Sou eu mesma nua e crua em corpo e essência. E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente.

Eu posei nua

E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente

Para me olhar frente a frente, chegava ao meu reflexo com os olhos semifechados, abrindo-os lentamente como uma preparação psicológica para o objeto estranho que estaria por vir, logo ali.
Foto: Ana Luiza Calmon

     Eu nasci preta. Uma pretinha de 50 cm, cabeluda de fios escuros e olho castanho escuro. Meu pai, moreno, minha mãe, branca. Meu irmão veio loiro de olhos azuis, pálido e avermelhado. Diferente dele, eu sou a confirmação da miscigenação dos dois lados da minha família: indígena, negra, francesa, portuguesa e espanhola.

     Mas eu nunca estive em paz com o espelho. Para me olhar frente a frente, chegava ao meu reflexo com os olhos semifechados, abrindo-os lentamente como uma preparação psicológica para o objeto estranho que estaria por vir, logo ali. Sim, objeto. Como me reconhecer sujeito se tento moldar meu corpo como uma jarra de cerâmica?

     Eu queria ser loira. Magra, esguia e de olhos azuis. Ou então aquela morena de olhos verdes, sensual e de pele bronzeada. Lembro que queimava horas no sol e ia correndo para o espelho para checar meus olhos. Eu acreditava que o sol poderia transformar o castanho em verde cor de mel. Mas o espelho me mostrava a real. Ali só tinha eu comigo mesma. Espelho mostra corpo. E por corpo, ali se encontrava uma artista frustrada por não conseguir concluir sua obra. Sempre inacabada, sempre em construção.

Destruição.

     Meu corpo objeto queria ser de cintura fina, seios menores, braços fininhos, pele lisa e macia, rosto simétrico, bochechas menores, cabelos melhores e mais controlados. Moldada aos olhos e semelhança da menina moça sem referências. E quem disse que aquele moço bonito iria se interessar por mim? Eu não me achava merecedora de alguém tão legal e bonito assim, e logo empurrava para outra amiga, porque ela sim estava a sua altura.

Quando você se liberta e se enxerga de forma plena, não há reflexo que ofusque o seu brilho

    Sou a única prima de ambas famílias que é avantajada em todas as partes do corpo. Eu cresci ouvindo isso. Sempre quiseram minha bunda, sempre quiseram meus seios. Todos. Primas, tias, amigas, colegas, homens. Eu tava sozinha sem saber quem eu era. Quem fui?

     Foram 25 longos anos sem entender meu lugar na classificação da beleza feminina brasileira. Tenho uma boca grande, olhos expressivos, nariz gordinho, cabelos ondulados e frisados. Tenho seios, bunda e coxa grande, um quadril largo e uma cintura mediana. Não é um corpo magro, fino. É largo, é grande, é forte. Tudo concentrado numa estatura de 1,53 cm.

     Hoje sou sujeito. Determino as ações de meu próprio corpo e no espelho me enxergo de forma plena, completa. Percebo cada curva, linha, marca presente em mim e vejo que elas formam quem eu sou. Eu percebo a mim mesma. E amo tudo que sou. Meus seios, minha (feliz) barriguinha de chopp, meus braços gordinhos, minhas costas. Meu largo e radiante sorriso, meu queixo, minhas bochechas, meus olhos expressivos, minha sobrancelha. Minhas estrias, minha celulite, minhas espinhas. Meu cabelo misturado, de fios finos, ondulados, cacheados e lisos, com tons loiros, pretos e brancos.

     Quando você se liberta e se enxerga de forma plena, não há reflexo que ofusque o seu brilho. Eu posei nua. Tirei minha roupa e encarei olhos nos olhos a lente da câmera. Dancei, gargalhei, expressei meu charme e desenvoltura. Disse para mim mesma:

– Ana, você é tão bonita. Olha essa beleza que vem de você e reflete no seu sorriso. Tá sentindo? São raios de luz. Você é o Sol, Ana.

     Sim, eu sou o Sol. Eu sou a minha própria luz. Sou eu mesma nua e crua em corpo e essência. E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente.

