ELAS CONTRA O ASSÉDIO

Relatos de nós, Elas por Elas, para vocês mulheres

 

Todas nós acompanhamos nos últimos dias os desdobramentos da denúncia de assédio da figurinista Su Tonani cometida pelo ator global José Mayer. A verdade só obteve ouvidos e voz após um forte grupo de mulheres dos bastidores da Rede Globo se unirem e criarem o movimento #chegadeassedio. Somente assim José Mayer admitiu suas ações, com um pedido de desculpas que nada mais é do que o mínimo e obrigação, diante do sofrimento psicológico, emocional e profissional que causou à vítima.

Seja no ambiente de trabalho, nas ruas e até entre amigos e familiares, somos direcionadas a sempre ter dúvida do ocorrido, ou seguir o caminho do isolamento e autoculpa. “Será que estou exagerando?”. Não moça, você não está. E nós, do Elas por Elas, doze mulheres que também vivem diariamente o risco do assédio, estamos aqui para contar histórias reais que vivenciamos. Estamos para soltar a nossa voz e gritar em bom e alto som:

 – É assédio! E você não está sozinha.

Hoje nós lançamos a campanha ELAS CONTRA O ASSÉDIO, e incentivamos todas vocês, mulheres do nosso Brasil, a compartilharem suas e nossas histórias. Que a gente não tenha mais dúvidas, e sim soluções. Aqui nós temos voz. Chega de assédio.

 

“Terminei um dos ensaios do grupo de Danças Urbanas do qual fazia parte era umas 19hs. Fui embora sozinha (coisa que não fazia), não quis esperar meu marido porque eu não estava bem e precisava chegar logo em casa. Ao passar na frente de um bar, um homem que estava na porta me chamou : “Vem beber uma comigo”. Eu não respondi, nem ao menos olhei para trás, mas ele não se deu por satisfeito e começou a vir em minha direção. Ao perceber isso, acelerei meus passos pronta para me defender se ele se aproximasse mais. Ele tentou, mas não conseguiu me alcançar ( acredito que por estar bêbado), então cheguei em casa aliviada e assustada ao mesmo tempo. Senti muito medo sim, mas o sentimento maior foi raiva, nunca quis tanto agredir alguém”

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“No carnaval daqui de Salvador um cara me puxou pra me beijar e eu recusei, aí ele pegou uma pistola de água e molhou todo o meu short. Aqui acontece muito no carnaval”

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“Um amigo do meu irmão apertou meus seios (eu tinha apenas 14 anos) dizendo que era nosso segredo e eu não poderia falar para ninguém porquê tanto meu imrão irmão quanto a esposa dele poderiam desconfiar”

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“O assédio mais inesperado veio em um momento e local em que eu estava completamente despreocupada. Em 2012, com 15 anos, eu estava tranquila esperando para assistir uma aula de biologia quando senti vontade de ir ao banheiro. Aproveitei que o professor ainda estava procurando o material de aula e fui perguntar se podia ir ao banheiro, sem nenhuma preocupação em mente afim, estava em uma sala cheia e ele era meu professor. Quando cheguei já me aproximei perguntando e logo em seguida tomei um susto, ele colocou as duas mãos na minha nuca e me puxou para perto dele, pensei ‘O que ele está fazer?’. Olhou nos meus olhos com o rosto próximo demais ao meu e falou: ‘Não me pergunta nada não, que com esses olhos não consigo me concentrar em nada que você fala’. Aquilo me assustou, ele me soltou e fui correndo em direção ao banheiro, depois disso nunca mais pedi para sair na aula dele e até hoje guardo uma antipatia muito grande por ele”

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“Uma das situações mais bizarras de assédio que sofri foi ainda na infância. Eu tinha por volta de 9/10 anos quando ouvi uma conversa de um vizinho com um dos meus irmãos. Ele falava pra esse irmão como meu corpo estava mudando, como eu estava ficando bonita e ‘gostosinha’. Como se já não bastasse isso, ele orientou meu irmão esperar eu dormir e ser o primeiro a me tocar, porque não era justo que eu deixasse que fosse um desconhecido. Eu não sei o que ele respondeu, porque não aguentei ficar ali mais. Depois disso nunca mais consegui dormir tranquilamente”

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“Na adolescência eu era romântica e retraída, o que me fez adiar bastante meu primeiro beijo. Aos 15 anos, fui a uma festa de aniversário sem companhia e acabei me enturmando com uma menina. Em dado momento, um rapaz pediu para ficar com ela, e eu comentei que o amigo dele era bonito. Acabou que o amigo também me chamou para conversar. Eu não queria, mas cedi à pressão, por vergonha de dizer que era BV e que não sabia falar com meninos. No meio do papo, do nada, ele tentou me beijar. Eu neguei, ele insistiu, eu disse que ia embora e ele pediu para continuar a conversa. Me sentindo muito mal, corri para o banheiro e vomitei. O amigo dele ficava falando para eu ‘deixar de bobeira’ ou pelo menos explicar ‘por que não’, me deixando pior e acuada. Liguei para os meus pais e fui embora. Remoí isso por meses, em segredo, passando mal sempre que pesava nisso ou via o garoto. Criei um medo enorme de ir a festas. E ainda por cima eu me culpava. Por ter ido, por ter cedido à pressão, por tudo. Mas hoje eu sei que a culpa não foi minha”

