Virgínia Woolf e a luta pelo espaço da mulher – Parte II

Como seguir o caminho do feminismo sempre remendado pela sociedade? 

 

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No Entendendo o Feminismo da semana passada (12/04), publicamos a primeira parte do texto Profissões para Mulheres, da ensaísta, escritora e editora britânica, Virgínia Woolf. O texto foi produzido especialmente para um encontro entre profissionais na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, pela qual a escritora foi convidada para falar sobre suas experiências profissionais. Era 21 de janeiro de 1931, ano em que muitas mulheres começaram a ingressar no mercado de trabalho britânico. Hoje publicamos a segunda parte do texto, lido por Woolf nesse encontro.

 

Profissões para mulheres

Parte II

 

Mas retomando a história de minhas experiências profissionais. Recebi uma libra, dez xelins e seis pences por minha primeira resenha, e comprei um gato persa com esse dinheiro. E aí fiquei ambiciosa. Um gato persa é uma coisa ótima, disse eu; mas um gato persa não chega. Preciso de um carro. E foi assim que virei romancista – pois é muito estranho que as pessoas nos deem um carro se a gente contar uma história para elas. E é ainda mais estranho, pois a coisa mais gostosa do mundo é contar histórias. É muito mais agradável do que escrever resenhas de romances famosos. Mas, se é para atender à secretária de vocês e lhes contar minhas experiências profissionais como romancista, preciso falar de uma experiência muito esquisita que me aconteceu como romancista. E, para entende, primeiro vocês têm de tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Acho que não estou revelando nenhum segredo profissional ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser o mais inconsciente possível. Ele precisa se induzir a um estado de letargia constante. Ele quer que a vida siga com toda a calma e regularidade. Enquanto escreve, ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas um dia depois do outro, um mês depois do outro, para que nada venha a romper a ilusão em que vive – para que nada incomoda ou perturbe os misteriosos movimentos de farejar e sentir ao redor, os saltos, as arremetidas e as súbitas descobertas daquele espírito tão tímido e esquivo, a imaginação.

Desconfio que seja o mesmo estado de espírito para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês imaginem uma moça sentada com uma caneta na mão, passando minutos, na verdade horas, sem molhar a pena no tinteiro. Quando penso nessa moça, a imagem que me ocorre é alguém pescando, em devaneios à beira de um lago fundo, com um caniço na mão. Ela deixava a imaginação vaguear livre por todas as pedras e fendas do mundo submerso nas profundezas de nosso ser inconsciente. Então vem a experiência, a experiência que creio ser muito mais comum com as mulheres do que com os homens que escrevem. A linha correu pelos dedos da moça Um tranco puxou a imaginação. Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes maiores. E então bateu em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada, tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do sonho. E de fato ficou na mais viva angústia e aflição. Falando sem metáforas, ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela, como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe dizia que os homens ficariam chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que escrevem – ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois, embora sensatamente o homens e permitam grande liberdade em tais assuntos, duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a mesma liberdade nas mulheres.

Então, essas foram duas experiências muito genuínas que tive. Foram duas das aventuras de minha vida profissional. A primeira – matar o Anjo do Lar – creio que resolvi. Ele morreu. Mas a segunda, falar a verdade sobre minhas experiências do corpo, creio que não resolvi. Duvido que alguma mulher já tenha resolvido. Os obstáculos ainda são imensamente grandes – e muito difíceis de definir. De fora, existe coisa mais simples do que escrever livros? De fora, quais os obstáculos para uma mulher, e não para um homem? Por dentro, penso eu, a questão é muito diferente; ela ainda tem muitos fantasmas a combater, muitos preconceitos a vencer. Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez?

São perguntas que gostaria de lhes fazer, se tivesse tempo. Na verdade, se insisti nessas minhas experiências profissionais, foi porque creio que também sejam as de vocês, embora de outras maneiras. Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto – quando nada impede que uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública –, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver as dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente. Toda a questão, como eu vejo – aqui neste salão, cercada de mulher que praticam pela primeira vez na história não sei quantas profissões diferentes –, é de importância e interesse extraordinário. Vocês ganharam quartos próprios na casa que até agora era só dos homens. Podem, embora com muito trabalho e esforço, pagar o aluguel. Estão ganhando suas quinhentas libras por ano. Mas essa liberdade é só o começo; o quarto é de vocês, mas ainda está vazio. Precisa ser mobiliado, precisa ser decorado, precisa ser dividido. Como vocês vão mobiliar, como vocês vão decorar? Com quem vão dividi-lo, e em que termos? São perguntas, penso eu, da maior importância e interesse. Pela primeira vez na história, vocês podem fazer essas perguntas; pela primeira vez, podem decidir quais serão as respostas. Bem que eu gostaria de ficar e discutir essas perguntas e respostas – mas não hoje. Meu tempo acabou, e paro por aqui.

