Precisamos falar sobre depressão

Precisamos falar sobre depressão

 

Escrevi esse texto porque estou cansada de ver gente romantizando depressão.

Vamos lá, depressão é uma coisa séria e não um capricho adolescente, e nem uma invenção para chamar a atenção.

As crises são terríveis a ponto de não permitir que a pessoa saia da cama, se entregue a choros  pouco a pouco perdendo a vontade de fazer qualquer tipo de atividade.

Aceitação e tratamento são o fundamental para a sua vida, a doença em si não te prejudicará em nada, mas o modo que você digere palavras alheias sim.

Não deve ser normal falar para uma pessoa que sofre desse mal que a culpa é dela, que tudo pode se resolver basta querer. Assim como um monstro de mil braços a depressão agarra as vitimas e as sufoca de modo que elas nem ninguém são capazes impedir.

Tenho depressão desde os 16 e sinto crises existenciais constantes, por muito tempo me senti pressionada achando que a culpa era minha, que precisava me render alguma forma, ser grata a minha vida ou simplesmente “parar de frescura” como todos a minha volta recomendava.

Meu recado não é para essas pessoas que por muitas vezes por falta de informação ou simplesmente falta do que fazer recomendam para que pessoas que sofram desse mal simplesmente o deixem pra lá e aproveitem a vida que tem. A única coisa que eu tenho a dizer a pessoas que rodeiam alguém que sofre com depressão é: cuidado com suas palavras, algo que não te fere pode soar brutal a esse alguém, tomar cuidado com as palavras ditas é o mínimo que você deveria ter aprendido com a tia do pré.

Pessoa como eu que possuem o diagnostico, precisam mais do que nunca acreditar em si mesmas, realizar o tratamento e por hipótese nenhuma deixar seu brilho se corromper com amarguras alheias.

A culpa não é sua, e você não tem controle sobre seus sentimentos e tão pouco sobre esse monstro que te rouba à vitalidade, você não precisa da opinião dos outros e tão pouco da pena de ninguém.

Você é bem mais que tudo isso e não precisa de boas palavras e tão pouco de más, só precisa da coragem de ser tudo que és, sem limites, ou mentiras, mas com devaneios, ânsias, amores e loucuras, como qualquer outro ser. Acredite no atual momento estamos todos inabitáveis.

[Não] Cale-se! – Por Nathalia Lourenço

Cale-se, não pode sair por ai dando sua opinião.

Bem vindos ao meu mundo, no qual sou obrigada a ouvir essa frase todos os dias. As vezes dita com outras palavras, mas sempre com o objetivo de me manter calada.
Para aqueles que não me conhecem, sou uma garota de 22 anos que não tem medo das palavras. Trato as palavras como minhas amigas, pois elas o são. Elas me permitem expressar meus pensamentos, sentimentos e coisas que não seriam possíveis por outros meios. Elas me ajudam a construir o que desejo, sem nunca me julgar ou me repreender. Elas me fazem livre, para espalhar alegrias, compartilhar tristezas e dividir frustrações.
Mas as pessoas, essas tem medo das palavras.
Medo de que suas palavras as joguem contra elas mesmas. Medo que palavras alheias joguem outrem contra elas. Medo de usar palavras erradas. Medo de usar as palavras certas demais.
Esse receio todo faz as pessoas pensarem muito em suas palavras quando só as deveriam dizer. As palavras se tornam sua prisão. E talvez por estarem presas, as pessoas supõe que o mundo seria melhor se não apenas uma ou outra pessoa estivesse trancada dentro de si mesma, mas que todas estivessem em igual posição.
Mas por ser amiga das palavras, por ter sua compreensão, apoio e ser empoderada por elas, não sou capaz de atender a tal pedido. Não sou capaz de pensar demais sobre elas. Não sou capaz de editar meus pensamentos e sentimentos. Não sou capaz de frustrar a mim mesma e as minhas palavras para agradar a outrem. Não sou capaz de não ser eu mesma.

Em um passado distante, eu mesma não me entendia com as palavras, as pensava demais, as guardava demais. Mas percebi que ao permitir que elas fossem livres, quem estava livre era eu.

