Marcela

Marcela,

   Nós temos uma usina hidrelétrica no peito. Não cabemos em pouco. Queremos muito da gente mesmo e dos outros. Sem querer exigimos mais do que a realidade oferece. A realidade nunca nos foi palpável. Rasa demais, a propósito. Queremos é invenção, virar de ponta cabeça. Queremos o estômago saindo pela garganta, taquicardia. Que mundo fosse mais rasgado que toque na ponta dos dedos. Que fosse mais pele quente, mais braços, mais pernas. Olhos grandes encarando a gente do lado de cá. A gente faz prece vendo a ressaca do mar, porque a gente respeita a força da sua existência. Tudo que explode e lava tem nosso respeito. Diz: como é que podemos viver sempre ladeira abaixo, ladeira acima? Se arrebentar e se refazer tantas vezes. Com que cara a gente se ergue? Só sei que sobrevivemos. E ainda sobra cara para bater e peito aberto. Marcela, quantos navios já naufragaram no seu oceano?

   Assista ao vídeo poesia: Elas Declamam – Marcela,

 

Autora convidada

Maria Gabriela Verediano escolhe a cada dia quando vai ser Maria, quando vai ser Gabi, quando Gabriela e quando a gravidade de um nome composto. Maria não tem medo de nada, e o que sente escreve. Gira, gira, gira, e sonha. E samba. E mostra. Ela escreve no blog Sambaprasmoças

 

We have a ocean

Foto: Ana Luiza Calmon

Coração do mar é terra que ninguém conhece – Oswald de Andrade

– Your hair has waves, just like the ocean.

Foto: Ana Luiza Calmon

Sabe, não imaginava que um loiro com olhos cor azul cinza fosse me encantar. Seu olhar reflete a água da Irlanda. Flui. Corre. Percorre. Transpassa pelo seu sorriso, seu sotaque, seu curto, porém musculoso corpo. Nunca havia te visto, mas sinto que já nos cruzamos. Temos aquela sintonia de pronunciar frases idênticas ao mesmo tempo, na mesma respiração. Depois rimos de nós mesmos. Coincidência.

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Em um mundo de fugitivos, revolucione: Fique

 

 

 

O sol da tarde engole minha disposição enquanto minha bagunça mental atravessa barreiras e passa o dia no meu quarto. Tênis, livros, histórias, CDs, músicas. É como se tudo fosse uma caixa grande de madeira, com uma luz no teto e ursos fofos sobre a cabeceira. É inevitável não lembrar os dias que você aparecia e me deixava mais calma, mais viva, mais eu mesma. Talvez eu seja uma pessoa dependente, talvez eu goste de pessoas que aparecem, talvez eu mereça mais do que pessoas que se sentem no direito de entrar e sair da minha vida como se ela fosse uma festa open bar.

E olha que eu nem bebo mais.

Dentre um devaneio aqui e uma paz emocional ali, eu me deparo com uma expressão não muito nova sobre coisas passageiras: Amor de verão.

Vocês sabem, né? Aquela coisa que ferve, que é sensacional, que te vira do avesso, e que acaba quando o verão acaba. Curto, intenso e, mesmo você acreditando que é mais do que você vê, é exatamente só aquilo que você vê, porque na hora que o inverno pessoal chega, é onde as pessoas fogem para lugares mais quentes.

Elas não esperam o frio passar. Elas não se importam em ser presente ou em ajudar você a se manter aquecida durante o inverno que parece sempre ser infinito, então elas fogem. Sinceramente, não sei por que. Pode ser que seja mais fácil, que seja mais cômodo, que seja hábito. A vida é corrida e eu sei, e sempre foi, e sempre será, mas nada justifica abandonar pessoas em seus invernos particulares, sabe. Nada justifica.

Então sejamos o melhor futuro imaginável: ficaremos. Enfrentaremos. Tentaremos.

Amor de verão é legal e tudo mais, mas eu mereço um amor para a vida toda, por todos os dias. Eu vejo cada indivíduo como um ser cheio de histórias e aprendizados a ensinar, com um coração fofo e cheio de amor, então eu sempre escolho ficar. Por mim, por elas, por nós, por tudo. Enfrentar todas as estações possíveis me deixa com o coração quente e a alma leve.

Eu escolho revolucionar.