Sou eu mesma nua e crua em corpo e essência. E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente.
Foto: Ana Luiza Calmon

 

Projeto Ocupa Corpos - Ensaio Ana Luiza
Foto: Thais Carletti

 

Incorporando o vísceral na pintura

Desde que eu entrei no movimento feminista e agreguei isso tanto a minha vida quanto em internet, tenho ganhado uma enorme soma de amigos maravilhosos – awoman – e um desses foi o Juno Lavigne.

Homem trans e dono muito recentemente da page Juno Dexter – Art , fui arrebatada muitas vezes pelos seus textos didáticos e esclarecedores sobre inúmeros aspectos de seus transtornos neuroatípicos, como autismo e disforia corporal, e por sua arte, que expõe seus sonhos mais intrínsecos e perturbadores, revelando mesmo que indiretamente e não plenamente a sua verdadeira face e vivência como pessoa transgênero, algo que ele transmite através de suas pinturas sem querer falando coisas muito íntimas aos espectadores; algo muito pessoal, que para os mais sensivéis desenvolve certa estranheza e simpatia as obras que abusam do vermelho e tons mais escuros por motivos óbvios, para quem acompanha suas postagens.

Vide algumas perguntas sobre as influências do seu trabalho e sentimentos sobre o mesmo:

>  Como surgiu seu primeiro quadro?

Mano, eu não sei, na real eu sempre gostei de arte, e meu pai sempre me estimulou a desenvolver isso, assim, na real meu primeiro quadro eu devo ter feito antes de completar 4 anos -e vou aproveitar pra lembrar que deve ter ficado uma merda, anyway, eu só comecei a levar minha arte a sério de verdade ano passado, quando eu percebi que passar meus sonhos pro papel não era uma “brincadeira” (risos).

> Que relação seus quadros possuem com os seu autismo e outros “transtornos”  neuroatipicos? E com a sua transexualidade?

– Isso depende, cada quadro tem uma relação muito íntima com uma ou mais questões muito intrínsecas de mim, alguns quadros eu mostro pessoas com os seios mutilados e feridos, eles podem representar minha disforia (na vrdd vc precisaria ser cego pra não entender que se trata de uma pessoa disfórica na imagem ), assim como eu tenho quadros que falam de crises, auto-mutilação etc, figuras com rostos cansados, sangue, lâminas e presas em camisa de força tão aí pra representar essas questões
O que os quadros mostram é só uma mistura, na verdade, de todos os meus sonhos e sentimentos, que foram de alguma forma “cuspidos” no papel. Uma vez que a arte é o que eu tenho feito pra não me matar no fim do dia, a relação que minhas pinturas possuem com meus transtornos e minha transexualidade é essa: eles impedem que a depressão e a disforia me consumam até o ponto de o pior acontecer. E quanto ao autismo, bom, ele na verdade me ajuda a querer pintar mais e mais.

 

 

> Você acha que seus quadros merecem ganhar um grande reconhecimento ou são só um hobbie seu mesmo?

–  Mano, isso é meu trabalho (risos) é o que eu pretendo fazer no futuro, eu não sei se sou a pessoa mais apta a dizer se eles merecem um grande reconhecimento porque minha relação com eles é muito pessoal, o que eu vejo não é nada do que você vê. Você pode ver um menino disfórico e com problemas de auto-imagem e auto-mutilação ou qualquer outra coisa, pode ver só quadros bonitos e um bom uso dos elementos dos quais a arte dispõe, mas man, quando eu olho pra um desenho meu, eu revivo tudo que me levou a fazer ele. Então sim, eu acho que a minha arte é boa e merece o devido reconhecimento, mas eu não sei se posso ditar quanto reconhecimento eu mereço ou não, porque eu estou envolvido demais com minha obra, de uma maneira que não consigo julgar ou, de alguma forma, dar uma opinião realista e imparcial.

> Você acha que esta passando um recado para as outras pessoas? E se não, que recado você queria passar sobre transexualidade e transtornos neuroatipicos para as pessoas?

