam combinar tanto, pareciam que ficariam juntos para sempre… Quem poderia imaginar?! Afinal, será que alguma coisa é realmente pra ser? Será que não estamos perdidos no limbo do acaso? Será que tudo não passa de mera coincidência? Não encontrei resposta.

Sempre que não tenho respostas imediatas para os questionamentos de gêmeos com ascendente em câncer o papel e a caneta são meus melhores amigos. E escrevendo agora percebo que talvez nada seja “para ser”, mas tudo seja para CRESCER.



Nunca tinha pensado por esse ângulo e de repente todos os acasos fizeram sentido. Cada pessoa, cada dia, cada queda… Enfim, tudo que acontece na nossa vida pode até não vir a ser obra de um destino ou coisa do tipo, mas sem sombra de dúvidas é o que faz a gente aprender a lidar com essa tal de vida. A gente sempre espera pelo amanhã… Haverá? Vamos viver e amadure[ScER].


Luara é geminiana com ascendente em câncer. Intensa por natureza, socióloga por profissão, atriz por paixão, bailarina por amor e feminista por dever!

Cinco poemas para celebrar 127 anos de Cora Coralina



                                                          Foto: Divulgação




Há 127 nascia a poetisa e contista brasileira Cora Coralina. A Goiana que apesar de transbordar doçura, delírio e beleza em suas palavras só foi reconhecida após seus 70 anos quando teve seu primeiro livro publicado.
Aproveitando a data fiz uma seleção de cinco de suas dezenas de poemas maravilhosos, para quem já é apaixonado e para quem esta prestes a se apaixonar pela peculiaridade de suas obras únicas.
       1-     Mulher da vida
           Mulher da Vida,
            Minha irmã.
           De todos os tempos.
           De todos os povos.
           De todas as latitudes.
           Ela vem do fundo imemorial das idades
           e carrega a carga pesada
           dos mais torpes sinônimos,
           apelidos e ápodos:
           Mulher da zona,
           Mulher da rua,
           Mulher perdida,
           Mulher à toa.
           Mulher da vida,
           Minha irmã.
         2-    Meu destino
         Nas palmas de tuas mãos
          leio as linhas da minha vida.
          Linhas cruzadas, sinuosas,
          interferindo no teu destino.
          Não te procurei, não me procurastes –
          íamos sozinhos por estradas diferentes.
          Indiferentes, cruzamos
          Passavas com o fardo da vida…
          Corri ao teu encontro.
          Sorri. Falamos.
          Esse dia foi marcado
          com a pedra branca
         da cabeça de um peixe.
         E, desde então, caminhamos
          juntos pela vida…
    3-      Aninha e suas pedras
          Não te deixes destruir…
            Ajuntando novas pedras
            e construindo novos poemas.
            Recria tua vida, sempre, sempre.
            Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
            Faz de tua vida mesquinha
            um poema.
            E viverás no coração dos jovens
            e na memória das gerações que hão de vir.
            Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
            Toma a tua parte.
            Vem a estas páginas
            e não entraves seu uso
             aos que têm sede.
        4-    Amigo
           Vamos conversar
          Como dois velhos que se encontraram
          no fim da caminhada.
          Foi o mesmo nosso marco de partida.
          Palmilhamos juntos a mesma estrada.
          Eu era moça.
          Sentia sem saber
          seu cheiro de terra,
          seu cheiro de mato,
          seu cheiro de pastagens.
         É que havia dentro de mim,
         no fundo obscuro de meu ser
         vivências e atavismo ancestrais:
         fazendas, latifúndios,
        engenhos e currais.
        Mas… ai de mim!
        Era moça da cidade.
        Escrevia versos e era sofisticada.
        Você teve medo. O medo que todo homem sente
        da mulher letrada.
       Não pressentiu, não adivinhou
       aquela que o esperava
        mesmo antes de nascer.
       Indiferente
        tomaste teu caminho
        por estrada diferente.
        Longo tempo o esperei
        na encruzilhada,
        depois… depois…
        carreguei sozinha
        a pedra do meu destino.
         Hoje, no tarde da vida,
        apenas,
        uma suave e perdida relembrança.
        5-    Ofertas de Aninha
              (aos moços)
          Eu sou aquela mulher
           a quem o tempo
           muito ensinou.
           Ensinou a amar a vida.
           Não desistir da luta.
           Recomeçar na derrota.
           Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
           Acreditar nos valores humanos.
           Ser otimista.
            Creio numa força imanente
           que vai ligando a família humana
           numa corrente luminosa
           de fraternidade universal.
          Creio na solidariedade humana.
          Creio na superação dos erros
          e angústias do presente.
          Acredito nos moços.
          Exalto sua confiança,
         generosidade e idealismo.
         Creio nos milagres da ciência
         e na descoberta de uma profilaxia
         futura dos erros e violências
         do presente.
          Aprendi que mais vale lutar
          do que recolher dinheiro fácil.
         Antes acreditar do que duvidar.

