sociedade idolatra machistas

Dudu Camargo é a prova que nossa sociedade idolatra machistas

Antes de tudo, uma contextualização: no dia 18/06, foi ao ar uma edição do Programa Silvio Santos, com participação de Maisa e Dudu Camargo no Jogo das 3 Pistas. Na ocasião, o apresentador começou a fazer “brincadeiras”, dizendo que eles deveriam formar um casal, já que ambos estavam solteiros. Além de dizer que o rapaz não fazia seu tipo, a insistência de Silvio a levou a criticar o rapaz e chamá-lo de engessado. Durante o quadro, as brincadeiras e as provocações se seguiram, e ainda com o ingresso de Dudu em certo ponto.

sociedade idolatra machistas
Incentivado por Silvio, Dudu dançou em torno de Maisa para provocá-la (Imagem: reprodução/internet)

Alguns dias depois, Dudu Camargo foi ao programa da Sônia Abrão, que não apenas defendeu o comportamento do apresentador, como rechaçou as críticas de Maisa. Nessa ocasião, inclusive, Dudu disse que convidou a garota para dormir com ele. E a mesma que criticou a “grosseria” de Maisa, gargalhou com um claro episódio de assédio. Lembrando ainda que Maisa é menor de idade (tem recém completados 15 anos) e Dudu já é um adulto de 19.

Até selinho o rapaz recebeu de Sônia (Imagem: reprodução/internet)

A novela se seguiu. Durante a última gravação de seu programa, Silvio Santos convidou Maisa para participar do Jogo dos 3 Pontinhos. E achou uma boa ideia fazer uma “surpresa” para a garota, levando Dudu Camargo sem avisar a menina. Sem suportar mais humilhações, assédio e provocações, Maisa teria abandonado o palco do programa aos prantos.

E no meio de toda essa polêmica, ainda surgiu nas redes sociais um relato de Robert Oliveira, que se diz ex-namorado de Dudu Camargo. O rapaz denunciava no texto que eles tiveram um relacionamento permeado por abusos psicológicos, físicos e sexuais. A assessoria de Dudu insiste que o conteúdo da postagem é falsa e que “Dudu é hétero”, bem como pretende processar Robert, ainda que haja na web fotos dos dois juntos e um vídeo em que eles dão um selinho.

Robert Oliveira e Dudu Camargo (Imagem: reprodução/internet)

Continuando sobre a repercussão que Dudu recebeu com tudo isso. O rapaz participou, no último domingo (25/06), do programa Pânico na Band. Quem está familiarizado com seu conteúdo já consegue imaginar o tipo de cena que ele protagonizou. Não faço a menor questão de incluir esse tipo de imagem aqui, então quem tiver interesse pode ver neste link (Fonte: Diva Depressão). Já na segunda-feira seguinte (26), participou do talk show The Noite, apresentado por Danilo Gentili.

Para entender o que tudo isso significa, é muito importante fazer um exercício de distanciamento. Primeiro: nas redes sociais, Maisa recebeu um amplo apoio na forma como tratou Silvio Santos e Dudu Camargo. Se nos limitarmos a considerar esse espaço de amostra da reação do público, podemos ter uma interpretação favorável à garota. Mas mesmo esse apoio, no entanto, não foi unânime: assim como Sonia Abrão, muitos a consideraram grossa e/ou exagerada. Mesmo no ambiente em que recebeu o maior suporte, Maisa ainda encontrou opositores.

Segundo: numa primeira vista, a repercussão oferecida a Dudu aparenta vir apenas de seus semelhantes. Os programas onde ele teve palco são conhecidos pelo seu machismo escrachado (no caso do Pânico e The Noite), sua toxicidade e o desprezo pela dignidade humana. Mas mesmo nesses ambientes, é importante refletir sobre o que significa toda essa visibilidade que ele vem recebendo. E o que a audiência desses programas diz não apenas sobre a TV brasileira, como sobre o seu público.

