Mulheres Cabulosas da História

Mulheres Cabulosas da História retrata grandes figuras femininas do passado

A História como conhecemos foi escrita e protagonizada por homens brancos e poderosos. Ela menospreza e muitas vezes ignora por completo a participação feminina (e de membros de outras minorias) em eventos do passado, que na realidade é tão relevante quanto a masculina. Foi com isso em mente que as mulheres do Levante Popular da Juventude de Belo Horizonte idealizaram o projeto fotográfico Mulheres Cabulosas da História.

Surgido em fevereiro de 2016, o trabalho retrata mulheres importantes no processo histórico nacional e internacional, em releituras fotográficas feitas e posadas pelas próprias integrantes do Levante. Junto às fotografias, há ainda um texto informativo sobre quem foi a mulher retratada e também sobre a modelo que a encarna, “fazendo assim uma relação de que nós, inspiradas pelas trajetórias delas, damos continuidade à luta em prol de uma sociedade feminista e popular”, como explicam as integrantes do projeto.

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Sangria e a história do Brasil

O Brasil sob a ótica de um útero

 

Muitos não admitem, muitos nem ao menos o sabem, mas a historia do Brasil é composta por um silenciamento feminino escancarado e continuo. Por inúmeras vezes me deparei com vãos em meus livros de história quando se travado uma personagem feminina, muitas mulheres nem são citadas em notas de roda pé.

Hoje estamos lutando cada dia mais para que nossas marcas seja reconhecidas e mantidas nas nova história do nosso pais, mas quem luta pelas marcas deixadas por mulheres que não estão mais aqui?

Acho que é nesse momento que devemos encontrar pessoas como Luiza Romão, atriz, poetisa e escritora do livro Sangria.

O projeto (sim, projeto, pois é a composição do livro com trabalhos multimídia) é uma coletânea de 28 poemas (como os 28 dias do ciclo menstrual) e cada um deles possui uma foto representando o silenciamento histórico das mulheres. Também foi criada uma websérie onde cada poema é declamado e acompanhado de uma performance, feito por diferentes mulheres de diferentes áreas artísticas.

Reprodução Catarse

 

Segundo a própria autora do livro, ” Nosso intuito é revisitar a história do Brasil sob a ótica de um útero. O que dizer de um país nominalmente fálico (“pau”-brasil)? Pra isso, misturamos os ciclos econômicos (borracha, café, ouro) com os ciclos biológicos e as fases do útero (ovulação, menstruação, concepção). Representamos o país do futuro” como uma gestação impossível (sempre interrompida por golpes de Estado ou “pílulas do dia seguinte”) e contrapomos a figura do patriarca com as “mães solteiras” e as mulheres “para lida, para farra, para fotografias oficiais” “.

As questões histórico-política-sociais que serão tratadas em Sangria são de suma relevância para nosso entendimento pessoal e para um melhor conhecimento do que é o Brasil e de como podemos trabalhar por uma boa gestação, para que o nascimento de um pais melhor seja realmente possível. Afinal, acredito que a melhor forma de garantirmos nosso amanhã é conhecendo os erros de ontem e não repeti-los.

Se você gostou e sabe que vale a pena, ainda da tempo de contribuir. O projeto continua em está em andamento no Catarse por mais 19 dias, você pode acessar para contribuir com um valor e ajudar na publicação do livro clicando aqui Para conhecer a Luiza Romão e seus outros trabalhos é só seguir o perfil dela no facebook

 

Essa beleza de corpo

Projetos fotográficos exaltam a diversidade do corpo feminino

 

Ocupa Corpos – Foto: Thais Carletti

 

 

– Você ama o seu corpo do jeito que ele é?

 

Começar a matéria com uma pergunta dessas não tem como intenção te afastar das linhas a seguir. Na verdade, é um questionamento, que essa autora sempre procurou fazer e percebeu que todas as respostas, suas e de algumas amigas, são negativas. As imperfeições estão lá e sempre são apontadas. Estria, celulite, espinha, assimetria, gorduras localizadas, coxas finas ou grossas demais, pouca cintura, braço largo, pouca bunda, muito seio – nada belo o bastante para se admirar.

Mas se são as imperfeições que nos definem, deveríamos nos enxergar naturalmente belas. Afinal, não há perfeição. “O que a mídia impõe para a gente são corpos esculturais de revistas. O padrão é absurdo, impossível de alcançar, até por que essas imagens vinculadas não são corpos reais de mulheres, mas sim vítimas de um tratamento de imagem irreal”, afirma a fotógrafa Thais Carletti.

Foi através desse questionamento, sobre objetificação da mulher e os casos de revenge porn, que Thais criou, em 2015, o projeto fotográfico Ocupa Corpos. Com a proposta de valorizar e refletir sobre a libertação sexual e corporal, a fotógrafa produz ensaios nus de mulheres das mais diversas imperfeições. Não há correção ou camuflagem. É o corpo ocupando seu espaço, a mulher presente como ela é.

