‘Caçadoras de Mitos’: mentiras sobre o feminismo

O feminismo cresceu muito recentemente, mas também apareceram muitas pessoas contrárias a ele. Não apenas opressores assumidos, mas também pessoas desinformadas, alimentadas pelo senso comum, repetem e propagam mitos sobre o movimento. Algumas dessas inverdades são tão comuns em posts e comentários pela internet que achamos que já era hora de fazer uma “versão feminista” do Mythbusters. Segue abaixo uma seleção de mentiras sobre o movimento, e nossa resposta a elas.

“O feminismo prega a superioridade da mulher sobre o homem”

O feminismo luta a favor de direitos iguais para ambos os sexos. Simples assim. Ele quer corrigir as injustiças sociais do patriarcado e dos papéis de gênero. Cada vertente e cada feminista tem pontos sobre essas questões, mas nisso todas elas convergem. 
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“Feministas querem apenas os direitos, nunca os deveres”

É muito comum ouvirmos essa frase acompanhada de outras como “alistamento obrigatório não querem” ou “na hora que pagar menos na balada não reclamam”. Antes, vamos entender que tudo depende da sua concepção de deveres. O feminismo luta por direitos, e se a esses direitos vêm atreladas responsabilidades, nós as queremos SIM.
Mas algumas ideias, como as que eu citei, não fazem sentido. A primeira porque não há por que lutar por ainda menos liberdade. A segunda porque nós também não gostamos desse fato. Como já disse uma pessoa sábia: “se você não paga pelo produto, o produto é você”. E entre nossas pautas, está o direito de não sermos tratadas como mercadoria.

“O feminismo faz discurso de ódio contra o sexo masculino”

Como já falei nesse post, explicando por que algumas feministas usam ironicamente de repulsa aos homens em memes, misandria não mata ninguém. Ela no máximo é usada de modo irônico contra os opressores, enquanto a misoginia mata, estupra e agride.
De todo modo, tirando essa ironia, feministas não pregam ódio aos homens. Quando fazemos afirmações generalistas sobre seu gênero, estamos tratando de seus papéis sociais. Quando alguma feminista diz, por exemplo, que “todo homem é um estuprador em potencial”, não significa que todos vão estuprar, mas que se ele quiser, provavelmente vai conseguir, porque tem poder para isso.

“Feministas são todas (complete aqui com qualquer clichê sobre aparência, hábitos ou sexualidade)”

Nos parênteses entram, usualmente: gorda, peluda, mal comida, lésbica, feia, puta… Dica: feminista não é tudo igual. Dá pra ser feminista e não ser nada disso, assim como dá pra ser e, adivinha? Não é da conta de ninguém. O fato de pessoas julgarem mulheres por sua aparência, hábitos e sexualidade só reforça a importância do feminismo.
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“Feministas querem ser iguais aos homens”

Não, feministas querem ter os mesmos direitos e liberdades que os homens. É comum que essa frase venha junto com ideias como “já é feio para o homem fazer (complete aqui)”. Geralmente a frase é completada com aspectos que se referem à liberdade sexual. O maior problema é que, geralmente, essa frase é usada como máscara. O homem dificilmente é julgado por sua liberdade da forma que a mulher é. E mesmo se fosse, sexo é algo saudável, e a quantidade de parceiros e os hábitos sexuais de cada um não deveriam incomodar tanto.

“Feministas são comunistas”

Esse mito é completamente ligado à dificuldade que as pessoas têm de separar ideologia de esquerda e comunismo. Não, não é a mesma coisa. Todo movimento que visa a subversão de padrões vigentes é de esquerda, e isso inclui o comunismo, mas não só ele. E por natureza, o feminismo pode ser considerado um movimento de esquerda. Mas isso não é regra nem para o movimento, nem para cada feminista. O feminismo liberal, por exemplo, acredita na livre iniciativa, tendo portanto traços de ideologias de direita.

“Feminina sim, feminista não”

O que representa “ser feminina”? A sociedade dita papéis para nossos gêneros, e muitos dos traços dos gêneros são construção social. Questionar isso é pauta do feminismo. Mas não significa que feministas precisem abdicar de características atribuídas a seu gênero. Dá para ser feminista e ser tida como “feminina” pela sociedade.
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“Donas de casa não podem ser feministas”

Se relaciona ao tópico acima. O feminismo promove a problematização dos papéis, o que inclui a delegação dos deveres de casa às mulheres. Mas isso não impede uma mulher, consciente disso e por vontade própria, de ser dona de casa e feminista.

