impunidade

Impunidade masculina segue firme (e nós seguimos com medo)

A violência contra a mulher é um mal sistêmico ao qual absolutamente todas estamos sujeitas. A configuração de nossa sociedade é o que nos empurra para essa situação, onde as que não sofreram ainda alguma situação de violência de gênero aprenderam a conviver com o medo dela.

E a forma como são tratados os agressores não apenas cria sentimentos de injustiça e impotência, como também reforça a insegurança. No caso do estupro, por exemplo, estima-se que apenas 3% das denúncias resultam em condenação no Brasil. TRÊS-POR-CENTO. É importante lembrar que calcula-se também que apenas 35% dos estupros no Brasil são notificados. Isso significa que 65% dos casos de estupro não têm a menor chance de condenação.

Impunidade
Imagem: Istoé

Em meio a isso, uma sugestão de lei em tramitação no Senado Federal torna crime hediondo e inafiançável a falsa comunicação de estupro. Atualmente ela se encontra aberta para votação do público, com 21.255 votos a favor e 20.297 votos contra.

Para uma comunicação de crime ser considerada falsa, é necessário muito pouco. Os números acima já demonstram o quanto nosso sistema ainda precisa evoluir para agir adequadamente perante casos de violência sexual. Com nosso judiciário atual, uma denúncia considerada falsa não necessariamente é falsa.

Se essa lei for aprovada, ao não conseguirem reunir provas suficientes (que muitas vezes não existem, pois nem toda violência sexual deixa marcas físicas), além do medo de ver seus agressores impunes, mulheres abusadas também deverão temer a cadeia.

A impunidade masculina conta ainda com ferramentas poderosas para sua própria manutenção. Quanto mais alta sua posição na pirâmide social, maior a chance de um homem não pagar pelos seus atos. E a ausência de penalidade não aparece apenas no âmbito judicial, mas contempla todos as esferas da sociedade.

Sempre que um caso de assédio, estupro, violência doméstica ou qualquer outra opressão de gênero repercute na mídia, uma boa parcela da população se arma em defesa do agressor. Vide textos já postados aqui no blog, sobre os casos dos atores José Mayer e Johnny Depp.

São tantos exemplos, alguns já repetidos diversas vezes, mas as listas crescem cada vez mais. Assédio na Playboy. Abuso e assédio sexual por Cassey Affleck. Agressão e violência psicológicas televisionadas em reality show. Goleiro Bruno. Isso, para citar apenas alguns dos casos que repercutiram este ano. E ainda estamos em abril.

 

Da esquerda para a direita: André Luís Sanseverino e Marcos Aurélio de Abreu (presidentes da Playboy), Casey Affleck, Marcos e Bruno. (Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio via Canva)

 

Os dois últimos devem ser comentados aqui. A espetaculização de um caso de violência contra a mulher marcou o caso do Big Brother Brasil, em que Marcos (37 anos) agrediu diante de câmeras sua parceira Emily (21).

Providências tomadas pela Globo? Nenhuma. Ao menos não até que a polícia do Rio de Janeiro começar a investigar o caso e determinar a expulsão do participante. Isso, pouco depois da repercussão do caso José Mayer, que resultou apenas no afastamento do ator. Novamente, reforçando: a emissora não fez nem a sua obrigação.

O público também tem a sua parcela de culpa na criação do circo em torno da situação, já que é a audiência que guia as ações da emissora e sua insistência em sustentá-la. Importante lembrar que, inclusive, Marcos teve a preferência do público para ficar no programa mesmo depois que as agressões viralizavam pela internet, e à época de sua expulsão, a hashtag “forcamarcos” chegou aos Tredding Topics no Twitter.

Para fechar (ao menos por enquanto), no dia 22 de abril, Marcos publicou uma carta aberta para Emily em que se colocava como vítima da situação, inclusive a culpabilizando por denunciar sua agressão. E além de ele continuar recebendo apoio, internautas agora caem na mesma linha de raciocínio e acusam Emily de falsa e aproveitadora, espalhando a nova hashtag “emilyjudas”.

Já sobre o goleiro Bruno, caso antigo que voltou a receber atenção este ano com a soltura do jogador, dois pontos. O primeiro: acusado de mandar matar e ocultar o corpo da ex-companheira Eliza Samúdio (que estava grávida), Bruno tem fã-clube, assédio (positivo) de público em busca de selfies e autógrafos e foi contratado pelo time Boa Esporte Clube. Tratado como celebridade por um número muito maior de pessoas que se esperaria de alguém que ainda nem mesmo pagou pelo seu crime.