Outro que surgiu no mesmo ano com a proposta de libertação do corpo feminino, também em Vitória (ES), é o Corpos Libres, da curitibana Juliana Guariza. Na época em que fixou residência na capital capixaba, Juliana criou o projeto inspirada em suas amigas locais – uma delas, inclusive, a própria Thais Carletti –, voltado para esse outro olhar mais generoso com o próprio corpo. “Minhas amigas realmente transformaram minha ideia do que é ser mulher em sociedade. Além delas genuinamente se apoiarem entre si, elas não pediam desculpas por serem o que elas são. Elas não se encaixam em padrões e lutam pelo direito de ser o que elas quiserem ser. Para mim essa autenticidade é inspiradora”, reflete.

 

 

Libertar-se
A naturalidade e o conforto da modelo são prioridade para ambas fotógrafas. Juliana busca ambientes acolhedores e externos, onde a luz natural seja trabalhada – “acho que combina com essa natureza selvagem da mulher”. A espontaneidade e a identificação com o espaço também importam no momento do ensaio, “para se sentir confortável com as fotos e mais importante consigo mesmas. É uma espécie de conversa com o próprio corpo, e o que eu faço é registrar essa conversa”, explica Thais Carletti.

 

 

 

Nos ensaios, vemos mulheres de todas as formas, tamanhos e perfis. Não há padrão e nem restrição, apenas o libertar-se. De tantas belezas femininas que suas lentes registraram, as fotógrafas não carregam apenas a experiência profissional, mas também subjetiva, de mulher para mulher, Afinal, conforme colocado nas primeiras linhas dessa matéria, amar nosso corpo do jeito que ele é não é uma realidade majoritária. Mas o que é a beleza feminina?

“Autenticidade. Estar confortável na própria pele. E todas as pequenas peculiaridades do corpo de cada uma que as fazem únicas. Eu percebo que essas mulheres que fotografei têm tem muita vontade de abraçar e amar suas imperfeições. São elas que as fazem únicas. Falo também por mim mesma, eu precisei me libertar de muitas questões que eu tinha com meu corpo para ter mais sensibilidade para fazer esses retratos“, conta Juliana Guariza.

“Todas as vezes que eu fotografo eu aprendo principalmente a me relacionar melhor com meu próprio corpo. A gente precisa se amar muito e sempre, e com todas essas mulheres eu repenso que tipo de relação eu tenho comigo mesma. E o objetivo do projeto é criar essa discussão: é preciso falar de nudez, é preciso falar de feminismo, é preciso naturalizar e amar os corpos”, Thais Carletti. Amar os corpos. Amar nosso corpo. Amar-se. Uma atividade tão complexa que requer exercícios diários. Uma vez que que você se liberta, no entanto, você enxerga. É uma beleza de corpo. E é só seu.

Ocupa Corpos e Corpos Libres são projetos autorais que seguem em atividade no ano de 2017. Visite a página de cada e conheça mais:

Ocupa Corpos
Instagram: @ocupacorpos
https://ocupacorpos.wordpress.com/

Corpos Libres
Facebook / Instagram: @corposlibres
https://corposlibres.tumblr.com/

 

 

“Por enquanto”: HQ sobre automutilação busca por financiamento coletivo

Por Enquanto

 

Vanessa Bencz é jornalista, palestrante e autora de quatro livros publicados. Há 5 anos, seu trabalho gira principalmente em torno de problemas da adolescência como bullying, depressão e violência familiar. Seu novo projeto é a HQ “Por Enquanto”, que está em financiamento coletivo no Catarse até amanhã às 23H59.

Segundo Vanessa, “‘Por Enquanto’ trata de Ana, 16 anos, que pratica automutilação. Ela foi vítima de violência dentro de casa e na escola. Por conta disso, se torna a chamada ‘aluna problema’. Esta poderia ser a história de muitos estudantes brasileiros que vivenciam rotinas difíceis e depressão.”

Eu conheci a autora em um grupo de Facebook. Lendo um pouco sobre seu trabalho e os textos que ela costuma postar em seu perfil, fui “intrometida” e pedi para adicioná-la. Ela aceitou, e desde então, tenho lido seus relatos sobre suas palestras, seus livros e sua determinação em fazer da vida escolar uma experiência melhor.

Palestra e livros
Vanessa palestra principalmente em escolas, para estudantes de Ensino Médio (Imagem: arquivo pessoal)

Foi isso, somado à importância dos assuntos tratados em “Por Enquanto”, que me motivou a entrevistar Vanessa sobre o projeto. Confira abaixo:

 

Tamires Arsênio: O que te motivou a começar a falar sobre temas como saúde mental, bullying e etc?

Vanessa Bencz: O que me motivou foi a necessidade dos estudantes ouvirem sobre isso. Quando comecei a fazer palestras, há cinco anos, a intenção era falar sobre a importância da leitura para os alunos de escolas públicas. Mas percebi que havia assuntos mais graves e urgentes a serem discutidos. Como eu vou incentivar um estudante a ler, se ele está sofrendo violência na escola? Ou dentro de casa? É questão de prioridades. Então, comecei a falar sobre bullying, sobre depressão na adolescência, sobre ferramentas emocionais de busca por ajuda e superação.

