Para as Marias

Eu vejo o feminismo gourmetizado, polido e bilíngue nas discussões em redes sociais, grupos, sites, blogs, política, mídias.
Eu vejo mulheres, em sua maioria, jovens, engajadas, sedentas, impacientes, com fome do agora e do já, cansadas das imposições de um patriarcado machista.
Eu vejo campanhas, hashtags, protestos, porque machistas não passarão.
Eu observo mulheres inteligentes, cultas, fortes, politizadas, exigentes.
Vejo também mulheres alheias. Que não acreditam na causa, na luta, desnecessária elas dizem, coisa de desocupada, coisa de puta.
Vejo mulheres que se atacam, se destroem, competem, se anulam, se matam, morrem, sofrem, desunião.
Mas, elas não me preocupam. Escolhas, elas tiveram.
Me preocupam mais as Marias.
Me chame de seletiva, sim, talvez seja.
Mas as Marias, essas eu tenho quase uma insônia ao lembrá-las.
As Marias, que são de outras gerações, não são bilíngues, nem politizadas, quiçá alfabetizadas.
As Marias, que nunca ouviram Elza Soares ou Pitty, nem Karol Konka, Mulamba ou Elis.
As Marias, que desconhecem o significado de vontade, de prazer, de não.
As Marias, que a única opção foi o sim, o casamento, o marido provedor, que jurou amar e cuidar, até o fim.
As Marias, que só aprenderam as receitas da vovó, a dizer sim Senhor, nunca questionar e servir sempre.
As Marias, que conheceram o amor/ dor, que são apontadas como culpadas pela infidelidade ou infelicidade. Aquelas que a salvação é a novela das 8, a globo, a bíblia, a missa de domingo, o terço na mão, a prece.
As Marias que não descansam, de pés inchados, que sobem e descem ladeiras, que as mãos estão calejadas do fogo, que o serviço não tem fim. E nem valor.
As Marias que não sabem quem é Simone de Beauvoir. Nem Frida. Nem o atual Girl Power.
E por essas Marias, eu luto, pacificamente.
As vezes só emprestando meus ouvidos ao teu choro, ou meu carinho ao teu rosto marcado.
Por essas Marias eu falo português mal falado, mal conjugado, simplista.
Por elas permaneço, resisto, persisto, canto, protesto, sacrifício.
Por elas tenho fé, esperança. Esperança que as Marias das periferias, ladeiras, cortiços, roças, sertões, tenham força, voz, e uma nova história, uma chance, escolha.
Às Marias eu desejo amor genuíno, paz, e que cesse sua dor.

Tomo a liberdade de usar meu espaço nesta coluna, onde explicamos e falamos sobre o feminismo para lembrar das milhares de mulheres humildes, às vezes sem instrução e sem acesso à informação, sem a liberdade e oportunidade que muitas de nós temos. Lembrarmos que antes de julgar uma mulher é preciso calçar seus chinelos, andar por seus caminhos, vestir a sua pele.
É maravilhoso que podemos ter entendimento sobre a causa, termos, livros, pautas. Mas há mulheres presas em uma realidade aquém à nossa.
O feminismo é coletivo, uníssono, e para todas. Até para as que não o querem.
Segregação não é o caminho para a libertação das mulheres.
Seremos mais fortes quando descobrirmos que juntas podemos muito mais.

Glossário LGBT+, entenda e nos ajude a entender

Não se esqueça, nossos glossário sempre serão corrigidos/atualizados de acordo com o que aprendemos, nos deixe suas considerações nos comentários.

Existem muitas nomenclaturas no mundo LGBT+ e nem todas são familiares. Por isso, resolvi criar nosso segundo glossário (o primeiro), para que possa ajudar a todos os que tenham interesse em saber mais.

De acordo com o site www.lgbt.pt/, a sigla LGBT possui o seguinte significado:

“Antigamente como GLS (Gays, Lésbicas e simpatizantes) e atualmente como LGBT, a sigla indicada refere-se a: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Transexuais e Simpatizantes. Como a própria sigla e o seu conceito indicam não é necessário ter traços ou características homossexuais para se identificar dentro do conceito LGBT, os simpatizantes também são englobados, visto que prestam o seu apoio  a toda esta comunidade.”

ORIENTAÇÃO SEXUAL – diz respeito a atração que sentimos por outras pessoas. Essa atração pode ou não ser por indivíduos do mesmo sexo. Orientação sexual NÃO É UMA ESCOLHA, nós nascemos com ela.

 

HETEROSSEXUAL – sente atração apenas por pessoas do mesmo sexo.  

 

HOMOSSEXUAL – sente atração por pessoas do mesmo sexo. Os termos GAY e LÉSBICA são usados para definir homens e mulheres homossexuais.  

 

BISEXUAL – uma pessoa bi sente atração tanto por homens quanto por mulheres.

 

PANSEXUAL – a pansexualidade representa pessoas que se relacionam (de forma sexual e/ou amorosa) com qualquer pessoa, independente do sexo ou gênero dela, ou seja, se atraem por homens, mulheres, trans, interssexuais, etc. Também é chamado de trissexualidade, polissexualidade ou omnissexualidade.

