O poder da mulher trans

 

Se tem uma personagem que é preterida entre as favoritas do público da série OITNB (Orange Is The New Black), que retrata o cotidiano de penitenciária feminina de uma maneira cômica e com pitadas amargas de drama – vide a última temporada – é Sophie Burset, vivida pela talentosa Laverne Cox, atriz e produtora transexual ganhadora de vários prêmios, entre eles o Emmy de melhor atriz convidada numa série de comédia, se tornando a primeira mulher trans a ganha-lo.

Graduada na Escola de Belas Artes de Alabama, Birmingham, no mesmo condado de sua cidade natal, Mobile, foi na Alabama e Marymount Manhattan College em Nova Iorque, NI, que começou a atuar.

Trocando o curso de escrita criativa por dança, Laverne também escrever sobre transsexualidade e direitos das pessoas trans, assim como outras variedades em lugares como Huffington Post e fez de seu papel na série um lugar onde as pessoas podem notar que os homens ou mulheres trans querem somente seus direitos mais básicos, como o direito de serem eles mesmos, como a própria Laverne diz.

A transsexualidade ainda é um assunto tabu para muitas pessoas, mas com empatia e respeito, e com os seus direitos de saúde mental e física preservados e exercidos, como a mudança do nome social e a inserção ao mercado de trabalho, que apesar de de direitos simples ainda são algo que representam uma árdua luta para a comunidade T.

Você não é obrigada a ter sororidade, mas também não nasceu desconstruída

A sororidade é uma das coisas mais complicadas no feminismo. Eu falo “complicada” tanto no sentido de dificuldade, quando de complexidade. A maioria de nós, quando decide exercer a sororidade, acaba sendo testada e desafiada de inúmeras formas.

Eu já tive (e tenho ainda) momentos em que quis mandar a sororidade pro quinto dos infernos e ser grosseira com alguma mulher. E sei que muitas passam pelo mesmo que eu. Nossa paciência é pequena, e a tentação de rachar mina às vezes é grande. A gente passa tanta raiva e já levamos tanta porrada nessa vida, que acabamos ficando na defensiva – ou no ataque, mesmo –, até com outras mulheres.

Além disso, é bem problemático cobrar sororidade de quem é mais oprimida que a gente. A mina que foi estuprada NÃO é obrigada a ser didática ou a “pagar com amor” quando diminuem a dor pela qual ela passou. A negra NÃO é obrigada a ver como irmã a branca que a oprime – direta ou indiretamente. A gorda NÃO é obrigada a ter paciência com a mulher que reclama de “magrofobia”

Sororidade é uma coisa linda, mas não podemos exigir que você tenha com quem te oprime. Só parar para pensar em como o discurso “mas somos todas mulheres!” se assemelha à fala masculina “somos todos seres humanos”. Sim, é absurdo.

“Mana, sou magra mas também sofro, vamos todas lutar juntazzzzzzzzzz” (reprodução/internet)

Aqui eu quero lembrar de que nós (e acredito que todas nós) já estivemos no papel dessa mulher. Sabemos bem que ainda são raras as pessoas nascidas em lares feministas (talvez na próxima geração isso mude), e que portanto quase todas as que estão hoje na luta trilharam um caminho até ela.Em contrapartida, nós temos que tomar muito cuidado para não cairmos na armadilha de deixar o sangue ferver demais e acabar criando rivalidade com as mulheres que ainda não são desconstruídas. Não vou nem entrar no mérito da tecla sempre batida quando é esse assunto (de que assim estamos afastando mulheres da luta).

Não estou dizendo que o fato de já termos feito bobagens na vida anule os erros das outras pessoas. Se nós mudamos, é porque reprovamos as atitudes do nosso passado, afinal de contas. Não, não precisamos passar a mão na cabeça de ninguém.

O que estou falando é que muitas vezes nossa gana de berrar aos quatro ventos a nossa militância pode nos colocar num pedestal que não existe. Ser feminista não é suficiente para que você seja uma pessoa melhor: isso é exercício.  E ser uma pessoa melhor definitivamente não é a mesma coisa que se sentir superior.