– Eu não sei se estou passando algum recado, eu não penso em passar nada específico quando eu faço meus quadros, eu simplesmente reproduzo um monte de sonhos e sentimentos, e eu acho que a interpretação disso, tipo… bom, é claro que a MINHA interpretação sendo tão abstrata e pessoal não vai ser a interpretação universal, isso simplesmente vai caber a cada um né, a única coisa que eu procuro passar pra tela é o sofrimento, meio cru até, porque é a única maneira que eu tenho de “tirá-lo” de mim naquele momento. Então… eu não estou tentando dizer alguma coisa específica com esses quadros, eu só estou pintando.

O que você sabe sobre os coletores menstruais?

Coletores menstruais são copos feitos de silicone que são substitutos para os absorventes. Eles tem como função coletar o sangue menstrual e possuem várias formas, tamanhos e marcas. Aqui na nossa equipe ele é queridinho. Eu começarei a usar no meu próximo ciclo, mas Tamires, Michelle e Bruna já são adeptas.
Você conhece? Já usa? Acha que está em outro planeta e não faz ideia do seja isso? Então deixa eu contar pra você. Primeiramente, vamos a uma aulinha de história para que vocês conheçam a inventora dos copinhos menstruais.
Quando você entra na internet e lê um título citando o coletor menstrual, talvez, um de seus primeiros pensamentos é “Que novidade é essa?”. Mas, e se eu disser que isso não é nenhuma novidade? A primeira menção desses coletores datam de 1867, um americano de Chicago inventou o copo da imagem. Não se sabe a identidade desse americano e nem se esse modelo chegou a ser inventado, mas podemos ter uma boa ideia de copo seria seu design e forma de uso. Medo!
                
Imagine-se usando isso! 
Mas é uma mulher, chamada Leona Chalmers, que é conhecida como a inventora dos coletores. Apesar dos modelos (assustadores) que já existiam antes, foi ela quem patenteou e divulgou a ideia. Leona foi uma inventora e escritora norte-americana que lançou sua criação em 1937. Ele era feito de borracha, mas com a Segunda Guerra Mundial essa matéria prima se tornou escassa e a produção do coletor foi interrompida.

 

Leona Chalmers e seu modelo do coletor menstrual. Além da forma, a maneira de introduzi-lo também é bem semelhante aos coletores atuais.
As mulheres também não se mostraram interessadas em fazer uso da novidade. Vamos lembrar que na década de 30 o corpo feminino sofria muito mais com tabus. A ideia de manusear um objeto dentro da vagina não era bem aceita por ninguém. Essa insegurança em usar os coletores se manteve até os anos 70. Leona se uniu a uma empresa para continuar a produção, e mesmo com as palestras, lançamento do livro sobre cuidados íntimos da mulher, escrito pela própria Leona, e produção de novos modelos (como os descartáveis) a empresa parou de produzir os coletores em 1973.
O lado íntimo da vida de uma mulher, Leona W. Chalmers

Mas quais são as vantagens e desvantagens do uso do coletor? 

VANTAGENS:
Leona criou os coletores para que fossem mais higiênicos, econômicos e saudáveis. E essas são características que ainda se mantem. Mas a lista é muito mais completa. Vamos conhecer?
– Investimento. O custo de um coletor pode variar de R$65,00 à R$80,00, porém, é um valor único. Imagine quanto você gasta por ano nos absorventes comuns. Agora pense em não gastar esse dinheiro por pelo menos 5 anos, que um prazo, considerado mínimo, de validade do produto.
– É reutilizável, flexível, hipoalergênico e antibacteriano.
– Se adapta ao seu corpo. Existem várias formas e tamanhos, é só escolher o que melhor se adapta ao seu corpo. Logo vou explicar como escolher o melhor para você.
– Não te atrapalha ao urinar nem a dormir.
– É sustentável. Cuidem do meio ambiente mocinhas! Um absorvente externo leva cerca de 100 anos para se decompor na natureza, o interna demora 1 ano.
– É higiênico. Você passa a não ter problemas com manchas, vazamentos ou odores.
– Quase não possui contra indicações, só não é indicado para virgens (APENAS se o hímen representar algo para a menina, porque ele pode se romper, o que não significa que ela não será mais virgem) e não pode ser utilizado no pós parto.
DESVANTAGENS:
– Dor e resistência ao retirar (mas isso é resolvido de forma simples, é só você apertar a base do coletor para retirar o vácuo antes de retirar o coletor).
– Incomodo, vazamento e aumento das cólicas.
Porém, todas as usuários garantem que essas desvantagens só ocorrem quando o coletor não é bem posicionado. Percebem como quase não encontramos empecilhos para o uso dessas chamadas tacinhas?