 

POLISEXUAL – é que sente atração por várias pessoas, de vários gêneros, mas não por todos.

 

ASSEXUAL – quem se identifica dessa forma não sente atração sexual por pessoa alguma. Ela pode se relacionar emocionalmente com alguém, namorar, casar, mas sem interesse pela prática sexual.

 

DEMISEXUAL – as pessoas demisexuais são passiveis a sentir atração sexual, mas apenas quando existe uma forte relação emocional entre ela e a pessoa com a qual está envolvida. Existe também a graysexual (zona cinza), grupo ao qual pertence as pessoas que transitam entre a demi e a assexualidade. Entenda, essa transição não é feita por escolha.

reprodução/Diário Paraíba

IDENTIDADE DE GÊNERO – diz respeito à forma como você se identifica com o seu corpo e o sexo com o qual você nasceu. Podemos nos identificar como homem, mulher, ambas ou nenhuma das opções.

 

GÊNERO – socialmente definido como sendo binário (feminino, masculino), mas sabemos agora que pode variar de acordo com a identidade de cada um.

 

TRANSGÊNERO – é quem tem uma identidade de gênero diferente daquele atribuída ao sexo com o qual nasceu. A orientação sexual independe da transgeneridade, podendo um transgênero ser hetero, gay, pan, bi, etc… Travestis e Drag queens são considerados neste grupo.

 

TRANSEXUAL – quem faz mudança de sexo para se adequar ao gênero com o qual realmente se identifica.

 

GÉNERO BINÁRIO – é a divisão entre dois gêneros: feminino e masculino

 

GENDERQUEER (GÊNERO NÃO-BINÁRIO) – pessoas que não se identificam como homem ou mulher, ou transitam entre ambos os gêneros ou, até mesmo, são uma junção de ambos.

 

BIGÊNERO – Se apresenta com os gêneros feminino e masculino ao mesmo tempo.

 

CISGENERO – é quem se identifica com o gênero com qual o qual nasceu (homem cis e mulher cis).

 

GÊNERO FLUIDO – pessoas que mudam de gênero de acordo com o que se sentirem melhor no momento.

 

GÊNERO NÃO-CONFORMISTA – pessoas cuja aparência e/ou comportamento não condiz com o que a sociedade espera de determinado gênero. Como os chamados transformistas e garotas masculinas.

 

AGÊNERO – ausência de gênero. Quem usa esse termo não se encaixa nas definições de gênero binário ou não aceita a divisão e o conceito de gênero.

 

Há muitos outros termos usados nas rodas de conversas e nos textos que lemos pela internet.

 

SEXO BIOLÓGICO – forma de se identificar a genitália de alguém.

 

PAPEL SOCIAL DE GÊNERO – é o conjunto de expectativas e atitudes esperadas de cada gênero específico.

 

HOMOFOBIA – é a rejeição e aversão aos homossexuais. Que pratica homofobia é o chamado homofóbico.

 

HETEROFOBIA – as manas aqui do Elas são unânimes em dizer que isso não existe.

 

CROSS-DRESSING –  é um termo que se refere a pessoas que vestem roupa ou usam objetos associados ao sexo oposto.

 

Nossos glossários são eternos fontes de aprendizagem e mudanças. Portanto, sempre que encontrarmos confiança para falar de algum termo em específicos, faremos um texto unicamente para esse termo e conversaremos a fundo sobre ele.  Nossos leitores são convidados a nos ajudar, corrigir e até a enviarem seus próprios textos para publicação aqui no blog.

 

Fontes

www.lgbt.pt

www.memorialgbt.com

www.lgbtbrasil.com.br

www.demisexuality.org

 

 

A importância da educação para as mulheres

 

Falamos várias vezes da importância de valorizar as diversas artes feitas por mulheres, principalmente literária, porém não levamos em consideração o fato de que vivemos em uma sociedade em que nem todas as mulheres tem acesso à educação. As causas dessa, não educação as mulheres, são muitas e não podemos deixar de enfatizar que em sua maioria as mais atingidas são mulheres negras e periféricas.

Um índice que está interligado a essa problemática, é o Brasil ser o 4º país do mundo com maior número de casos de casamento infantil, segundo a ONU, com 36% das mulheres se casando com menos de 18 anos. Ainda segundo a ONU, o casamento é responsável por 30% da evasão escolar no ensino fundamental e médio, o que deixa as mulheres vulneráveis a maior dificuldade em trabalhar. Além disso, a maternidade precoce também pode ser um motivo para a saída da escola.

Foto: retirada da internet

A exclusão feminina da educação vem de um processo histórico. No Brasil, só em 1755 passou a existir escolas para a educação oficial de meninas. E só em 1887 se formou a primeira medica no Brasil: Rita Lobato Velho.

No século XVI, na própria metrópole não havia escolas para meninas. Educava-se em casa. As portuguesas eram, na sua maioria, analfabetas. Mesmo as mulheres que viviam na Corte possuíam pouca leitura, destinada apenas ao livro de rezas. Por que então oferecer educação para mulheres ‘selvagens’, em uma colônia tão distante e que só existia para o lucro português? (Ribeiro, 2000, p.81).