Cinco poemas contemporâneos escritos por brasileiras

                                                 Foto: Tumblr


Todos já conhecem (por vezes idolatram) os clássicos da poesia, constituído em grande maioria por homens, e alguns clichês cometidos pela sentimentalidade.
Pensando nisso fiz uma seleção de cinco poemas contemporâneos não apenas escrito por mulheres, mas por mulheres brasileiras que marcam o cenário da poesia atual com força, leveza, e diferencial.
   1-    Da menina, a pipa
 
Da menina a pipa
e a bola da vez
e quando a sua íntima
pele, macia seda, brincava
no céu descoberto da rua
um barbante áspero,
másculo cerol, cruel
rompeu a tênue linha
da pipa-borboleta da menina.

E quando o papel 
seda esgarçada 
da menina
estilhaçou-se entre
as pedras da calçada
a menina rolou
entre a dor 
e o abandono.

E depois, sempre dilacerada,
a menina expulsou de si
uma boneca ensangüentada
que afundou num banheiro
público qualquer.
– Conceição Evaristo, em “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.


     2-    memória (I)

As unhas não guardam
marcas dos amores que,
delicadas, destroçaram.

Os olhos não retêm
a memória das imagens
indecifradas.

Com a lembrança pousada
na praia antiga de um beijo,
procuro
desatenta
traçar o mapa do desejo,
sua secreta geografia.

  – Ana Martins Marques

3-    Bendita palavra

No escuro dos olhos fechados me equilibrar do desejo
a cama fluída como mar
o peito macio de ar e de risos
sussurros suspiros sumiços no espaço
Detesto seus banhos em outras banheiras
e as músicas lindas que tinha por lá
tudo teu bonito eu quero
o de antes – o de antes
Quero o que dói e o que grita
teu suor, teus sonhos ruins
quero ser cura e veneno
quero o prazer mais pequeno que você puder sentir
Quando o planeta rugir
e o infinito for possível em todas as direções
quero ser um nos teus dentes
teu nome em mim feito um filho
feito gente
feito carne de pegar
 – Maria Rezende  livro “Bendita palavra”, Editora 7Letras]

 4- Dans L´air

Tínhamos a mesma idade 
Quando vimos o mar 
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
Rimbaud e eu –

Por isto 
Pisamos telhados 
Ao invés do chão
     Por isto 
     Machucamos nossos amores
     Com nossas próprias mãos

Por isto 
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe 

     Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.
 – Barbara Lia

     5-    Eu-Mulher

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
– Conceição Evaristo, em “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Diferente dos contos de fada: seis livros infantis que vão além de um “felizes para sempre”

O universo infantil é regado de futilidades, princesas de corpos magros e feições delicadas, fadas madrinhas, príncipes encantados que surgem para salvar donzelas submissas e indefesas, além de outros estereótipos “encantados” prontos para modelar crianças para a vida adulta integrada a uma sociedade onde não existe espaço para as diferenças e tão pouco para uma igualdade de gêneros.
Pensando nisso, fiz questão de selecionar seis livros onde contos de fada são desbancados por histórias que realmente possuem algo a dizer.

1-    Malala, a menina que queria ir para a escola
A protagonista da história, além de real dá um exemplo de resistência, luta e emponderamento. Atualmente com 19 anos continua na luta pela a educação das mulheres de seu Pais.

2-    Procurando firme
Conta a história da personagem Linda- flor, uma princesa que deseja bem mais do que um marido e a submissão das regras de seu reino. Seu maior desejo é conhecer o mundo e se aventurar!

3-    Olivia não quer ser princesa
Olivia é uma porquinha irreverente que enfrenta uma crise de identidade infantil. Enquanto todas as suas amigas querem se tornar uma princesa, Olivia sente a necessidade de ser diferente, sonhar sonhos diferentes. Isso faz com que a contestadora porquinha busque alternativas para descobrir o que deseja ser

4-     Quase de verdade
Ulisses é um cachorro que late histórias para a sua dona, entre essas histórias uma aventura que viveu no quintal da senhora Oniria. Lá existia vários galos e galinhas felizes, porém a enorme figueira que tinha inveja de toda essa alegria  estava disposta a tudo para acabar com ela. 
Clarice Lispector mostra de forma suave e infantil  sentimentos humanos.

5-    Cici tem pipi?
Para Max a sociedade  era dividida em pessoas com pipi, que eram mais fortes por terem pipi, e as sem pipi. Até que em um belo dia, uma nova aluna entra para a turma de Max e o deixa intrigado. Cici não desenha florzinhas, joga bola, e anda de bicicleta. Logo o menino levanta a hipótese: Será que Ceci tem Pipi?
A história é incrível e trata as semelhanças e diferenças entre meninos e meninas.

