AMOR (IM)PROVÁVEL

Quando a noite cai, surge a mais solitária das estrelas. Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno, brilho esse que atrai muitos olhares. Nenhum que a fizesse feliz. Não posso dizer que ela não conhecia a felicidade, mas garanto a vocês, ela estava incompleta. Sempre cercada de outros como ela, sempre cercada de outros diferentes dela, sempre olhando ao redor à procura de algo mais.

A noite caiu, Sirius surgiu. Sua procura estava quase no fim quando se deparou com o olhar do Astrônomo. Seus lindos olhos a atraíam de forma extrema, era como se eles fizessem um pedido… “Sorria para mim, minha linda estrela”. E assim ela o fez.

E essa cena foi se repetindo por muitas noites. Eles se encontravam (da maneira que lhes era possível), conversavam, sorriam, se olhavam, se sentiam, se amavam. Mas Sirius tentava ir contra tudo o que se passava. Como poderia se deixar apaixonar por alguém tão inalcançável? Jamais poderiam ficar juntos!

Ela quis aumentar a distância entre eles, mas não conseguiu. E de que forma? Não era possível se afastar, tarde demais para fugir e intenso demais para ignorar.

Ao mesmo tempo em que ela negava seus sentimentos, ela também se apegava. Passou a enxergar um homem incrível. “Ele é tão inteligente, dedicado, carinhoso, verdadeiro, apaixonado… eu estou apaixonada”, assim ela começou a pensar.

O Astrônomo alcançou o coração da estrela. E de tal forma, que não foi necessário criar uma galáxia para viverem juntos, Sirius desceu do céu só para poder entregar todo o amor que ele despertou dentro dela. Não era mais necessário procurar por algo que a fizesse feliz. A estrela mais brilhante do céu noturno uniu-se a um Astrônomo para provar ao mundo que o amor existe para todos. Não importa onde você está.

Quem é você?!

Ela sabe o que eu penso. De olhos vendados e braços abertos para toda e qualquer aventura, é assim que eu a sinto sob o olhar de um vazio: Serena, imutável, ausente.

Um pequeno momento em que me recolho ao inatingível, ao mais próximo do miserável e longínquo sonhador. Sou o contento de um instante perpetrado nessa eternidade de sonhar.  Fantasia pura, tocada pelo desejo daquela que, com gestos de loucura, coexiste em minhas invenções de por um pardo momento não existir.

Atravesso com olhar intrigante e desiludido a ambição dos movimentos que se combinam. Tudo ali se constrói em um cenário de muitos sentidos.  Quem me dera se, de verdade, eu estivesse presente nas percepções de um segundo.

 Usurpada pelo espectro de um ser irredutível na sua rigidez mais tangível para não estar ali, toco vacilante a imagem que me seduz.  Fecho meus olhos e me sinto parte singela de uma realidade que se contempla com os pés fora do chão. Ao fechar a porta, é como se tivesse perdido para sempre o caminho que me levaria de volta para casa.

Afilhadas de Gaia

Risos e mais risos. Vestidas de flores e brisa. Correndo e dançando pelos campos verdes. O sorriso de uma era oferecido à outra.
A mais velha era filha do arco íris. Era a mais alegre, saída ao pai. A mais nova, filha da aurora, tinha nos olhos o violeta da essência de sua mãe. Eram ninfas, não como tantas de que se ouve falar na mitologia. Eram afilhadas de Gaia.
Ambas possuíam o mesmo perfume, pois a madrinha e mentora ensinara-lhes a trajarem margaridas. A flor estava em volta de seus corpos, em seus cabelos e em suas almas.
Eram conectadas pelas margaridas. Gaia as ligara, mas nenhuma das duas compreendera o significado de tal união.
A filha do arco-íris percebia apenas que era fascinada pelos olhos violeta da filha da aurora. Mergulhava neles e às vezes se afogava… Só não sabia por que.
E a mais jovem de nada se dava conta. Brincava, ria e dançava com a outra. Só não podia sentir-se indiferente quando sentia o toque de sua pele.
Risos e mais risos. Vestidas de flores e brisa. Correndo e dançando pelos campos verdes. Deitando-se lado a lado na grama macia. O sorriso de uma era oferecido à outra.
Novamente os olhos da mais nova tragam a mais velha. E o toque da filha do arco íris entorpece a filha da aurora. A sensação inicial é de susto. A seguinte de medo. Mas a que permanece é de serenidade, à qual se une o entendimento.
Tudo sucedido pelo mergulho mais profundo nos olhos, logo fechados, e pelo toque mais vivo da pele, agora dos lábios.
Ligadas pelas margaridas. Afilhadas de Gaia. A filha do arco-íris e a filha da aurora.