Assim, nosso papel na sociedade é incentivar cada vez mais que as meninas permaneçam nas escolas e que possam ter um futuro com maiores oportunidades. Para que tenhamos mais mulheres na literatura.

Poliamor e o Feminismo

Imagem: Sucesso nos Relacionamentos

Com toda a discussão sobre liberdade, escolhas, relações abusivas, denúncias, machismo, é quase impossível não falar sobre Poliamor.

Primeiro, gostaria de deixar claro que se trata de um ponto de vista e opinião pessoal. E a liberdade para contrapor sua opinião é assegurada aqui nos comentários.

O Poliamor é muitas vezes confundido com o relacionamento aberto. Mas são formas de se relacionar bem distintas.

Seria o Poliamor um relacionamento intimo e simultâneo entre três ou mais pessoas, de forma respeitosa, responsável e consciente de todos os envolvidos. Se trata de uma relação com vínculo afetivo, e não somente sexual ou casual. E é essa intimidade e compromisso que o difere do relacionamento aberto ou livre, que em sua grande maioria é uma busca por outros parceiros sexuais apenas.

A relação com base no Poliamor requer uma certa evolução, um autoconhecimento e autocontrole. Uma relação onde não há espaço para o ciúmes, as comparações, controle sobre a vida do parceiro ou exigências em relação a sua agenda ou disponibilidade. Há um acordo entre as partes, onde o respeito, a sinceridade, o amor e a estabilidade emocional são peças fundamentais para que a relação flua e seja prazerosa.

Mas onde entra o feminismo?

Justamente por ser uma relação não exclusiva que o feminismo tem uma preocupação para com as pessoas envolvidas, principalmente por essa relação ter potencial para servir como desculpa e apoio de um relacionamento abusivo e de infidelidade.

O mais importante antes de entrar em qualquer relacionamento é desconstruir a visão de amor romântico padrão das novelas e filmes.

Você precisa se conhecer, saber como seria lidar com seu parceiro ou parceira se relacionando com outra pessoa, com o seu conhecimento. Como vc lidaria com o ciúmes. Qual seria seu nível de satisfação nessa relação. Tudo deve ser questionado.

Você não pode e não deve se relacionar com o intuito de salvar uma relação monogâmica em crise, muito menos se anular para satisfazer a outra parte. Deve ser uma escolha mútua e negociável.

Entenda que uma pessoa infiel é diferente de uma pessoa com espírito livre, e que o pilar mais importante de toda relação, poli ou monogâmica, aberta ou livre deve ser o respeito.

É preciso avaliar se está pronto (a) para algo semelhante e se isso será prazeroso para ambos. A relação deve ser fluida, não um sacrifício. Tudo deve ser previamente discutido, consensual, garantindo a integridade e a segurança dos envolvidos.

Dessa forma o Poliamor exige um olhar para si, uma autoestima, uma desconstrução.

Questione- se, você se adaptaria à essa forma de relação? Você conseguiria controlar ou extinguir o ciúmes, as cobranças, saber do envolvimento sexual do seu parceiro ou parceira com outras pessoas?

Lembrem-se de se respeitar. De se cuidar. Não se anular em função de viver uma relação que não é prazerosa para você.

Não se intoxique para beneficiar outra pessoa.

 

 

impunidade

Impunidade masculina segue firme (e nós seguimos com medo)

A violência contra a mulher é um mal sistêmico ao qual absolutamente todas estamos sujeitas. A configuração de nossa sociedade é o que nos empurra para essa situação, onde as que não sofreram ainda alguma situação de violência de gênero aprenderam a conviver com o medo dela.

E a forma como são tratados os agressores não apenas cria sentimentos de injustiça e impotência, como também reforça a insegurança. No caso do estupro, por exemplo, estima-se que apenas 3% das denúncias resultam em condenação no Brasil. TRÊS-POR-CENTO. É importante lembrar que calcula-se também que apenas 35% dos estupros no Brasil são notificados. Isso significa que 65% dos casos de estupro não têm a menor chance de condenação.

Impunidade
Imagem: Istoé

Em meio a isso, uma sugestão de lei em tramitação no Senado Federal torna crime hediondo e inafiançável a falsa comunicação de estupro. Atualmente ela se encontra aberta para votação do público, com 21.255 votos a favor e 20.297 votos contra.

Para uma comunicação de crime ser considerada falsa, é necessário muito pouco. Os números acima já demonstram o quanto nosso sistema ainda precisa evoluir para agir adequadamente perante casos de violência sexual. Com nosso judiciário atual, uma denúncia considerada falsa não necessariamente é falsa.

Se essa lei for aprovada, ao não conseguirem reunir provas suficientes (que muitas vezes não existem, pois nem toda violência sexual deixa marcas físicas), além do medo de ver seus agressores impunes, mulheres abusadas também deverão temer a cadeia.

A impunidade masculina conta ainda com ferramentas poderosas para sua própria manutenção. Quanto mais alta sua posição na pirâmide social, maior a chance de um homem não pagar pelos seus atos. E a ausência de penalidade não aparece apenas no âmbito judicial, mas contempla todos as esferas da sociedade.

Sempre que um caso de assédio, estupro, violência doméstica ou qualquer outra opressão de gênero repercute na mídia, uma boa parcela da população se arma em defesa do agressor. Vide textos já postados aqui no blog, sobre os casos dos atores José Mayer e Johnny Depp.