Sempre tive problemas com os excessos, mas eu não abandono pessoas. Eu não fujo, eu não me escondo.

Eu escolho ficar.

“Ai de mim que sou romântica…”

Ai de mim que sou romantica

Chego ao compromisso na hora exata, com aquela pitada de atraso, e, de longe, vejo ele me vendo chegar. Sentado, tranquilo, fofo calmo. A praça quase vazia não surpreende, pois o vento rasga pernas peladas como as minhas. Ele pergunta:

– Que horas você sai?

– Em uma hora, mas tudo bem se você não ficar.

– Em uma hora?

– Sim.

“Ué”.

Subo, finalizo e trombo com a praça na saída. Nem parece que ele saiu dali.

– Ué.

– Passei pra te dar um beijo.

Fofo Bacana.

Um beijo, um sorriso, um abraço e um convite:

– Quer pipoca?

Pipoca, praça, noite fria e eu de mãos dadas. Fofo Clichê.

Não tenho histórico de namoricos em praças públicas, mas sempre achei algo que deveria ser feito mais vezes. Não só por casais que estão começando, mas acho que a simplicidade é um ponto que vale voltar de tempos em tempos. Talvez esse seja o nosso tempo de voltar aos princípios.

Entre “me dá um queijo” e “não come meu bacon”, me imaginei em um futuro – espero que um pouco – distante com uma barriga um pouco maior, sentindo um corpo chutando costelas e dizendo que “não é desejo, é só vontade”. Sem muita pressão, sem planos, sem por quês. Apenas curti um banco duro e gelado enquanto o fofo do meu lado fingia que não estava comendo meus amendoins. Pela primeira vez em algum tempo, eu simplesmente estava ali, da forma mais leve e mais gostosa possível.

A pipoca acabou e o tempo dizia que era hora de ir embora. Ele segura minha mão e me acompanha até a próxima praça, contando coisas corriqueiras e sem sentido enquanto eu analiso suas expressões.

Fim da linha. Um beijo, um sorriso e um abraço. Dessa vez, o convite virou lembrete (“Durmo com você amanhã”) e veio acompanhado por outra afirmação:

– Eu te amo.

Fofo.

Acredite na (sua) beleza

E isso não é apenas um slogan da Boticário

 

Foto: Rock This Town

 

Lembro muito bem desse comercial e do quanto me marcou. Um mundo cinza, onde todas as mulheres são visualmente iguais enquanto uma moça procura pelo batom vermelho que dá cor e identidade a si própria. Apenas com imagens, a Boticário responde que não, não seria bom um mundo sem a vaidade.

Para além dessa mensagem, o que realmente captei nesse comercial de uma grande empresa de cosméticos foi a valorização da personalidade. Muito além da vaidade, do culto à beleza, ali vi o respeito e incentivo ao estilo individual, ao “ser você mesma” que tanto ouvimos e defendemos, mas dificilmente praticamos. É um trabalho árduo se aceitar e se assumir, em um mundo com tantas tendências, referências, padrões.

Independentemente do grupo social que se encontra ou deseja fazer parte – aqui exemplifico com gêneros musicais: sertanejo, hippie, rock, samba, forró –, você precisa estar a par do look e referências visuais. Cabelo alisado, peças de cor específica, olhos claro, muita/pouca maquiagem, acessórios alegres, despojados ou artesanais. Cada um tem sua etiqueta, seu ingresso de entrada e aceitação.

Não venho aqui criticar a moda ou as etiquetas sociais. Possuo pouco embasamento para tanto. Só venho aqui para reafirmar o título. Acredite na sua beleza. Por vivência pessoal, nunca me senti parte de um grupo específico de amigos, me considerando sempre o patinho feio. Ou minha roupa não combina, ou a forma de expressão não se encaixa, ou mesmo sou expansiva demais no meio de tantos introvertidos.
A gente nunca se acha bonita o suficiente do jeito que é. Sempre tem algo que você quer melhorar ou forçar para si mesma. Mas por que insistir em um biquíni da moda se ele não valoriza o formato do seu corpo? Por que usar lente de contato colorida se aquela não é a cor dos seus olhos? Por que usar shorts curtos e apertados apenas porque tem lindas pernas e precisa mostrá-las em nossa cultura?