Nathalia Lourenço

Era pra ser? Não era pra ser! – Por Luara Alves de Abreu



Há dias em que ecoo esta frase quase como um mantra. Gosto de acreditar na ilusão de que tudo tem um destino porque querendo ou não, de certo modo é reconfortante você pensar que não pode fazer nada pra mudar o que te acontece.


Mas hoje me peguei reflexiva… Vi que uma amiga que namorava há anos, já tava até morando junto, terminou o relacionamento. É engraçado que fico mais em choque que os próprios envolvidos. Poxa, eles pareciam combinar tanto, pareciam que ficariam juntos para sempre… Quem poderia imaginar?! Afinal, será que alguma coisa é realmente pra ser? Será que não estamos perdidos no limbo do acaso? Será que tudo não passa de mera coincidência? Não encontrei resposta.

Sempre que não tenho respostas imediatas para os questionamentos de gêmeos com ascendente em câncer o papel e a caneta são meus melhores amigos. E escrevendo agora percebo que talvez nada seja “para ser”, mas tudo seja para CRESCER.



Nunca tinha pensado por esse ângulo e de repente todos os acasos fizeram sentido. Cada pessoa, cada dia, cada queda… Enfim, tudo que acontece na nossa vida pode até não vir a ser obra de um destino ou coisa do tipo, mas sem sombra de dúvidas é o que faz a gente aprender a lidar com essa tal de vida. A gente sempre espera pelo amanhã… Haverá? Vamos viver e amadure[ScER].


Luara é geminiana com ascendente em câncer. Intensa por natureza, socióloga por profissão, atriz por paixão, bailarina por amor e feminista por dever!

Cinco poemas para celebrar 127 anos de Cora Coralina



                                                          Foto: Divulgação




Há 127 nascia a poetisa e contista brasileira Cora Coralina. A Goiana que apesar de transbordar doçura, delírio e beleza em suas palavras só foi reconhecida após seus 70 anos quando teve seu primeiro livro publicado.
Aproveitando a data fiz uma seleção de cinco de suas dezenas de poemas maravilhosos, para quem já é apaixonado e para quem esta prestes a se apaixonar pela peculiaridade de suas obras únicas.
       1-     Mulher da vida
           Mulher da Vida,
            Minha irmã.
           De todos os tempos.
           De todos os povos.
           De todas as latitudes.
           Ela vem do fundo imemorial das idades
           e carrega a carga pesada
           dos mais torpes sinônimos,
           apelidos e ápodos:
           Mulher da zona,
           Mulher da rua,
           Mulher perdida,
           Mulher à toa.
           Mulher da vida,
           Minha irmã.
         2-    Meu destino
         Nas palmas de tuas mãos
          leio as linhas da minha vida.
          Linhas cruzadas, sinuosas,
          interferindo no teu destino.
          Não te procurei, não me procurastes –
          íamos sozinhos por estradas diferentes.
          Indiferentes, cruzamos
          Passavas com o fardo da vida…
          Corri ao teu encontro.
          Sorri. Falamos.
          Esse dia foi marcado
          com a pedra branca
         da cabeça de um peixe.
         E, desde então, caminhamos
          juntos pela vida…
    3-      Aninha e suas pedras
          Não te deixes destruir…
            Ajuntando novas pedras
            e construindo novos poemas.
            Recria tua vida, sempre, sempre.
            Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
            Faz de tua vida mesquinha
            um poema.
            E viverás no coração dos jovens
            e na memória das gerações que hão de vir.
            Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
            Toma a tua parte.
            Vem a estas páginas
            e não entraves seu uso
             aos que têm sede.
        4-    Amigo
           Vamos conversar
          Como dois velhos que se encontraram
          no fim da caminhada.
          Foi o mesmo nosso marco de partida.
          Palmilhamos juntos a mesma estrada.
          Eu era moça.
          Sentia sem saber
          seu cheiro de terra,
          seu cheiro de mato,
          seu cheiro de pastagens.
         É que havia dentro de mim,
         no fundo obscuro de meu ser
         vivências e atavismo ancestrais:
         fazendas, latifúndios,
        engenhos e currais.
        Mas… ai de mim!
        Era moça da cidade.
        Escrevia versos e era sofisticada.
        Você teve medo. O medo que todo homem sente
        da mulher letrada.
       Não pressentiu, não adivinhou
       aquela que o esperava
        mesmo antes de nascer.
       Indiferente
        tomaste teu caminho
        por estrada diferente.
        Longo tempo o esperei
        na encruzilhada,
        depois… depois…
        carreguei sozinha
        a pedra do meu destino.
         Hoje, no tarde da vida,
        apenas,
        uma suave e perdida relembrança.
        5-    Ofertas de Aninha
              (aos moços)
          Eu sou aquela mulher
           a quem o tempo
           muito ensinou.
           Ensinou a amar a vida.
           Não desistir da luta.
           Recomeçar na derrota.
           Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
           Acreditar nos valores humanos.
           Ser otimista.
            Creio numa força imanente
           que vai ligando a família humana
           numa corrente luminosa
           de fraternidade universal.
          Creio na solidariedade humana.
          Creio na superação dos erros
          e angústias do presente.
          Acredito nos moços.
          Exalto sua confiança,
         generosidade e idealismo.
         Creio nos milagres da ciência
         e na descoberta de uma profilaxia
         futura dos erros e violências
         do presente.
          Aprendi que mais vale lutar
          do que recolher dinheiro fácil.
         Antes acreditar do que duvidar.