Como escolher o meu coletor e qual a maneira certa de colocar?

Tabela de tamanhos do coletor da marca Me Luna
No site Vai de Copinho existe um artigo completíssimo que você PRECISA MUITO ler para saber a melhor forma de escolher seu coletor. Algumas das considerações que eles dão são:
– Numero de partos
– Estatura corporal
– Condições físicas
SÉRIO, leia o post completo aqui para entender tudinho. É tudo bem explicadinho, de forma fácil e completa.
 Quanto a forma de usar, eu acho mais fácil entender através de vídeos, então índico que vocês assistam esse, e também tem um aqui e aqui.

Mas eu ainda não sei bem o que pensar sobre esses coletores.

Então você precisa de depoimentos, opiniões, amigas. Tem várias mulheres que podem te contar muito sobre como elas se sentem usando as tacinhas.
O primeiro depoimento sairá daqui mesmo, da nossa equipe. 

A Jout Jout tem esse vídeo falando dos coletores e o canal Acidez Feminina fala sobre ele aqui.
Temos os grupos no facebook também, como o Coletor sem censuro – só amor, Coletores Brasil – menstrual cups e o Coletores – além da menstruação. Nesse grupos você muito mais acesso a informações e apoio.
Uma das informações legais que eu encontro neles é o melhor local de compra, que são muitos. Algumas drogarias vendem, mas eu só encontro pela internet em sites como os a Beleza na Web e , também tem loja online das próprias fabricantes, como Inciclo, Fleuritu e Meluna. Eu acho muito melhor comprar diretamente na loja da fabricante.

Não sei para vocês, mas a ideia da Leona vai me ajudar e muuuito! Quem aí usa e quer dar sua opinião? Quem não usa e quer tirar as duvidas com a gente?



Seios – por Sara Tude

Reprodução/Pinterest

         

Redondos, ou não
Firmes, ou não
Proporcionais, ou não
Grandes, ou não
Pequenos, talvez
Ou nem tanto assim
Caídos, ou não
Iguais, ou não
Naturais, ou não
Com leite, ou não
Fabricados, talvez
Ou nem tanto assim
Sejam como forem, mulher
São teus
E são assim
Também formam a tua beleza
É teu corpo, mulher
Se ame assim
É teu o seio
É tua a madre
São tuas as curvas
É você
É teu o coração
Que o teu próprio seio esconde
Guarda
É a tua casa
E é linda assim.

Quem escreve 

                                                  
Me chamo Sara, tenho 19 anos, sou geminiana, artista, bailarina, poetiza, professora de dança contemporânea e apaixonada pela arte em todas as suas formas de expressão.