São tantos exemplos, alguns já repetidos diversas vezes, mas as listas crescem cada vez mais. Assédio na Playboy. Abuso e assédio sexual por Cassey Affleck. Agressão e violência psicológicas televisionadas em reality show. Goleiro Bruno. Isso, para citar apenas alguns dos casos que repercutiram este ano. E ainda estamos em abril.

 

Da esquerda para a direita: André Luís Sanseverino e Marcos Aurélio de Abreu (presidentes da Playboy), Casey Affleck, Marcos e Bruno. (Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio via Canva)

 

Os dois últimos devem ser comentados aqui. A espetaculização de um caso de violência contra a mulher marcou o caso do Big Brother Brasil, em que Marcos (37 anos) agrediu diante de câmeras sua parceira Emily (21).

Providências tomadas pela Globo? Nenhuma. Ao menos não até que a polícia do Rio de Janeiro começar a investigar o caso e determinar a expulsão do participante. Isso, pouco depois da repercussão do caso José Mayer, que resultou apenas no afastamento do ator. Novamente, reforçando: a emissora não fez nem a sua obrigação.

O público também tem a sua parcela de culpa na criação do circo em torno da situação, já que é a audiência que guia as ações da emissora e sua insistência em sustentá-la. Importante lembrar que, inclusive, Marcos teve a preferência do público para ficar no programa mesmo depois que as agressões viralizavam pela internet, e à época de sua expulsão, a hashtag “forcamarcos” chegou aos Tredding Topics no Twitter.

Para fechar (ao menos por enquanto), no dia 22 de abril, Marcos publicou uma carta aberta para Emily em que se colocava como vítima da situação, inclusive a culpabilizando por denunciar sua agressão. E além de ele continuar recebendo apoio, internautas agora caem na mesma linha de raciocínio e acusam Emily de falsa e aproveitadora, espalhando a nova hashtag “emilyjudas”.

Já sobre o goleiro Bruno, caso antigo que voltou a receber atenção este ano com a soltura do jogador, dois pontos. O primeiro: acusado de mandar matar e ocultar o corpo da ex-companheira Eliza Samúdio (que estava grávida), Bruno tem fã-clube, assédio (positivo) de público em busca de selfies e autógrafos e foi contratado pelo time Boa Esporte Clube. Tratado como celebridade por um número muito maior de pessoas que se esperaria de alguém que ainda nem mesmo pagou pelo seu crime.

Segundo ponto: o Boa amargou a péssima repercussão da contratação, perdendo patrocinadores. Bruno voltou à prisão por decisão STF. É um ponto positivo, sim, mas que infelizmente não apaga todos os pontos negativos que já vivenciamos. É sempre bom lembrar que cada vitória conta, mas uma sociedade machista sempre nos colocará em risco.

Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” Simone de Beauvoir

É por isso que é tão importante não nos silenciarmos. Para não deixarmos que nossos direitos nos sejam tomados e para lutar para que agressores sejam punidos. E outra coisa que eu sempre insisto quando reclamam da repercussão que damos para esses casos, como se “não soubessemos perdoar”:

Muitos deles têm como única punição a repercussão negativa espalhada por nós. Se você é um dos que nos criticam, por favor: nos deixem falar. Já é tão pouco comparado com o que realmente é justo, e querem nos calar. Nos deixe ao menos fazer algo, mesmo que seja pouco, para tentar equilibrar essa balança. Porque o mundo está cheio de advogados para os homens, contra muito poucos promotores. E isso não é, de forma alguma, justiça.

Virgínia Woolf e a luta pelo espaço da mulher – Parte II

Como seguir o caminho do feminismo sempre remendado pela sociedade? 

 

Foto: Google Imagens

 

No Entendendo o Feminismo da semana passada (12/04), publicamos a primeira parte do texto Profissões para Mulheres, da ensaísta, escritora e editora britânica, Virgínia Woolf. O texto foi produzido especialmente para um encontro entre profissionais na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, pela qual a escritora foi convidada para falar sobre suas experiências profissionais. Era 21 de janeiro de 1931, ano em que muitas mulheres começaram a ingressar no mercado de trabalho britânico. Hoje publicamos a segunda parte do texto, lido por Woolf nesse encontro.

 

Profissões para mulheres

Parte II

 

Mas retomando a história de minhas experiências profissionais. Recebi uma libra, dez xelins e seis pences por minha primeira resenha, e comprei um gato persa com esse dinheiro. E aí fiquei ambiciosa. Um gato persa é uma coisa ótima, disse eu; mas um gato persa não chega. Preciso de um carro. E foi assim que virei romancista – pois é muito estranho que as pessoas nos deem um carro se a gente contar uma história para elas. E é ainda mais estranho, pois a coisa mais gostosa do mundo é contar histórias. É muito mais agradável do que escrever resenhas de romances famosos. Mas, se é para atender à secretária de vocês e lhes contar minhas experiências profissionais como romancista, preciso falar de uma experiência muito esquisita que me aconteceu como romancista. E, para entende, primeiro vocês têm de tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Acho que não estou revelando nenhum segredo profissional ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser o mais inconsciente possível. Ele precisa se induzir a um estado de letargia constante. Ele quer que a vida siga com toda a calma e regularidade. Enquanto escreve, ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas um dia depois do outro, um mês depois do outro, para que nada venha a romper a ilusão em que vive – para que nada incomoda ou perturbe os misteriosos movimentos de farejar e sentir ao redor, os saltos, as arremetidas e as súbitas descobertas daquele espírito tão tímido e esquivo, a imaginação.