A emissora de Silvio Santos constantemente comemora seu espaço garantido nas televisões brasileiras (muitas vezes apoiado por polêmicas)

Silvio Santos continuou se aproveitando da situação que beneficiava Dudu Camargo, contra o bem estar de Maisa. Importante abrir um parêntese para algo importante: a atitude do apresentador já no primeiro programa era errada de inúmeras formas. Insinuações e “brincadeiras” sobre relacionamentos podem ser meramente inconvenientes, mas a forma como ele as fez (como se o temperamento da garota fosse justificado por “sua falta de namorado”) já era machista por si só. E fazer esse tipo de brincadeira com uma menina de apenas 15 anos, dizendo inclusive que já estava na hora dela casar e pensar em ter filhos (!!!), é absurdo.

Retomando, sabemos que Silvio Santos gosta de alimentar sua audiência com boas doses de polêmica (não é de se espantar que o The Noite seja de sua emissora). De certo modo já era de se esperar algum tipo de atitude como a tomada em sua última gravação. Ele é, afinal, não apenas um dos que têm todo o caráter para dar palco para um indivíduo como Dudu Camargo, como aquele que o deu desde o início. O pseudo-jornalista (já que não é nem formado, nem competente) apresenta o telejornal sensacionalista Primeiro Impacto, bem adequado para o seu perfil caricato. Telejornal esse, do SBT.

Imagem: reprodução/internet

SBT esse, de Silvio Santos. O mesmo Silvio Santos que submeteu Maisa a tamanho assédio e humilhação. O mesmo Silvio Santos que levou Dudu Camargo mais uma vez a seu programa para aumentar a humilhação da menina. Que permite programas como o The Noite. E dono da emissora com a segunda maior audiência do Brasil. Do programa vice de audiência em seu horário – inclusive no domingo 18/06.

Não só é importante ver todos os envolvidos diretos nessa situação, como os indiretos. Essa audiência toda não é coisa de nicho. Nichos não sustentam por muito tempo – muito menos com tanto alcance – toda essa repercussão positiva. O problema é geral, e denuncia algo grave sobre nossa sociedade: ela não é apenas machista, como aplaude o machismo.

PS: E ainda é curioso que a idade justifique tanto as besteiras que Dudu (jovem demais) e Silvio Santos (velho demais) fazem. Mas não protege Maisa em instante algum. Nem do que passou, nem das críticas por sua suposta “grosseria”.

ELAS CONTRA O ASSÉDIO

Relatos de nós, Elas por Elas, para vocês mulheres

 

Todas nós acompanhamos nos últimos dias os desdobramentos da denúncia de assédio da figurinista Su Tonani cometida pelo ator global José Mayer. A verdade só obteve ouvidos e voz após um forte grupo de mulheres dos bastidores da Rede Globo se unirem e criarem o movimento #chegadeassedio. Somente assim José Mayer admitiu suas ações, com um pedido de desculpas que nada mais é do que o mínimo e obrigação, diante do sofrimento psicológico, emocional e profissional que causou à vítima.

Seja no ambiente de trabalho, nas ruas e até entre amigos e familiares, somos direcionadas a sempre ter dúvida do ocorrido, ou seguir o caminho do isolamento e autoculpa. “Será que estou exagerando?”. Não moça, você não está. E nós, do Elas por Elas, doze mulheres que também vivem diariamente o risco do assédio, estamos aqui para contar histórias reais que vivenciamos. Estamos para soltar a nossa voz e gritar em bom e alto som:

 – É assédio! E você não está sozinha.

Hoje nós lançamos a campanha ELAS CONTRA O ASSÉDIO, e incentivamos todas vocês, mulheres do nosso Brasil, a compartilharem suas e nossas histórias. Que a gente não tenha mais dúvidas, e sim soluções. Aqui nós temos voz. Chega de assédio.

 

“Terminei um dos ensaios do grupo de Danças Urbanas do qual fazia parte era umas 19hs. Fui embora sozinha (coisa que não fazia), não quis esperar meu marido porque eu não estava bem e precisava chegar logo em casa. Ao passar na frente de um bar, um homem que estava na porta me chamou : “Vem beber uma comigo”. Eu não respondi, nem ao menos olhei para trás, mas ele não se deu por satisfeito e começou a vir em minha direção. Ao perceber isso, acelerei meus passos pronta para me defender se ele se aproximasse mais. Ele tentou, mas não conseguiu me alcançar ( acredito que por estar bêbado), então cheguei em casa aliviada e assustada ao mesmo tempo. Senti muito medo sim, mas o sentimento maior foi raiva, nunca quis tanto agredir alguém”