Cinco poemas contemporâneos escritos por brasileiras

                                                 Foto: Tumblr


Todos já conhecem (por vezes idolatram) os clássicos da poesia, constituído em grande maioria por homens, e alguns clichês cometidos pela sentimentalidade.
Pensando nisso fiz uma seleção de cinco poemas contemporâneos não apenas escrito por mulheres, mas por mulheres brasileiras que marcam o cenário da poesia atual com força, leveza, e diferencial.
   1-    Da menina, a pipa
 
Da menina a pipa
e a bola da vez
e quando a sua íntima
pele, macia seda, brincava
no céu descoberto da rua
um barbante áspero,
másculo cerol, cruel
rompeu a tênue linha
da pipa-borboleta da menina.

E quando o papel 
seda esgarçada 
da menina
estilhaçou-se entre
as pedras da calçada
a menina rolou
entre a dor 
e o abandono.

E depois, sempre dilacerada,
a menina expulsou de si
uma boneca ensangüentada
que afundou num banheiro
público qualquer.
– Conceição Evaristo, em “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.


     2-    memória (I)

As unhas não guardam
marcas dos amores que,
delicadas, destroçaram.

Os olhos não retêm
a memória das imagens
indecifradas.

Com a lembrança pousada
na praia antiga de um beijo,
procuro
desatenta
traçar o mapa do desejo,
sua secreta geografia.

  – Ana Martins Marques

3-    Bendita palavra

No escuro dos olhos fechados me equilibrar do desejo
a cama fluída como mar
o peito macio de ar e de risos
sussurros suspiros sumiços no espaço
Detesto seus banhos em outras banheiras
e as músicas lindas que tinha por lá
tudo teu bonito eu quero
o de antes – o de antes
Quero o que dói e o que grita
teu suor, teus sonhos ruins
quero ser cura e veneno
quero o prazer mais pequeno que você puder sentir
Quando o planeta rugir
e o infinito for possível em todas as direções
quero ser um nos teus dentes
teu nome em mim feito um filho
feito gente
feito carne de pegar
 – Maria Rezende  livro “Bendita palavra”, Editora 7Letras]

 4- Dans L´air

Tínhamos a mesma idade 
Quando vimos o mar 
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
Rimbaud e eu –

Por isto 
Pisamos telhados 
Ao invés do chão
     Por isto 
     Machucamos nossos amores
     Com nossas próprias mãos

Por isto 
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe 

     Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.
 – Barbara Lia

     5-    Eu-Mulher

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
– Conceição Evaristo, em “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Diferente dos contos de fada: seis livros infantis que vão além de um “felizes para sempre”

O universo infantil é regado de futilidades, princesas de corpos magros e feições delicadas, fadas madrinhas, príncipes encantados que surgem para salvar donzelas submissas e indefesas, além de outros estereótipos “encantados” prontos para modelar crianças para a vida adulta integrada a uma sociedade onde não existe espaço para as diferenças e tão pouco para uma igualdade de gêneros.
Pensando nisso, fiz questão de selecionar seis livros onde contos de fada são desbancados por histórias que realmente possuem algo a dizer.