 

*Virgínia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942. 

 

 

 

Virgínia Woolf e a luta pelo espaço da mulher – Parte I

Como seguir o caminho do feminismo sempre remendado pela sociedade? 

 

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Mudar a opinião comum de uma sociedade requer séculos de insistência, argumentação e luta. É como lutar contra uma árvore plantada e cuidada diariamente desde o século 19, criando suas raízes hoje inabaláveis. Assim foi com o machismo. Assim é o preconceito em geral, bem como as crenças populares – manga com leite. E por mais que exista um grupo forte, consolidado na sensatez, a cegueira permanece. Lidar com uma nova verdade, a cegueira branca, desperta medo, raiva e violência.

O feminismo é uma prova disso. A inserção da mulher no mercado de trabalho, no seu reconhecimento enquanto cidadã, eleitora, consumidora ativa, formadora de opinião e líder, são acontecimentos presentes no mundo que tiveram o start na era industrial, no século XVIII. Ainda assim, presenciamos declarações impostas e generalizadas sobre o verdadeiro lugar e função da mulher para com ela mesma, a família e humanidade.

Avançamos em diretos cidadãos, retrocedemos quanto a violência doméstica. Avançamos no mercado de trabalho, retrocedemos na disparidade salarial. Avançamos na Lei Maria da Penha, retrocedemos nos casos diários de assédio e estupro.

Trata-se de um trabalho de costureira. Você faz o corte e começa a costura, mas a linha arrebenta. Refaz a linha, refaz o caminho, mas novamente arrebenta. Começa de novo. Refaz. Refaz. Refaz. Vamos remendando até um dia chegar lá. E é um remendar que está sendo feito há séculos.

Virgínia Woolf, ensaísta, escritora e editora britânica, observou e escreveu sobre essa luta constante em um momento importante da Inglaterra. Em 21 de janeiro de 1931, ano em que muitas mulheres começaram a ingressar no mercado de trabalho do país monarca, Woolf foi convidada para um encontro na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, onde leu o texto Profissões para Mulheres. Publicamos hoje a primeira parte, sendo a segunda disponibilizada na próxima quarta, sempre na coluna Entendendo o Feminismo.

 

Profissões para mulheres

Parte I

 

Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer. Minha profissão é a literatura; e é a profissão que, tirando o palco, menos experiência oferece às mulheres – menos, quero dizer, que seja específicas das mulheres. Pois o caminho foi aberto muitos anos atrás – por Fanny Burneym Aphra Behn, Harriet Martineau, Jane Austen, George Eliot ¹ -; muitas mulheres famosas e muitas outras desconhecidas e esquecidas vieram antes, aplainando o terreno e orientando meus passos. Então, quando comecei a escrever, eram pouquíssimos os obstáculos concretos em meu caminho. Escrever era uma atividade respeitável e inofensiva. O riscar da caneta não perturbava a paz do lar. Não se retirava nada do orçamento familiar. Dezesseis pences bastam para comprar papel para todas as peças de Shakespeare – se a gente for pensar assim. Um escritor não precisa de pianos nem de modelos, nem de Paris, Viena ou Berlim, nem de mestres e amantes. Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras, antes de dar certo nas outras profissões.

Mas vamos à minha história – ela é simples. Basta que vocês imaginem uma moça num quarto, com uma caneta na mão. Só precisava mover aquela caneta da esquerda para a direita – das dez à uma. Então ela teve uma ideia que no fundo é b em simples e barata – enfiar algumas daquelas páginas dentro de um envelope, colar um selo no canto de cima e pôr o envelope na caixa vermelha d esquina. Foi assim que virei jornalista; e meu trabalho foi recompensado no primeiro dia do mês seguinte – um dia gloriosíssimo para mim – com uma carta de um editor e um cheque de uma libra, dez xelins e seis pences. Mas, para lhes mostrar que não mereço muito ser chamada de profissional, que não conheço muito as lutas e as dificuldades da vida de uma mulher profissional, devo admitir que, em vez de gastar aquele dinheiro com pão e manteiga, aluguel, meias e sapatos ou com a conta do açougueiro, saí e comprei um gato – um gato lindo, um gato persa, que logo me criou sérias brigas com os vizinhos.

Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento? Mas esperem aí. Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre um romance de um homem famoso. E quando eu estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, “O Anjo do Lar”. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era exatamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo. E, quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto.

Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura”. E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro – digamos, umas quinhentas libras anuais? –, e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir. Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela.

Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo em busca de aventuras. Mas foi uma experiência real; foi uma experiência inevitável para todas as escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atividade de uma escritora.