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“No ensino médio, com apenas 15 anos, o professor de física da turma (que por sinal era casado com uma ex-aluna dele) fazia questão de falar do quanto eu era bonita e atraente. Eu me sentia constrangida, ficava com vergonha e nojo, não conseguia falar nada, só abaixava a cabeça. Ele fazia isso na frente da turma toda, na certeza de que nada aconteceria com ele. Outros alunos brincavam com a situação, diziam que eu ‘arrasava corações’ e a única coisa que eu conseguia pensar era na minha vontade de que aquele professor sumisse da escola. Ele chegou ao ponto de dizer que eu podia tirar nota 10 na matéria dele sem nem precisar fazer a prova. E tudo era com aquele ar de ‘brincadeira’”

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“Eu tinha 20 anos de idade e era estagiária produtora de uma rádio popular da minha cidade. Tive que trabalhar por oito meses diretamente no estúdio com um locutor das antigas, voz principal da emissora. Quase todo dia ele tentava encostar em mim, me abraçar agressivamente e eu não deixava. Ele ficava puto, me destratava, mas logo depois voltava ao assunto do meu corpo. Perguntou inúmeras vezes sobre a aparência e tamanho da minha buceta e como eu fazia sexo. Por eu nunca responder, questionava se eu não era lésbica. Eu me sentia muito mal, mas não sabia que era assédio, achava que eu era exagerada, chata. Todo dia eu ia trabalhar sem vontade, sem ânimo e com medo de ficar sozinha com ele no estúdio. E quando sua esposa e filha estavam por lá, ele era o homem mais respeitoso e sério de todos”

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“Eu nunca passei por um assédio, mas minha irmã contou que quando começou a trabalhar com 17 anos o ex-patrão dela passava a mão nela, puxava as golas das blusas para ver seus seios. Quando sentava perto dela para ensinar algo no computador, passava as mãos nas pernas dela e só depois de muitos anos ela veio contar isso para a família, porque ela tinha medo, medo dele falar para as pessoas que ela que estava se insinuando”

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“Perguntei a outra amiga minha aqui da escola. Com ela foi no ônibus, quando tinha 13 anos e estava na quinta série. Ela estava sentada e o homem esfregou a genitália em sua cara, estava ela e uma amiga da escola. O ônibus cheio, lotado e ela e a amiga quase sentaram no mesmo banco para fugir dele. Hoje ela diz que se fosse mais velha teria feito um escândalo, mas na época ela apenas se calou e afastou”

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“Eu tenho contato com um cliente, uma vez pedi um favor a ele, referente a umas notas que estavam pendentes. Depois que ele me mandou, eu agradeci e ele me disse assim: “Imagina, se precisar de uma ajuda para trocar a lâmpada do seu quarto, pode me chamar também que eu ajudo. Eu falei para ele que não precisava porque meu namorado já fazia isso pra mim, tipo eu tive que inventar um namorado pra poder dar um fora num cara”

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“Quando tinha 14 anos morava ao lado da casa da minha prima, que era recém-casada. Ela e seu marido eram bem mais velhos do que eu. Mas fui percebendo olhares estranhos dele para mim, perguntas sobre eu estar namorando, uma necessidade de puxar assunto. Eu não tinha nada para falar com ele e achava aquilo estranho da parte dele. Até que um dia, eu estava sozinha em casa e precisei ir ao quintal, ele apareceu, ficou me olhando de um jeito que me deu muito medo, ele quis saber se eu estava sozinha. Eu menti, disse que meu irmão estava em casa! Me apressei para dentro de casa, tranquei tudo e não sai mais, até minha mãe chegar. De todos os assédios que sofri esse foi o único que contei para ela. Ela disse que ele não “batia bem da cabeça” e eu fiquei lá, me achando a errada da história. Não sabia o que era assédio, nunca tinha escutado falar e só fui entender muitos anos depois: se você não está confortável, se o que ele diz ou faz te incomoda ou constrange, então, amiga, é assédio!”

José Mayer, o seu assédio não é sobre você

Globais na campanha "Mexeu com uma, mexeu com todas" (Chega de assédio)

Na última sexta-feira (31/03), a figurinista Susslem Tonani expôs o assédio sexual que sofreu por parte do ator José Mayer. O relato, publicado em um blog do jornal Folha de São Paulo, logo foi tirado do ar, mas ficou tempo o bastante para que internautas capturassem a tela e o espalhassem pela rede. A repercussão foi imediata. E, como em toda situação do tipo, ao mesmo tempo em que muitos discutiam a gravidade da situação, logo o brado dos defensores do privilégio masculino começou a se fazer ouvir.