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“No carnaval daqui de Salvador um cara me puxou pra me beijar e eu recusei, aí ele pegou uma pistola de água e molhou todo o meu short. Aqui acontece muito no carnaval”

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“Um amigo do meu irmão apertou meus seios (eu tinha apenas 14 anos) dizendo que era nosso segredo e eu não poderia falar para ninguém porquê tanto meu imrão irmão quanto a esposa dele poderiam desconfiar”

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“O assédio mais inesperado veio em um momento e local em que eu estava completamente despreocupada. Em 2012, com 15 anos, eu estava tranquila esperando para assistir uma aula de biologia quando senti vontade de ir ao banheiro. Aproveitei que o professor ainda estava procurando o material de aula e fui perguntar se podia ir ao banheiro, sem nenhuma preocupação em mente afim, estava em uma sala cheia e ele era meu professor. Quando cheguei já me aproximei perguntando e logo em seguida tomei um susto, ele colocou as duas mãos na minha nuca e me puxou para perto dele, pensei ‘O que ele está fazer?’. Olhou nos meus olhos com o rosto próximo demais ao meu e falou: ‘Não me pergunta nada não, que com esses olhos não consigo me concentrar em nada que você fala’. Aquilo me assustou, ele me soltou e fui correndo em direção ao banheiro, depois disso nunca mais pedi para sair na aula dele e até hoje guardo uma antipatia muito grande por ele”

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“Uma das situações mais bizarras de assédio que sofri foi ainda na infância. Eu tinha por volta de 9/10 anos quando ouvi uma conversa de um vizinho com um dos meus irmãos. Ele falava pra esse irmão como meu corpo estava mudando, como eu estava ficando bonita e ‘gostosinha’. Como se já não bastasse isso, ele orientou meu irmão esperar eu dormir e ser o primeiro a me tocar, porque não era justo que eu deixasse que fosse um desconhecido. Eu não sei o que ele respondeu, porque não aguentei ficar ali mais. Depois disso nunca mais consegui dormir tranquilamente”

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“Na adolescência eu era romântica e retraída, o que me fez adiar bastante meu primeiro beijo. Aos 15 anos, fui a uma festa de aniversário sem companhia e acabei me enturmando com uma menina. Em dado momento, um rapaz pediu para ficar com ela, e eu comentei que o amigo dele era bonito. Acabou que o amigo também me chamou para conversar. Eu não queria, mas cedi à pressão, por vergonha de dizer que era BV e que não sabia falar com meninos. No meio do papo, do nada, ele tentou me beijar. Eu neguei, ele insistiu, eu disse que ia embora e ele pediu para continuar a conversa. Me sentindo muito mal, corri para o banheiro e vomitei. O amigo dele ficava falando para eu ‘deixar de bobeira’ ou pelo menos explicar ‘por que não’, me deixando pior e acuada. Liguei para os meus pais e fui embora. Remoí isso por meses, em segredo, passando mal sempre que pesava nisso ou via o garoto. Criei um medo enorme de ir a festas. E ainda por cima eu me culpava. Por ter ido, por ter cedido à pressão, por tudo. Mas hoje eu sei que a culpa não foi minha”

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“No ensino médio, com apenas 15 anos, o professor de física da turma (que por sinal era casado com uma ex-aluna dele) fazia questão de falar do quanto eu era bonita e atraente. Eu me sentia constrangida, ficava com vergonha e nojo, não conseguia falar nada, só abaixava a cabeça. Ele fazia isso na frente da turma toda, na certeza de que nada aconteceria com ele. Outros alunos brincavam com a situação, diziam que eu ‘arrasava corações’ e a única coisa que eu conseguia pensar era na minha vontade de que aquele professor sumisse da escola. Ele chegou ao ponto de dizer que eu podia tirar nota 10 na matéria dele sem nem precisar fazer a prova. E tudo era com aquele ar de ‘brincadeira’”