Mas continuando minha história: o Anjo morreu, e o que ficou? Vocês podem dizer que o que ficou foi algo simples e comum – uma jovem num quarto com um tinteiro. Em outras palavras, agora que tinha se librado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é “ela mesma”? Quer dizer, o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato esta é uma das razões pelas quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da maior importância.

 

*Virgínia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942.

** Continua na próxima quarta-feira (19), na coluna Entendendo o Feminismo

 

O feminismo e o ensino fundamental

 

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 Muito tem se falado sobre feminismo nos últimos anos. O movimento cresceu assim como o ódio por ele.

Mas em dias em que meninas ainda na infância são alvos de pequenos gestos machistas, de opressões mascaradas de brincadeiras e baixa estima, precisamos mais do que nunca iniciar ainda mais cedo a educação aliada ao feminismo.
E eu explico.

Em algumas escolas da região, meninas são obrigadas a passar parte do intervalo, recreio, ou chame como quiser, sentadas para que os meninos possam correr livremente, sem as tocar, sem as observar ou fazer “brincadeiras” sobre seus corpos ainda em formação.

Em algumas escolas é ensinado às meninas que devem se omitir perante os meninos. Que devem não se misturar, não devem fazer as mesmas atividades porque não são apropriadas para meninas.

Como se isso já não fosse ruim, as meninas são as únicas que sofrem a ditadura do uniforme, a advertência pelo tamanho do short, a pressão para estarem sempre alinhadas.

E tem mais: em casa, a rotina dessas meninas não muda. Pois os pais, por hora despreparados, incentivam a anulação das meninas, bem como romantizar os relacionamentos abusivos de desde a infância da criança.

Percebemos que as escolas que se intitulam a extensão de nossas casas, tomaram como regra punir as meninas por serem mulheres. Ora, é mais fácil do que ensinar o respeito aos meninos, afinal eles são homens. É isso é normal, não é?

Se um colega bate em você, isso é sinal de que ele te ama. Se ele puxa seu cabelo é demonstração de carinho. Se ele te zoa no intervalo é porque secretamente é apaixonado. Se ele passa a mão em seu corpo sem a sua permissão, você devia agradecer por ele te achar linda.

Esse tipo de atitude reforça o machismo e seus privilégios. Esses meninos precisam aprender que ser criança não invalida a crueldade de seus atos. E é na escola onde a gente começa a nossa formação social. É na escola que aprendemos como ser indivíduos de uma sociedade. E é nesta mesma escola que todos deveriam se sentir seguros e confortáveis, independente de sua condição sexual ou gênero.

Isso só vai mudar quando ensinarmos nossas meninas a não se calar. Quando ensinarmos que elas são mais especiais e importantes do que está refletido em um espelho. Que elas podem e devem experimentar toda e qualquer atividade escolar, desde o futebol até a horta comunitária. Que elas não vieram ao mundo para servir e sim para somar. Que elas são lindas, cada uma com sua característica, e que ninguém que diga o contrário deve ser levado em conta.

Isso vai mudar quando meninos, homens, forem punidos por invadir os corpos das nossas meninas. Quando forem punidos por agredirem e violarem o espaço delas. Quando entenderem que mulheres devem ser respeitadas. Quando pararem de responsabilizar as mulheres pelos seus atos.

Temos um longo caminho. Mas pra começar precisamos apenas de um passo.

Casamento x Feminismo – Parte 1

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Eu nasci em um lar machista, onde a violência doméstica se alojou em cadeira cativa. Havia o controle sobre a esposa e sobre a filha.

Isso me fez decidir, desde muito nova, nunca me casar. Pra que arriscar uma réplica do casamento dos meus pais? Obviamente eu tentaria percorrer um caminho diferente, mas e se no meio desse caminho minha vida se tornasse um remake de toda aquela violência que eu presenciei e sofri quando criança?

Resolvi que não valia o risco.

Mas o padrão de vida esperado de uma mulher sempre envolve um homem. Somos educadas para gostar de cozinhar, lavar, limpar, cuidar da boneca. Qualidades muito valorizadas quando se diz respeito à uma boa futura esposa. Jamais me perguntaram se eu queria ser uma chef, mas eu era questionada se seria capaz de prender um homem pelo estômago. Me perguntavam se já tinha algum namoradinho, mas nunca qual profissão queria seguir.

Tudo me levando a crer que deveria almejar  um  bom casamento, com filhos felizes e blá blá blá. Então fui planejando minha vida… só que ela seguia a contramão.