1-    Malala, a menina que queria ir para a escola
A protagonista da história, além de real dá um exemplo de resistência, luta e emponderamento. Atualmente com 19 anos continua na luta pela a educação das mulheres de seu Pais.

2-    Procurando firme
Conta a história da personagem Linda- flor, uma princesa que deseja bem mais do que um marido e a submissão das regras de seu reino. Seu maior desejo é conhecer o mundo e se aventurar!

3-    Olivia não quer ser princesa
Olivia é uma porquinha irreverente que enfrenta uma crise de identidade infantil. Enquanto todas as suas amigas querem se tornar uma princesa, Olivia sente a necessidade de ser diferente, sonhar sonhos diferentes. Isso faz com que a contestadora porquinha busque alternativas para descobrir o que deseja ser

4-     Quase de verdade
Ulisses é um cachorro que late histórias para a sua dona, entre essas histórias uma aventura que viveu no quintal da senhora Oniria. Lá existia vários galos e galinhas felizes, porém a enorme figueira que tinha inveja de toda essa alegria  estava disposta a tudo para acabar com ela. 
Clarice Lispector mostra de forma suave e infantil  sentimentos humanos.

5-    Cici tem pipi?
Para Max a sociedade  era dividida em pessoas com pipi, que eram mais fortes por terem pipi, e as sem pipi. Até que em um belo dia, uma nova aluna entra para a turma de Max e o deixa intrigado. Cici não desenha florzinhas, joga bola, e anda de bicicleta. Logo o menino levanta a hipótese: Será que Ceci tem Pipi?
A história é incrível e trata as semelhanças e diferenças entre meninos e meninas.

6-    Pippi meialonga

A personagem tem apenas 9 anos, incrivelmente forte, sem pai e nem mãe Pippi aprendeu a ser independente e corajosa desde cedo. Possui sempre a resposta na ponta da língua, além de uma extrema confiança em si mesma.

Hoje nada de Frankenstein



        Dizem que “filho de peixinho, peixinho é!”. E é justamente em cima disso que me propus à escolhida de hoje: Mary Shelley. Para quem não a conhece, mas, possivelmente está mais familiarizado com a sua obra, isto é, Frankenstein, já deve ter caído no mesmo erro que eu em acreditar que tal nome faz jus a um homem e não a uma mulher, estou errada? Espero que sim! Enfim, descoberta sua verdadeira identidade, como mulher e jamais como homem, cabe agora a explicação acerca do uso do citado provérbio.

Shelley era filha de Mary Wollstonecraft (1759-1797), a qual, embora atravessada por um cenário de revoluções e defesas em nome do masculino, protagonizou as primeiras manifestações feministas, cujas atenções e desejos foram registrados na obra “A Reivindicação dos Direitos da Mulher” (1792). Acerca disso, para quem não sabe, em 1789 foi publicada a Declaração dos Direitos do homem e do Cidadão, documento que, obviamente, estava comprometido com as garantias de solidariedade, liberdade e igualdade sobre e para as realizações masculinas.


Portanto, Shelley ganha meu tímido espaço de admirações justamente porque ela, assim como a mãe, se destaca em manobras que as elevam dentro das categorias em que foram socialmente postas, embora as cortinas politicamente e simbolicamente turvas que, discretamente, deixaram-nas sucumbir face ao tempo e as convenções de uma sociedade acostumada a reconhecer, privilegiadamente e preliminarmente, os homens como sujeitos de destaque. À vista disso, ficam aqui não só duas grandes mulheres, como também referenciais de luta e, especialmente, de importantes leituras. Mãos à obra?! Eu começaria pela mãe, claro! 