6-    Pippi meialonga

A personagem tem apenas 9 anos, incrivelmente forte, sem pai e nem mãe Pippi aprendeu a ser independente e corajosa desde cedo. Possui sempre a resposta na ponta da língua, além de uma extrema confiança em si mesma.

Mulher, empodere-se! – Simara Lanai


Procurando achar uma forma de dizer para as mulheres a quão poderosa elas são, então me deparei com a seguinte pergunta. Já pensou se todas as mulheres acreditassem no quão são capazes de se amarem e de se tornarem donas de si? Com certeza conseguiríamos derrubar o “espetáculo” machista.


 O espetáculo machista é também o mundo dos corpos perfeitos, quanto mais “bonita” e apresentável nos padrões estéticos corporais a mulher for, mas ela é aplaudida e considerada a “mulher dos sonhos de qualquer homem”. A cada dia aparece uma forma “feminina” de ser, para que nos “aceitem” como “verdadeira” mulher. 

Parece está tudo calculado, cronometrado rigorosamente. Nada a mais para esquerda e nem pra direita, tudo tem que está no seu devido lugar, para que nos vejam como uma “verdadeira” mulher. Constrói-se padrões estéticos, padrões ideológicos, padrões e regras de todo tipo até enquadrar a mulher numa verdadeira gaiola. 

Afinal o que vai ser do homem, se a Mulher deixar de ser essa “mulher” idealizada pelo mundo machista? Se essa mulher deixar à cozinha, deixar de querer ter filhos, deixar de servir seu marido para ir busca de novos horizontes? O que acontecerá? Simples… ela não deixará de ser Mulher apenas deixará de ouvir o mundo machista para ser ela mesma! Mulher construa seus próprios padrões e empodere-se!

Liberté!

Silmara Peixoto Moreira, feminista, pesquisadora, graduada em Bacharelado em Humanidades e graduanda em Sociologia, UNILAB.

A luta dos movimentos feminista contra a desigualdade de gênero. – Por Silmara Lanai

Imagem/Reprodução

Os estudos de gênero tem mostrado, em linhas gerais, que a ciência está falando apenas de uma parte desta humanidade, vista sob ângulo masculino, e que não foi por acaso que, durante séculos, havia poucas cientistas mulheres. Pois “a ciência que aprendemos desde a escola reflete os valores construídos no Ocidente desde o final da Idade Média os quais se refletem em apenas uma parte do social: a dos homens, brancos e heterossexuais” (GROSSI, 1996, p. 4).
Diante disso, através dos movimentos sociais feministas, a mulher ganhou maior visibilidade na sociedade (devemos lembrar-nos da contribuição dos movimentos LGBTT, negro e, em especial, o movimento feminista negro, por ter levantado a importância de ser pensar a interseccionalidade, por sofrer cotidianamente o racismo e a discriminação de classe e gênero), assim foi possível reescrever a história das relações sociais adicionando a mulher a esta reescrita até então esquecida durante séculos. No caso brasileiro, as mulheres dos movimentos feministas assumiram tardiamente uma luta que já começou na Europa e nos EUA no início da década de 1960, e tinha como uma das principais bandeiras “o respeito à autonomia e à liberdade da mulher” (PETERSON, 2004, p. 142).
A desigualdade de gênero existente na sociedade é fruto histórico do sistema patriarcal, no qual o homem, no papel de marido ou pai, é o ator/personagem fundamental da organização social. É ele quem exerce a autoridade sobre as mulheres, os filhos e os bens materiais e culturais, (ALVES e CAVENAGHI, 2012, p. 102). O patriarcalismo resultou em exclusão social para nós mulheres. A dominação masculina e o modelo patriarcal foram construídos culturalmente ao longo do tempo em nossa sociedade, como afirma Bourdieu (2012, p. 45).