  • **Viajar para Florianópolis
  • **Morar sozinha
  • **Curso Superior em Ciências Biológicas
  • **Adoção

Nada me levava aos homens, eu tive poucos namorados (poucas pegações, namorado mesmo foi só um). Fui seguindo os planos, criando novos, abandonando vários. Mas nada sobre longos relacionamentos. No fim, a vida amorosa da adolescência fugia de mim por livre e espontânea vontade.

Então, próxima dos 18 aninhos, conheci o feminismo. Ao contrário do que muitos podem estar pensando agora, ele não me afastou de vez dos homens, ele me aproximou das pessoas certas. Aprendi que desejar a igualdade é maior do que aceitar a submissão, é mais importante do que rejeitar os relacionamentos.

Eu AMO cozinhar, gosto de tudo muito bem organizado e sempre exijo tudo limpo. Aprendi essas essas quando criança para ser uma boa dona de casa, hoje faço tudo isso e gosto. Sabe o que mais aprendi e dessa vez com o feminismo? Que o marido deve cozinhar, organizar e limpar tanto quanto a esposa. Sabe o mais legal? Me casei com um homem que está aprendendo tudo isso.

Ser ou não uma feminista não é motivo  para casar ou não casar. Pare de procurar/aceitar a hierarquia no casamento. Procure pela igualdade, verá como é muito melhor.

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Quatro livros de simples leitura sobre feminismo

 

A introdução do feminismo desde cedo se faz fundamental para o inicio de um empoderamento e para a quebra da sociedade machista construída pela cabeça patriarcal que vem perdurando de séculos ate os dias atuais.

Por esse motivo fiz uma seleção de livros com historias, e introduções ao feminismo de fácil leitura para todas com uma linguagem acessível a todas.

 

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     1-     Capitolina (Varias autoras) 

Uma seleção de textos de diversos temas escritos por feministas na revista virtual Capitolina (As ilustrações também.

 

 

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     2-     Eu quero ser eu (Clara Averbuck)

Com humor, senso critico e sensibilidade, a escritora Clara Averbuck conta a historia de uma menina rebelde que se recusava a mudar sua opinião para se encaixar na normalidade do mundo atual

 

 

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 3-  O Que É O Feminismo (Branca Moreira)

O livro da Branca Moreira confronta os problemas vivenciados pelas mulheres na sociedade atual fazendo um paralelo com os tempos medievais.

 

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     4-     Feminismo e política (Flavia Birolli e Luis Felipe Miguel)

O livro destaca temas de debates feministas e políticos explicando as teorias de forma simples fazendo com que todas as mulheres compreendam e se familiarizem com o assunto.

Sou a mulher presa que foge do mundo predador!

 

Caminhando pela selva de pedra e aço, me esquivando a cada passo para não me deparar com o leão que me cobiça como um pedaço de carne em seu prato. Ou em seu carro? Talvez em sua esquina? Será que é em sua moita que de tudo disfarça? Vai ser onde ninguém puder me ouvir gritar.

As pessoas (as muitas pessoas) não compreendem que meu medo é real e aprisionador. O medo de viver que foi impregnado em minha pele. Assim como se impregna o cheiro do esgoto ao corpo dos ratos, que precisam estar escondidos e acuados em buracos para escapar de todos que os veem como um ser dispensável. Ele nada merece além do sofrimento e os ataques por ser quem é. Eu sou o rato!

Também sou mulher que tem a cor e função de ser húmus. Produzida com o dever de ser fertil, fácil, abundante, útil para a agricultura machista que insiste em me alocar onde achar devido para produzir o que for de seu maior interesse. Sou uma escultura de terracota, que esbanja todo sua cor nos museus criados para a degustação masculina. A arte que deve ser apreciada e usada por todos aqueles que se mostrarem mais afim de impor seu direito de tocar quando quiser, levar para onde mais convier, fazer o que seu instinto primitivo disser, me obrigar ao que eu não quiser.

Nasci com um crachá que me rotula como “ser a ser moldado pelo mundo”, de forma que fique mais fácil de ser aceita no mundo. Afinal, o mundo nos fará arrepender de ser diferente do que ele almeja para nós. Mundo, mundo, mundo… Mundo? Nem tanto. Nem todos. Você é diferente, sua amiga pensa de outro jeito, sua vizinha também não quer fazer uso desse rotulo que colocaram em meu crachá. Eu sei, são todas como eu.

O problema não é todo o Mundo, o problema é uma gigantesca parcela dele que insiste em querer molda-lo a sua maneira. O problema esteve em minhas tias que me disseram para andar como moça ao invés de correr feito um cavalo.

” – Parece um menino, tá doido!”

O problema sempre estará nos crachás. São eles que ditam o que você DEVE SER, nunca o que você quer ser. Querer não é poder , afinal. Mas eu quis! Então fiz uso de um pincel permanente para escrever de forma escarranchada em meu peito:

APENAS EU

Eu quis ser, então eu serei. Serei a menina que corre como cavalo/menino, que fala alto, usa samba canção enquanto está na frente do marido e fio dental quando está sozinha em casa.