 

Tamires: Você pode falar um pouco sobre suas publicações anteriores? Elas sempre seguem essa temática?

Vanessa: Sou mãe orgulhosa de quatro livros, e o quinto está nascendo! Meu primeiro livro, “Relato do Sol”, foi lançado em 2011 e trata-se de contos que produzi durante a faculdade. Meu segundo livro se chama “Memórias de uma Jornalista Distraída”, que também são contos, mas desta vez sobre minha carreira como repórter de jornal diário. Meu terceiro material é a história em quadrinhos “A Menina Distraída”, de 2014, que é minha publicação de estréia nos assuntos de bullying, violência e depressão. A quarta obra foi lançada em 2016 e se chama “Leia Quando Chegar em Casa”. São relatos que coletei nas escolas do Brasil inteiro como palestrante. O quinto livro está sendo financiando agora. É uma história em quadrinhos chamada “Por Enquanto”, que vai falar especificamente de automutilação, depressão na adolescência, bullying e suicídio.

 

A menina distraída
Em sentido horário: capa de A Menina Distraída, destaque da personagem Ana e sua reformulação (Imagem: arquivo pessoal)

 

Tamires: De onde surgiu a inspiração para a HQ Por Enquanto?

Vanessa: Por Enquanto é um spin-off de “A Menina Distraída”. Trata-se da história de Ana, uma personagem que era coadjuvante na MD e que agora ganhou uma história toda para ela. Ana foi a personagem mais comentada da MD, então, nada mais justo do que homenageá-la agora. Na MD falamos sobre bullying, violência e dificuldades de aprendizado. Agora, em “Por Enquanto”, continuo com a temática da violência – acrescentando temas totalmente pertinentes à adolescência, como depressão, suicídio e automutilação. Chamei a desenhista Yasmin Moraes para trabalhar comigo e estou muito motivada com este material.

 

T: Quem são as pessoas envolvidas no projeto?

V: Somos eu (autora), a ilustradora Yasmin Moraes e a namorada da Yasmin, Ruth Pavanello Bianchini, que serviu como referência visual para nossa personagem e está dando a maior força no financiamento.

 

Vanessa e Yasmin
A autora Vanessa e a desenhista Yasmin. Os filtros das fotos podem ser utilizados no seu perfil do Twitter ou Facebook clicando aqui (Imagens: arquivo pessoal)

 

T: Quantas “Anas” você já conheceu ao longo da vida?

V: Digamos que conheço uma todos os dias. São incontáveis Anas – e na versão masculina também. É uma pena que seja tão comum encontrar crianças e adolescentes com uma realidade tão triste e negligenciada. A escola deveria ser um local de segurança, aprendizado e amizade. Mas geralmente não é! O sistema educacional tem criado espaços perigosos em que jovens são julgados, criticados e destruídos. Até os professores saem perdendo, porque são desvalorizados. Eles são jogados dentro das salas de aula com a responsabilidade absurda de construir conhecimento dentro de cabecinhas machucadas e doentes.

 

Por Enquanto
Páginas de Por Enquanto (imagem: arquivo pessoal)

 

T: Você já viu de perto o resultado do seu trabalho? Pode contar algum caso específico?

V: Após uma palestra, uma garota de 16 anos me falou o seguinte: “Vanessa, eu morava com meu pai. Mas ele era uma má influência para o meu irmão pequeno (8 anos) porque era alcoolatra e cometia furtos. Me mudei para a casa da minha mãe para que meu irmão pudesse ter uma vida melhor. Ele ainda não sabia ler. Entretanto… comecei a ser abusada durante as madrugadas pelo meu padrasto. Não sei o que faço: não sei se volto para a casa do meu pai e exponho meu irmão a ele, ou se continuo na minha mãe onde meu irmão finalmente está aprendendo a ler e aguento os abusos do meu padrasto.”

Quando ela me contou isso, choramos juntas. Dei para ela um exemplar de A Menina Distraída e falei: “Eu quero que tu aceite este presente. Quero que esta história em quadrinhos te lembre todos os dias que tu precisa ser uma guerreira. Lembre-se que estou contigo. Tenha coragem de denunciar, por favor!”

Voltei pra casa e chorei muito. Dias se passaram. Semanas. Meses. Se passou um ano, e eu nunca mais encontrei com esta garota.

Em março de 2017, eu estava em uma escola qualquer de Joinville palestrando sobre bullying. Contei, com muito orgulho, que estou lutando para lançar uma nova história em quadrinhos. Encerrei a palestra e perguntei para a plateia se alguém queria falar alguma coisa. Lá do fundo do auditório levantou uma garota. Ela estava chorando.

Era ela! A garota pediu o microfone e disse: “Você, Vanessa, me deu coragem de denunciar aqueles crimes. Denunciei no dia seguinte daquela tua palestra. Meu irmão aprendeu a ler com a tua HQ. Obrigada por existir.”
Existe melhor sentimento do que a construção coletiva da felicidade? Eu diria que não.