Desconfio que seja o mesmo estado de espírito para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês imaginem uma moça sentada com uma caneta na mão, passando minutos, na verdade horas, sem molhar a pena no tinteiro. Quando penso nessa moça, a imagem que me ocorre é alguém pescando, em devaneios à beira de um lago fundo, com um caniço na mão. Ela deixava a imaginação vaguear livre por todas as pedras e fendas do mundo submerso nas profundezas de nosso ser inconsciente. Então vem a experiência, a experiência que creio ser muito mais comum com as mulheres do que com os homens que escrevem. A linha correu pelos dedos da moça Um tranco puxou a imaginação. Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes maiores. E então bateu em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada, tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do sonho. E de fato ficou na mais viva angústia e aflição. Falando sem metáforas, ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela, como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe dizia que os homens ficariam chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que escrevem – ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois, embora sensatamente o homens e permitam grande liberdade em tais assuntos, duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a mesma liberdade nas mulheres.

Então, essas foram duas experiências muito genuínas que tive. Foram duas das aventuras de minha vida profissional. A primeira – matar o Anjo do Lar – creio que resolvi. Ele morreu. Mas a segunda, falar a verdade sobre minhas experiências do corpo, creio que não resolvi. Duvido que alguma mulher já tenha resolvido. Os obstáculos ainda são imensamente grandes – e muito difíceis de definir. De fora, existe coisa mais simples do que escrever livros? De fora, quais os obstáculos para uma mulher, e não para um homem? Por dentro, penso eu, a questão é muito diferente; ela ainda tem muitos fantasmas a combater, muitos preconceitos a vencer. Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez?

São perguntas que gostaria de lhes fazer, se tivesse tempo. Na verdade, se insisti nessas minhas experiências profissionais, foi porque creio que também sejam as de vocês, embora de outras maneiras. Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto – quando nada impede que uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública –, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver as dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente. Toda a questão, como eu vejo – aqui neste salão, cercada de mulher que praticam pela primeira vez na história não sei quantas profissões diferentes –, é de importância e interesse extraordinário. Vocês ganharam quartos próprios na casa que até agora era só dos homens. Podem, embora com muito trabalho e esforço, pagar o aluguel. Estão ganhando suas quinhentas libras por ano. Mas essa liberdade é só o começo; o quarto é de vocês, mas ainda está vazio. Precisa ser mobiliado, precisa ser decorado, precisa ser dividido. Como vocês vão mobiliar, como vocês vão decorar? Com quem vão dividi-lo, e em que termos? São perguntas, penso eu, da maior importância e interesse. Pela primeira vez na história, vocês podem fazer essas perguntas; pela primeira vez, podem decidir quais serão as respostas. Bem que eu gostaria de ficar e discutir essas perguntas e respostas – mas não hoje. Meu tempo acabou, e paro por aqui.

 

*Virgínia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942. 

 

 

 

Virgínia Woolf e a luta pelo espaço da mulher – Parte I

Como seguir o caminho do feminismo sempre remendado pela sociedade? 

 

Foto: Google Imagens

 

Mudar a opinião comum de uma sociedade requer séculos de insistência, argumentação e luta. É como lutar contra uma árvore plantada e cuidada diariamente desde o século 19, criando suas raízes hoje inabaláveis. Assim foi com o machismo. Assim é o preconceito em geral, bem como as crenças populares – manga com leite. E por mais que exista um grupo forte, consolidado na sensatez, a cegueira permanece. Lidar com uma nova verdade, a cegueira branca, desperta medo, raiva e violência.

O feminismo é uma prova disso. A inserção da mulher no mercado de trabalho, no seu reconhecimento enquanto cidadã, eleitora, consumidora ativa, formadora de opinião e líder, são acontecimentos presentes no mundo que tiveram o start na era industrial, no século XVIII. Ainda assim, presenciamos declarações impostas e generalizadas sobre o verdadeiro lugar e função da mulher para com ela mesma, a família e humanidade.

Avançamos em diretos cidadãos, retrocedemos quanto a violência doméstica. Avançamos no mercado de trabalho, retrocedemos na disparidade salarial. Avançamos na Lei Maria da Penha, retrocedemos nos casos diários de assédio e estupro.

Trata-se de um trabalho de costureira. Você faz o corte e começa a costura, mas a linha arrebenta. Refaz a linha, refaz o caminho, mas novamente arrebenta. Começa de novo. Refaz. Refaz. Refaz. Vamos remendando até um dia chegar lá. E é um remendar que está sendo feito há séculos.