A luta dos movimentos feminista contra a desigualdade de gênero. – Por Silmara Lanai

Imagem/Reprodução

Os estudos de gênero tem mostrado, em linhas gerais, que a ciência está falando apenas de uma parte desta humanidade, vista sob ângulo masculino, e que não foi por acaso que, durante séculos, havia poucas cientistas mulheres. Pois “a ciência que aprendemos desde a escola reflete os valores construídos no Ocidente desde o final da Idade Média os quais se refletem em apenas uma parte do social: a dos homens, brancos e heterossexuais” (GROSSI, 1996, p. 4).
Diante disso, através dos movimentos sociais feministas, a mulher ganhou maior visibilidade na sociedade (devemos lembrar-nos da contribuição dos movimentos LGBTT, negro e, em especial, o movimento feminista negro, por ter levantado a importância de ser pensar a interseccionalidade, por sofrer cotidianamente o racismo e a discriminação de classe e gênero), assim foi possível reescrever a história das relações sociais adicionando a mulher a esta reescrita até então esquecida durante séculos. No caso brasileiro, as mulheres dos movimentos feministas assumiram tardiamente uma luta que já começou na Europa e nos EUA no início da década de 1960, e tinha como uma das principais bandeiras “o respeito à autonomia e à liberdade da mulher” (PETERSON, 2004, p. 142).
A desigualdade de gênero existente na sociedade é fruto histórico do sistema patriarcal, no qual o homem, no papel de marido ou pai, é o ator/personagem fundamental da organização social. É ele quem exerce a autoridade sobre as mulheres, os filhos e os bens materiais e culturais, (ALVES e CAVENAGHI, 2012, p. 102). O patriarcalismo resultou em exclusão social para nós mulheres. A dominação masculina e o modelo patriarcal foram construídos culturalmente ao longo do tempo em nossa sociedade, como afirma Bourdieu (2012, p. 45).

A dominação masculina encontra, assim, reunidas todas as condições de seu pleno exercício. A primazia universalmente concedida aos homens se afirma na objetividade de estruturais sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho de produção e reprodução biológica e sexual, que confere aos homens a melhor parte […] (BOURDIEU, 2012, p. 45).
Além do sistema patriarcal enfrentamos o sistema capitalista. A Síntese de Indicadores Sociais 2002, lançada pelo IBGE, confirma que na desigualdade por gênero, as mulheres ganham menos que os homens em todos os estados brasileiros e em todos os níveis de escolaridade. Elas também se aposentam em menor proporção que os homens e há mais mulheres idosas que não recebem nem aposentadoria nem pensão. O sistema capitalista (produção privada dos meus de produção) historicamente se favoreceu com a mão-de-obra “barata” das mulheres e das crianças, enquanto as mesmas eram impedidas de participar da vida política e das decisões que favoreciam a classe burguesa, dominada por homens que consequentemente fortaleciam o regime patriarcal (dominação masculina), que cada vez mais silenciavam as vozes das mulheres. Diante disso os capitalistas se aproveitavam para manter essa desigualdade entre homens e mulheres.
A desigualdade de gênero é um dos maiores problemas enfrentados pela mulher nessa sociedade fundamentada no patriarcalismo que regulariza a relação de gênero como homem e mulher voltados apenas para procriação, deixando de lado outros aspectos importantes para a vida social da mulher como educação, trabalho, saúde, lazer etc. Cecília Toledo (2014, p. 13) fala da ideologia machista construída desde 1865 até meados da década de 1880, segundo o qual “lugar da mulher é no lar”, que foi impulsionada por intelectuais da época, filósofos, pesquisadores influentes nos meios políticos e operários de toda a Europa, cujas ideias defendidas eram bem semelhantes às dos pais da Igreja, isto é, os teólogos que construíram a teologia do catolicismo na Idade Média (TOLEDO, 2014, p. 13).
Essas ideologias machistas diziam, por exemplo, que a função da mulher era a procriação e as tarefas domésticas. Portanto, segundo essa concepção, a mulher que trabalhava fora de casa estava roubando o trabalho do homem. Chegaram até a propor que o marido tivesse direito de vida ou morte sobre a mulher, em casos de desobediência ou falta de caráter, mediante a uma relação aritmética, a inferioridade do cérebro feminino em relação ao masculino, (TOLEDO, 2014, p.13).
Em consequência dessas ideias machistas, a opressão ainda é vivida nos dias de hoje pela mulher diariamente, em casa, na rua, na escola ou no trabalho, nos quais seus direitos ainda estão comprometidos além do sistema capitalista que as exploram, também por essas ideologias conservadoras de cunho patriarcal ou a dominação masculina (BOURDIEU, 2012), que durante séculos oprimiu e discriminou as mulheres e hoje as mesmas sofrem a opressão do sistema explorador capitalista e das ideologias machistas que constantemente lhe dizem como devem pensar agir e como devem vestir-se e comportar-se em nossa sociedade.
A inserção das mulheres através da sua luta e resistência no meio social (antes apenas dominado por homens) de forma efetiva possibilitou o reconhecimento, não apenas dos seus direitos, mas também da sua liberdade de se expressar, de seu direito de decidir sobre ações importantes na vida política dentro da sociedade, assim como o direito ao voto. Sua participação continua sendo peça fundamental para a construção efetiva da democracia, que é uma luta constante nessa sociedade fortemente marcada pelo patriarcalismo e pela desigualdade social e racial, disseminada pelo sistema explorador (capitalista) e seu estado burguês.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ALVES, J. E. A, CAVENAGHI. S. M. Indicadores de Desigualdade de Gênero no Brasil. Mediações, Lodrina, v. 17. N. 2, p. 83-105. Jul-Dez. 2012.
BORON, Atílio A, AMADERO, Xavier, GONZÁLES, Sabrina. (Orgs). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. Buenos Aires: Clasco, 2006.
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 11. ed. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2012.
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos Direitos Humanos. 7. ed., ver. e atual . São Paulo: Saraiva, 2010.
GROSSI, Mirian Pillar. Identidade de Gênero e Sexualidade. Vº Curso de Saúde e Direitos Reprodutivos: Campinas, 1996.
MELO, Hildete Pereira de. Gênero e Pobreza no Brasil. CEPAL-SPM: Brasília, 2005.
MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 12 ed. São Paulo: Atlas, 2002.
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. As mulheres, os direitos humanos e a democracia. Textos do Brasil: Cinquenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, Maio/Agosto 1998 Ano II – no 6.
PETERSEN, Janine. Feminismo e a polêmica da contracepção no Brasil (1970-1980). Esboços-Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFSC, Florianópolis, v.11, n.11, p. pp. 135-144, jan. 2004.
SOARES, Maria Victoria Benevides. Cidadania e Direitos Humanos. In: CARVALHO, José Sérgio (Org.) Educação, Cidadania e Direitos Humanos. Petrópoles, RJ: Vozes, 2004. págs. 56-65.