 

Vanessa Bencz
Vanessa com a HQ “A Menina Distraída” (Imagem: arquivo pessoal)

 

T: Qual resultado você espera para a HQ?

V: Que sensibilize as pessoas para este assunto. Que levante debates, que coloque holofotes em assuntos essenciais para o bem estar dos estudantes. Que os leitores aprendam o significado de valores como empatia e respeito, e os coloquem em prática.

 

“Por Enquanto” está em financiamento em https://www.catarse.me/porenquanto#_=_ . Você pode ser um apoiador com a partir de 10 reais. Confira as fotos das recompensas na galeria abaixo:

 

Becuz I Care

Esta é a sua chance de recuperar a fé na humanidade, e de reforçar aquele clichê de que a salvação do mundo são as nossas crianças.

     Uma iniciativa, um projeto, um chamado de uma garotinha de 10 anos durante suas férias tem alcançado milhares de pessoas ao redor do mundo, e consequentemente, fazendo muitos questionarem suas relações e ações enquanto sociedade e comunidade.

     Leah Nelson, começou nas férias de verão uma espécie de corrente do bem. Ela queria mostrar como ser gentil pode mudar a vida de alguém. E o objetivo dela é bem simples: tornar o mundo um lugar agradável e melhor de se viver.

     Uma criança, que poderia aproveitar as férias, brincar, dormir até tarde, jogar videogame. Uma criança que teoricamente não teria essa responsabilidade, que não precisaria se importar.

 

“Eu só quero que o mundo seja um lugar melhor”

-Leah Nelson

 

     A iniciativa é uma mistura de filantropia e experimento social. É simples. Basta ser gentil com alguém, ou ajudar uma família/ indivíduo em necessidade. Da forma que você puder. Seja arrecadando roupas, alimentos, seja proporcionando um dia melhor, ou apenas dedicando um tempo para alguém que se sente só. Você pode preparar uma refeição, entregando uma água, fazer um elogio, doar um agasalho… Coisas tão pequenas talvez para nós, mas para quem está em dificuldades se torna grandioso.

     E para selar esta boa ação, você presenteia a pessoa com uma pulseira. Este é o símbolo do compromisso de fazer o mesmo a outro alguém, e assim repassar a pulseira de uma pessoa à outra.

https://www.facebook.com/becuzIcare11/

     Leah também criou um fundo para receber doações para projetos maiores como ajudar escolas, fazer projetos sociais maiores, e também para a produção das pulseiras símbolo de sua campanha. Hoje ela conta com a ajuda de amigos, dos familiares e de vários voluntários espalhados pelo mundo, incluindo aqui no Brasil.

     Um passo dado por Leah. No

     Uma coisa que seria tão óbvia, mas que esquecemos com a rotina: ser gentil.

     Faça parte. Seja uma pessoa melhor.

 

Jornalista cultural escreve sobre literatura contemporânea

Livros por Lívia: jornalista escreve sobre suas leituras

No ar há quatro anos, blog reúne resenhas de autores contemporâneos

www.livrosporlivia.com

 

     Baiana de Salvador, Lívia Corbellari reside no Espírito Santo desde os sete anos de idade – Vitória é sua cidade natal do coração. Aos 27, a jornalista cultural mantém uma profunda relação com a literatura desde suas primeiras leituras. “Me encanta muito conhecer outras histórias. A leitura sempre me ajudou a lidar com meus próprios problemas”, lembra.

Suas resenhas literárias deram vida ao Livros por Lívia, blog que reúne reportagens e resenhas de autores contemporâneos. Hoje com quatro anos de funcionamento, o endereço é referência na divulgação de obras capixabas, sendo ponte também de outros projetos, a exemplo do Cachaçada Literária, evento propõe aproximar o público leitor dos escritores de forma descontraída – com sarau, apresentações musicais e drinks especiais. Nessa simples entrevista para coluna Ideia D´elas, Lívia Corbellari fala sobre a trajetória do blog, literatura feminina e o mercado de editoras independentes.

“Finalmente estamos tendo voz”

Lívia Corbellari

ANA: O Livros por Lívia¸ até onde sei, começou com o objetivo de publicar resenhas de obras capixabas. Como foi o desenrolar desse objetivo?

LÍVIA CORBELLARI: Na verdade, no começo era muito mais amplo. Eu resenhava tudo que eu lia, livros capixabas, de outros estados, de outros países. Em 2013, eu trabalhava como jornalista cultural no Século Diário [jornal online de Vitória] e recebia muitos livros de diversas editoras. Fui percebendo que quando resenhava um livro daqui, o retorno era muito mais legal, o autor vinha falar comigo e muitas pessoas iam atrás do livro porque não sabiam que tinha literatura de qualidade sendo produzida aqui.