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“Eu tinha 20 anos de idade e era estagiária produtora de uma rádio popular da minha cidade. Tive que trabalhar por oito meses diretamente no estúdio com um locutor das antigas, voz principal da emissora. Quase todo dia ele tentava encostar em mim, me abraçar agressivamente e eu não deixava. Ele ficava puto, me destratava, mas logo depois voltava ao assunto do meu corpo. Perguntou inúmeras vezes sobre a aparência e tamanho da minha buceta e como eu fazia sexo. Por eu nunca responder, questionava se eu não era lésbica. Eu me sentia muito mal, mas não sabia que era assédio, achava que eu era exagerada, chata. Todo dia eu ia trabalhar sem vontade, sem ânimo e com medo de ficar sozinha com ele no estúdio. E quando sua esposa e filha estavam por lá, ele era o homem mais respeitoso e sério de todos”

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“Eu nunca passei por um assédio, mas minha irmã contou que quando começou a trabalhar com 17 anos o ex-patrão dela passava a mão nela, puxava as golas das blusas para ver seus seios. Quando sentava perto dela para ensinar algo no computador, passava as mãos nas pernas dela e só depois de muitos anos ela veio contar isso para a família, porque ela tinha medo, medo dele falar para as pessoas que ela que estava se insinuando”

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“Perguntei a outra amiga minha aqui da escola. Com ela foi no ônibus, quando tinha 13 anos e estava na quinta série. Ela estava sentada e o homem esfregou a genitália em sua cara, estava ela e uma amiga da escola. O ônibus cheio, lotado e ela e a amiga quase sentaram no mesmo banco para fugir dele. Hoje ela diz que se fosse mais velha teria feito um escândalo, mas na época ela apenas se calou e afastou”

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“Eu tenho contato com um cliente, uma vez pedi um favor a ele, referente a umas notas que estavam pendentes. Depois que ele me mandou, eu agradeci e ele me disse assim: “Imagina, se precisar de uma ajuda para trocar a lâmpada do seu quarto, pode me chamar também que eu ajudo. Eu falei para ele que não precisava porque meu namorado já fazia isso pra mim, tipo eu tive que inventar um namorado pra poder dar um fora num cara”

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“Quando tinha 14 anos morava ao lado da casa da minha prima, que era recém-casada. Ela e seu marido eram bem mais velhos do que eu. Mas fui percebendo olhares estranhos dele para mim, perguntas sobre eu estar namorando, uma necessidade de puxar assunto. Eu não tinha nada para falar com ele e achava aquilo estranho da parte dele. Até que um dia, eu estava sozinha em casa e precisei ir ao quintal, ele apareceu, ficou me olhando de um jeito que me deu muito medo, ele quis saber se eu estava sozinha. Eu menti, disse que meu irmão estava em casa! Me apressei para dentro de casa, tranquei tudo e não sai mais, até minha mãe chegar. De todos os assédios que sofri esse foi o único que contei para ela. Ela disse que ele não “batia bem da cabeça” e eu fiquei lá, me achando a errada da história. Não sabia o que era assédio, nunca tinha escutado falar e só fui entender muitos anos depois: se você não está confortável, se o que ele diz ou faz te incomoda ou constrange, então, amiga, é assédio!”

Não queria ter de desperdiçar meu tempo afirmando que existe uma cultura do estupro! Mas, infelizmente, isso é preciso.

Não queria ter de desperdiçar meu tempo afirmando que existe uma cultura do estupro! Mas, infelizmente, isso é preciso

 

Não importa o nome dado, estupro é estupro, apesar da relutância vinda de alguns que se negam em reconhecer quando esse estupro acontece. É constante o hábito de modificar o nome da ação para que assim ela passe a ser justificável, aceitável, perdoável, engraçada.

Ok, ok! Vou pegar leve com os leigos e explicar.

Estupro segundo o dicionário: crime que consiste no constrangimento a relações sexuais por meio de violência; violação.

Estupro segundo o Wikipedia: estupro, coito forçado ou violação é a prática não consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos.

Estupro segundo a legislação brasileira: constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. O crime pode ser praticado mediante violência real (agressão) ou presumida (quando praticado contra menores de 14 anos, alienados mentais ou contra pessoas que não puderem oferecer resistência). Logo, drogar uma pessoa para manter com ela conjunção carnal configura crime de estupro praticado mediante violência presumida, pois a vítima não pode oferecer resistência.

