Essa beleza de corpo

Projetos fotográficos exaltam a diversidade do corpo feminino

 

Ocupa Corpos – Foto: Thais Carletti

 

 

– Você ama o seu corpo do jeito que ele é?

 

Começar a matéria com uma pergunta dessas não tem como intenção te afastar das linhas a seguir. Na verdade, é um questionamento, que essa autora sempre procurou fazer e percebeu que todas as respostas, suas e de algumas amigas, são negativas. As imperfeições estão lá e sempre são apontadas. Estria, celulite, espinha, assimetria, gorduras localizadas, coxas finas ou grossas demais, pouca cintura, braço largo, pouca bunda, muito seio – nada belo o bastante para se admirar.

Mas se são as imperfeições que nos definem, deveríamos nos enxergar naturalmente belas. Afinal, não há perfeição. “O que a mídia impõe para a gente são corpos esculturais de revistas. O padrão é absurdo, impossível de alcançar, até por que essas imagens vinculadas não são corpos reais de mulheres, mas sim vítimas de um tratamento de imagem irreal”, afirma a fotógrafa Thais Carletti.

Foi através desse questionamento, sobre objetificação da mulher e os casos de revenge porn, que Thais criou, em 2015, o projeto fotográfico Ocupa Corpos. Com a proposta de valorizar e refletir sobre a libertação sexual e corporal, a fotógrafa produz ensaios nus de mulheres das mais diversas imperfeições. Não há correção ou camuflagem. É o corpo ocupando seu espaço, a mulher presente como ela é.

Outro que surgiu no mesmo ano com a proposta de libertação do corpo feminino, também em Vitória (ES), é o Corpos Libres, da curitibana Juliana Guariza. Na época em que fixou residência na capital capixaba, Juliana criou o projeto inspirada em suas amigas locais – uma delas, inclusive, a própria Thais Carletti –, voltado para esse outro olhar mais generoso com o próprio corpo. “Minhas amigas realmente transformaram minha ideia do que é ser mulher em sociedade. Além delas genuinamente se apoiarem entre si, elas não pediam desculpas por serem o que elas são. Elas não se encaixam em padrões e lutam pelo direito de ser o que elas quiserem ser. Para mim essa autenticidade é inspiradora”, reflete.

 

 

Libertar-se
A naturalidade e o conforto da modelo são prioridade para ambas fotógrafas. Juliana busca ambientes acolhedores e externos, onde a luz natural seja trabalhada – “acho que combina com essa natureza selvagem da mulher”. A espontaneidade e a identificação com o espaço também importam no momento do ensaio, “para se sentir confortável com as fotos e mais importante consigo mesmas. É uma espécie de conversa com o próprio corpo, e o que eu faço é registrar essa conversa”, explica Thais Carletti.

 

 

 

Nos ensaios, vemos mulheres de todas as formas, tamanhos e perfis. Não há padrão e nem restrição, apenas o libertar-se. De tantas belezas femininas que suas lentes registraram, as fotógrafas não carregam apenas a experiência profissional, mas também subjetiva, de mulher para mulher, Afinal, conforme colocado nas primeiras linhas dessa matéria, amar nosso corpo do jeito que ele é não é uma realidade majoritária. Mas o que é a beleza feminina?

“Autenticidade. Estar confortável na própria pele. E todas as pequenas peculiaridades do corpo de cada uma que as fazem únicas. Eu percebo que essas mulheres que fotografei têm tem muita vontade de abraçar e amar suas imperfeições. São elas que as fazem únicas. Falo também por mim mesma, eu precisei me libertar de muitas questões que eu tinha com meu corpo para ter mais sensibilidade para fazer esses retratos“, conta Juliana Guariza.