O Livros por Lívia nasceu como um portfólio desses textos que eu escrevia para o jornal e aos poucos foi ganhando vida própria. Foi nesse momento que resolvi focar nos autores daqui. Depois o blog foi desenvolvendo outros trabalhos envolvendo autores capixabas, como produção de eventos, lançamentos de livros, assessoria para escritores e o próprio Cachaçada Literária.

ANA: Escrever sobre literatura requer um conhecimento aprofundado, mais sensível às palavras e leitura. Quando e como se deu sua relação com a literatura?

LÍVIA: De fato, a leitura quando você vai escrever sobre a obra é diferente. Às vezes, leio duas vezes. A primeira só para me divertir mesmo e a segunda para escrever, onde separo trechos interessantes, faço observações, busco referências. Sobre a minha relação com a literatura, não lembro bem quando começou. Acho que desde que aprendi a ler, eu estou lendo rsrsrs. Claro que essa relação foi mudando com o tempo. Acho que me encanta muito conhecer outras histórias, a leitura sempre me ajudou a lidar com meus próprios problemas.

ANA: Para a produção das resenhas literárias, quais critérios você utiliza para escolher a obra a ser resenhada e como esta análise é feita?

LÍVIA: Meu critério é muito subjetivo. Eu leio de tudo, mas acabo resenhando só o que eu gosto. Ainda não consigo escrever textos negativos sobre os livros, quando não gosto, prefiro não escrever. Eu faço críticas e aponto as questões que não gostei, mas não me sinto uma crítica literária porque me falta estudo, acaba sendo algo intuitivo mesmo. Minhas resenhas são sobre o que senti lendo o livro, elas quase beiram a crônicas.

Escritoras capixabas: Cora Made

ANA: Como você avalia o mercado editorial e a produção literária capixaba?

LÍVIA: A literatura produzida aqui é muito diversa, temos romances policiais, contos longos, contos curtos, poesia de diversos estilos e temos escritores e escritoras produzindo em igualdade e muitos escritores das idades mais variadas. A literatura tem se voltado cada vez mais para mercados pequenos e de nicho e aqui no estado temos esse mercado bem dinâmico também.

ANA: Em Vitória, temos um crescimento visível de escritoras e poetas. Mulheres escrevendo sobre mulheres. Qual a importância desse novo movimento da literatura feminina para nossa cidade?

LÍVIA: Esse movimento é muito importante e é incrível. Vejo as meninas se movimento em todas as áreas e não só na literatura, finalmente estamos tendo voz. Claro que o caminho ainda é muito logo, mas estamos dando um primeiro passo para as novas gerações terem muito mais espaço do que nós tivemos.

ANA: Quais obras de escritoras que te marcaram você recomenda?

LÍVIA: A teus pés, de Ana Cristina Cesar; Um útero é do tamanho de um punho, de Angelica Freitas; Amora, de Natalia Borges; Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi; Afazeres domestico, de Lilian Aquino.

ANA: E escritoras capixabas?

LÍVIA: Aline dias, Isabella Mariano, Fabíola Colares, Sarah Vervloet, Cora Made, Benadette Lyra e Ingrid Carrafa.

Acompanhe as resenhas e os projetos divulgados pelo blog

Site: www.livrosporlivia.com

Facebook: @livrosporlivia

Leia Mulheres e os Clubes de Leituras

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

Esse ano, iniciei um projeto pessoal, mas antes, explico: sou estudante de Letras e durante quatro anos de graduação, e alguns anos de vida, dedico parte do meu tempo e dos meus estudos à leitura de obras literárias. Até aí, ok. Não! Conheci obras muito boas, mas não conheci mulheres escrevendo. Li livros sobre mulheres, escrito por homens. Isso me chocou, me desassossegou.

Para isso, 2017 iniciou de um jeito diferente: Esse ano só leio mulheres. Quero poder falar sobre isso, mostrar isso para os outros e ajudar a mostrar as mulheres que escrevem e que ainda são marginalizadas justamente por serem mulheres. Logo em seguida, surgiu um problema: que mulheres escritoras eu conheço? Confesso, eram poucas. Eu não sabia por onde começar e foi aí que pesquisando conheci o Clube do Garimpo, que tem um dos clubes intitulado Leia Mulheres. <3

A ideia é simples, basta assinar o clube e mensalmente recebemos um livro escolhido pelas curadoras. Mas, espera um pouquinho, eu já falo dele. Antes disso, vamos falar do Leia Mulheres.

O #leiamulheres começou faz um tempinho já, mais exatamente em 2014 com a escritora  Joanna Walsh que lançou a hashtag #readwomen2014. O objetivo, como já se pode imaginar, era ler mais essa mulherada que produz um montão, mas que é esquecida.

Mas ué, tem um monte de livro da Clarisse Lispector! E… Sim, eu sei que há muitas pessoas que conhecem muito mais, mas tem mais outro montão de gente que não. No curso de Letras, por exemplo, tive contato com pouquíssimas mulheres. Conto nos dedos – Clarisse, Cecília Meirelles, Atwood, Angélica Freitas, não fechou uma mão! Acontece que se dentro do ambiente acadêmico isso ainda é deixado de lado, imagina na vida!