Há uma linha tênue entre achar algo bonito porque lhe agrada e achar algo bonito porque é tendência, é novidade. Você não precisa ser clássica, hipster, despojada, fashion para ser percebida. Você precisa ser apenas você. É o seu nariz ou cabelo, seja como forem, que te tornam quem você é – porque você é única. Quando a beleza vem nós, ela se expressa de uma maneira muito mais poderosa e plena. Porque é uma energia interior, única e exclusivamente nossa.

Percebo isso apenas por agora, depois de anos tentando me sentir igual: nossa beleza é bela porque somos quem somos. É a beleza verdadeira. É aquela beleza que representa o batom vermelho do comercial. Quando o utilizamos em um mundo estético tão fordista, nos tornamos únicas. Acredite na sua beleza e seja o seu batom vermelho. Dê cor ao jeito que você é.

Um amor intenso e livre como eu

 

 

(Imagem: Tumblr)

Sabia que a cada dia que passa eu me torno mais apaixonada por você? Cada detalhe seu me encanta, a sua cara séria enquanto dirige, a sua boca bem desenhada pelo meu corpo, a maciez da sua pele contra a minha, a delicadeza dos seus traços, o cheiro suave de perfume do seu cabelo e contrapartida ao teu cheiro de homem do restante do corpo.

O seu beijo amoroso na minha bochecha até o seu beijo faminto quando me pega com desejo.

Me sinto perdida nos teus braços,  na ânsia de naufragar em você inteiro e de me agarrar nos teus cachos como uma tentativa de provar a mim mesma que tudo isso não é um sonho.

Sinto você em mim quando fecho meus olhos, e meu corpo estremece quando te vejo parado em meu portão com esses olhos profundos de menino.

Eu não me encontro em outro abraço,  nunca me encontrei em outro beijo e não sei lidar muitas vezes com as neuroses que o medo de te perder me traz.

Quero você como meu menino, meu homem, sem metades. Não me tire dos teus braços e nem dos teus pensamentos, preciso de você desesperadamente como uma necessidade básica, como um fruto maduro que que não aguenta o próprio peso em si e se derrama pelo o chão.

Teu peito é o meu chão, a segurança que eu preciso para continuar, para não me derramar, para não chegar ao fim.

Eu te amo por tudo aquilo que se atreve a ser teu, tudo que não te pertence, tudo que te constrói. E te amo mais ainda por esse sentimento não me podar de ser eu mesma.

Sobre ser exatamente como as outras

Em algum momento das nossas vidas, as seguintes frases já passaram pelos nossos lábios:

 

“Eu prefiro ter amigos homens.”

“Não consigo ter amizade com outras mulheres.”

“Homens são amigos mais sinceros, mulheres são muito falsas.”

“Na minha turma, sou como um dos caras.”

 

Durante alguma fase da infância ou adolescência, um somatório de fatores da socialização pela qual passamos dá muito errado, e nós começamos a ver o nosso gênero com desdém, com aversão. Nós queremos nos assimilar ao masculino, absorver o masculino de alguma forma, para assim absorver também suas vantagens, seus privilégios, seja copiando seus hábitos, seja encarnando os hábitos da feminilidade que mais os agrada.

 

Nós dizemos “eu não sou como as outras”, nós gostamos de ouvir dos lábios masculinos que somos “diferente das outras”, nos sentimos seguras quando os ouvimos contar da ex “que era louca”, e evitamos cometer todos os “erros” que a ex cometeu: ser chata demais, exigente demais, louca demais. Nós falamos mal de outras mulheres para nos sentirmos mais bem-quistas pelos homens, mais integradas em sua sociedade.

 

Em algum momento, se temos sorte, percebemos que ao invés de sermos diferentes, somos exatamente como as outras. Eles riem da gente como riem das outras. Da mesma forma que eles objetificam, menosprezam, diminuem as outras, eles objetificam, menosprezam, diminuem a nós e às nossas irmãs, de sangue ou não. E lá estamos nós, por um motivo ou outro, um medo ou outro, sendo coniventes.

 

“O opressor não seria
tão forte se não tivesse cúmplices
entre os próprios oprimidos.”
Simone de Beauvoir

 

O que nos salva? Nós mesmas, ao estendermos a mão umas às outras.