“Todas as vezes que eu fotografo eu aprendo principalmente a me relacionar melhor com meu próprio corpo. A gente precisa se amar muito e sempre, e com todas essas mulheres eu repenso que tipo de relação eu tenho comigo mesma. E o objetivo do projeto é criar essa discussão: é preciso falar de nudez, é preciso falar de feminismo, é preciso naturalizar e amar os corpos”, Thais Carletti. Amar os corpos. Amar nosso corpo. Amar-se. Uma atividade tão complexa que requer exercícios diários. Uma vez que que você se liberta, no entanto, você enxerga. É uma beleza de corpo. E é só seu.

Ocupa Corpos e Corpos Libres são projetos autorais que seguem em atividade no ano de 2017. Visite a página de cada e conheça mais:

Ocupa Corpos
Instagram: @ocupacorpos
https://ocupacorpos.wordpress.com/

Corpos Libres
Facebook / Instagram: @corposlibres
https://corposlibres.tumblr.com/

 

 

Leitura necessária: Chimamanda Ngozie Adichie

(Foto: Divulgação)

 

Chimamanda Ngozie Adichie  é uma das escritoras nigerianas mais influentes e jovens da atualidade. Sua obra tem um enfoque feminista didático responsável por atrair cada vez mais a atenção das Africanas. Trata a importância dos temas de extrema importância com a leveza da literatura, sua escrita envolve ao mesmo tempo que mostra a partir de suas vivências os desafios sociais que a mulher vive na Nigéria de antes e de agora.

 

Conheça um pouco de sua obra, que já foi traduzida para mais de trinta línguas:

 

Meio sol amarelo: O livro agradou tanto que virou filme, conta a história de  irmãs gêmeas que não são nada parecidas. Enquanto uma abandona os jogos sociais de sua influente família para dar aulas e viver a revolução, a outra participa de todas as situações possíveis para se favorecer. O livro ilustra bem a divisão social da Nigéria, inclusive nos tempos da ditadura.

Meio sol amarelo, Companhia das letras

Americanah: Conta a história de amor entre dois jovens nigerianos em meio ao cenário da ditatorial. A menina passa por cima de todos os preconceitos e consegue estudar em uma das mais aclamadas universidades Dos EUA, porém quando retorna às suas raízes já como uma conceituada blogueira, se choca com a mudança do cenário e o que deixou para trás.

O livro vai bem além de uma história de amor, ele faz uma crítica social importantíssima de maneira inspiradora.

 

Americanah, Companhia das letras

Hibisco Roxo: Narradora e personagem, Kambili conta a sua história mostrando as opressões que sofreu por seu pai que abominava as raízes nigerianas e idolatrava o segmento católico, tal opressão religiosa o levou a negar o próprio pai e sua outra filha, porém ao decorrer da história a jovem se apaixona por um padre, e sua falta de perspectiva faz com que ela seja obrigada a sair da Nigéria.

Hibisco roxo, companhia das letras

Sejamos todos feministas: Uma palestra da autora que virou livro, e trata da importância da igualdade de gêneros, a partir de situações que ela mesma viveu durante o decorrer da sua vida em uma nigeria machista;  além de contar a experiência de outras mulheres e expor os julgamentos que sofreu.

Um livro super curtinho e gostoso de ler, fundamental para quem quer compreender um pouco mais sobre igualdade.

Sejamos todos feministas, companhia das letras

Extremamente inspiradora, Chimamanda tem uma escrita necessária, inclusive um de seus discursos foi musicado pela Beyonce, (https://www.youtube.com/watch?v=IBe9Vtodzg4)

Uma obra útil apenas para  maior conhecimento da Nigéria, mas sim livros  que mostram os desafios de ser mulher em países de construções machistas e preconceituosas, valorizando e apresentando o poder do feminismo e da liberdade de qualquer preconceito.

Site oficial: http://chimamanda.com/

Eu ainda estou aqui

 

                                            Foto: Tumblr

É tão difícil se libertar dessa situação de não se pertencer a nada, os anos passam e não sou mais uma criança, já era para eu ter me encontrado, e realmente me encontrei, mas não acredito que eu mesma me aceite totalmente.