Enquanto nós temos que demonstrar interesse e correr atrás dessas produções, os homens ocupam as prateleiras das livrarias e a lista de obras de leitura obrigatória nas escolas. Ah! Mas aí é só procurar e ler! Gente, não é assim tão simples! E é nosso dever mostrar essa literatura e dividir o que aprendemos.

É nosso dever questionar porque as mulheres são tão apagadas – isso está para além das questões de produção literária, isso é um reflexo social e triste.

As meninas do #leiamulheres estão ganhando esse Brasil com clubes de leitura em várias cidades do país. Iniciativa muito importante! Se tu entrares no site, encontrarás resenhas, os clubes que existem, entre outras coisas. Entra lá, agorinha! Não deixa pra depois!

Aí, chegou o Garimpo Clube do Livro nesse esquema, não sei como exatamente, mas as meninas estão lá, escolhendo livros e enviando para leitores interessados. O Garimpo tem outros clubes também, de poesia, ficção, literatura infantil e humor e amor. Cada um atende um grupo específico de leitores. Todos indicados por uma galera que entende do que está fazendo.

E o que eu estou fazendo aqui? Eu vou falar sobre os livros que eu recebo mensalmente – assim, bem tranquilo, tentando deixar vocês com vontade de ler o que eu li. Pode ser?

Para saber mais sobre as meninas e a proposta vale a pena entrar nesses links: http://www.garimpoclube.com.br/ e https://leiamulheres.com.br/

Conheça MinKa: a camisetaria feita para mudar o mundo

                                                                                               “O que a gente acredita é que para que uma mulher tenha forças para lutar por todas as outras ela precisa, primeiro, estar bem consigo mesma.”

 

É inegável que estamos cansadas das estampas fofas e várias coisas mais demonstrando a tão famosa “fragilidade feminina”. Não somos as únicas. As amigas Yasmin e Karim, também cansadas do senso comum, decidiram montar uma linha de camisetas com um toque especial: empoderamento.

Durante a semana tive o prazer de conversar com elas sobre a decisão de fazer parte da vida de outras mulheres através de roupas que são muito mais do que apenas peças: são demonstrações de amor próprio e autoconhecimento.

Megan Garcia: O que é a MinKa? De onde surgiu a ideia de criar uma marca voltada ao empoderamento feminino?

MinKa: MinKa é uma camisetaria que nasceu para empoderar! Partiu do ideal de duas amigas com um mesmo anseio, o de poder usar roupas que fossem muito mais que meros objetos utilizados para cobrir a pele. O desejo era o de poder permitir que as mulheres se vestissem da maneira que são e sentem, podendo expressar a força feminina, mostrar suas lutas e inspirar outras mulheres a lutar. Como mulheres que são, Yasmin e Karim, fundadoras da MinKa, sempre foram inquietas com as imposições sociais de um padrão machista que muitas vezes machuca e destrói, por isso resolveram lutar contra isso de maneira ativa, por meio de produtos que dão força à causa feminista e à luta diária das mulheres. Assim, em 22/02/2016, nasceu a MinKa, na cidade de Belo Horizonte – MG. Uma camisetaria cujo ideal é sair do básico e da superficialidade e provocar o empoderamento feminino por meio de paixões, inspirações e elementos de força feminina presentes em cada MinKa.

Imagem: MinKa Camisetas – Facebook

MG: Vocês usam a frase “Nossas camisetas não vão mudar o mundo, mas as mulheres que as usam sim”. Para vocês, qual a importância da mulher saber a força que ela tem perante o mundo?

M: O feminismo, como a gente sabe, é uma luta coletiva, ou seja, todas lutando por um todo. O que a gente acredita é que para que uma mulher tenha forças para lutar por todas as outras ela precisa, primeiro, estar bem consigo mesma. E é por isso que a gente acredita no empoderamento individual de cada mulher como uma grande arma do feminismo. Quando uma mulher está bem consigo mesma, está consciente de sua força e capacidade ela tem muito mais força para lutar coletivamente.

MG: Para vocês, qual a importância de aplicar o feminismo na vida profissional?

M: A gente acredita que feminismo é vivência. Então ele tem que estar presente em todos os aspectos da vida. De quando você vai à padaria à quando você vai falar em uma reunião de trabalho na empresa. Não significa que a vida de uma feminista se resume a discursos calorosos e militância, mas quando a gente se propõe a mudar uma sociedade, isso de certa forma acaba se aplicando a qualquer atitude nossa, o jeito que falamos, que agimos. E em cada lugar que passamos a gente pode plantar uma semente do questionamento, pode fazer as pessoas pararem para refletir determinadas situações. Na vida profissional, portanto, não seria diferente. Principalmente se levarmos em conta que o mercado de trabalho ainda é um dos grandes ambientes de luta da mulher, onde ainda somos muito subvalorizadas e ainda temos tanto a conquistar.

Imagem: MinKa Camisetas – Facebook

 

                                                                                                                              “Muitas vezes as próprias mulheres estão tão imersas nessa visão social que não sabem reconhecer quando determinada atitude é assédio. Ou, se reconhecem, não se sentem no direito de reclamar, reivindicar, rebater.”