Serei a feminista, já que ele me deu o tal pincel permanente; serei a dona de casa, porque ninguém mais tem capacidade de cuidar da minha casa melhor do que eu; serei a vadia; a recatada, a chefe, a menina, a mãe, a grossa, a meiga.

Mas sabe o que eu nunca mais vou ser? A presa.

‘Caçadoras de Mitos’: mentiras sobre o feminismo

O feminismo cresceu muito recentemente, mas também apareceram muitas pessoas contrárias a ele. Não apenas opressores assumidos, mas também pessoas desinformadas, alimentadas pelo senso comum, repetem e propagam mitos sobre o movimento. Algumas dessas inverdades são tão comuns em posts e comentários pela internet que achamos que já era hora de fazer uma “versão feminista” do Mythbusters. Segue abaixo uma seleção de mentiras sobre o movimento, e nossa resposta a elas.

“O feminismo prega a superioridade da mulher sobre o homem”

O feminismo luta a favor de direitos iguais para ambos os sexos. Simples assim. Ele quer corrigir as injustiças sociais do patriarcado e dos papéis de gênero. Cada vertente e cada feminista tem pontos sobre essas questões, mas nisso todas elas convergem. 
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“Feministas querem apenas os direitos, nunca os deveres”

É muito comum ouvirmos essa frase acompanhada de outras como “alistamento obrigatório não querem” ou “na hora que pagar menos na balada não reclamam”. Antes, vamos entender que tudo depende da sua concepção de deveres. O feminismo luta por direitos, e se a esses direitos vêm atreladas responsabilidades, nós as queremos SIM.
Mas algumas ideias, como as que eu citei, não fazem sentido. A primeira porque não há por que lutar por ainda menos liberdade. A segunda porque nós também não gostamos desse fato. Como já disse uma pessoa sábia: “se você não paga pelo produto, o produto é você”. E entre nossas pautas, está o direito de não sermos tratadas como mercadoria.

“O feminismo faz discurso de ódio contra o sexo masculino”

Como já falei nesse post, explicando por que algumas feministas usam ironicamente de repulsa aos homens em memes, misandria não mata ninguém. Ela no máximo é usada de modo irônico contra os opressores, enquanto a misoginia mata, estupra e agride.
De todo modo, tirando essa ironia, feministas não pregam ódio aos homens. Quando fazemos afirmações generalistas sobre seu gênero, estamos tratando de seus papéis sociais. Quando alguma feminista diz, por exemplo, que “todo homem é um estuprador em potencial”, não significa que todos vão estuprar, mas que se ele quiser, provavelmente vai conseguir, porque tem poder para isso.

“Feministas são todas (complete aqui com qualquer clichê sobre aparência, hábitos ou sexualidade)”

Nos parênteses entram, usualmente: gorda, peluda, mal comida, lésbica, feia, puta… Dica: feminista não é tudo igual. Dá pra ser feminista e não ser nada disso, assim como dá pra ser e, adivinha? Não é da conta de ninguém. O fato de pessoas julgarem mulheres por sua aparência, hábitos e sexualidade só reforça a importância do feminismo.
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“Feministas querem ser iguais aos homens”

Não, feministas querem ter os mesmos direitos e liberdades que os homens. É comum que essa frase venha junto com ideias como “já é feio para o homem fazer (complete aqui)”. Geralmente a frase é completada com aspectos que se referem à liberdade sexual. O maior problema é que, geralmente, essa frase é usada como máscara. O homem dificilmente é julgado por sua liberdade da forma que a mulher é. E mesmo se fosse, sexo é algo saudável, e a quantidade de parceiros e os hábitos sexuais de cada um não deveriam incomodar tanto.

“Feministas são comunistas”

Esse mito é completamente ligado à dificuldade que as pessoas têm de separar ideologia de esquerda e comunismo. Não, não é a mesma coisa. Todo movimento que visa a subversão de padrões vigentes é de esquerda, e isso inclui o comunismo, mas não só ele. E por natureza, o feminismo pode ser considerado um movimento de esquerda. Mas isso não é regra nem para o movimento, nem para cada feminista. O feminismo liberal, por exemplo, acredita na livre iniciativa, tendo portanto traços de ideologias de direita.