“O feminismo de antes que era bom, hoje em dia elas só querem mostrar os peitos”

Sempre que eu topo com esse tipo de comentário eu me pergunto se quem tem fixação por peitos somos nós ou quem é contra o feminismo. Uma passada rápida em algumas das principais páginas feministas no Facebook mostra que as pautas são muito diversificadas. Além disso, nem toda manifestação que usa o corpo para protestar é totalmente incoerente, mas isso não significa que toda feminista concorda com elas.
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“O feminismo não respeita as religiões”

Fato surpreendente: muitas feministas têm uma religião, e algumas são até cristãs! Acontece que o feminismo permite o questionamento de dogmas e costumes religiosos que não são condizentes com nossas noções de respeito, igualdade e liberdade. E, por isso, é comum a problematização desses valores religiosos, assim como dos males que instituições como a Igreja Católica e outras fizeram a mulheres e outras minorias. Mas nada disso apaga o respeito pela fé de cada uma.

“O problema são as feministas radicais, que estragam o movimento”

Existem várias vertentes do feminismo, mas é importante entender que “radical” vem de raiz, e não de extremismo. Deixo aqui o post da Alessandra sobre o feminismo radical.

“Eu não preciso do feminismo”

Eu fico particularmente incomodada com essa. Primeiro que duvido muito que alguma mulher no planeta não precise nem um pouco do feminismo. Segundo porque, suponhamos, essas moças realmente não precisem. Elas usam a frase para deslegitimar o movimento, mas acabam demonstrando egoísmo, pois desconsideram as mulheres que mais precisam dele. Uma moça que nunca foi violentada, sofreu violência doméstica, ou teve sua sexualidade julgada demonstra falta de empatia ao dizer tal coisa.
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“Homens e mulheres já têm os mesmos direitos”

Outra frase que eu realmente fico chocada em ler/ouvir. Nossos direitos civis (aqui no ocidente) podem ser bem próximos de uma igualdade, mas nem isso está perfeito. Aos poucos vamos evoluindo na correção de diferenças através de leis, mas ainda há muito a ser percorrido. Ao final deste link, são citadas algumas das leis sexistas no Brasil.

Mas o grande problema é que direitos civis nem sempre são suficientes para garantir direitos sociais. Várias desigualdades ocorrem apesar das leis, e às vezes até com conivência do governo pela ausência de ferramentas para corrigi-las.

Espero que o post tenha ajudado a esclarecer algumas coisas!

Vamos falar sobre feminismo liberal?

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Quanto mais nós lemos sobre o feminismo, mais informações surgem e com elas muitas dúvidas novas. As dúvidas que vamos tentar resolver hoje são sobre o feminismo liberal. 
O texto que estão lendo não representa nenhuma opinião pessoal (admito que a minha vertente feminista é a interseccional), ele foi feito de forma simples e objetivo para auxiliar quem, assim como eu, teve ou tem dificuldades em encontrar textos que sejam fáceis de entender e nos ajudem a conhecer melhor pelo o que estamos lutando.
Para ser bem sincera com vocês, eu não encontrei referências muito completas sobre essa vertente, então esse talvez seja o mais simples dos textos que já fizemos nessa coluna. Vamos abordar apenas algumas bases, ok?
O feminismo liberal, ou libfem, tem como foco a iniciativa livre de cada individuo. São os pensamentos que pessoas, gozando de todo o seu livre arbítrio, escolhem por conta própria, com o mínimo de intervenção vinda do estado, da família, da sociedade em geral.
Diferente do feminismo radical, que defende que as escolhas são condicionadas por regras da sociedade.
Para que vocês possam entender melhor, vou enumerar algumas das idéias defendidas pelas feministas liberais.
– se uma mulher modifica o próprio corpo para que ele se encaixe no padrão de beleza que sabemos ser estipulado pela sociedade, ela está exercendo liberdade de escolha. Existe o caminho de ter o corpo como é e padroniza-lo, e a mulher tem que ser livre para escolher entre eles por si mesmo.
– a prática da heterossexualidade feminina é uma escolha. Não é vista como uma regra estipulada ou questão biológica, mas sim uma decisão tomada conscientemente por cada uma. 
– a melhor forma prevista pelo libfem para colocar em prática a igualdade entre homens e mulheres é através de reformulação de leis. Reforma e uso da política e de meios institucionais. A ascensão de mulheres em governos, empresas e meios de comunicação é uma vitória para o feminismo liberal.
– algumas das questões que o libfem deseja concertar são a desigualdade salarial, permitir a aceitação de homens nas lutas feministas (Emma Watson defende essa ideia, vocês conhecem a campanha #HeForShe?) diminuição ou extinção do estado.
– o governo é visto como a maior causa das opressões sofridas pelas mulheres. Se o estado se envolvesse menos (ou melhor, não se envolvesse de forma alguma) essas opressões seriam cessadas. 
O feminismo liberal me parece o mais ligado a questões políticas (no sentido governamental), já que vê o governo como causa das opressões, do que as outras vertentes feministas. Não que as outras não possuam essa ligação, de uma forma ou de outra. Mas ainda preciso aprender muito sobre ele.
Como eu disse no início, me faltou material que ajudasse a compreender essa vertente. Por isso peço que todas as meninas que tenham material que complemente nosso texto, nos enviem. Estamos aqui para aprender com vocês! E se mesmo depois do que leu você ainda não entende coisa alguma, pergunte nos comentários. Nossos estudos não acabam aqui e quando surgirem mais informações, vamos atualizar tudo no blog.