Considero-me uma pessoa bem resolvida, e bem desconstruída, mas ainda tenho resquícios de uma sociedade que cria as mulheres para odiarem a si mesmas. Não me sinto encaixada, nem feliz com o meu corpo, possuo inseguranças de carreira e não me acho adequada o suficiente para muitos aspectos.

Vejo mulheres que nem imaginam a sua própria capacidade de brilhar por inseguranças incutidas em seus inconscientes, assim como eu sinto minha criatividade e motivação sendo reprimidos por uma sociedade completamente fechada para emponderamento de ideias. Por mais que tenhamos avançado e conquistamos cada vez mais espaço, eu me sinto ameaçada pela a vida em sociedade, ver um grande ator assumir um assedio sexual e continuar sendo protegido por muitos, me assusta.

Ligar a televisão e ver o corpo da mulher como um objeto usado para agregar valores a um homem me desmotiva, sinto como se essa situação nunca fosse mudar, como se estivéssemos estática nessa porra de era dos retrocessos.  Pode parecer besteira, mas me sinto presa no meu próprio corpo, uma alma liberta grudada em um uma carne que me judia, presa e intoxicada em um corpo mundano que ainda é obrigada a sobreviver nesta equação insolúvel.

Tenho medo de nunca me encontrar neste mundo, e mais medo ainda de me encontrar, queria deixar minha solidão de lado, mas ao mesmo tempo não quero me tornar parte desse pesadelo, nem compactuar com esse espiral de silencio sufocante.

Eu não mereço descontar um ódio que não é meu no meu próprio ser, não tem culpa dos absurdos impostos a mim.  Tenho meu próprio poder, e francamente, tenho tudo que eu preciso para me fazer feliz, e me satisfazer no aspecto que for.

Não vale a pena se padronizar, fingir sorrisos, abaixar a cabeça para as agressões que somos expostas todos os dias direta e indiretamente. Lutar vale a pena, porque independente do jeito que somos se andarmos unidas o amor, respeito, sororiedade jamais nos faltará.

Nós nos bastamos.

Sou eu mesma nua e crua em corpo e essência. E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente.

Eu posei nua

E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente

Para me olhar frente a frente, chegava ao meu reflexo com os olhos semifechados, abrindo-os lentamente como uma preparação psicológica para o objeto estranho que estaria por vir, logo ali.
Foto: Ana Luiza Calmon

     Eu nasci preta. Uma pretinha de 50 cm, cabeluda de fios escuros e olho castanho escuro. Meu pai, moreno, minha mãe, branca. Meu irmão veio loiro de olhos azuis, pálido e avermelhado. Diferente dele, eu sou a confirmação da miscigenação dos dois lados da minha família: indígena, negra, francesa, portuguesa e espanhola.

     Mas eu nunca estive em paz com o espelho. Para me olhar frente a frente, chegava ao meu reflexo com os olhos semifechados, abrindo-os lentamente como uma preparação psicológica para o objeto estranho que estaria por vir, logo ali. Sim, objeto. Como me reconhecer sujeito se tento moldar meu corpo como uma jarra de cerâmica?

     Eu queria ser loira. Magra, esguia e de olhos azuis. Ou então aquela morena de olhos verdes, sensual e de pele bronzeada. Lembro que queimava horas no sol e ia correndo para o espelho para checar meus olhos. Eu acreditava que o sol poderia transformar o castanho em verde cor de mel. Mas o espelho me mostrava a real. Ali só tinha eu comigo mesma. Espelho mostra corpo. E por corpo, ali se encontrava uma artista frustrada por não conseguir concluir sua obra. Sempre inacabada, sempre em construção.

Destruição.

     Meu corpo objeto queria ser de cintura fina, seios menores, braços fininhos, pele lisa e macia, rosto simétrico, bochechas menores, cabelos melhores e mais controlados. Moldada aos olhos e semelhança da menina moça sem referências. E quem disse que aquele moço bonito iria se interessar por mim? Eu não me achava merecedora de alguém tão legal e bonito assim, e logo empurrava para outra amiga, porque ela sim estava a sua altura.