Comentários na postagem no Facebook de uma das matérias sobre o assunto

Mas nesse caso, diferentemente​ de muitos outros, a discussão não se limitou aos espaços da internet. Várias artistas (principalmente globais) começaram a se posicionar a favor de Susslem, espalhando a campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”. Uma das primeiras a se manifestar repudiando o ocorrido foi a atriz Letícia Sabatella, ainda dando a entender que esse não teria sido a primeira atitude reprovável do ator.

Nessa sucessão de acontecimentos, o que veio a seguir foram reações que ora beiravam o absurdo, ora a dissimulação. Primeiro, José Mayer declarou inocência, alegando ainda que as ações descritas por Susllem não eram de seu feitio, e sim dignas de seu personagem Tião Bezerra, vilão na novela A Lei do Amor. Mesmo se houvesse prova de sua inocência, a falsa leveza com que o ator tratou o assunto revela uma realidade sobre a forma como o assédio é encarado em nossa sociedade: uma trivialidade.

Após o aumento da repercussão do caso, no entanto, Mayer voltou atrás na negação e divulgou uma carta aberta onde dizia que “errou” e que não tinha “a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar” com suas “brincadeiras machistas”. Sim, brincadeiras. Sem chegar a negar qualquer parte específica do depoimento de Susllem (que incluíam a descrição de um momento em que o ator tocou suas partes íntimas), Meyer disse que tudo não passou de uma suposta brincadeira de mau gosto. Ao minimizar as próprias ações, ele não apenas reforça a já forte naturalização dessa forma de violência, como ainda diminui a credibilidade dessa e consequentemente de outras denúncias.

Vale ressaltar que o conteúdo da carta, é uma sucessão de justificativas e tentativas de mudar o foco do assunto. O único momento em que ela se direciona propriamente​ a vítima, é ao se anunciar como um pedido de desculpas. Ainda assim, não é isso que seu conteúdo traz. Todo o tempo a única palavra que parece ressoar é “eu”. Chegando ao ponto inclusive​ de trazer este absurdo trecho: “A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança”. O que em tese seria um reconhecimento do mal causado a uma mulher, não passa de uma tentativa de apaziguamento.

O foco de uma experiência de assédio não deve jamais ser o aprendizado do homem. Homens esses que não deveriam precisar assediar ninguém para aprender que não devem fazê-lo ou que o mundo é machista. E tratar essa situação puramente como um aprendizado pessoal, sem citar por um único segundo o sofrimento infringido por ele em uma ou talvez até mais mulheres, é covarde e desonesto.

Globais na campanha "Mexeu com uma, mexeu com todas"
Atrizes com a camiseta da campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”

Prosseguindo, muitos comemoraram a atitude da Rede Globo, de suspender indefinidamente o ator, já tomando um de seus papeis garantidos em uma próxima novela. Seja por não estarmos acostumados a ver punição para assediadores (principalmente em posições com certo poder), seja por isso supostamente criar um precedente para que novos casos sejam suprimidos. Eu, no entanto, não consigo ser tão otimista. Antes de tudo, é importante lembrar que a emissora não fez nem o mínimo, que seria demitir um ator que cometeu um crime. Para piorar, diretamente relacionado com a empresa (por ter sido contra outra funcionária) e em local de trabalho.

Além disso, o histórico de inconsistências da Globo não me deixa acreditar que isso seja um precedente nem dentro da própria empresa. E fica ainda mais difícil acreditar que uma ação específica teria tanto poder para mudar um problema estrutural. Aliás, algo já deu para perceber que não mudou. Mesmo após a confirmação do ato pelo próprio José Mayer, ainda é possível notar todo tipo de absurdo o público comum, com defesa do assediador e culpabilização da vítima.

Comentários na postagem sobre a carta aberta

Como eu sempre falo no blog, a luta não pode parar. Ao menos uma coisa me deixa esperançosa nessa repercussão. A ação das artistas em prol de Susllem mostrou o poder que nós mulheres temos ao nos unirmos. Por mais que nesse caso tenha sido necessária a voz de mulheres em alguma posição de poder, isso já é um avanço e um incentivo para que continuemos nessa jornada, nos apoiando e erguendo umas às outras. Que possamos cada vez mais nos fazer ouvir e surtir os efeitos que queremos e precisamos. E sem mais homens tomando a dor que nos provocam como suposto aprendizado para eles mesmos, sem mais impunidade para seus atos, sem mais naturalização de violência que nos atinge.

Ps: e reforçando a ideia de que a prioridade em casos de assédio nunca é o assediador, este post não traz imagens de José Mayer

Também recomento este texto da Carta Capital sobre o assunto: A carta de José Mayer mostra o fosso entre homens e mulheres