Segundo ponto: o Boa amargou a péssima repercussão da contratação, perdendo patrocinadores. Bruno voltou à prisão por decisão STF. É um ponto positivo, sim, mas que infelizmente não apaga todos os pontos negativos que já vivenciamos. É sempre bom lembrar que cada vitória conta, mas uma sociedade machista sempre nos colocará em risco.

Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” Simone de Beauvoir

É por isso que é tão importante não nos silenciarmos. Para não deixarmos que nossos direitos nos sejam tomados e para lutar para que agressores sejam punidos. E outra coisa que eu sempre insisto quando reclamam da repercussão que damos para esses casos, como se “não soubessemos perdoar”:

Muitos deles têm como única punição a repercussão negativa espalhada por nós. Se você é um dos que nos criticam, por favor: nos deixem falar. Já é tão pouco comparado com o que realmente é justo, e querem nos calar. Nos deixe ao menos fazer algo, mesmo que seja pouco, para tentar equilibrar essa balança. Porque o mundo está cheio de advogados para os homens, contra muito poucos promotores. E isso não é, de forma alguma, justiça.

Não queria ter de desperdiçar meu tempo afirmando que existe uma cultura do estupro! Mas, infelizmente, isso é preciso.

Não queria ter de desperdiçar meu tempo afirmando que existe uma cultura do estupro! Mas, infelizmente, isso é preciso

 

Não importa o nome dado, estupro é estupro, apesar da relutância vinda de alguns que se negam em reconhecer quando esse estupro acontece. É constante o hábito de modificar o nome da ação para que assim ela passe a ser justificável, aceitável, perdoável, engraçada.

Ok, ok! Vou pegar leve com os leigos e explicar.

Estupro segundo o dicionário: crime que consiste no constrangimento a relações sexuais por meio de violência; violação.

Estupro segundo o Wikipedia: estupro, coito forçado ou violação é a prática não consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos.

Estupro segundo a legislação brasileira: constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. O crime pode ser praticado mediante violência real (agressão) ou presumida (quando praticado contra menores de 14 anos, alienados mentais ou contra pessoas que não puderem oferecer resistência). Logo, drogar uma pessoa para manter com ela conjunção carnal configura crime de estupro praticado mediante violência presumida, pois a vítima não pode oferecer resistência.

Vários locais onde se pode pesquisar esse termo. TODOS  em comum acordo quanto ao ser um ato violento e criminoso. Por que certas pessoas não entendem dessa forma? Alguns dos motivos para essa falta de consenso quanto ao que podemos ou não considerar estupro são: abuso sexual e assédio sexual.

cultura do estupro

cultura do estupro

Muita gente entende que esses dois termos que citei a cima são menos agressivos que o estupro e, por isso, mais aceitáveis. E é essa tentativa constante de maquiar as diversas faces da agressão sexual que alimenta as mentes das pessoas que defendem tais atos de violência como pequenos, de pouca importância e até mesmo “invenções de feministas mimizentas”.

Abuso sexual: qualquer forma de constrangimento sexual sobre um indivíduo em situação de inferioridade, envolvendo ou não violência física.

cultura do estupro

Assédio sexual: fazer uso de palavras de baixo calão para ofender ou “elogiar” uma mulher, indiretas sexualizadas dirigidas à mulheres que não às pediram ou permitiram e até mesmo tocar-lhe o corpo (como acontece em ônibus, festas e no trabalho também) sem consentimento da mesma.

Percebe como são atitudes de violação, agressivas, humilhantes e abusivas, assim como o estupro? E, assim como o estupro, são tidos como consequências de atos errados cometidos pela vítima. Veja só:

  1. – andar com roupas curtas ou justas é pedir para sofrer alguma dessas agressões a cima;
  2. – estar na rua até tarde também é;
  3. – beber então, nem se fala;
  4. – jamais pense em pedir respeito, direito de ser, estar, usar, seja o que for. Você está errada, tem que aceitar a agressão e ainda fica sendo a puta que provocou tal ato.
Esses pensamentos estão muito enraizados em nossa sociedade patriarcal, partem das palavras mais simples até a violência em si. E é essa escala de definiu o que é a cultura do estupro.
Cultura do estupro é:
  1. – duvidar da mulher que conta ter sido estuprada;
  2. – levar em conta o passado ou vida sexual da vítima;
  3. – acreditar na malícia naturalmente existente na mulher;
  4. – objetificação do corpo feminino existente na publicidade, na TV, na literatura, etc;
  5. – ensinar a não ser estuprada ao invés de ensinar à não estuprar;
  6. – achar aceitável fazer sexo em alguém enquanto está embriagada, dormindo, desmaiada;
  7. – ter medo de ser uma mulher sozinha saindo do trabalho a noite e achar natural;
  8. – duvidar da real existência de quaisquer violência contra a mulher;
violência
Reprodução/Internet

O silenciamento contribui com a cultura do estupro. Se os casos de violência são tidos como naturais, então para que vamos investigar? Não a motivos para pedir ajuda a família, denunciar seu vizinho, entregar seu patrão. Mães, amigos, tias, colegas de trabalho, delegados, professores, juízes, jornalistas, todos unidos para jogar um caso de estupro, abuso e assédio para debaixo do tapete.