Quando você se liberta e se enxerga de forma plena, não há reflexo que ofusque o seu brilho

    Sou a única prima de ambas famílias que é avantajada em todas as partes do corpo. Eu cresci ouvindo isso. Sempre quiseram minha bunda, sempre quiseram meus seios. Todos. Primas, tias, amigas, colegas, homens. Eu tava sozinha sem saber quem eu era. Quem fui?

     Foram 25 longos anos sem entender meu lugar na classificação da beleza feminina brasileira. Tenho uma boca grande, olhos expressivos, nariz gordinho, cabelos ondulados e frisados. Tenho seios, bunda e coxa grande, um quadril largo e uma cintura mediana. Não é um corpo magro, fino. É largo, é grande, é forte. Tudo concentrado numa estatura de 1,53 cm.

     Hoje sou sujeito. Determino as ações de meu próprio corpo e no espelho me enxergo de forma plena, completa. Percebo cada curva, linha, marca presente em mim e vejo que elas formam quem eu sou. Eu percebo a mim mesma. E amo tudo que sou. Meus seios, minha (feliz) barriguinha de chopp, meus braços gordinhos, minhas costas. Meu largo e radiante sorriso, meu queixo, minhas bochechas, meus olhos expressivos, minha sobrancelha. Minhas estrias, minha celulite, minhas espinhas. Meu cabelo misturado, de fios finos, ondulados, cacheados e lisos, com tons loiros, pretos e brancos.

     Quando você se liberta e se enxerga de forma plena, não há reflexo que ofusque o seu brilho. Eu posei nua. Tirei minha roupa e encarei olhos nos olhos a lente da câmera. Dancei, gargalhei, expressei meu charme e desenvoltura. Disse para mim mesma:

– Ana, você é tão bonita. Olha essa beleza que vem de você e reflete no seu sorriso. Tá sentindo? São raios de luz. Você é o Sol, Ana.

     Sim, eu sou o Sol. Eu sou a minha própria luz. Sou eu mesma nua e crua em corpo e essência. E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente.

Sou eu mesma nua e crua em corpo e essência. E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente.
Foto: Ana Luiza Calmon

 

Projeto Ocupa Corpos - Ensaio Ana Luiza
Foto: Thais Carletti

 

Quatro livros de simples leitura sobre feminismo

 

A introdução do feminismo desde cedo se faz fundamental para o inicio de um empoderamento e para a quebra da sociedade machista construída pela cabeça patriarcal que vem perdurando de séculos ate os dias atuais.

Por esse motivo fiz uma seleção de livros com historias, e introduções ao feminismo de fácil leitura para todas com uma linguagem acessível a todas.

 

(divulgação)

     1-     Capitolina (Varias autoras) 

Uma seleção de textos de diversos temas escritos por feministas na revista virtual Capitolina (As ilustrações também.

 

 

(divulgação)

     2-     Eu quero ser eu (Clara Averbuck)

Com humor, senso critico e sensibilidade, a escritora Clara Averbuck conta a historia de uma menina rebelde que se recusava a mudar sua opinião para se encaixar na normalidade do mundo atual

 

 

(divulgação)

 3-  O Que É O Feminismo (Branca Moreira)

O livro da Branca Moreira confronta os problemas vivenciados pelas mulheres na sociedade atual fazendo um paralelo com os tempos medievais.

 

(divulgação)

     4-     Feminismo e política (Flavia Birolli e Luis Felipe Miguel)

O livro destaca temas de debates feministas e políticos explicando as teorias de forma simples fazendo com que todas as mulheres compreendam e se familiarizem com o assunto.