Vários locais onde se pode pesquisar esse termo. TODOS  em comum acordo quanto ao ser um ato violento e criminoso. Por que certas pessoas não entendem dessa forma? Alguns dos motivos para essa falta de consenso quanto ao que podemos ou não considerar estupro são: abuso sexual e assédio sexual.

cultura do estupro

cultura do estupro

Muita gente entende que esses dois termos que citei a cima são menos agressivos que o estupro e, por isso, mais aceitáveis. E é essa tentativa constante de maquiar as diversas faces da agressão sexual que alimenta as mentes das pessoas que defendem tais atos de violência como pequenos, de pouca importância e até mesmo “invenções de feministas mimizentas”.

Abuso sexual: qualquer forma de constrangimento sexual sobre um indivíduo em situação de inferioridade, envolvendo ou não violência física.

cultura do estupro

Assédio sexual: fazer uso de palavras de baixo calão para ofender ou “elogiar” uma mulher, indiretas sexualizadas dirigidas à mulheres que não às pediram ou permitiram e até mesmo tocar-lhe o corpo (como acontece em ônibus, festas e no trabalho também) sem consentimento da mesma.

Percebe como são atitudes de violação, agressivas, humilhantes e abusivas, assim como o estupro? E, assim como o estupro, são tidos como consequências de atos errados cometidos pela vítima. Veja só:

  1. – andar com roupas curtas ou justas é pedir para sofrer alguma dessas agressões a cima;
  2. – estar na rua até tarde também é;
  3. – beber então, nem se fala;
  4. – jamais pense em pedir respeito, direito de ser, estar, usar, seja o que for. Você está errada, tem que aceitar a agressão e ainda fica sendo a puta que provocou tal ato.
Esses pensamentos estão muito enraizados em nossa sociedade patriarcal, partem das palavras mais simples até a violência em si. E é essa escala de definiu o que é a cultura do estupro.
Cultura do estupro é:
  1. – duvidar da mulher que conta ter sido estuprada;
  2. – levar em conta o passado ou vida sexual da vítima;
  3. – acreditar na malícia naturalmente existente na mulher;
  4. – objetificação do corpo feminino existente na publicidade, na TV, na literatura, etc;
  5. – ensinar a não ser estuprada ao invés de ensinar à não estuprar;
  6. – achar aceitável fazer sexo em alguém enquanto está embriagada, dormindo, desmaiada;
  7. – ter medo de ser uma mulher sozinha saindo do trabalho a noite e achar natural;
  8. – duvidar da real existência de quaisquer violência contra a mulher;
violência
Reprodução/Internet

O silenciamento contribui com a cultura do estupro. Se os casos de violência são tidos como naturais, então para que vamos investigar? Não a motivos para pedir ajuda a família, denunciar seu vizinho, entregar seu patrão. Mães, amigos, tias, colegas de trabalho, delegados, professores, juízes, jornalistas, todos unidos para jogar um caso de estupro, abuso e assédio para debaixo do tapete.

Eu pude perceber que a nomenclatura ajuda a definir o que é ou não relevante, assim como as regras impostas pela sociedade. Siga essas regras de forma indubitável, se mesmo assim você passar por alguma situação de violência sexual vamos ver se podemos enquadrar o caso em alguma  lista mais aceitável.

Com tudo isso, ainda encontramos pessoas que desconhecem ou negam a existência da cultura do estupro. Preferem agir fingindo que não são coniventes com atitudes que permitam um ato abusivo em sua sociedade perfeita. Ou pior, elas REALMENTE ACREDITAM não ser. Isso dificulta tudo não é? Como lutar contra algo que acredita não existir? Como lutar contra algo que acredita ter sido culpa sua?

O ‘pequeno’ assédio nosso de cada dia

assédio

Na época da campanha #meuprimeiroassédio eu não conseguia me lembrar de nada que eu tivesse passado e que se encaixasse na proposta. Eu lia os relatos das outras mulheres e, além de triste por elas, ficava assombrada por perceber que tanta gente já tinha passado por acontecimentos marcantes e cruéis. Eu só conseguia me lembrar das pequenas cantadas de rua, que não, não são bobagens, mas com as quais (infelizmente) toda mulher aprendeu a conviver. Mas depois eu me lembrei que eu tinha, sim, acontecimentos (e até rotinas) que me marcaram de forma negativa, mas que por algum motivo eu havia suprimido.