O casamento entre a hipocrisia e o preconceito

Ontem à tarde, ao entrar no ônibus, me deparei com uma conversa que estava acontecendo no banco de trás, que chamou muito minha atenção (não que eu fique prestando atenção em conversa de ônibus). O diálogo se passava entre um pai e sua filha: 
“_ Mas pai, não tem problema algum. Tem tanta gente por aí que tem tatuagem.
_ Você não é ‘tanta gente’! Não vai fazer tatuagem nenhuma.
_ Mas…
_ Gente tatuada tem problemas para arrumar  emprego, é chamado de maloqueiro, vagabundo ou bandido. A pessoa pinta o corpo, achando que é bonito, que é ter personalidade própria, ser diferente e mais um monte de outras coisas. Mas depois que amadurece vê que é a maior burrice. Que não trás nada de bom. Só atrapalha…”
A conversa continuou, mas eu havia chegado em meu ponto e tive de descer. Só que antes eu me virei para dar uma olhada nas pessoas que conversavam; uma menina de aparentes 14 anos e um pai com um dragão vermelho desenhado no braço esquerdo! o.O
Aquela imagem me fez rir, mas um riso de espanto. É incrível como a hipocrisia, a intolerância e o preconceito estão muito mais perto e presentes do que parece. Como alguém que se tatuou é capaz de dizer ao filho que isso é uma “burrice”? O homem praticamente disse que, quando crescemos, nos entregamos aos preconceitos da sociedade. Ele se assumiu um ser humano incapaz de se manter naquilo em que acredita, preferindo se curvar ao controle imposto pelos intolerantes.
E não é apenas com tatuagens, pensamentos como os dele estão ao montes por aí, acontece com muitas outras pessoas. Um padre que não respeita as crenças de um monge; um branco que se acha melhor que um negro; ou um negro que pensa ser mais que um branco; uma bailarina que critica um estilo de dança diferente do dela (e esses são exemplos até “pequenos”), enfim, um infinito número de hipócritas preconceituosos existentes ao nosso redor.
É incrível como podemos nos achar no direito de criticar alguém sem antes olhar para os próprios erros… Não, ‘erros’ não é a palavra, afinal de contas, ter uma visão diferente das coisas não é um erro. Criticamos sem considerar nossas próprias atitudes. Aquele homem do ônibus já agiu de uma forma que, hoje, condena de forma agressiva, contribuindo para a dissipação de discursos ofensivos contra quem é diferente, contra ele mesmo.
Inacreditável como é gigantesca a ‘habilidade’ que alguns homens possuem para ser hipócritas e cínicos. Não importa o que ele tenha feito ou venha a fazer, o problema se dá quando outros estão fazendo. Somos capazes de enxergar erros nas atitudes de quem está ao nosso redor. E, na maioria das vezes, temos uma atitude igual.
A verdade é que deveríamos abrir nossos olhos e mentes. É óbvio que não somos iguais, com diferentes ideias, gostos, atitudes, crenças, tipo físico. E, pelo que parece, uma outra coisa que é muito igual é a ignorância humana. Quanto tempo teremos de esperar para enxergarem que esse é o motivo das tristezas que assolam nosso mundinho?

A propósito, vou fazer ,minha primeira tatuagem! E meu pai pensa como o pai do ônibus.

Sobriedade Ébria

Imagem: Reprodução/Internet

Acordo com a cabeça ainda rodopiando sem parar. Nos ouvidos parece que entra uma banda inteira de percussão que, auxiliada por um zumbido distante, cria uma música mal orquestrada. O corpo parece sustentar o peso de um lutador de sumô, mesmo ocupando pouco mais que o espaço de uma bailarina.

Antes de levantar, levo as mãos lentamente ao rosto, detectando crostas de rímel e delineador onde não deveriam estar. Ótimo. Como se minhas olheiras precisassem de ajuda para ficarem mais escuras. Mas já estou acostumada a não ser uma bela visão pela manhã. Com a aparência de uns 40 anos e os reflexos e a velocidade de pensamento de uma senhora de 80, não seria um pedaço de papel plastificado que me convenceria ter apenas 27.

Depois de quase cinco minutos parada na mesma posição, baixo o braço e percebo uma presença da qual me esquecera. Ao meu lado ainda repousa em sono profundo um conjunto de ombros largos, pernas compridas, barriga um pouco saliente e cabeça de menino. Não consigo reprimir a raiva por aquele rosto angelical permanecer imaculado, enquanto o meu parece o retrato do inferno.

Pudera, aos 22 anos minhas ressacas também eram leves como a dele. Como eu fui ficar tão mais suscetível aos efeitos do álcool em apenas cinco anos? Ok, antes eu era mais fã de cerveja e vinho, e minha inseparável companheira atual, a vodca, sempre teve a fama de arrasadora. Mas não dá para negar que as visitas que ela me fazia naquela época não deixavam tantos estragos.