“Feminina sim, feminista não”

O que representa “ser feminina”? A sociedade dita papéis para nossos gêneros, e muitos dos traços dos gêneros são construção social. Questionar isso é pauta do feminismo. Mas não significa que feministas precisem abdicar de características atribuídas a seu gênero. Dá para ser feminista e ser tida como “feminina” pela sociedade.
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“Donas de casa não podem ser feministas”

Se relaciona ao tópico acima. O feminismo promove a problematização dos papéis, o que inclui a delegação dos deveres de casa às mulheres. Mas isso não impede uma mulher, consciente disso e por vontade própria, de ser dona de casa e feminista.

“O feminismo de antes que era bom, hoje em dia elas só querem mostrar os peitos”

Sempre que eu topo com esse tipo de comentário eu me pergunto se quem tem fixação por peitos somos nós ou quem é contra o feminismo. Uma passada rápida em algumas das principais páginas feministas no Facebook mostra que as pautas são muito diversificadas. Além disso, nem toda manifestação que usa o corpo para protestar é totalmente incoerente, mas isso não significa que toda feminista concorda com elas.
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“O feminismo não respeita as religiões”

Fato surpreendente: muitas feministas têm uma religião, e algumas são até cristãs! Acontece que o feminismo permite o questionamento de dogmas e costumes religiosos que não são condizentes com nossas noções de respeito, igualdade e liberdade. E, por isso, é comum a problematização desses valores religiosos, assim como dos males que instituições como a Igreja Católica e outras fizeram a mulheres e outras minorias. Mas nada disso apaga o respeito pela fé de cada uma.

“O problema são as feministas radicais, que estragam o movimento”

Existem várias vertentes do feminismo, mas é importante entender que “radical” vem de raiz, e não de extremismo. Deixo aqui o post da Alessandra sobre o feminismo radical.

“Eu não preciso do feminismo”

Eu fico particularmente incomodada com essa. Primeiro que duvido muito que alguma mulher no planeta não precise nem um pouco do feminismo. Segundo porque, suponhamos, essas moças realmente não precisem. Elas usam a frase para deslegitimar o movimento, mas acabam demonstrando egoísmo, pois desconsideram as mulheres que mais precisam dele. Uma moça que nunca foi violentada, sofreu violência doméstica, ou teve sua sexualidade julgada demonstra falta de empatia ao dizer tal coisa.
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“Homens e mulheres já têm os mesmos direitos”

Outra frase que eu realmente fico chocada em ler/ouvir. Nossos direitos civis (aqui no ocidente) podem ser bem próximos de uma igualdade, mas nem isso está perfeito. Aos poucos vamos evoluindo na correção de diferenças através de leis, mas ainda há muito a ser percorrido. Ao final deste link, são citadas algumas das leis sexistas no Brasil.

Mas o grande problema é que direitos civis nem sempre são suficientes para garantir direitos sociais. Várias desigualdades ocorrem apesar das leis, e às vezes até com conivência do governo pela ausência de ferramentas para corrigi-las.

Espero que o post tenha ajudado a esclarecer algumas coisas!

Vamos falar sobre feminismo liberal?

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Quanto mais nós lemos sobre o feminismo, mais informações surgem e com elas muitas dúvidas novas. As dúvidas que vamos tentar resolver hoje são sobre o feminismo liberal. 
O texto que estão lendo não representa nenhuma opinião pessoal (admito que a minha vertente feminista é a interseccional), ele foi feito de forma simples e objetivo para auxiliar quem, assim como eu, teve ou tem dificuldades em encontrar textos que sejam fáceis de entender e nos ajudem a conhecer melhor pelo o que estamos lutando.
Para ser bem sincera com vocês, eu não encontrei referências muito completas sobre essa vertente, então esse talvez seja o mais simples dos textos que já fizemos nessa coluna. Vamos abordar apenas algumas bases, ok?
O feminismo liberal, ou libfem, tem como foco a iniciativa livre de cada individuo. São os pensamentos que pessoas, gozando de todo o seu livre arbítrio, escolhem por conta própria, com o mínimo de intervenção vinda do estado, da família, da sociedade em geral.
Diferente do feminismo radical, que defende que as escolhas são condicionadas por regras da sociedade.
Para que vocês possam entender melhor, vou enumerar algumas das idéias defendidas pelas feministas liberais.
– se uma mulher modifica o próprio corpo para que ele se encaixe no padrão de beleza que sabemos ser estipulado pela sociedade, ela está exercendo liberdade de escolha. Existe o caminho de ter o corpo como é e padroniza-lo, e a mulher tem que ser livre para escolher entre eles por si mesmo.
– a prática da heterossexualidade feminina é uma escolha. Não é vista como uma regra estipulada ou questão biológica, mas sim uma decisão tomada conscientemente por cada uma. 
– a melhor forma prevista pelo libfem para colocar em prática a igualdade entre homens e mulheres é através de reformulação de leis. Reforma e uso da política e de meios institucionais. A ascensão de mulheres em governos, empresas e meios de comunicação é uma vitória para o feminismo liberal.
– algumas das questões que o libfem deseja concertar são a desigualdade salarial, permitir a aceitação de homens nas lutas feministas (Emma Watson defende essa ideia, vocês conhecem a campanha #HeForShe?) diminuição ou extinção do estado.
– o governo é visto como a maior causa das opressões sofridas pelas mulheres. Se o estado se envolvesse menos (ou melhor, não se envolvesse de forma alguma) essas opressões seriam cessadas. 
O feminismo liberal me parece o mais ligado a questões políticas (no sentido governamental), já que vê o governo como causa das opressões, do que as outras vertentes feministas. Não que as outras não possuam essa ligação, de uma forma ou de outra. Mas ainda preciso aprender muito sobre ele.
Como eu disse no início, me faltou material que ajudasse a compreender essa vertente. Por isso peço que todas as meninas que tenham material que complemente nosso texto, nos enviem. Estamos aqui para aprender com vocês! E se mesmo depois do que leu você ainda não entende coisa alguma, pergunte nos comentários. Nossos estudos não acabam aqui e quando surgirem mais informações, vamos atualizar tudo no blog.