Quando eu tinha uns treze anos, eu morria de medo de voltar sozinha da escola, porque uns meninos (sim, meninos, de uns 9 ou 10 anos) sempre passavam a mão na minha bunda e me chamavam de gostosa se eu topava com eles fazendo o caminho oposto, saindo da escola deles. Eu passei a usar minha mochila-carteiro virada para trás, evitava esse horário, e sempre andava junto com uma colega que morava no caminho de casa – e que também morria de medo e desconforto pela situação.

Aos quinze, em um aniversário, um rapaz me chamou para conversar e, do nada, no meio da conversa, tentou me beijar. Eu neguei, mas ele insistiu um pouco. Eu era muito retraída e me senti tão mal que saí de perto dele, corri para o banheiro e vomitei. E quanto mais o amigo dele insistia pra eu “deixar de bobeira” e explicar ao menos “por que não”, pior eu me sentia. Por meses eu ficava mal quando lembrava disso ou via esse menino na escola, e escondi o fato, cheia de vergonha.

Aos dezessete, numa festa, um cara tentou me agarrar por trás enquanto eu procurava o banheiro. Ele provavelmente estava bêbado, o que facilitou que eu me desvencilhasse sozinha, sem nem ver quem era. Meu corpo reagiu mal novamente, eu fiquei sem ar, agoniada e com vontade de chora. Mais uma vez, eu me senti como lixo, suja e até um pouco culpada: “por que eu tive que sair de casa, também”?

Comparados com outros relatos, eram coisas menores, mas que por algum motivo me fizeram muito mal na época. E que anos depois  ainda me incomodavam, mas eu simplesmente não conseguia me lembrar deles, se não por acaso ou associação. Cheguei à constatação de que eu fugia desses problemas, mas também que eu criei uma naturalização em torno deles. Esses fatos se anexaram à minha biografia, e por algum motivo minha memória não os considerava dignos de nota.

Mas fazendo esse novo esforço para relembrá-los eu fiz uma outra constatação desagradável. Eu, como tantas outras, me culpava ou me responsabilizava por essas coisas. Ou eu me arrependia de ir àqueles locais, ou eu decidia “me proteger” (como fazia com minha mochila).  Eu, como tantas outras, me culpava pelo que faziam comigo. Mas eu não sou culpada, essas mulheres que passaram por coisas menores, semelhantes ou piores que eu não são culpadas. Não importa o que nossos cérebros ou as pessoas nos digam: nós não somos culpadas pelo que fazem conosco.

Sobre um diálogo de TODAS NÓS

Sabe quando o estupro acontece? Quando você, ao sair de casa, passa por um ou vários homens que a encaram sem o menor pudor enquanto lançam suas cabeças e corpos que vão em conjunto a palavras reduzidas à extensão do seu corpo, à idade, ou ao mérito da gostosura. E você?! Disciplinada para ser submissa e intimidada pelas proporções de um dado biológico, desvia os olhos e caminha.
Sabe quando o estupro acontece? Quando seus amigos, namorado, pai e irmão se impõem pelo timbre de uma voz que sucumbe ao desejo de não querer ouvir, de ser exclusivo em razão e poder, e de ter vantagens sobre um corpo atravessado pela virilidade do discurso.
Sabe quando o estupro acontece? Quando ele controla suas roupas, suas saídas com amigas que, uma ou todas, são rotuladas como influência negativa ao bibelô que se quer criar. Quando ele não aceita que você saia sozinha. Isso mesmo! Porque sair sem ele, ainda que com outras mulheres, é estar à própria sorte em um universo que só nos reconhece à sombra do masculino.
Sabe quando o estupro acontece? Quando ele diz que você é rodada e, portanto, ideal para os amigos que não querem nada “sério”. Quando ele invoca rivalidades femininas ao elogiá-la dizendo: “você é diferente das outras!”. Quando, para convencer os amigos de que você foi Apegada da noite, ele simplifica alegando o quanto você é “gostosa”, ou extremamente linda.
Sabe quando o estupro acontece? Quando ele se satisfaz por ter gozado e ponto! Quando ele relativiza a violência contra outras mulheres perguntando: “você sabe o que ela fez, onde ela estava, que roupa usava, ou se ela o traía?”, ou, quando, para ele, a resolução dos problemas se resume a ser bem ou mal comida.