Ainda remoendo a inveja pelo novinho, me levanto, tentando tomar o cuidado de não acordá-lo. No fundo, acho que eu poderia cair sobre ele que não o despertaria. Quais são as chances de um organismo tão fresco e vivo ter entrado em coma alcoólico? Não, seria muita canalhice se mesmo assim ele continuasse bonito. E eu posso ter levado muita pancada da vida, mas sei que ela não pode atingir esse nível de injustiça.

Vou cambaleando até o banheiro, desesperada por uma ducha gelada antes de ir tomar um café bem preto. Passo reto pelo espelho, tentando evitar o contato com meu reflexo até mesmo pela visão periférica. Com certa dificuldade, puxo a porta de correr do box; aquela porcaria sempre trava, e é lógico que ela iria fazer o máximo de barulho justo quando eu quero ser silenciosa. Mas, aparentemente, isso não incomoda o rapaz na minha cama.

Entro e vou direto abrir o chuveiro, distraída. Foda-se se eu molhar o resto do banheiro todo, depois eu seco. Melhor que sofrer de novo para fechar essa porcaria dessa porta. No entanto, segundos antes de a água começa a cair, percebo uma calcinha pendurada na torneira. Turquesa, toda de renda e definitivamente não é tamanho PP. Não é minha. Eu só uso preto ou branco e sempre de algodão, porque é o máximo que se consegue fazer quando compra lingerie – e qualquer roupa, na verdade – na sessão infantil.

Aí sim, finalmente, minha amnésia alcoólica vai passando. Maldita vodca. Primeiro, me vem um flash daquela mesma calcinha, dessa vez envolvendo um corpo bem mais desenvolvido que o meu. De pele morena, cheia de curvas e apresentando uma desenvoltura de fazer inveja ao tirar a calça jeans. Os olhos fixos nos meus, enquanto o garoto (que agora dorme feito uma pedra) beijava sua nuca. Mas a lembrança das ações dele são borradas, porque claras me vem apenas as dela.

Logo em seguida, me recordo do sorriso que ela me deu no bar onde eu estava com esse rapaz, num encontro às escuras organizado por uma amiga em comum. Além de bonito, ele era até interessante e eu nunca me incomodei com idade, mas sua falta de atitude durante a conversa denunciava: se não era virgem, só transara com uma única pessoa. Com esforço, me obrigava a lembrar de que ele estava saindo de um namoro longo e o dava um desconto.

Mas isso não foi o bastante para que eu evitasse trocar olhares com aquela morena que me comia de longe. Vez ou outra eu sorria de volta, quando o garoto levava o copo de caipirinha à boca e me ignorava por uns segundos. Ela demorou mais umas três doses nossas e duas dela para vir nos abordar em nossa mesa. Àquela altura nossa conversa estava descontraída, mas nada íntima, então nenhum dos dois se opôs à sua interação.

Ela disse que se sentia incomodada de beber sozinha na outra mesa e que já havia visto meu companheiro de conversa umas duas vezes na faculdade. Isso fez com que eu me perguntasse se ela era tão jovem quanto ele – o que não parecia. Minha dúvida foi esclarecida com alívio quando ele se recordou de que ela era veterana do curso em que ele havia acabado de ingressar.

Depois de mais umas duas doses, nós três parecíamos amigos de longa data e ríamos e conversávamos alto demais para um bar tão pequeno. Eu sentia o olhar crítico dos outros frequentadores atravessando a nossa pele, e parecia que não era a única a perceber. Num rompante, ela se lembrou de que havia uma baladinha open bar rolando ali no bairro. Até que não era má ideia. Concordamos.

Ela se levantou e me puxou pelo braço, fazendo subir um calafrio pela minha coluna. Esse verão infernal nos obriga a sair com roupas frescas até à noite, então nossa pele não podia deixar de se roçar. Ao garoto ela apenas estendeu a mão, que ele logo apanhou e lá fomos nós, um apoiando o outro, atrás da próxima parada da noite.

Outro flash me vem à mente, dessa vez de nós duas dançando juntas e provocativamente na pista, enquanto nosso parceiro de noitada apenas nos observa. Nenhum dos três podia reclamar de não estar se divertindo. De olhos sempre colados uma na outra, estávamos mais soltas que nunca. Antes de finalmente partirmos para o meio da multidão, tomamos mais uns três ou quatro drinks na periferia da balada.