O poder da mulher trans

 

Se tem uma personagem que é preterida entre as favoritas do público da série OITNB (Orange Is The New Black), que retrata o cotidiano de penitenciária feminina de uma maneira cômica e com pitadas amargas de drama – vide a última temporada – é Sophie Burset, vivida pela talentosa Laverne Cox, atriz e produtora transexual ganhadora de vários prêmios, entre eles o Emmy de melhor atriz convidada numa série de comédia, se tornando a primeira mulher trans a ganha-lo.

Graduada na Escola de Belas Artes de Alabama, Birmingham, no mesmo condado de sua cidade natal, Mobile, foi na Alabama e Marymount Manhattan College em Nova Iorque, NI, que começou a atuar.

Trocando o curso de escrita criativa por dança, Laverne também escrever sobre transsexualidade e direitos das pessoas trans, assim como outras variedades em lugares como Huffington Post e fez de seu papel na série um lugar onde as pessoas podem notar que os homens ou mulheres trans querem somente seus direitos mais básicos, como o direito de serem eles mesmos, como a própria Laverne diz.

A transsexualidade ainda é um assunto tabu para muitas pessoas, mas com empatia e respeito, e com os seus direitos de saúde mental e física preservados e exercidos, como a mudança do nome social e a inserção ao mercado de trabalho, que apesar de de direitos simples ainda são algo que representam uma árdua luta para a comunidade T.

Você não é obrigada a ter sororidade, mas também não nasceu desconstruída

A sororidade é uma das coisas mais complicadas no feminismo. Eu falo “complicada” tanto no sentido de dificuldade, quando de complexidade. A maioria de nós, quando decide exercer a sororidade, acaba sendo testada e desafiada de inúmeras formas.

Eu já tive (e tenho ainda) momentos em que quis mandar a sororidade pro quinto dos infernos e ser grosseira com alguma mulher. E sei que muitas passam pelo mesmo que eu. Nossa paciência é pequena, e a tentação de rachar mina às vezes é grande. A gente passa tanta raiva e já levamos tanta porrada nessa vida, que acabamos ficando na defensiva – ou no ataque, mesmo –, até com outras mulheres.

Além disso, é bem problemático cobrar sororidade de quem é mais oprimida que a gente. A mina que foi estuprada NÃO é obrigada a ser didática ou a “pagar com amor” quando diminuem a dor pela qual ela passou. A negra NÃO é obrigada a ver como irmã a branca que a oprime – direta ou indiretamente. A gorda NÃO é obrigada a ter paciência com a mulher que reclama de “magrofobia”

Sororidade é uma coisa linda, mas não podemos exigir que você tenha com quem te oprime. Só parar para pensar em como o discurso “mas somos todas mulheres!” se assemelha à fala masculina “somos todos seres humanos”. Sim, é absurdo.

“Mana, sou magra mas também sofro, vamos todas lutar juntazzzzzzzzzz” (reprodução/internet)

Aqui eu quero lembrar de que nós (e acredito que todas nós) já estivemos no papel dessa mulher. Sabemos bem que ainda são raras as pessoas nascidas em lares feministas (talvez na próxima geração isso mude), e que portanto quase todas as que estão hoje na luta trilharam um caminho até ela.Em contrapartida, nós temos que tomar muito cuidado para não cairmos na armadilha de deixar o sangue ferver demais e acabar criando rivalidade com as mulheres que ainda não são desconstruídas. Não vou nem entrar no mérito da tecla sempre batida quando é esse assunto (de que assim estamos afastando mulheres da luta).

Não estou dizendo que o fato de já termos feito bobagens na vida anule os erros das outras pessoas. Se nós mudamos, é porque reprovamos as atitudes do nosso passado, afinal de contas. Não, não precisamos passar a mão na cabeça de ninguém.

O que estou falando é que muitas vezes nossa gana de berrar aos quatro ventos a nossa militância pode nos colocar num pedestal que não existe. Ser feminista não é suficiente para que você seja uma pessoa melhor: isso é exercício.  E ser uma pessoa melhor definitivamente não é a mesma coisa que se sentir superior.