Enfim, você sabe quando o estupro também acontece? 

Liberdade – por Josiane Rodrigues

Reprodução/Internet

Ser mulher neste mundo, é, enquanto você anda pela rua, ver um homem, xingando com muita raiva outra mulher, simplesmente pelo short que ela estava usando, ele esbravejava e a xingava dos mais variados nomes, sem razão ou motivo algum. 

Se pensarmos na sexualidade e na repressão que nós mulheres sofremos por todos estes anos, fica claro o porque da raiva dele. Para nós mulheres, como todo mundo sabe, o sexo é considerado pecado, nosso corpo é considerado um convite, uma provocação, terra de ninguém. Somos lidas pela sociedade para servir ao homem de todas as formas, e isso não está mais acontecendo.
 Há o levante das mulheres que simplesmente não querem mais servir a homem algum, a pessoa alguma a não ser a ela mesma e isso incomoda. Para ferir está liberdade e este domínio do próprio corpo, a forma encontrada por muitos é a ofensa, ofende-se a mulher e sua liberdade de ir e vir com a roupa que quiser, ofende-se a maneira como ela se “comporta” a maneira como encara o mundo e sua auto estima. Mina-se, à todo momento, a liberdade e o sentimento de posse, algumas vezes assim, como este homem que citei fez hoje, agora a pouco, ou também em forma velada, fazendo “barganhas” com as mulheres, com frases do tipo “se quiser um homem, não se vista assim” “puta na cama, santa na rua” “não quer nada da vida se veste como vagabunda” e por aí vai…
 É importante lembrar que ao homem é dada toda a liberdade e espaços, ele pode e deve se relacionar com o maior número de mulheres possível e ganha prêmios por isso, ele pode e deve, referir-se a estas mesmas mulheres como vagabundas por terem admitido os mesmos desejos que ele tem, se o sexo é feito a dois, por duas pessoas (ou mais) como só um dos lados é condenado por querer, por estar ali, por fazer? Como pode ele, definir quem são as mulheres “certas” de acordo com a facilidade que transam com ele, e ele nunca é considerado errado? 
O fato é, o corpo é meu, o corpo é dela, de quem a gente quiser e não um local público, onde todos devem palpitar, opinar, cercear e condenar. Se um homem se importar mais com as roupas que a mulher usa na rua do que com seu bem estar e sua inteligência, o problema não está nela, está nele. Ser mulher é pegar trem e ficar com medo quando o vagão está muito vazio. Ser mulher é entrar ainda assim neste vagão, e um homem sentar – se ao seu lado, mesmo com muitos bancos totalmente vazios, e te encarar de forma estranha, com as mãos nas calças.
Sabendo do meu direito a liberdade, pedi licença a este senhor, me levantei e troquei de lugar. Não sou obrigada

Quem escreve

Josiane, mas prefiro ser chamada de Josi, estudante de letras e amante das milhões de formas que estas tem de juntar-se e assim, me faço poesia, as vezes crítica, as vezes observação, só pelo prazer e o alívio que a escrita traz.

Pela eterna união do #movimentovamosjuntas

Imagem: Vamos Juntas?

Na próxima vez que estiver em uma situação de risco, observe: do seu lado pode estar outra mulher passando pela mesma insegurança. Que tal irem juntas?

Vamos juntas?

 

Hoje eu quero realizar um post sobre uma das idéias mais incríveis desse mundo: o movimento Vamos Juntas?.
Moro em uma cidade do interior, e sempre que saio do trabalho tenho uma reta para atravessar até chegar à minha casa. Essa reta está quase sempre deserta e o fato da minha cidade ser pequena não diminui muito o meu medo. Já tive cães andando atrás de mim, o que me deixou assustada, assim como já tive bêbados me chamando, pedindo para que eu esperasse porque queria conversar comigo.
Hoje novamente ouvi passos atrás de mim, mas dessa vez eram de uma moça que estava saindo da escola noturna. Isso me deixou mais tranquila. Olhei para ela e perguntei se poderia pegar carona em sua companhia, ela logo me deu um sorriso e disse estar justamente tentando me alcançar.
Falei pra ela que essa nossa atitude de querer andar uma ao lado da outra só fortalece o movimento Vamos Juntas?,  foi quando ela me perguntou que movimento era essa do qual eu falava. E é nesse ponto que eu quero chegar, nem todas as mulheres conhecem esse projeto e ainda tem várias que a considera uma perda de tempo.
 