 

MG: No último carnaval, vocês lançaram a campanha “#CarnavalSemAssédio”. Qual a sensação de ver outras pessoas abraçando uma causa que, para nós, mulheres, vai além do óbvio? É uma esperança de um Brasil menos machista?

 

M: Infelizmente o machismo é algo tão cultural e enraizado que não podemos tratar nenhuma questão como óbvia. Muitas vezes nós mulheres somos tão oprimidas que nós mesmas não conseguimos enxergar determinado ato como opressão. É o caso do assédio, por exemplo, principalmente quando se fala em carnaval, popularmente conhecido como a “Festa da Carne”. Muitas vezes as próprias mulheres estão tão imersas nessa visão social que não sabem reconhecer quando determinada atitude é assédio. Ou, se reconhecem, não se sentem no direito de reclamar, reivindicar, rebater. E essa foi a idéia da nossa campanha, mostrar de forma simples, com frases de fácil leitura e assimilação, que qualquer atitude que ultrapasse a vontade da mulher ou a deixe desconfortável pode sim, ser classificada como assédio e algo que podemos e devemos lutar contra. A campanha realmente teve uma aceitação muito bacana em todo o Brasil e isso com certeza nos enche de alegria e da uma pontinha de orgulho. Teve muita mulher desfilando empoderada no carnaval e mostrando que estamos cada vez mais conscientes e fortes e isso nos da, com certeza, muito mais força pra acreditar que a cada dia somos capazes de mudar um pouquinho, ainda que como um grãozinho de areia, a sociedade em que vivemos, na certeza de que um dia a gente chega lá!

MG: Vocês já sofreram algum tipo de ataque por defender o empoderamento feminino?

M: Sim! Já recebemos alguns comentários desagradáveis no nosso Instagram. Mas sempre que esses comentários vêm acompanhados de algum questionamento a gente faz questão de responder e colocar o nosso posicionamento. E algumas vezes recebemos em nosso chat no site algumas mensagens como “comunistas do diabo” e “peludas mal amadas” (risos). Nada que nos fizesse temer por continuar a fazer o trabalho que temos feito. Mas sabemos que estamos sujeitas a ataques mais severos, afinal, uma mudança social gera reflexos na vida de muita gente. Vai ter muita gente perdendo seu posto de “dono da sociedade” ou “dono das mulheres” e isso incomoda muito. Mas em sentido oposto, nós recebemos muitas mensagens de agradecimento, incentivo ou até mesmo um carinho puro e simples. Todos os dias temos algum tipo de retorno positivo e isso vai nos deixando tranquilas de que estamos no caminho certo.

Imagem: MinKa Camisetas – Facebook

 

                                                                                                                              “Nosso país, assim como, na verdade, a maior parte do mundo como um todo, é estruturado em uma base patriarcal, na qual as mulheres são, ainda hoje, subjugadas, relegadas, diminuídas.”

 

MG: No site da MinKa vocês abrem espaço para qualquer tipo de conversa, inclusive desabafos pessoais. Isso já aconteceu com vocês?

M: Sim! Nós nos colocamos sempre à disposição porque a MinKa nasceu pra isso, para empoderar mulheres! Já recebemos alguns contatos de desabafos, mas o tipo de contato que a gente geralmente recebe é mais como um agradecimento ou retorno positivo. Por exemplo, uma mana contando que determinada postagem nossa a ajudou a despertar um certo questionamento em uma amiga ou parceiro. Ou contando que não tinha uma boa visão do feminismo e que nossas postagens a ajudaram a mudar essa visão.

MG: Qual a sensação de saber que cada peça que vocês mandam chega a uma mulher que aprendeu a ser dona das próprias vontades?

M: Isso é maravilhoso. Foi pra isso que a gente criou essa marca, para poder empoderar mulheres por todo o Brasil por meio de nossas camisetas, fazer com que cada uma tenha plena consciência de que pode tudo! E a gente acaba tendo uma real noção disso a cada mensagem de retorno que a gente recebe das nossas clientes depois que o pacote chega a casa delas. É uma sensação indescritível de fazer parte de algo bom e poderoso, que desperta na gente a vontade de fazer cada vez mais, para atingir cada vez mais mulheres.

Imagem: MinKa Camisetas – Facebook

MG: Qual a importância de espalhar idéias feministas em um país machista?

