Afilhadas de Gaia

Risos e mais risos. Vestidas de flores e brisa. Correndo e dançando pelos campos verdes. O sorriso de uma era oferecido à outra.
A mais velha era filha do arco íris. Era a mais alegre, saída ao pai. A mais nova, filha da aurora, tinha nos olhos o violeta da essência de sua mãe. Eram ninfas, não como tantas de que se ouve falar na mitologia. Eram afilhadas de Gaia.
Ambas possuíam o mesmo perfume, pois a madrinha e mentora ensinara-lhes a trajarem margaridas. A flor estava em volta de seus corpos, em seus cabelos e em suas almas.
Eram conectadas pelas margaridas. Gaia as ligara, mas nenhuma das duas compreendera o significado de tal união.
A filha do arco-íris percebia apenas que era fascinada pelos olhos violeta da filha da aurora. Mergulhava neles e às vezes se afogava… Só não sabia por que.
E a mais jovem de nada se dava conta. Brincava, ria e dançava com a outra. Só não podia sentir-se indiferente quando sentia o toque de sua pele.
Risos e mais risos. Vestidas de flores e brisa. Correndo e dançando pelos campos verdes. Deitando-se lado a lado na grama macia. O sorriso de uma era oferecido à outra.
Novamente os olhos da mais nova tragam a mais velha. E o toque da filha do arco íris entorpece a filha da aurora. A sensação inicial é de susto. A seguinte de medo. Mas a que permanece é de serenidade, à qual se une o entendimento.
Tudo sucedido pelo mergulho mais profundo nos olhos, logo fechados, e pelo toque mais vivo da pele, agora dos lábios.
Ligadas pelas margaridas. Afilhadas de Gaia. A filha do arco-íris e a filha da aurora.

Sobre leitura (?)

Ana e João eram vizinhos e amigos. João era popular, e todos o achavam o máximo porque ele lia muito. Toda semana estava com um livro diferente e os amigos adoravam ouvir sobre aquilo. Às vezes ele até gostava de se gabar um pouco quando lia algo muito bom ou conseguia um livro difícil na biblioteca.

Já Ana não tinha uma fama tão boa assim, porque… também lia. Lia muitos livros, sim, mas nem de longe tantos quanto João. Ainda assim, era para ela que as pessoas olhavam torto. “Nossa, já é o segundo livro que ela lê este mês…” “Essa tem mais carimbo da biblioteca que fios de cabelo, haha”.

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Dos outros e de nós

A xícara de café esfriava, repousada sobre uma das cadeiras do auditório, enquanto a garrafa d’água em sua mão esquentava. Já era a quinta vez que o texto era repassado, e ninguém ficava satisfeito. Estavam todos cansados, permaneciam ali há horas, mas o resultado não estava bom. Mais que ninguém, Miriam sentia a ansiedade a dominando cada vez mais. Era por causa dela que não podiam ir embora, que tinham de ensaiar tantas e tantas vezes.

Os colegas atores não demonstravam raiva ou a culpavam, mas ela já se sentia mal por conta própria. Os gritos e reprimendas do diretor não passavam de uma ajuda pro serviço. Ela não conseguia entender. Nunca tivera tanta dificuldade para assumir um papel. Já fizera personagens mais velhas que ela, mais jovens, loucas, putas, santas, professoras, até outras artistas. Mas justo aquela ela não conseguia encarnar.

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Imergir

Imergir

Verão. O céu mais azul que alguém poderia ver na vida e um sol desejado por 11 entre 10 turistas no litoral. Ironicamente, é logo aqui, no interior. Daqueles dias em que o calor passa do aconchegante, surtindo mais um efeito de vivacidade e animação nos corpos e levando à redução das roupas ao mínimo necessário. Justamente por isso, é essa a época que eu aprendi a odiar com todas as minhas forças. Sim, também odeio o calor e todo o suor que ele propicia, mas comecei a odiar ainda mais as opções que temos para dribla-lo.

À minha volta todos estão felizes e, por que não dizer, radiantes. Não existe outra palavra para definir os efeitos do sol de dezembro sobre banhistas em um sítio. Os corpos em sungas, biquínis e maiôs são razoavelmente variados, exceto por um detalhe: o único gordo é o daquela que os observa, vulgo, eu. Até agora eu me questiono o que estou fazendo aqui, se não me encaixo. Às vezes ainda me questiono como pude acreditar, por um único segundo, que não teria problema em usar um traje de banho de duas peças. E, sim, esse questionamento não me deixa tirar a canga, muito menos pular na piscina.

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sonhos

Matéria de Sonhos

Peguei matéria de sonhos, esfarelei-a e, depois de uma fina camada de cola, joguei o pó sobre uma folha de papel. Era lindo. Furta-cor, brilhava e brilhava. Difícil de explicar. Imagine sonhos sobre uma folha de papel. Não dá para descrever, não é? Pois então. Apenas imagine, já basta. Isso porque a matéria de sonhos não é sempre igual. Se você imaginar, assim ela é. A minha, eu imaginava -e via- das cores mais lindas. Você pode imaginá-la verde esmeralda, ou negra com um fugaz brilho púrpura. Ou cinzenta e sem graça. Isso vem de dentro da gente, que não consegue imaginar de outro jeito, porque a matéria de sonhos reflete o que somos. E a matéria de sonhos sobre uma folha de papel é da cor que a gente imagina.

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