Não queria ter de desperdiçar meu tempo afirmando que existe uma cultura do estupro! Mas, infelizmente, isso é preciso.

Não queria ter de desperdiçar meu tempo afirmando que existe uma cultura do estupro! Mas, infelizmente, isso é preciso

 

Não importa o nome dado, estupro é estupro, apesar da relutância vinda de alguns que se negam em reconhecer quando esse estupro acontece. É constante o hábito de modificar o nome da ação para que assim ela passe a ser justificável, aceitável, perdoável, engraçada.

Ok, ok! Vou pegar leve com os leigos e explicar.

Estupro segundo o dicionário: crime que consiste no constrangimento a relações sexuais por meio de violência; violação.

Estupro segundo o Wikipedia: estupro, coito forçado ou violação é a prática não consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos.

Estupro segundo a legislação brasileira: constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. O crime pode ser praticado mediante violência real (agressão) ou presumida (quando praticado contra menores de 14 anos, alienados mentais ou contra pessoas que não puderem oferecer resistência). Logo, drogar uma pessoa para manter com ela conjunção carnal configura crime de estupro praticado mediante violência presumida, pois a vítima não pode oferecer resistência.

Vários locais onde se pode pesquisar esse termo. TODOS  em comum acordo quanto ao ser um ato violento e criminoso. Por que certas pessoas não entendem dessa forma? Alguns dos motivos para essa falta de consenso quanto ao que podemos ou não considerar estupro são: abuso sexual e assédio sexual.

cultura do estupro

cultura do estupro

Muita gente entende que esses dois termos que citei a cima são menos agressivos que o estupro e, por isso, mais aceitáveis. E é essa tentativa constante de maquiar as diversas faces da agressão sexual que alimenta as mentes das pessoas que defendem tais atos de violência como pequenos, de pouca importância e até mesmo “invenções de feministas mimizentas”.

Abuso sexual: qualquer forma de constrangimento sexual sobre um indivíduo em situação de inferioridade, envolvendo ou não violência física.

cultura do estupro

Assédio sexual: fazer uso de palavras de baixo calão para ofender ou “elogiar” uma mulher, indiretas sexualizadas dirigidas à mulheres que não às pediram ou permitiram e até mesmo tocar-lhe o corpo (como acontece em ônibus, festas e no trabalho também) sem consentimento da mesma.