M: Bom, como eu disse lá no início, a gente tem a plena noção de que o feminismo é uma luta coletiva. Mas por acreditar que para ter forças para lutar coletivamente uma mulher precisa, primeiro, estar consciente de sua própria força, a gente decidiu trabalhar dessa maneira, com o empoderamento feminino. A gente acredita que quanto mais mulheres a gente conseguir empoderar com nossas mensagens, mais somaremos à luta feminista enquanto movimento coletivo. E a importância disso no Brasil é extrema. Vide recente discurso da maior autoridade política do país, que, no Dia Internacional das Mulheres, reduziu o papel da mulher na sociedade aos afazeres do lar. Nosso país, assim como, na verdade, a maior parte do mundo como um todo, é estruturado em uma base patriarcal, na qual as mulheres são, ainda hoje, subjugadas, relegadas, diminuídas. E muitas realmente não possuem forças ou o conhecimento necessário para que sejam capazes de se dar conta do poder que têm. E é nesse sentido que a gente trabalha, na tentativa de mostrar a cada vez mais mulheres o seu real valor, para que possamos, todas juntas, construir um futuro melhor para todas as mulheres do nosso país e, assim, do mundo.

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Incorporando o vísceral na pintura

Desde que eu entrei no movimento feminista e agreguei isso tanto a minha vida quanto em internet, tenho ganhado uma enorme soma de amigos maravilhosos – awoman – e um desses foi o Juno Lavigne.

Homem trans e dono muito recentemente da page Juno Dexter – Art , fui arrebatada muitas vezes pelos seus textos didáticos e esclarecedores sobre inúmeros aspectos de seus transtornos neuroatípicos, como autismo e disforia corporal, e por sua arte, que expõe seus sonhos mais intrínsecos e perturbadores, revelando mesmo que indiretamente e não plenamente a sua verdadeira face e vivência como pessoa transgênero, algo que ele transmite através de suas pinturas sem querer falando coisas muito íntimas aos espectadores; algo muito pessoal, que para os mais sensivéis desenvolve certa estranheza e simpatia as obras que abusam do vermelho e tons mais escuros por motivos óbvios, para quem acompanha suas postagens.

Vide algumas perguntas sobre as influências do seu trabalho e sentimentos sobre o mesmo:

>  Como surgiu seu primeiro quadro?

Mano, eu não sei, na real eu sempre gostei de arte, e meu pai sempre me estimulou a desenvolver isso, assim, na real meu primeiro quadro eu devo ter feito antes de completar 4 anos -e vou aproveitar pra lembrar que deve ter ficado uma merda, anyway, eu só comecei a levar minha arte a sério de verdade ano passado, quando eu percebi que passar meus sonhos pro papel não era uma “brincadeira” (risos).

> Que relação seus quadros possuem com os seu autismo e outros “transtornos”  neuroatipicos? E com a sua transexualidade?

– Isso depende, cada quadro tem uma relação muito íntima com uma ou mais questões muito intrínsecas de mim, alguns quadros eu mostro pessoas com os seios mutilados e feridos, eles podem representar minha disforia (na vrdd vc precisaria ser cego pra não entender que se trata de uma pessoa disfórica na imagem ), assim como eu tenho quadros que falam de crises, auto-mutilação etc, figuras com rostos cansados, sangue, lâminas e presas em camisa de força tão aí pra representar essas questões
O que os quadros mostram é só uma mistura, na verdade, de todos os meus sonhos e sentimentos, que foram de alguma forma “cuspidos” no papel. Uma vez que a arte é o que eu tenho feito pra não me matar no fim do dia, a relação que minhas pinturas possuem com meus transtornos e minha transexualidade é essa: eles impedem que a depressão e a disforia me consumam até o ponto de o pior acontecer. E quanto ao autismo, bom, ele na verdade me ajuda a querer pintar mais e mais.

 

 

> Você acha que seus quadros merecem ganhar um grande reconhecimento ou são só um hobbie seu mesmo?

–  Mano, isso é meu trabalho (risos) é o que eu pretendo fazer no futuro, eu não sei se sou a pessoa mais apta a dizer se eles merecem um grande reconhecimento porque minha relação com eles é muito pessoal, o que eu vejo não é nada do que você vê. Você pode ver um menino disfórico e com problemas de auto-imagem e auto-mutilação ou qualquer outra coisa, pode ver só quadros bonitos e um bom uso dos elementos dos quais a arte dispõe, mas man, quando eu olho pra um desenho meu, eu revivo tudo que me levou a fazer ele. Então sim, eu acho que a minha arte é boa e merece o devido reconhecimento, mas eu não sei se posso ditar quanto reconhecimento eu mereço ou não, porque eu estou envolvido demais com minha obra, de uma maneira que não consigo julgar ou, de alguma forma, dar uma opinião realista e imparcial.

> Você acha que esta passando um recado para as outras pessoas? E se não, que recado você queria passar sobre transexualidade e transtornos neuroatipicos para as pessoas?

– Eu não sei se estou passando algum recado, eu não penso em passar nada específico quando eu faço meus quadros, eu simplesmente reproduzo um monte de sonhos e sentimentos, e eu acho que a interpretação disso, tipo… bom, é claro que a MINHA interpretação sendo tão abstrata e pessoal não vai ser a interpretação universal, isso simplesmente vai caber a cada um né, a única coisa que eu procuro passar pra tela é o sofrimento, meio cru até, porque é a única maneira que eu tenho de “tirá-lo” de mim naquele momento. Então… eu não estou tentando dizer alguma coisa específica com esses quadros, eu só estou pintando.