Virgínia Woolf, ensaísta, escritora e editora britânica, observou e escreveu sobre essa luta constante em um momento importante da Inglaterra. Em 21 de janeiro de 1931, ano em que muitas mulheres começaram a ingressar no mercado de trabalho do país monarca, Woolf foi convidada para um encontro na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, onde leu o texto Profissões para Mulheres. Publicamos hoje a primeira parte, sendo a segunda disponibilizada na próxima quarta, sempre na coluna Entendendo o Feminismo.

 

Profissões para mulheres

Parte I

 

Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer. Minha profissão é a literatura; e é a profissão que, tirando o palco, menos experiência oferece às mulheres – menos, quero dizer, que seja específicas das mulheres. Pois o caminho foi aberto muitos anos atrás – por Fanny Burneym Aphra Behn, Harriet Martineau, Jane Austen, George Eliot ¹ -; muitas mulheres famosas e muitas outras desconhecidas e esquecidas vieram antes, aplainando o terreno e orientando meus passos. Então, quando comecei a escrever, eram pouquíssimos os obstáculos concretos em meu caminho. Escrever era uma atividade respeitável e inofensiva. O riscar da caneta não perturbava a paz do lar. Não se retirava nada do orçamento familiar. Dezesseis pences bastam para comprar papel para todas as peças de Shakespeare – se a gente for pensar assim. Um escritor não precisa de pianos nem de modelos, nem de Paris, Viena ou Berlim, nem de mestres e amantes. Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras, antes de dar certo nas outras profissões.

Mas vamos à minha história – ela é simples. Basta que vocês imaginem uma moça num quarto, com uma caneta na mão. Só precisava mover aquela caneta da esquerda para a direita – das dez à uma. Então ela teve uma ideia que no fundo é b em simples e barata – enfiar algumas daquelas páginas dentro de um envelope, colar um selo no canto de cima e pôr o envelope na caixa vermelha d esquina. Foi assim que virei jornalista; e meu trabalho foi recompensado no primeiro dia do mês seguinte – um dia gloriosíssimo para mim – com uma carta de um editor e um cheque de uma libra, dez xelins e seis pences. Mas, para lhes mostrar que não mereço muito ser chamada de profissional, que não conheço muito as lutas e as dificuldades da vida de uma mulher profissional, devo admitir que, em vez de gastar aquele dinheiro com pão e manteiga, aluguel, meias e sapatos ou com a conta do açougueiro, saí e comprei um gato – um gato lindo, um gato persa, que logo me criou sérias brigas com os vizinhos.

Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento? Mas esperem aí. Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre um romance de um homem famoso. E quando eu estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, “O Anjo do Lar”. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era exatamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo. E, quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto.

Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura”. E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro – digamos, umas quinhentas libras anuais? –, e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir. Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela.

Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo em busca de aventuras. Mas foi uma experiência real; foi uma experiência inevitável para todas as escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atividade de uma escritora.

Mas continuando minha história: o Anjo morreu, e o que ficou? Vocês podem dizer que o que ficou foi algo simples e comum – uma jovem num quarto com um tinteiro. Em outras palavras, agora que tinha se librado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é “ela mesma”? Quer dizer, o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato esta é uma das razões pelas quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da maior importância.

 

*Virgínia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942.

** Continua na próxima quarta-feira (19), na coluna Entendendo o Feminismo

 

Homem, você tem medo de quê?

Em uma sala de aula de inglês, dividi os oito alunos em dois grupos – quatro mulheres e quatro homens – e pedi para que eles conversassem entre eles sobre quais seriam as vantagens de ser do sexo oposto. Os homens conversaram sobre as vantagens de ser mulher, e as mulheres sobre as vantagens de ser homem. Até então, havia sido uma aula bem leve, engraçada, sobre os estereótipos de gênero presentes na sociedade e o quão distantes da realidade eles de fato são. A maioria das minhas alunas, por exemplo, não gostava de crianças e não pretendia ser mãe. Meus alunos todos gostavam de cozinhar e eram responsáveis por afazeres domésticos. Até aí, ok.

A discussão em grupos, no entanto, tomou uma proporção que talvez eu já devesse ter esperado. Ao listarem as vantagens de ser mulher, meus alunos – talvez inocentemente – apontaram que mulheres pagam menos para entrar nas festas, recebem bebidas e geralmente não precisam pagar a conta em um encontro. Da mesma forma, mulheres não são obrigadas a se alistarem, se aposentam mais cedo e etc.

Podemos discutir sobre a forma como meus alunos, enquanto homens, são alheios ao real significado dessas supostas vantagens: pagamos menos em festas pois somos a mercadoria da festa; recebemos bebidas pois os homens tendem a esperar receber algo em troca; não pagamos a conta pois o cavalheirismo assim o dita, e o que é o cavalheirismo se não uma forma de afirmação de superioridade, de dominação?; podemos dizer que o alistamento não é obrigatório a mulheres por que, majoritariamente, não nos querem lá, porque não somos consideradas fortes o suficiente, boas o suficiente; nos aposentamos mais cedo pois vivemos, ainda, uma dupla jornada que nos liquida no decorrer dos anos e, muitas vezes, impede o nosso progresso profissional. Mas não é sobre isso que precisamos conversar.

É sobre as vantagens de ser homem.

