Dança morena

Foto: Ana Luiza Calmon

 

a morena sempre te esperou

sentada, feliz, sorridente

alongou os cabelos para te fazer feliz

todo o tempo do mundo valia a pena quando ela estava com você.

 

a morena sempre achou que você chegasse já

porque era tudo amor

e a saudade apertava.

 

mas a morena viu que você nunca chegaria

aquele amor virou mágoa

e a saudade apenas memória.

 

hoje a morena tem cachos

lindas ondas que moldam seu rosto

ela continua sorridente e alegre.

 

mas agora ela dança como nunca

movimenta seu corpo como dona de si própria

seus olhos abriram para o mundo.

 

Foto: Ana Luiza Calmon

Sobre o tablado

Foto: reprodução/internet
Os pés sobre o tablado, movendo-se em um ritmo ora lento, ora frenético. As batidas compassadas na madeira chegam a criar uma melodia. A ausência de música passa despercebida diante dos movimentos do casal.
O tecido leve do vestido dela esvoaça a cada passo. Um rodopio, um salto, pernas ao ar. Ele mantém o contato visual todo o tempo ao se aproximar dela. Os dois estão unidos agora, fazem todos os passos assim. Em um abraço, com seus movimentos mais sincronizados que nunca.
Sapatilhas deslizando pelo chão, corpos se deslocando graciosamente. Mexendo seus quatro braços, entre encantadores arcos e retas perfeitas. Feições serenas e ao mesmo tempo apaixonadas, olhos faiscantes e lábios movendo-se como se cantarolassem mantras silenciosos.
Os dois corações aceleraram violentamente, mas sempre no mesmo ritmo. Chega o momento do ápice, que exige de ambos a mais perfeita precisão. Se afastam lentamente, primeiro pela cintura, depois desprendendo os troncos, os braços e só então largam-se as mãos.
Andando graciosamente ela se afasta, enquanto ele se prepara. Ela corre com a levesa de uma garça prestes a levantar voo. Ao chegar no ponto exato, salta. Ele a ampara no ombro, e com uma delicadeza sublime vai rodopiando-a ao redor do próprio corpo, envolvendo-se por ela até os pés da bailarina tocarem o chão.
Gradativamente, seus batimentos cardíacos vão abrandando enquanto tornam a dar passos mais leves, mais uma vez unidos. Ele ergue-a do chão pela cintura, e ela rodopia ao pisar novamente no tablado.
Olhos, cabelos, braços, pernas, tronco, mãos, dedos. Corpo, pele, perfume, som. Passos finais. Mais uma vez, ele a suspende, fitando seus olhos. Desce seu corpo lentamente até que ela possa ficar nas pontas dos pés. Mãos, rostos, nuca, olhos. Lábios.
Se fecham as cortinas. Mas não há cortinas. Nem público por detrás delas, nem cenários na frente, nem palco, nem teto, nem iluminação. A única luz emana deles. Tudo que há são os dois e dois corações na mais perfeita melodia embalando a mais perfeita das danças.