Sororidade em ação (gif meio fora de contexto, sim). Imagem: reprodução/internet

Se somos empoderadas e feministas, é porque tivemos oportunidade para sê-lo. E se isso não é um privilégio, sinceramente, eu não sei mais o que pode ser. Por isso eu sempre tento pensar duas vezes antes de rachar mina, já que na minha condição de classe média, graduada e com pleno acesso (e filtro) à internet, seria extremamente elitista da minha parte fazê-lo apenas porque eu posso.Além de tudo isso, temos que medir nossas palavras em especial porque muitas vezes não enxergamos nossos próprios privilégios. E ser feminista pode ser considerado um deles sim. Não é apenas uma escolha, uma vez que existem mulheres inseridas em ambientes com pouca informação, ou que minam suas autoestimas, ou nos quais simplesmente aprenderam que a opressão que sofrem é correta.

Mais uma vez, ninguém está falando que devemos passar a mão na cabeça de todas as mulheres do mundo e que seremos condenadas eternamente por perdermos a cabeça com alguma delas. Mas o mínimo que podemos fazer é nos esforçarmos para não usar nosso feminismo para oprimir nossas irmãs, já que é exatamente o oposto que procuramos.

sororidade
“Pra mim já chega. Pra mim definitivamente já chega” (tradução livre). Sugestão pra quando começar a perder a paciência e perceber que vai começar a rachar mina: simplesmente sair da discussão. (Imagem: reprodução/internet)

Sobre ser mãe de menino

Confesso que quando descobri que estava grávida, foi um verdadeiro susto, mas também confesso que quando descobri que seria um menino, achei mesmo que seria mais fácil. Não que como mulher eu tenha tido uma vida difícil: nunca! Classe média, vida normal, família estruturada e até que um pouco desconstruída. Mas é isso que ouvimos sempre, né? Que não é fácil ser mulher e que menino dá menos trabalho. Pudera.

Não faz muito tempo que conheci o feminismo a fundo, não faz muito tempo que me apaixonei por toda ideologia e transformei no meu ideal de vida praticar sororidade. Mas eu vivo num mundo masculino: filho, marido e até cachorro. Como praticar tudo isto então, como encaixar tudo isto no meu mundo além internet? E foi ai que descobri que o que de melhor posso fazer pelo mundo, seja pelo feminismo ou não, é criar meu filho Giovanni, meu filho homem, de maneira desconstruída, com liberdade e, principalmente, tirar dele qualquer chance de reproduzir machismo.

Não é fácil, aliás, é qualquer coisa menos fácil. Até porque, por mais desconstruída que você tente ser, você tem mais e mais a desconstruir, você tem que se policiar. Mas, se você for aguardar a perfeição, nunca fará nada. Comecei pelas pequenas coisas, pela gentileza. Comecei a ensinar que meninos e meninas são iguais, podem gostar das mesmas coisas, podem brincar com os mesmos brinquedos, podem usar as mesmas cores. Comecei, como mãe (e posso afirmar que o Marlon, como pai), a procurar desenhos e similares que estimulem a igualdade, e qual foi minha surpresa: existem – se você tem filhos pequenos, deixem que assistam Luna, sério.

Se ter que educar um filho não é fácil, desconstruir um pouco que seja meu marido também é uma luta. A criação não colabora, mas com certeza o diálogo sempre nos fez mais fortes e ele sabe, hoje, que respeitar o outro, as escolhas, o ser, suas opções e suas orientações, é fundamental para sermos humanos e que devemos exercer isso com nosso filho, um com o outro e com qualquer pessoa.

Às vezes é desanimador, são tantas histórias e notícias, tantas vivências, porém, como uma otimista, tenho certeza que esta geração do Giovanni vem muito mais forte, mais tolerante, mais resistente e que estamos criando verdadeiros seres humanos, como sempre deveria ter sido. Giovanni tem personalidade forte, mas é doce, compreensivo, sensível e humano, e se depender somente de mim, para sempre será assim.

Rafaela Arnoldi (Mãe de menino)
Imagem: arquivo pessoal

Quem escreve?

Rafaela Arnoldi é administradora, blogueira e mãe do Giovanni. Ela escreve sobre moda (e outros assuntos desse universo) no blog Diariamente.