Portanto, resolvi explicar para minha parceira da reta deserta e a todas as mais que se mostram interessadas/necessitadas do que é que eu estou falando.
 
Imagem: Vamos Juntas?
   
Vamos Juntas? É um movimento criado pela jornalista Babi Souza no ano de 2015. A Babi apenas publicou no seu perfil pessoal do Facebook a ideia de que as mulheres não precisam andar sozinhas pela rua, é muito melhoror se unir para atravessar uma praça deserta. Como a própria criadora do movimento diz, só as mulheres entendem o medo que as outras mulheres sentem ao andar por aí.
 
Cada vez mais mulheres compartilham na pagina oficial do movimento como suas vidas foram modificadas ao se unirem umas as outras e ajudam no crescimento desse projeto.
 
O movimento se mostra tão importante na união feminina que possui grande força na sororidade. Não é apenas andarmos juntas nas ruas e depois dizer adeus, é ESTARMOS JUNTAS. União total na luta pela igualdade, segurança e valorização da mulher.
 
O movimento já possui mais de 340 mil seguidoras, e cresce cada dia mais. Já até temos um livro que a babi escreveu, é o “Vamos juntas? O Guia da sororidade para todas”.
Entende qual o real valor disso tudo? Você não está sozinha, todas temos medo. Só que todas temos a força para nos unir e nos defender, só precisamos aumentar a corrente para ver isso acontecendo.
 
Depois de hoje, sei que minha parceira da reta deserta passou a ser mais uma com a qual sei que poderei contar quando estiver com medo de seguir meu caminho para casa.
Sai Pra Lá

Para combater o assédio, adolescente lança aplicativo ‘SaiPraLá’

Sai Pra Lá

Eu me sinto mal quando penso que fiquei tão inabilitada (e esgotada) nas últimas semanas e não consegui escrever NADA sobre o turbilhão de coisas que aconteceram pela internet afora. Bombaram as campanhas #primeiroassedio e #vamosfazerumescândalo, fazendo explodir nas redes a temática do “abuso nosso de cada dia”, e também a #agoraéquesãoelas, dando voz e lugar às mulheres.

Claro que não ia poder faltar bola fora, e os homens lançaram a cagada campanha #meaculpa, onde eles assumiam seus atos de machismo como assédios e outras cositas más (como se eles realmente estivessem fazendo algo de significativo com isso). Enfim, isso não é o foco aqui, então se quiser saber mais por que essa ideia é meio bosta, basta pesquisar um pouquinho aí. Quebro o seu galho e indico este link.

Mas vamos ao que realmente interessa, principalmente para esta coluna. Afinal de contas, este é um espaço para ideias DELAS. E boas ideias, claro. No meio de todo esse frisson, acabei descobrindo o aplicativo Sai Pra Lá. A idealizadora é a estudante Catharina Doria, de apenas 17 anos, que preferiu trocar sua viagem de formatura pelo desenvolvimento do app.

Cansada das constantes situações de abusos e assédios que, infelizmente, nós mulheres estamos acostumadas a enfrentar diariamente, ela contatou alguns conhecidos que entendiam do assunto e apresentou a ideia. O que o aplicativo faz é mapear o assédio, através de denúncias anônimas das usuárias, que marcam alguns detalhes sobre o que, quando e onde elas o sofreram.

Com isso em mãos, a intenção é prevenir novos abusos, alertando às mulheres sobre as situações de risco e pressionando as autoridades a tomarem alguma medida. Buscando aumentar o alcance do projeto, foi criada uma campanha no Kickante (atualização: já encerrada), que já alcançou 123% da meta. Você pode baixar o aplicativo clicando aqui.