Minhas alunas, todas novas, adolescentes e jovens adultas, entre risadas desconfortáveis, sorrisos resignados e olhares para mim – como elas, uma mulher – listavam as vantagens de ser homem: as pessoas te respeitam sem você precisar fazer nada de mais; você pode andar na rua de noite sem ter medo de ser estuprada; se é um assalto, só levam as suas coisas, você não corre outros riscos; você pode beber em festas sem ser julgada por isso e sem se tornar vulnerável aos avanços de homens ao redor.

Se algum leitor homem chegar a esse texto, gostaria que me respondesse essa pergunta: Qual é o seu maior medo? Por que o nosso, claramente, é você.

Me chocou naquele momento, como sempre me choca quando escuto relatos de mulheres sobre as batalhas de se ser mulher, a quantidade extrema de medo com a qual convivemos diariamente. Temos medo de sair de casa, temos medo, em alguns casos, de voltar para casa. Temos medo no nosso ambiente de trabalho, de estudo, de lazer. Carregamos esse medo conosco todo o dia, e ele pesa, e ele nos limita. Me pergunto agora, assim como me perguntei naquela hora, olhando para os meus alunos calmos e leves, e para as minhas alunas que traziam um misto de tensão, tristeza e revolta, se os homens fazem ideia do medo que sentimos, do que é viver com pavor.

Me lembrei, compartilhei com eles, e venho aqui compartilhar com vocês, uma frase da maravilhosa Margaret Atwood que resume bem a discrepância entre os pesos que sujeitos masculinos e femininos carregam na nossa sociedade, na esperança de gerar uma reflexão da importância do feminismo como um movimento filosófico e político, e do longo caminho que ainda temos a percorrer para que uma total igualdade seja alcançada:

“Homens têm medo que mulheres riam deles. Mulheres têm medo que homens as matem.”

Stella Gibson,  The Fall – BBC

José Mayer, o seu assédio não é sobre você

Globais na campanha "Mexeu com uma, mexeu com todas" (Chega de assédio)

Na última sexta-feira (31/03), a figurinista Susslem Tonani expôs o assédio sexual que sofreu por parte do ator José Mayer. O relato, publicado em um blog do jornal Folha de São Paulo, logo foi tirado do ar, mas ficou tempo o bastante para que internautas capturassem a tela e o espalhassem pela rede. A repercussão foi imediata. E, como em toda situação do tipo, ao mesmo tempo em que muitos discutiam a gravidade da situação, logo o brado dos defensores do privilégio masculino começou a se fazer ouvir.

Comentários na postagem no Facebook de uma das matérias sobre o assunto

Mas nesse caso, diferentemente​ de muitos outros, a discussão não se limitou aos espaços da internet. Várias artistas (principalmente globais) começaram a se posicionar a favor de Susslem, espalhando a campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”. Uma das primeiras a se manifestar repudiando o ocorrido foi a atriz Letícia Sabatella, ainda dando a entender que esse não teria sido a primeira atitude reprovável do ator.

Nessa sucessão de acontecimentos, o que veio a seguir foram reações que ora beiravam o absurdo, ora a dissimulação. Primeiro, José Mayer declarou inocência, alegando ainda que as ações descritas por Susllem não eram de seu feitio, e sim dignas de seu personagem Tião Bezerra, vilão na novela A Lei do Amor. Mesmo se houvesse prova de sua inocência, a falsa leveza com que o ator tratou o assunto revela uma realidade sobre a forma como o assédio é encarado em nossa sociedade: uma trivialidade.

Após o aumento da repercussão do caso, no entanto, Mayer voltou atrás na negação e divulgou uma carta aberta onde dizia que “errou” e que não tinha “a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar” com suas “brincadeiras machistas”. Sim, brincadeiras. Sem chegar a negar qualquer parte específica do depoimento de Susllem (que incluíam a descrição de um momento em que o ator tocou suas partes íntimas), Meyer disse que tudo não passou de uma suposta brincadeira de mau gosto. Ao minimizar as próprias ações, ele não apenas reforça a já forte naturalização dessa forma de violência, como ainda diminui a credibilidade dessa e consequentemente de outras denúncias.

Vale ressaltar que o conteúdo da carta, é uma sucessão de justificativas e tentativas de mudar o foco do assunto. O único momento em que ela se direciona propriamente​ a vítima, é ao se anunciar como um pedido de desculpas. Ainda assim, não é isso que seu conteúdo traz. Todo o tempo a única palavra que parece ressoar é “eu”. Chegando ao ponto inclusive​ de trazer este absurdo trecho: “A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança”. O que em tese seria um reconhecimento do mal causado a uma mulher, não passa de uma tentativa de apaziguamento.

O foco de uma experiência de assédio não deve jamais ser o aprendizado do homem. Homens esses que não deveriam precisar assediar ninguém para aprender que não devem fazê-lo ou que o mundo é machista. E tratar essa situação puramente como um aprendizado pessoal, sem citar por um único segundo o sofrimento infringido por ele em uma ou talvez até mais mulheres, é covarde e desonesto.