Percebe como são atitudes de violação, agressivas, humilhantes e abusivas, assim como o estupro? E, assim como o estupro, são tidos como consequências de atos errados cometidos pela vítima. Veja só:

  1. – andar com roupas curtas ou justas é pedir para sofrer alguma dessas agressões a cima;
  2. – estar na rua até tarde também é;
  3. – beber então, nem se fala;
  4. – jamais pense em pedir respeito, direito de ser, estar, usar, seja o que for. Você está errada, tem que aceitar a agressão e ainda fica sendo a puta que provocou tal ato.
Esses pensamentos estão muito enraizados em nossa sociedade patriarcal, partem das palavras mais simples até a violência em si. E é essa escala de definiu o que é a cultura do estupro.
Cultura do estupro é:
  1. – duvidar da mulher que conta ter sido estuprada;
  2. – levar em conta o passado ou vida sexual da vítima;
  3. – acreditar na malícia naturalmente existente na mulher;
  4. – objetificação do corpo feminino existente na publicidade, na TV, na literatura, etc;
  5. – ensinar a não ser estuprada ao invés de ensinar à não estuprar;
  6. – achar aceitável fazer sexo em alguém enquanto está embriagada, dormindo, desmaiada;
  7. – ter medo de ser uma mulher sozinha saindo do trabalho a noite e achar natural;
  8. – duvidar da real existência de quaisquer violência contra a mulher;
violência
Reprodução/Internet

O silenciamento contribui com a cultura do estupro. Se os casos de violência são tidos como naturais, então para que vamos investigar? Não a motivos para pedir ajuda a família, denunciar seu vizinho, entregar seu patrão. Mães, amigos, tias, colegas de trabalho, delegados, professores, juízes, jornalistas, todos unidos para jogar um caso de estupro, abuso e assédio para debaixo do tapete.

Eu pude perceber que a nomenclatura ajuda a definir o que é ou não relevante, assim como as regras impostas pela sociedade. Siga essas regras de forma indubitável, se mesmo assim você passar por alguma situação de violência sexual vamos ver se podemos enquadrar o caso em alguma  lista mais aceitável.

Com tudo isso, ainda encontramos pessoas que desconhecem ou negam a existência da cultura do estupro. Preferem agir fingindo que não são coniventes com atitudes que permitam um ato abusivo em sua sociedade perfeita. Ou pior, elas REALMENTE ACREDITAM não ser. Isso dificulta tudo não é? Como lutar contra algo que acredita não existir? Como lutar contra algo que acredita ter sido culpa sua?

O que temos que enxergar no Feminismo Radical?

Como foi prometido, vamos conversar sobre o Feminismo Radical hoje, de uma forma mais profunda mas ainda sim de fácil compreensão. Antes eu quero avisar que eu não sigo a vertente RadFem, portanto criei esse texto para ser objetivo, sem qualquer menção de uma opinião contra ou a favor proveniente da minha parte.
Reprodução/Onda Feminista

Primeiramente, vamos deixar claro que as Feministas Radicais são contra qualquer tipo de discriminação, desumanização e violência contra qualquer ser humano. Elas apenas discordam de certos pontos, e discordar (respeitosamente) de alguém, não é um ato violento!!!

O RadFem tem uma visão própria sobre as definições de gênero e sobre o peso que a sociedade tem sobre a existência social do ser humano. A seguir, vamos conhecer os principais pontos abordados por essa vertente feminista.
RadFems não defendem os gêneros,  mas sim a abolição deles. Os gêneros são divisores de classes que delimitam o papel de cada indivíduo perante a sociedade. A extinção dele faria cair por terra os códigos sociais que ditam o que indivíduos masculinos e femininos podem ou não fazer.
O patriarcado faz uso da divisão do gênero para separar a classe masculina da feminina, permitindo assim uma soberania de uma sobre a outra. 

    Reprodução/Internet
    O feminismo radical é um ato revolucionário que tem como objetivo derrubar toda e qualquer forma de divisão de grupos que tenham como função favorecer a soberania um sobre o outro (divisão sócio-econômica [ricos prevalecendo sobre os pobres] e divisão racial [brancos prevalecem sobre os negros] por exemplo).
    Não são transfóbicas. Reformistas de gêneros veem o gênero como: forma de identidade, sentimentos, natural, fluido, até mesmo biológico. Radicais enxergam os gêneros como: criação social (que favorece o lado masculino), hierárquico e divisor de classes. Se um indivíduo é nascido e criado no gênero masculino, mesmo se anunciando como trans posteriormente, ainda é colocado (segundo as divisões SOCIAIS que regem a classificação dos gêneros) como um ser masculino, ou seja, não é visto como mulher.
    Acreditam que a opressão sofrida pelas mulheres ocorre justamente por serem colocadas nessa classificação. Tudo que é criado para marcar coisas de menino e coisas de menina é também uma arma usada para subjugar indivíduos enquadrados em pré determinado gênero.
      Encontrei essa frase no site Escrituras Radicais (link abaixo) que descreve bem os pensamentos de que os conceitos de gêneros são opressores:

      Mulheres: aquelas que pertencem à classe sexual de pessoas historicamente definidas, limitadas, classificadas e designadas como o gênero feminino pelo patriarcado para que possam ter sua subjetividade, seus corpos, sexo, sexualidade e capacidades reprodutivas dominadas, controladas e exploradas por ele para gerar riqueza para os homens.

      Como eu disse, eu não sigo essa vertente feminista, então existem grandes chances de que eu tenha dito (merda) coisa errada ou ter deixado de falar algo importante. Portanto, se você é feminista radical comente o que achou do texto, será um prazer conversar e concertarei o que for necessário. 
      Vou deixar alguns textos que a Mandy do blog Mandy Francesa forneceu aqui. Eles serão muito uteis para quem quiser saber ainda mais sobre o Feminismo Radical. Obrigada Mandy.

      Sobre lugar de fala, repercussões e trolls de internet

      Troll: aqui não
      No começo de tudo, eu tive a ideia do blog Elas por Elas – Projeto Literário. A intenção era criar uma plataforma de empoderamento feminino através da literatura. Pouco tempo depois, ele começou a abordar diversos conteúdos feministas, ganhou colunas e categorias.
      E então eu resolvi criar conteúdo próprio para a página, para dar uma alavancada. E deu certo. Semana passada tínhamos pouco mais de 200 curtidas, e da última vez que olhei estávamos quase atingindo as 2 mil. Um único post, um fluxograma sobre lugar de fala, trouxe todas essas pessoas para cá. E isso eu agradeço, de coração.
      Mas ele também trouxe problemas. Uma página opressora compartilhou nosso post, com um texto sobre “liberdade de expressão” defendendo o direito de todos falarem, mesmo que ofendam alguém. E, com isso, vários usuários dessa página inundaram minha postagem, às vezes com críticas, mas na maior parte do tempo com ofensas.
      Antes de tudo, um esclarecimento: lugar de fala não é sobre silenciamento das maiorias, mas sobre garantir o espaço da minorias. É sobre respeitar seus pontos de vista sobre algo que eles mesmos vivem. E é sobre não engrossar o grupo dos que calaram e calam suas vozes por anos.
      Também recebi comentários compreensíveis de pessoas que diziam que só se pode analisar o discurso do opressor se ele falar. Mas eu, particularmente, achei que estava claro que o fluxograma não era para quem pretende reforçar opressões (de que adiantaria?), mas para aqueles que querem contribuir com as lutas, mas acabam cometendo erros.
      Eu também não acredito em uma plena liberdade de expressão, não na prática, uma vez que discursos levam a consequências. E nessas consequências, muitas vezes, se inclui o silenciamento de parcelas da população. Por isso, entre endossar a “liberdade de ofensa” e incentivar o respeito pela fala daqueles que foram historicamente calados, sempre optaremos pelo segundo.
      Isso tudo além do fato de que desconstrução leva à mudança de pensamento, e não necessariamente você precisa agredir alguém verbalmente e expor seus preconceitos e paradigmas para repensá-los: muitas vezes, basta parar para ouvir o que o outro tem a dizer.
      Dito isto, quero deixar transparente a política do blog e da página: debates são saudáveis e desejáveis, desde que um lado esteja disposto a ouvir de verdade o outro. Por isso não vamos aceitar comentários de usuários que reproduzam discurso de ódio, deboches ou qualquer crítica destrutiva. É ruim para a página, mas principalmente é ruim para nossa saúde mental. Trolls não serão bem-vindos. Se preciso, chamamos o Harry, o Ron e a Hermione pra ajudar a derrotá-los. E se eles não puderem vir, quem insistir em trollar se encaminhará para este endereço:

      Entendendo melhor o que é esse tal de feminismo intersecional

      Reprodução/Pinterest

      Atualmente, temos visto várias vertentes do feminismo sendo citadas em conversas. A que eu vou tratar com vocês hoje é o termo Feminismo Intersecional.