 

Há algo de muito poderoso em buscar cercar-se de mulheres. Percebemos que compartilhamos de muitos dos mesmos medos, que passamos por muitos dos mesmos constrangimentos, mas ao mesmo tempo abrimos o nosso olhar para outras partes de suas vivências femininas que podem ser muito distintas das nossas. Ao nos cercarmos de mulheres, temos a oportunidade de vê-las como pessoas completas, com seus defeitos e qualidades, seus privilégios e opressões, e assim, em contraste com as vivências delas, reconhecer os nossos próprios privilégios.

 

Ao convidá-las a ocupar o mesmo espaço que conquistamos, nos engrandecemos, nos tornamos mais do que nós mesmas, nós nos tornamos exatamente como as outras em toda a nossa diferença.

 

Para mim, essa certeza tem se tornado cada vez mais forte, e cada vez mais parte da forma como escolho viver minha vida. Escolhi me cercar de mulheres, escolhi me deixar permear por elas, por suas vivências, por seus conhecimentos, e oferecer de volta o pouco que tenho: algum acesso, alguma instrução e diversos privilégios, dos quais não posso me livrar pois foram impregnados em mim, mas dos quais apenas saberei fazer melhor uso se me deixar instruir, se me obrigar a ouvir.

 

A maioria de nós já se sentiu bem, se sentiu mais amada, mais segura, mais feliz por não ser como as outras. Mas esse é um bem-estar emprestado, ilusório, e que compensa desconstruir. Que a presença de outras mulheres no seu grupo de amigos não seja uma ameaça, mas uma adição. Que ser a única mulher no seu ambiente de trabalho ou de estudo não seja uma vitória, mas um sinal de que algo precisa mudar. Que busquemos nos cercar de mulheres sempre, e que isso nos faça entender melhor suas lutas, a respeitar melhor seus espaços e a ceder a elas, quando possível, os nossos.

 

Dedico esse post às mulheres que me cercam e que me engrandecem, em especial ao incrível e diverso grupo de deusas que compõe o Elas por Elas, e à Luana, que compartilhou há alguns dias esse poema de abrir os olhos.

Poema: Rupi Kaur

Resiliência: A arte de sobreviver

O dia aberto me chama através da porta, mesmo eu não querendo ir. Ouço uma voz interna dizendo que eu preciso continuar, mesmo sabendo que essa voz interna é um pedaço meu, não tão quebrado quanto o resto, eu escolho ignorar. Sério, ver pessoas? Explicar o inchaço nos meus olhos ou repetir que eu não estou fumando, apesar dos olhos vermelhos? Não, obrigada. Me parece um cansaço mental totalmente desnecessário e que não irá ajudar a me manter de pé. Apesar que, nessa altura do campeonato, a única pessoa que pode me manter de pé sou eu mesma.

Mas talvez amanhã.

Mesmo sem querer, me lembro de todas as outras vezes que me tornei melhor amiga da minha cama, enquanto perdia peso e via meu cabelo se desmanchar em meio as cobertas. As frases prontas choviam como folhas secas flutuando com o vento de outono e, na mesma pegada das folhas secas, eu não me importava. Eu não me importo.

“São coisas da vida”, “Aconteceu comigo também”, “Você precisa continuar” e, o que eu mais sinto vontade de jogar uma bazuca, “Não precisa ficar assim”. “Não precisa”?

O riso irônico se mantém fixo no meu rosto, mas me jogo do outro lado da cama enquanto aquela voz reaparece dizendo que eu preciso continuar. Ok, talvez eu precise. Talvez tudo isso seja mesmo coisas da vida, talvez tenha mesmo acontecido com outras pessoas, talvez eu não precisasse ficar nesse poço infinito de tristeza e vontade de chorar eternamente, mas talvez esse tenha sido o molde que eu criei para sobreviver. Talvez essa seja a minha forma de ser resiliente.

Em um devaneio longo e detalhado, todas as coisas ruins passaram pela minha cabeça e, logo em seguida, veio a mulher que eu me tornei com o que a vida jogou no meu colo. Assumo que não escolhi nem metade daquilo tudo, mas era o que tinha, então tinha que ser feito alguma coisa. Minha cabeça foi invadida por situações de quase morte, divórcios, perdas, lutos e, principalmente, luta. Luta essa que, no meu caso, não foi nada físico. Luta essa que me ensinou a valorizar noites de sono e comidas gordurosas nos fins de semana. Que me ensinou a falar, a abraçar, a não fugir e, a segunda palavra mais linda do mundo, empatia. Se colocar no lugar dos outros, usar o sapato dos outros, respeitar a escolha dos outros.