Globais na campanha "Mexeu com uma, mexeu com todas"
Atrizes com a camiseta da campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”

Prosseguindo, muitos comemoraram a atitude da Rede Globo, de suspender indefinidamente o ator, já tomando um de seus papeis garantidos em uma próxima novela. Seja por não estarmos acostumados a ver punição para assediadores (principalmente em posições com certo poder), seja por isso supostamente criar um precedente para que novos casos sejam suprimidos. Eu, no entanto, não consigo ser tão otimista. Antes de tudo, é importante lembrar que a emissora não fez nem o mínimo, que seria demitir um ator que cometeu um crime. Para piorar, diretamente relacionado com a empresa (por ter sido contra outra funcionária) e em local de trabalho.

Além disso, o histórico de inconsistências da Globo não me deixa acreditar que isso seja um precedente nem dentro da própria empresa. E fica ainda mais difícil acreditar que uma ação específica teria tanto poder para mudar um problema estrutural. Aliás, algo já deu para perceber que não mudou. Mesmo após a confirmação do ato pelo próprio José Mayer, ainda é possível notar todo tipo de absurdo o público comum, com defesa do assediador e culpabilização da vítima.

Comentários na postagem sobre a carta aberta

Como eu sempre falo no blog, a luta não pode parar. Ao menos uma coisa me deixa esperançosa nessa repercussão. A ação das artistas em prol de Susllem mostrou o poder que nós mulheres temos ao nos unirmos. Por mais que nesse caso tenha sido necessária a voz de mulheres em alguma posição de poder, isso já é um avanço e um incentivo para que continuemos nessa jornada, nos apoiando e erguendo umas às outras. Que possamos cada vez mais nos fazer ouvir e surtir os efeitos que queremos e precisamos. E sem mais homens tomando a dor que nos provocam como suposto aprendizado para eles mesmos, sem mais impunidade para seus atos, sem mais naturalização de violência que nos atinge.

Ps: e reforçando a ideia de que a prioridade em casos de assédio nunca é o assediador, este post não traz imagens de José Mayer

Também recomento este texto da Carta Capital sobre o assunto: A carta de José Mayer mostra o fosso entre homens e mulheres

Sobre ser feminista e cristã

Muitas vezes ouvi de religiosos que a submissão era a liberdade para mulheres. Que nascer para servir ao seu esposo, à sua família e à sua igreja era perfeito e do agrado do Criador. Que isso estava na Bíblia, e que o contrário era pecado.
Mulheres independentes, decididas, de personalidade são mundanas e pecadoras.
O fato é que mais e mais mulheres têm se libertado desse conceito.
É diante disso afirmo, há sim como existir a dedicação à uma fé e ao mesmo tempo querer a igualdade social e a equidade entre homens e mulheres.
Estudando a Bíblia vemos passagens de mulheres importantes, mulheres de grande relevância histórica, e vemos também que Jesus, filho de Deus, Santo, e Messias não fez em nenhum momento de sua passagem na terra distinção entre homem ou mulher.
Há de se observar também que era uma outra época. Pouco ou quase nada era de fato “coisa de mulher”, elas sequer eram contadas nos censos das cidades.
Mas os tempos são outros.
E essa imposição de que o feminismo é promiscuidade vem imposto por líderes de igrejas, homens, o patriarcado que teme a perda do controle sobre as mulheres.
Que sente seu território ameaçado, que sente que perderá o poder sobre a mente e a vida das pessoas.
Tenho acompanhado de perto uma grande quantidade de mulheres cristãs, que vivem em intimidade com o Espírito Santo, mas que já não possuem os sonhos das moças do antigo catequese, casar, ser mãe ficou em segundo plano. Elas querem estudar, fazer a diferença.
Isso se dá ao fato de descobrirem a liberdade que o feminismo propõe à elas. De terem o poder de escolha sobre suas vidas, sem perder sua fé e sem desrespeitar sua crença.
Sem se transpor sobre nenhum gênero, sobre acolher e respeitar pessoas como indivíduos.
O cristianismo tem como base um livro histórico, mas que foi escrito por homens.
Vivemos outro tempo, mas infelizmente para as mulheres pouco mudou.
Ainda conquistamos nosso espaço, devagar. E você mulher, não precisa ser submissa se não for dá sua vontade.
Lembrem-se que Jesus quando veio à terra, era considerado rebelde, muito moderno, muito louco pra sua época. Aos poucos ele trouxe discernimento ao povo que só seguia ordens, e trouxe a liberdade.
Assim é o feminismo para as mulheres. Uma ideia ousada, radical, mas a janela para um mundo livre e de múltipla escolha, ou de escolha nenhuma. Você é dona de si, independente do Deus que você saúda.

 

Não entrarei no mérito de citar passagens da Bíblia, porque todo trecho tirado do contexto do todo é passível de interpretação pessoal. Porém, quando se fala de submissão na Bíblia, se fala de mutualidade. Ou seja, tanto homem quanto mulher se sacrificam em benefício de sua família.

 

Acima de tudo, e para finalizar, tudo que Jesus fez nessa terra foi espalhar amor ao próximo, incentivar a irmandade e o respeito entre todos.

E o feminismo puro e simples é isso. Igualdade, amor e respeito entre homens e mulheres.

Fé não é prisão. Fé é libertação, é amor, é paz, é respeito.

Fé não é religiosidade.

Fonte da imagem: imagem de reprodução Internet