TOLEDO, Cecília (org). A Mulher e a luta pelo socialismo; por Kalr Marx, Friedrich Engels, V. I. Lênin, Clara Zetkin, Leon Trotski. 2.ed. São Paulo: Sundermann, 2014.




Silmara P. Moreira, feminista, escritora, graduada em Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades e graduanda em Sociologia, UNILAB.

Poesia e Hip- Hop: Conheça Kate Tempest

                                              Foto: Divulgação

Kate começou sua carreira em competições de hip-hop, e no teatro com renomadas companhias inglesas, todas as diversas experiências tornaram sua obra tão multifacetada e rica em diferenciais.

Embora desconhecida em solos brasileiros à britânica de 30 anos  é um dos nomes que mais crescem na cena do Hip-Hop Londrino, além de já ter vencido com sua poética o  premio “Ted Hughes ”
Com  textos teatrais e coletâneas de poemas publicadas, seu primeiro romance “Os tijolos nas paredes das casas” lançado este ano  foi sua primeira obra a chegar no Brasil.
Flip 2016
A poetisa foi aplaudida de pé na flip 2016 (Evento literário de Paraty) com sua intensidade  sem  tradução simultânea conquistou e emocionou o publico ao recitar dois de seus longos poemas.
 

Kate Tempest durante a Flip 2016 (Foto:Divulgação)

 Os tijolos nas paredes das casas
O livro conta a historia de três jovens que  resolvem  sair da cidade a fim de escapar de suas vidas vazias, com a esperança de escapar do tédio inesgotável, em busca de lugar nenhum. A obra explora a vida urbana em um aspecto moral e detalhista.

                                                                    Foto: Divulgação
                                                                                                         
Everybody Down
O álbum deu origem ao romance “Os tijolos nas paredes das casas” que trata das mesmas personagens com a poética do hip-hop. 