Talvez a vida tenha, sim, jogado várias merdas a esmo em cima de mim e, talvez, eu tenha mesmo fugido para o meu lar doce lar – minha cama –, mas talvez eu só precisasse de tempo. Não de cigarro ou de pessoas sem empatia vendendo frases prontas na fila do pão. Talvez eu só precisasse de tempo.

Fecho os olhos, respiro fundo e, ao me preparar para enfrentar sabe-se lá o que estava por vir, eu sinto seu cheiro. Forte, presente. Por vários momentos, eu respirei só para continuar sentindo seu cheiro, e parecia um sinal, sabe. Parecia um “Eu sempre vou estar aqui.” seguido de um “É hora de voltar”.

Você tem razão.

Chuto a coberta, abro a janela, esfrego a cara e vejo suas coisas enquanto sento na cama. “Eu te amo” é a primeira coisa que eu penso.

Amor: a palavra mais linda do mundo.

E o que você faz com o que a vida fez de você?

Sobre ela…

   São 2:29 da madrugada e não sei como começar, por onde começar, não consigo lembrar exatamente como começou. Só me lembro que de orgulho, passei a ser o motivo das piadinhas na mesa, nos almoços de domingo. Eu fui até meus 19 anos bem atlética, sempre fui padrão, praticava esporte. Aos 15 anos me chamavam de Viviane Araújo, pela semelhança.

     Altura, cabelos, perna grossa, acinturada.

     Ela, que me vestia, queria mesmo é que eu morasse o quanto era bonita, o quanto meu corpo era bonito.  Sempre calças justas, saltos, blusas decotadas.

     Aos 19 anos, engravidei. Tive minhas primeiras crises de ansiedade e pânico quando minha filha nasceu.

     Tive meus primeiros miomas, cauterizados, muito anticoncepcional pra regular.

     Engordei.

     Já era de se esperar. A genética da família também não ajuda. O gosto por cozinhar também contribui.

     De repente, eu estava gorda. E isso era o assunto principal de qualquer pessoa que me encontrasse. Antigos amigos de escola, familiares. E dela.

      Todo mundo que se aproxima ela faz questão de falar – ela era tão magra, tão bonita, agora é gorda. -, é o único assunto dela.

      Eu tentei de tudo para emagrecer. Quanto mais tentava mais engordava, mais as pessoas comentavam.

     No começo me doía, me angustiava. Eu chorava.

     Foi um longo processo até eu olhar no espelho sem chorar. Foi um longo caminho.

     E pasmem, meu maior apoio nesta jornada foi um homem.

     Durante anos eu me fui me escondendo em roupas de senhora, fui perdendo a vaidade.

     Até o dia em que lembrei que não era feliz magra. Eu vivia contando calorias, fazendo dias de jejum antes de festas, pra entrar numa roupa. Eu vivia com o estômago doendo de fome, mas não comia porque não queria engordar.

      Eu vivi de macarrão instantâneo por meses, apenas um por dia para não engordar.

     Eu não era feliz. Eu não era.

     Foram anos até olhar no espelho e não me incomodar com o braço grande, com as costas largas, com o quadril largo, com os seios enormes.

     Foi um processo doloroso até eu parar de ouvir a voz dela ecoando na minha cabeça todo dia, rindo, contando cada grama que aumentava no meu corpo.

      Foi um longo caminho até eu me impor, parar de aceitar calada as piadas e os insultos e falar que eu sou feliz, hoje, gorda.

     Foi difícil falar que gorda, e aceitar essa característica, sem pensar em perjúrio.

     Foi difícil. Mas eu consegui.

     Foram 10 anos.

     Foram longos anos, superados e comemorados com um cropped, um maiô branco na praia, um vestido de malha colado ao corpo, um top que deixa parte da barriga de fora, minha carta de alforria das dietas. Minha liberdade.

     Ela foi por muito tempo a causa do meu desgraçamento mental.

     Mas eu te agradeço hoje mãe, porque eu me torno a cada dia o melhor que eu poderia ser.

Ilustração by Rachele Cateyes