Sororidade em ação (gif meio fora de contexto, sim). Imagem: reprodução/internet

Se somos empoderadas e feministas, é porque tivemos oportunidade para sê-lo. E se isso não é um privilégio, sinceramente, eu não sei mais o que pode ser. Por isso eu sempre tento pensar duas vezes antes de rachar mina, já que na minha condição de classe média, graduada e com pleno acesso (e filtro) à internet, seria extremamente elitista da minha parte fazê-lo apenas porque eu posso.Além de tudo isso, temos que medir nossas palavras em especial porque muitas vezes não enxergamos nossos próprios privilégios. E ser feminista pode ser considerado um deles sim. Não é apenas uma escolha, uma vez que existem mulheres inseridas em ambientes com pouca informação, ou que minam suas autoestimas, ou nos quais simplesmente aprenderam que a opressão que sofrem é correta.

Mais uma vez, ninguém está falando que devemos passar a mão na cabeça de todas as mulheres do mundo e que seremos condenadas eternamente por perdermos a cabeça com alguma delas. Mas o mínimo que podemos fazer é nos esforçarmos para não usar nosso feminismo para oprimir nossas irmãs, já que é exatamente o oposto que procuramos.

sororidade
“Pra mim já chega. Pra mim definitivamente já chega” (tradução livre). Sugestão pra quando começar a perder a paciência e perceber que vai começar a rachar mina: simplesmente sair da discussão. (Imagem: reprodução/internet)

Mulher, empodere-se! – Simara Lanai


Procurando achar uma forma de dizer para as mulheres a quão poderosa elas são, então me deparei com a seguinte pergunta. Já pensou se todas as mulheres acreditassem no quão são capazes de se amarem e de se tornarem donas de si? Com certeza conseguiríamos derrubar o “espetáculo” machista.


 O espetáculo machista é também o mundo dos corpos perfeitos, quanto mais “bonita” e apresentável nos padrões estéticos corporais a mulher for, mas ela é aplaudida e considerada a “mulher dos sonhos de qualquer homem”. A cada dia aparece uma forma “feminina” de ser, para que nos “aceitem” como “verdadeira” mulher. 

Parece está tudo calculado, cronometrado rigorosamente. Nada a mais para esquerda e nem pra direita, tudo tem que está no seu devido lugar, para que nos vejam como uma “verdadeira” mulher. Constrói-se padrões estéticos, padrões ideológicos, padrões e regras de todo tipo até enquadrar a mulher numa verdadeira gaiola. 

Afinal o que vai ser do homem, se a Mulher deixar de ser essa “mulher” idealizada pelo mundo machista? Se essa mulher deixar à cozinha, deixar de querer ter filhos, deixar de servir seu marido para ir busca de novos horizontes? O que acontecerá? Simples… ela não deixará de ser Mulher apenas deixará de ouvir o mundo machista para ser ela mesma! Mulher construa seus próprios padrões e empodere-se!

Liberté!

Silmara Peixoto Moreira, feminista, pesquisadora, graduada em Bacharelado em Humanidades e graduanda em Sociologia, UNILAB.

A Women Up Games quer que as mulheres tenham o controle

Women Up
Imagem: reprodução/Women Up Games

Women Up Games é uma empresa idealizada pela engenheira Ariane Parra, e que busca o empoderamento feminino através dos vídeo-games. Em 2013, observando a baixa presença de mulheres em seu curso de Design de Games, Ariane começou a pesquisar sobre o assunto e a iniciativa começou a engatinhar.

Ariane Parra, idealizadora da Women Up Games
O projeto começou efetivamente em 2014, e em julho de 2015 a fotógrafa Juliana Coringa entrou para a equipe, como braço direito e Diretora de Imagem e Conteúdo das redes sociais. Em agosto do mesmo ano fizeram seu primeiro evento, com a participação de cerca 80 mulheres. Desde então são realizadas atividades que visam inserir o público feminino no mercado de games, como consumidoras e também como desenvolvedoras. Se destacam entre as ações palestras, workshops e campeonatos de vídeo-game inteiramente voltados para elas.