Não queria ter de desperdiçar meu tempo afirmando que existe uma cultura do estupro! Mas, infelizmente, isso é preciso.

Não queria ter de desperdiçar meu tempo afirmando que existe uma cultura do estupro! Mas, infelizmente, isso é preciso

 

Não importa o nome dado, estupro é estupro, apesar da relutância vinda de alguns que se negam em reconhecer quando esse estupro acontece. É constante o hábito de modificar o nome da ação para que assim ela passe a ser justificável, aceitável, perdoável, engraçada.

Ok, ok! Vou pegar leve com os leigos e explicar.

Estupro segundo o dicionário: crime que consiste no constrangimento a relações sexuais por meio de violência; violação.

Estupro segundo o Wikipedia: estupro, coito forçado ou violação é a prática não consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos.

Estupro segundo a legislação brasileira: constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. O crime pode ser praticado mediante violência real (agressão) ou presumida (quando praticado contra menores de 14 anos, alienados mentais ou contra pessoas que não puderem oferecer resistência). Logo, drogar uma pessoa para manter com ela conjunção carnal configura crime de estupro praticado mediante violência presumida, pois a vítima não pode oferecer resistência.

Vários locais onde se pode pesquisar esse termo. TODOS  em comum acordo quanto ao ser um ato violento e criminoso. Por que certas pessoas não entendem dessa forma? Alguns dos motivos para essa falta de consenso quanto ao que podemos ou não considerar estupro são: abuso sexual e assédio sexual.

cultura do estupro

cultura do estupro

Muita gente entende que esses dois termos que citei a cima são menos agressivos que o estupro e, por isso, mais aceitáveis. E é essa tentativa constante de maquiar as diversas faces da agressão sexual que alimenta as mentes das pessoas que defendem tais atos de violência como pequenos, de pouca importância e até mesmo “invenções de feministas mimizentas”.

Abuso sexual: qualquer forma de constrangimento sexual sobre um indivíduo em situação de inferioridade, envolvendo ou não violência física.

cultura do estupro

Assédio sexual: fazer uso de palavras de baixo calão para ofender ou “elogiar” uma mulher, indiretas sexualizadas dirigidas à mulheres que não às pediram ou permitiram e até mesmo tocar-lhe o corpo (como acontece em ônibus, festas e no trabalho também) sem consentimento da mesma.

Percebe como são atitudes de violação, agressivas, humilhantes e abusivas, assim como o estupro? E, assim como o estupro, são tidos como consequências de atos errados cometidos pela vítima. Veja só:

  1. – andar com roupas curtas ou justas é pedir para sofrer alguma dessas agressões a cima;
  2. – estar na rua até tarde também é;
  3. – beber então, nem se fala;
  4. – jamais pense em pedir respeito, direito de ser, estar, usar, seja o que for. Você está errada, tem que aceitar a agressão e ainda fica sendo a puta que provocou tal ato.
Esses pensamentos estão muito enraizados em nossa sociedade patriarcal, partem das palavras mais simples até a violência em si. E é essa escala de definiu o que é a cultura do estupro.
Cultura do estupro é:
  1. – duvidar da mulher que conta ter sido estuprada;
  2. – levar em conta o passado ou vida sexual da vítima;
  3. – acreditar na malícia naturalmente existente na mulher;
  4. – objetificação do corpo feminino existente na publicidade, na TV, na literatura, etc;
  5. – ensinar a não ser estuprada ao invés de ensinar à não estuprar;
  6. – achar aceitável fazer sexo em alguém enquanto está embriagada, dormindo, desmaiada;
  7. – ter medo de ser uma mulher sozinha saindo do trabalho a noite e achar natural;
  8. – duvidar da real existência de quaisquer violência contra a mulher;
violência
Reprodução/Internet

O silenciamento contribui com a cultura do estupro. Se os casos de violência são tidos como naturais, então para que vamos investigar? Não a motivos para pedir ajuda a família, denunciar seu vizinho, entregar seu patrão. Mães, amigos, tias, colegas de trabalho, delegados, professores, juízes, jornalistas, todos unidos para jogar um caso de estupro, abuso e assédio para debaixo do tapete.