O livro já está disponível no Brasil pelo site da Saraiva
Para mais informações da escritora: site oficial 

Vamos falar de sexo mesmo? – por Ana Clara Squilanti

Reprodução/Internet

Que a descoberta pela sexualidade começa na infância, todo mundo sabe. Uma das histórias mais pitorescas que eu conheço é de um grupo de amigas que eventualmente se reuniam no sábado à noite, para jogar baralho e assistir pornô. Na verdade o truco, o buraco e o tapão eram o energético que havia na época para mantê-las acordadas até às 02h da manhã, quando começava o Cine Privê na Bandeirantes. Sim, com 12, 13 anos meninas assistiam Emanuelle no Espaço. E sabe quando foi rolar as discussões sobre erotismo e excitação? Anos depois, já adultas. À adolescência coube um enorme hiato sobre o tema. O engraçado é que ficavam excitadas mas não compreendiam, e ninguém nunca se colocou a entender também, pelo menos não naquela época.
Lembro das primeiras tentativas vitoriosas que tive me masturbando, e de, logo após atingir o orgasmo, ter sentido uma pontinha de dolo, vergonha. Eu, sozinha na escuridão do meu quarto, estava me sentindo culpada por ter gozado. Por mais que eu tenha parado a minha relação com a igreja na catequese, esse comportamento reflete o quanto o pensamento cristão ainda está incutido em nós, afinal, foi com ele que surgiu a ideia de que o sexo só deveria ser feito para a procriação, e que logo culminou na troca do prazer por medo, censura e culpa. Acredito ser essa culpa o nutrimento da falta de diálogo sobre prazer, e consequentemente da falta dele .Fui compartilhar essas experiências bem mais tarde, já madura. 
Conversas sobre sexo acontecem sim, claro, em qualquer roda de amigas, mas comecei a analisá-las mais minunciosamente recentemente. “E aí, rolou?”, “Sim!”, “Foi bom?”, “Foi legal”.“Você gozou?”, foi perguntado vez ou outra, e, sinceramente, nas poucas vezes em que a palavra gozo foi pronunciada, consecutivamente foi acompanhada de um olhar ou uma palavra repressora. “Você se masturba?” tem às vezes igual impacto. Meio estranho isso, ser liberado falar sobre o tamanho do membro do companheiro, motel e lingerie, mas ser tabu falar sobre tesão e orgasmo.O diálogo se sucede sim, entre algumas, mas raramente é algo discutido confortavelmente numa mesa de bar.O pior é que eu sinto que isso não é por mal, talvez seja algo até inconsciente. A sexualidade da mulher é tão reprimida que chega a ser obsceno assumir ela. A mulher tem que ser sexy, mas sexual, só entre quatro paredes e com o companheiro, se não soa feio, vulgar. 
Mais do que ser vergonhoso falar que você tem satisfação na cama, é assumir que você não tem. Parece que isso te faz menos mulher. E foi assim, timidamente, após inúmeros anos de amizade e mais anos ainda de vida sexual ativa, que uma amiga me contou que achava nunca ter tido um orgasmo. Achava, ou seja, nunca teve mesmo. Sei que ela ficou envergonhada ao falar isso, e eu em contrapartida fiquei muito triste. Triste por ela nunca ter experienciado isso, triste pelas relações que ela já teve, pela apatia dos homens com quem ela já se deitou por não se sensibilizarem com isso. Triste por mim e por todas as mulheres que já permanecemos com tesão após o companheiro desmontar em êxtase para o lado, triste por saber que algumas de nós não nos tocamos e não sabemos do que gostamos, por todas nós que não compartilhamos isso e que, infelizmente, ainda vemos isso como normal. Triste, ainda mais, por saber que esse tipo de situação é constante. 
Não vou entrar no mérito da questão do sexo ser feito, no mínimo, a dois, e de que se espera que os dois se satisfaçam com ele, mas sim no fato de nós, mulheres, ainda não conversamos sobre isso. Não na intensidade que deveríamos. Se a problematização é lenta, a busca pela solução também é. Nós não vamos buscar prazer na cama, nem desfrutar dele, se não começarmos a ver a sua falta como um dilema. 

Ana Clara Squilanti, cis, branca, (meio) hétero e há 27 anos em constante desconstrução.