“Em todos nossos eventos nosso papel é deixar o público feminino a vontade para jogar e conhecer esse mundo. O importante para a gente é a diversão e a experiência que cada evento proporciona para as participantes. É tão gratificante ver um grupo grande de mulheres se permitindo divertir jogando juntas e aprendendo coisas novas” – Ariane

Juliana Coringa, Diretora de Imagem e Fotografia

Uma pesquisa divulgada em março deste ano revelou que 52,6% do público de games no Brasil é composto por mulheres. Ainda assim, a atividade continua sendo vista como algo de predominância masculina. Na área de desenvolvimento, no entanto, o mercado ainda é dominado pelos homens. A Women Up quer mudar esse cenário e equilibrar cada vez mais a balança.

“[Nós queremos] Fazer com que a frase ‘eu não sei jogar’ suma e dê lugar para “eu posso tentar jogar”. Só dessa forma as mulheres vão dar uma chance para conhecer os jogos digitais e se empoderar desse mundo que tem espaço para todo mundo. A equidade no mundo dos games só vai acontecer quando mais mulheres participarem ativamente de eventos e de workshops e perceberem que nosso lugar também é na tecnologia, nos games, onde quisermos” – Ariane

À medida em que o projeto vai crescendo, esse sonho vai parecendo cada vez mais próximo. Mas Ariane, Juliana e as WUGERS (como são chamadas as integrantes da equipe) querem muito mais. Elas ainda sonham em realizar campeonatos femininos em vários estados do Brasil e conquistar mais colaboradoras regionais. Também esperam encontrar empresas interessadas em parcerias para ajudar a expandir a ideia.

“[Queremos] O crescimento [do número] de mulheres inseridas no mercado de trabalho e consumindo mais títulos de jogos. Nosso sonho é que as mulheres brasileiras se tornem referência no desenvolvimento de games e que a participação global feminina seja cada vez mais forte na economia do setor.”

As WUGERS

MARGARET KEANE

Desde a faculdade me vi apaixonada pela arte. Pela História da arte. Embora a incapacidade de me aventurar dias e noites ao universo da criação, vez ou outra, me pego fuçando em algumas páginas sempre prontas a me oferecer pequenos encantos e sutis suspiros de um olhar mal treinado ao charme, não raro intrigante, de quem cede com os dedos realidades subjetivas.

Embora feminista, o prazer das formas e das cores, sem desmerecer, obviamente, contextos e cenários, acabou por ofuscar exigências políticas de um protagonismo feminino nas artes. Com a possibilidade de me desculpar e remediar a ausência de minha própria crítica ao invisível, decidi falar de uma mulher que se destacou em conceber emoções enquanto experimentava o silêncio de sua própria experiência: MARGARET KEANE.

Nascida no final da década de 1920, portanto, em uma época sem garantias de visibilidade sobre o trabalho das mulheres, Keane se deixou levar por uma proposta de seu segundo marido, Walter, que sugeriu que as obras de arte da pintora passassem a ser propriedades de seu próprio esforço, e não dela.

Estratégia que, obviamente, casava impecavelmente com um universo que não assumia protagonismos femininos e, portanto, fez de Walter detentor de todo reconhecimento e valor das obras de Margaret. Até que, após décadas de mentiras sob o tecido do sucesso, a artista adquiriu o empoderamento necessário para se rebelar aos ditames do marido e, enfim, ganhar o mundo.

          Em razão disso, é que Margaret Keane ganhou meu tapete vermelho na coluna “Mulheres que Amamos”. Assim, tanto quando sua trajetória, merece atenção sua arte. Bora procurá-las? Ah, e se você gosta de cinema, não deixe de ver essa história contata no filme “Big Eyes”, dirigido por Tim Burton.