Eu pude perceber que a nomenclatura ajuda a definir o que é ou não relevante, assim como as regras impostas pela sociedade. Siga essas regras de forma indubitável, se mesmo assim você passar por alguma situação de violência sexual vamos ver se podemos enquadrar o caso em alguma  lista mais aceitável.

Com tudo isso, ainda encontramos pessoas que desconhecem ou negam a existência da cultura do estupro. Preferem agir fingindo que não são coniventes com atitudes que permitam um ato abusivo em sua sociedade perfeita. Ou pior, elas REALMENTE ACREDITAM não ser. Isso dificulta tudo não é? Como lutar contra algo que acredita não existir? Como lutar contra algo que acredita ter sido culpa sua?

O que temos que enxergar no Feminismo Radical?

Como foi prometido, vamos conversar sobre o Feminismo Radical hoje, de uma forma mais profunda mas ainda sim de fácil compreensão. Antes eu quero avisar que eu não sigo a vertente RadFem, portanto criei esse texto para ser objetivo, sem qualquer menção de uma opinião contra ou a favor proveniente da minha parte.
Reprodução/Onda Feminista

Primeiramente, vamos deixar claro que as Feministas Radicais são contra qualquer tipo de discriminação, desumanização e violência contra qualquer ser humano. Elas apenas discordam de certos pontos, e discordar (respeitosamente) de alguém, não é um ato violento!!!

O RadFem tem uma visão própria sobre as definições de gênero e sobre o peso que a sociedade tem sobre a existência social do ser humano. A seguir, vamos conhecer os principais pontos abordados por essa vertente feminista.
RadFems não defendem os gêneros,  mas sim a abolição deles. Os gêneros são divisores de classes que delimitam o papel de cada indivíduo perante a sociedade. A extinção dele faria cair por terra os códigos sociais que ditam o que indivíduos masculinos e femininos podem ou não fazer.
O patriarcado faz uso da divisão do gênero para separar a classe masculina da feminina, permitindo assim uma soberania de uma sobre a outra. 

    Reprodução/Internet
    O feminismo radical é um ato revolucionário que tem como objetivo derrubar toda e qualquer forma de divisão de grupos que tenham como função favorecer a soberania um sobre o outro (divisão sócio-econômica [ricos prevalecendo sobre os pobres] e divisão racial [brancos prevalecem sobre os negros] por exemplo).
    Não são transfóbicas. Reformistas de gêneros veem o gênero como: forma de identidade, sentimentos, natural, fluido, até mesmo biológico. Radicais enxergam os gêneros como: criação social (que favorece o lado masculino), hierárquico e divisor de classes. Se um indivíduo é nascido e criado no gênero masculino, mesmo se anunciando como trans posteriormente, ainda é colocado (segundo as divisões SOCIAIS que regem a classificação dos gêneros) como um ser masculino, ou seja, não é visto como mulher.
    Acreditam que a opressão sofrida pelas mulheres ocorre justamente por serem colocadas nessa classificação. Tudo que é criado para marcar coisas de menino e coisas de menina é também uma arma usada para subjugar indivíduos enquadrados em pré determinado gênero.
      Encontrei essa frase no site Escrituras Radicais (link abaixo) que descreve bem os pensamentos de que os conceitos de gêneros são opressores:

      Mulheres: aquelas que pertencem à classe sexual de pessoas historicamente definidas, limitadas, classificadas e designadas como o gênero feminino pelo patriarcado para que possam ter sua subjetividade, seus corpos, sexo, sexualidade e capacidades reprodutivas dominadas, controladas e exploradas por ele para gerar riqueza para os homens.

      Como eu disse, eu não sigo essa vertente feminista, então existem grandes chances de que eu tenha dito (merda) coisa errada ou ter deixado de falar algo importante. Portanto, se você é feminista radical comente o que achou do texto, será um prazer conversar e concertarei o que for necessário. 
      Vou deixar alguns textos que a Mandy do blog Mandy Francesa forneceu aqui. Eles serão muito uteis para quem quiser saber ainda mais sobre o Feminismo Radical. Obrigada Mandy.