A dominação masculina encontra, assim, reunidas todas as condições de seu pleno exercício. A primazia universalmente concedida aos homens se afirma na objetividade de estruturais sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho de produção e reprodução biológica e sexual, que confere aos homens a melhor parte […] (BOURDIEU, 2012, p. 45).
Além do sistema patriarcal enfrentamos o sistema capitalista. A Síntese de Indicadores Sociais 2002, lançada pelo IBGE, confirma que na desigualdade por gênero, as mulheres ganham menos que os homens em todos os estados brasileiros e em todos os níveis de escolaridade. Elas também se aposentam em menor proporção que os homens e há mais mulheres idosas que não recebem nem aposentadoria nem pensão. O sistema capitalista (produção privada dos meus de produção) historicamente se favoreceu com a mão-de-obra “barata” das mulheres e das crianças, enquanto as mesmas eram impedidas de participar da vida política e das decisões que favoreciam a classe burguesa, dominada por homens que consequentemente fortaleciam o regime patriarcal (dominação masculina), que cada vez mais silenciavam as vozes das mulheres. Diante disso os capitalistas se aproveitavam para manter essa desigualdade entre homens e mulheres.
A desigualdade de gênero é um dos maiores problemas enfrentados pela mulher nessa sociedade fundamentada no patriarcalismo que regulariza a relação de gênero como homem e mulher voltados apenas para procriação, deixando de lado outros aspectos importantes para a vida social da mulher como educação, trabalho, saúde, lazer etc. Cecília Toledo (2014, p. 13) fala da ideologia machista construída desde 1865 até meados da década de 1880, segundo o qual “lugar da mulher é no lar”, que foi impulsionada por intelectuais da época, filósofos, pesquisadores influentes nos meios políticos e operários de toda a Europa, cujas ideias defendidas eram bem semelhantes às dos pais da Igreja, isto é, os teólogos que construíram a teologia do catolicismo na Idade Média (TOLEDO, 2014, p. 13).
Essas ideologias machistas diziam, por exemplo, que a função da mulher era a procriação e as tarefas domésticas. Portanto, segundo essa concepção, a mulher que trabalhava fora de casa estava roubando o trabalho do homem. Chegaram até a propor que o marido tivesse direito de vida ou morte sobre a mulher, em casos de desobediência ou falta de caráter, mediante a uma relação aritmética, a inferioridade do cérebro feminino em relação ao masculino, (TOLEDO, 2014, p.13).
Em consequência dessas ideias machistas, a opressão ainda é vivida nos dias de hoje pela mulher diariamente, em casa, na rua, na escola ou no trabalho, nos quais seus direitos ainda estão comprometidos além do sistema capitalista que as exploram, também por essas ideologias conservadoras de cunho patriarcal ou a dominação masculina (BOURDIEU, 2012), que durante séculos oprimiu e discriminou as mulheres e hoje as mesmas sofrem a opressão do sistema explorador capitalista e das ideologias machistas que constantemente lhe dizem como devem pensar agir e como devem vestir-se e comportar-se em nossa sociedade.
A inserção das mulheres através da sua luta e resistência no meio social (antes apenas dominado por homens) de forma efetiva possibilitou o reconhecimento, não apenas dos seus direitos, mas também da sua liberdade de se expressar, de seu direito de decidir sobre ações importantes na vida política dentro da sociedade, assim como o direito ao voto. Sua participação continua sendo peça fundamental para a construção efetiva da democracia, que é uma luta constante nessa sociedade fortemente marcada pelo patriarcalismo e pela desigualdade social e racial, disseminada pelo sistema explorador (capitalista) e seu estado burguês.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ALVES, J. E. A, CAVENAGHI. S. M. Indicadores de Desigualdade de Gênero no Brasil. Mediações, Lodrina, v. 17. N. 2, p. 83-105. Jul-Dez. 2012.
BORON, Atílio A, AMADERO, Xavier, GONZÁLES, Sabrina. (Orgs). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. Buenos Aires: Clasco, 2006.
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 11. ed. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2012.
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos Direitos Humanos. 7. ed., ver. e atual . São Paulo: Saraiva, 2010.
GROSSI, Mirian Pillar. Identidade de Gênero e Sexualidade. Vº Curso de Saúde e Direitos Reprodutivos: Campinas, 1996.
MELO, Hildete Pereira de. Gênero e Pobreza no Brasil. CEPAL-SPM: Brasília, 2005.
MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 12 ed. São Paulo: Atlas, 2002.
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. As mulheres, os direitos humanos e a democracia. Textos do Brasil: Cinquenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, Maio/Agosto 1998 Ano II – no 6.
PETERSEN, Janine. Feminismo e a polêmica da contracepção no Brasil (1970-1980). Esboços-Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFSC, Florianópolis, v.11, n.11, p. pp. 135-144, jan. 2004.
SOARES, Maria Victoria Benevides. Cidadania e Direitos Humanos. In: CARVALHO, José Sérgio (Org.) Educação, Cidadania e Direitos Humanos. Petrópoles, RJ: Vozes, 2004. págs. 56-65.

TOLEDO, Cecília (org). A Mulher e a luta pelo socialismo; por Kalr Marx, Friedrich Engels, V. I. Lênin, Clara Zetkin, Leon Trotski. 2.ed. São Paulo: Sundermann, 2014.




Silmara P. Moreira, feminista, escritora, graduada em Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades e graduanda em Sociologia, UNILAB.