Eu pude perceber que a nomenclatura ajuda a definir o que é ou não relevante, assim como as regras impostas pela sociedade. Siga essas regras de forma indubitável, se mesmo assim você passar por alguma situação de violência sexual vamos ver se podemos enquadrar o caso em alguma  lista mais aceitável.

Com tudo isso, ainda encontramos pessoas que desconhecem ou negam a existência da cultura do estupro. Preferem agir fingindo que não são coniventes com atitudes que permitam um ato abusivo em sua sociedade perfeita. Ou pior, elas REALMENTE ACREDITAM não ser. Isso dificulta tudo não é? Como lutar contra algo que acredita não existir? Como lutar contra algo que acredita ter sido culpa sua?

Freiras fingem ser prostitutas para libertar mulheres e crianças do tráfico humano

Imagem: reprodução/internet

Um grupo de freiras superam na forma de resgatar vítimas do tráfico de mulheres e crianças. Elas se infiltram em bordeis fingindo ser prostitutas e tentam ajudar mulheres que sejam mantidas à força nesses locais.

Nossas heroínas também utilizam do dinheiro a favor da liberdade infantil. Elas “compram” as crianças que são vendidas pelos pais como escravas. Existem casas especificas preparadas para receber as crianças resgatadas aqui no Brasil, na África, nas Filipinas e na Índia.
Reprodução/Talitha Kum
A organização tem o nome de Talitha Kum, Rede Internacional da Vida Consagrada contra o Tráfico de Pessoas.

Reprodução/Talitha Kum
A instituição age em 80 países diferentes e conta com cerca de 1100 de mulheres. Elas explicam que cerca de 73 milhões de pessoas (cerca de 1% da população) são traficadas de alguma forma no mundo. Desse número, 70% são mulheres.

Reprodução/Internet
John Studzinski, banqueiro e diretor da entidade, disse que as irmãs não confiam em ninguém. Elas não confiam nos governos, não confiam em corporações, e não confiam na polícia local. Em alguns casos, elas não podem confiar nem no clero masculino.

Vale muito a pena conhecer o trabalho delas. O tráfico de mulheres não recebe o devido valor das autoridades. Ainda enxergam como garotas que escolheram ser putas e se divertem vivendo ao lado de bandidos que as maltratam e exploram em quanto acham vantajoso.

Esperamos que o trabalho realizada pelas freiras sirva como modelo e inspiração para que um dia não tenhamos mais que temer o trafico humano.

Sobre um diálogo de TODAS NÓS

Sabe quando o estupro acontece? Quando você, ao sair de casa, passa por um ou vários homens que a encaram sem o menor pudor enquanto lançam suas cabeças e corpos que vão em conjunto a palavras reduzidas à extensão do seu corpo, à idade, ou ao mérito da gostosura. E você?! Disciplinada para ser submissa e intimidada pelas proporções de um dado biológico, desvia os olhos e caminha.
Sabe quando o estupro acontece? Quando seus amigos, namorado, pai e irmão se impõem pelo timbre de uma voz que sucumbe ao desejo de não querer ouvir, de ser exclusivo em razão e poder, e de ter vantagens sobre um corpo atravessado pela virilidade do discurso.
Sabe quando o estupro acontece? Quando ele controla suas roupas, suas saídas com amigas que, uma ou todas, são rotuladas como influência negativa ao bibelô que se quer criar. Quando ele não aceita que você saia sozinha. Isso mesmo! Porque sair sem ele, ainda que com outras mulheres, é estar à própria sorte em um universo que só nos reconhece à sombra do masculino.
Sabe quando o estupro acontece? Quando ele diz que você é rodada e, portanto, ideal para os amigos que não querem nada “sério”. Quando ele invoca rivalidades femininas ao elogiá-la dizendo: “você é diferente das outras!”. Quando, para convencer os amigos de que você foi Apegada da noite, ele simplifica alegando o quanto você é “gostosa”, ou extremamente linda.
Sabe quando o estupro acontece? Quando ele se satisfaz por ter gozado e ponto! Quando ele relativiza a violência contra outras mulheres perguntando: “você sabe o que ela fez, onde ela estava, que roupa usava, ou se ela o traía?”, ou, quando, para ele, a resolução dos problemas se resume a ser bem ou mal comida.

Enfim, você sabe quando o estupro também acontece?