Com o efeito do álcool a toda, eu só queria extravasar. Enquanto dançávamos, íamos nos aproximando mais a cada segundo, o primeiro passo sempre dado por ela. Logo estávamos a poucos centímetros de distância, distância essa ficando ainda mais curta dependendo do movimento que fazíamos na dança. Para sua surpresa – e minha também, lembrando agora – fui eu quem aboliu por completo o espaço entre nós e levei meus lábios aos dela. E foi só o primeiro dos vários beijos que demos àquela noite.

Em seguida, me assaltam várias imagens de nós três no meu apartamento, nossos perfumes misturados ao cheiro do álcool que exalava não apenas de nossas bocas (quase sempre ocupadas umas com as outras), como de nossos corpos cada vez mais quentes. Eu tentava aproveitar ao máximo aquelas duas pessoas ali em minha presença, mas minha atenção sempre se voltava para ela. Não que o garoto estivesse se saindo mal, mas ela parecia ter uma força intensa que me atraía de forma inexplicável.

Ela, por sua vez, parecia não estar muito preocupada em dividir seu tempo entre nós dois. Dava atenção para ele apenas de vez em quando, quase sempre porque eu estava fazendo o mesmo. Seu interesse parecia ser mesmo em mim. Não foi difícil desconfiar que ela desejava que estivéssemos apenas nós duas naquele lugar. Em geral, era a minha boca que ela beijava, o meu corpo que ela explorava e o meu prazer que ela propiciava.

Mas… E agora? Onde ela está? Antes de entrar no banho não ouvi qualquer som que denunciasse sua presença, nem percebi qualquer outro traço seu antes dessa calcinha pendurada na torneira. Minha última lembrança da noite anterior foi de ter adormecido entre meus dois parceiros, então também não vi quando ela acordou. Agora me lembro que ela não me disse seu nome…

Por ideia dela, nos chamávamos por apelidos a noite toda. Ideia de bêbado, mesmo. Eu era Lolita, menção ao meu pequeno tamanho. O rapaz (cujo nome eu até sabia, mas agora simplesmente não consigo me lembrar) era Romeu. E ela era Capitu. Não poderia ser mais preciso. Não apenas seus olhos eram de ressaca, como suas lembranças só fazem piorar a ressaca pela qual passo agora. Ela veio como uma onda e foi embora da mesma maneira, sem nem se despedir…

Só quando já estou fechando o chuveiro que percebo que me esqueci de pegar uma toalha. O banheiro já está todo molhado, e o calor continua infernal, então corro até a porta para pegar uma e me secar. Dessa vez sem me preocupar com a visão periférica, uma imagem fora de foco chama minha atenção e paro no meio do caminho, me voltando para o espelho. O vapor atrapalhou um pouco a nitidez da escrita feita com batom vermelho – o mesmo que ela estava usando na noite anterior –, mas ainda dá para ler perfeitamente.

Fico por alguns segundos ali parada, encarando o espelho, que reflete meu corpo mirrado e meus seios minúsculos. Mas agora eu já não ligo para minha aparência de pré-adolescente. A água escorre de mim e molha o pouco do chão do banheiro que ainda estava seco, e isso também não me incomoda. Tudo que faço é sorrir e continuar encarando a mensagem. Em seguida pego minha toalha, me seco e me enrolo nela. Saio do banheiro cantarolando uma das músicas da balada da noite anterior.

Dirijo-me novamente para o quarto, tiro o pedaço de pano que me envolve e me deito novamente ao lado do garoto. Dou-lhe um beijo de leve na boca, o que o faz se mexer e resmungar um pouco. Não está em coma, afinal, ainda bem. Não ia gostar de ter de levar ninguém ao pronto socorro a esta hora. Só me ocupo de fechar bem meus olhos e adormecer novamente, quem sabe até sonhar com a minha Capitu. Se for para encarar uma ressaca, que seja a dela, então.