      Esse termo é cunhado pela professora norte-americana Kimberlé Crenshaw em seu livro e ela o define como:

      A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, gênero, classe, capacidades físicas/mentais e etnia.

      Para entenderem um pouco melhor sobre o que estamos falando, vou explicar da seguinte forma, intersecionalidade fala sobre como os diferentes tipos de discriminação interagem. Não há um tipo de feminismo tamanho único e tanto as campanhas feministas como as antirracistas tem deixado as “mulheres de cor invisíveis na visão geral”. 

      Por exemplo, eu sou uma mulher negra e, como resultado, enfrento tanto o racismo como o sexismo ao caminhar em minha vida cotidiana. E nunca essas duas formas de discriminações passaram de forma separada em minha vida.


      Kimberlé Crenshaw em foto do seu twitter oficial
                                   

      Acho importante esclarecer, para uma melhor compreensão, que o termo foi utilizado inicialmente para verificar a aplicabilidade do feminismo negro em leis anti discriminação. Crenshaw citou em uma palestra o caso de Degraffenreid vs General Motors, em que cinco mulheres negras processaram a GM por discriminação de raça e gênero. “O principal desafio da lei é a forma como foi fundamentada, porque a lei anti discriminação olha para raça e gênero como elementos separados”, diz ela. “A consequência disso, é que as mulheres negras americanas — ou quaisquer outras mulheres não-brancas — vivem a experiência de uma discriminação por sobreposição ou conjunta. A lei, inicialmente, não estava lá para vir em sua defesa”.


      A principal coisa que a ‘intersecionalidade’ está tentando fazer, eu diria, é evidenciar que o feminismo, que é em certos discursos excessivamente branco e classe média, representa apenas um tipo de ponto de vista — e não reflete sobre as experiências de diferentes mulheres, que enfrentam múltiplas facetas e camadas presentes em suas vidas.

      Falando como exemplo pessoal, quando o racismo é levantado no feminismo, ele acaba sendo tratado da mesma forma de quando esse tema é proposto em qualquer outro espaço de debate. Os discursos banais habituais são usados ​​e a acusação de “dividir o movimento” é muitas vezes atirada ​​ao redor.

      Então, existem muitas opiniões acreditando que até que o movimento feminista majoritário comece a ouvir os diferentes grupos de mulheres dentro dele, ele corre o risco de se tornar estagnado e não será capaz de seguir em frente. O único resultado disso é que o movimento torna-se fragmentado e continuará a ser menos eficaz.

      Glossário feminista

      Minhas flores e meus espinhos, a alguns dias eu estava participando de uma conversa sobre as diversas formas usadas por machista para atacar as mulheres. O assunto estava tomando um caminho legal, repleto de bons argumentos e tal, até que a palavra misógino foi incluída em um dos comentários, pois logo em seguida uma garota que participava da conversa perguntou: “O que é isso?”.
      Eu levei um susto quando percebi a duvida dela, porque ela se declarava feminista com veemência, mas ficou claro que ela não sabia exatamente a abrangência dessa luta.
      OBVIO que ninguém tem a obrigação de saber de tudo, mas para opinar sobre determinado assunto é necessário, primeiramente,  possuir um conhecimento prévio do mesmo. E é por isso que estou aqui hoje.
      Está surgindo aqui no blog a coluna ‘Entendendo o feminismo’, e vamos inicia-la com um glossário para as leigas e leigos no assunto, um dicionário completo (o mais completo possível) para quem tem alguma duvida sobre esse universo ou quer dar o primeiro passo para se tornar uma miga emponderada.
      Vamos lá?
      FEMINISMO: é um movimento social, filosófico e político que tem como objetivo direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores patriarcais, baseados em normas de gênero.
      MISANDRIA: é o ódio, aversão, preconceito ou desprezo a pessoas do sexo masculino.
      MISOGINIA: ódio ou aversão às mulheres.
      SEXISMO: se refere à discriminações sexuais e conjuntos de idéias ou ações que privilegiam um indivíduo de determinado sexo (gênero ou orientação sexual).
      FILANDRIA: admiração ou amor pelo sexo masculino. Paixão por homens e carinho especial pelo sexo masculino. Gostar de estar na companhia masculina, achar belo o corpo do homem, assim como todo o universo masculino.
      SORORIDADE: união poderosa e transformadora entre mulheres, que visa romper com o estigma de rivalidade. A sororidade é importante para fortalecer a ação coletiva do movimento feminista.
      EMPODERAMENTO: (conscientização) é um processo de aquisição de ferramentas para combater nossas opressões. É quando nos tornamos mais fortes para desconstruir os papéis que nos impõem e para lutar por equidade.
      MACHISMO: é o comportamento, expresso por opiniões e atitudes, de um indivíduo que recusa a igualdade de direitos e deveres entre os gêneros sexuais, favorecendo e enaltecendo o sexo masculino sobre o feminino. Tipo de opressão que a sociedade patriarcal produz contra mulheres. Ele se expressa de diversas formas, das mais evidentes até as mais sutis.
      PATRIARCADO: Sistema social baseado no controle dos machos sobre as fêmeas, em que estes ocupam uma posição central. O patriarcado é o sistema no qual o machismo se baseia – é sob ele que se conformaram historicamente os privilégios da classe masculina em relação à classe de mulheres.

      FEMINISMO RADICAL (radfem): é uma perspectiva dentro do feminismo que exige um reordenamento radical da sociedade em que a supremacia masculina é eliminada em todos os contextos sociais e econômicos. As feministas radicais procuram abolir o patriarcado, papéis tradicionais de gênero e  acreditam em um comportamento de gênero condicionado.

      FEMINISMO INTERSECCIONAL: defende a intersecção entre diversas opressões: de gênero, raça e classe social.
      EQUIDADE: igualdade, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos.
      MANSPLAINING: o termo, que vem do inglês, quer dizer algo como “explicação masculina”. Você logo vai se lembrar de algum exemplo de um conhecido seu, homem, tentando te explicar um assunto que você provavelmente domina mais que ele.
      MANTERRUPTING: do inglês “interrupção masculina”, é quando um homem constantemente interrompe uma mulher falando.
      GASLIGHTING: que é quando uma pessoa tenta te convencer de que você está louca, paranoica e, com isso, invalidar seus sentimentos. O gaslighting está geralmente associado ao relacionamento abusivo, sendo utilizado pelo parceiro para o controle da mulher.
      SLUTSHAMING: quando julgamos uma mulher por ter comportamentos “de vadia”, o que quer que isso signifique. Basicamente, é quando se repudia uma mulher por dispor de sua sexualidade e de seu corpo livremente.

      TOKEN: tokenizar é quando uma pessoa, acusada de alguma opressão, já vem com a resposta pronta “Mas eu até tenho amigos que são…”, como uma tentativa de invalidar a crítica que está recebendo.

      SILENCIAMENTO: no contexto feminista, é o apagamento da voz das mulheres, através de diversos artifícios, como descreditar suas opiniões ou mesmo através de violência.

      REPRESENTATIVIDADE: ato de representar uma minoria e trazer à ela força e formas de seguir com a sua luta.

      PROTAGONISMO: relaciona-se à ideia de que a principal voz dentro do feminismo deve ser daquelas a quem ele mais atende, ou seja, as mulheres.

      TERF: sigla para “Trans Exclusionary Radical Feminists” (inglês para “Feministas Radicais Trans-Excludentes”). O que isso significa? A ênfase é na exclusão – um ato intencional – e a implicação é que isso é baseado em preconceito e na discriminação propositada.

      FEMINISMO LIBERAL (libfem): possui foco na livre iniciativa, que é individual. Para o feminismo liberal, portanto, agimos de acordo com o livre-arbítrio. Exemplos da ideologia das libfem: quando a mulher “consente” não há estupro, quando a mulher intervém no próprio corpo aproximando-o do padrão de beleza hegemônico ela está exercendo liberdade de escolha sobre si.

      Ufa! É muita coisa não é? Mas ainda não acabou, nos próximos posts iremos nos aprofundar mais nesses termos para que possamos entende-los melhor. Faremos postagens específicas sobre cada vertente do feminismo e sobre como podemos ser atingidas direta e indiretamente por tudo isso.
      Ficou com dúvida sobre alguma coisa ou percebeu que me esqueci de algo? Então deixa nos comentários, assim você ajudara a elevar cada vez mais os nossos conhecimentos.
      Beijos e até a próxima.