Exercitando o pensamento crítico: FRIENDS

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Este é a o segundo post da experiência que eu me propus a fazer aqui. Leia se quiser entender melhor. Ele também foi feito voltado para pessoas que já assistiram/assistem FRIENDS. Se você for “leigo”, perdoe-me se o texto ficar um pouco confuso.

 

    Depois de falar sobre um dos meus filmes favoritos, é a hora de uma das minhas séries favoritas. “FRIENDS” divide com “Doctor Who”, o topo do ranking das minhas paixões televisivas (não, eu não consigo escolher uma só). Comecei a assisti-la em 2010, fora de ordem, pela Warner. Não foi a primeira série que assisti freneticamente (deve ter sido alguma da Nickelodeon), mas foi a primeira que me fez ir atrás de séries.

     Relutei muito em ver na ordem, para não ter vazio existencial, mas um dia a vontade de ver tudo foi maior que o medo de não ter mais o que assistir. Atualmente estou revendo aos poucos os episódios pelo box que me dei de presente na Black Friday do ano passado. Sim, sou fã, estou em grupos da série, faço inúmeras referências a ela, salvo várias imagens e gifs, sou 100% Mondler shipper, mas isso não me impede de ver seus problemas. A máxima que eu levo não só para esta coluna e para o blog, como para a vida, é que é possível ser fã e raciocinar direito.

     Foto do meu Instagram pessoal pra provar: meu box aí

     Enfim, protocolo seguido, vamos aos elementos que eu quero apontar. Lembrando da questão do cuidado com o anacronismo: ser algo do passado não ameniza as falhas, mas as vezes as “justifica” até certa medida. “FRIENDS” foi exibida entre 1994 e 2004, numa época em que preocupações sobre representatividade, por exemplo, estavam só engatinhando. E esse é, inclusive, o maior problema da produção.

     Além do núcleo principal – não apenas dos protagonistas, mas de todos os recorrentes – ser inteiro caucasiano, em 10 anos de série, apenas 2 pessoas não-brancas apareceram em mais de um episódio. É tanta brancura que nem sei como os dentes do Ross ainda ofuscaram alguém no s6e8. Esse é um padrão que infelizmente era muito forte na época. Ou a série era “de negros” (como “Um Maluco no Pedaço”), ou o elenco é branquíssimo. E isso é algo que ainda hoje tem melhorado beeeeeem devagar.

Charlie e Julie, únicas personagens não-brancas a aparecerem em mais de um episódio. Ambas saíram com o Ross, tendo Charlie saído também com o Joey. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio, via Canva

      A questão LGBT, apesar de mais presente, não é apresentada da melhor forma possível. Até dá para considerar progressista a presença, como personagens recorrentes, de um casal de duas mulheres, que ainda por cima compartilhavam a guarda de um filho com o pai biológico. Mas algumas das piadas sobre isso têm caráter lesbofóbico gritante, mesmo sendo reprovadas pelos próprios personagens da série – o que acaba parecendo uma tentativa falha de amenização, já que o público ri da piada, e não do contexto.

     Sem falar de Charles Bing, pai do Chandler, que na verdade é trans e carrega estereótipos, piadas preconceituosas e desinformações sobre gênero/sexualidade. Apesar da maioria dessas brincadeiras serem feitas sob a ótica de um filho “traumatizado” e mostrando sua lenta desconstrução, há o mesmo problema da situação anterior. O que causa o riso é a ridicularização da personagem trans, e não o preconceito dos demais.

Kathleen Turner como Charles Bing/Helena Handbasket. A personagem é tratada como gay, drag queen, trans, cross-dresser… Enfim, uma enorme confusão. Imagem: reprodução/internet

      A série ainda traz uma falha que as grandes produções até hoje insistem em repetir: a escalação de uma atriz cis para uma personagem trans, o que reduz as já limitadas oportunidades para essas pessoas. E reforça a higienização, uma vez que a sociedade e a mídia em si tendem a acolher (quando acolhem) apenas trans com passabilidade cis.

     Outro problema gritante em “FRIENDS” é a gordofobia. Foram várias as vezes em que o peso de alguém rendeu deboches, e “Fat Monica” é tratada quase como uma personagem à parte, que serve apenas como piada. Na verdade, a série praticamente não tem personagens gordos que não estejam ali única e exclusivamente para provocar risadas pelos estereótipos, em vez de serem tratados como pessoas reais.

    Ainda não dá para não ver o problema do machismo que permeia vários episódios. Apesar das protagonistas femininas serem liberadas sexualmente, outros personagens e até elas mesmas ocasionalmente praticam slut shame umas com as outras. Há piadas que se sustentam em estereótipos de gênero, como o episódio em que Joey estava “virando uma mulher”. E mais uma vez, várias piadas e objetificações são falsamente amenizadas pela reprovação de outros personagens (tá aí algo que parece uma constante).

Imagem: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio, via Canva

    O ódio criado em cima da Emily também é desproporcional, já que sua reação era totalmente coerente com o trauma que havia sofrido. E, por fim, Ross é extremamente machista e um clássico “nice guy”. Mas salvo raríssimas exceções, isso nunca é posto como algo tão negativo quanto de fato é (o que renderia um post inteiro à parte).

    Eu poderia me prolongar em cada tópico e citar situações específicas que me incomodaram (como o fato da Phoebe, personagem com maior potencial feminista da série, ter feito uma vez um comentário desmerecendo a causa). Infelizmente, como típica série americana dos anos 90 que é, FRIENDS tem inúmeros problemas.

Phoebe sobre feministas: “Nós podemos dirigir. Nós podemos votar. Nós podemos trabalhar. O que mais essas garotas quererm?” Ok, não preciso explicar por que isso tá errado, né? Espero que não. Imagem: reprodução/internet

    Mas isso, apesar de me entristecer, não me impede de ainda amá-la. Assim como eu citei vários pontos negativos, eu poderia citar muitos positivos. Mas esse não é o foco desta série de posts, então só me limito a dizer que, quando nós assistimos às coisas que gostamos criticamente, podemos até sofrer um pouco. Mas isso faz muito bem para a nossa consciência, além de até mesmo nos ajudar a valorizar ainda mais as coisas boas.

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Quatro livros de simples leitura sobre feminismo

 

A introdução do feminismo desde cedo se faz fundamental para o inicio de um empoderamento e para a quebra da sociedade machista construída pela cabeça patriarcal que vem perdurando de séculos ate os dias atuais.

Por esse motivo fiz uma seleção de livros com historias, e introduções ao feminismo de fácil leitura para todas com uma linguagem acessível a todas.

 

(divulgação)

     1-     Capitolina (Varias autoras) 

Uma seleção de textos de diversos temas escritos por feministas na revista virtual Capitolina (As ilustrações também.

 

 

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     2-     Eu quero ser eu (Clara Averbuck)

Com humor, senso critico e sensibilidade, a escritora Clara Averbuck conta a historia de uma menina rebelde que se recusava a mudar sua opinião para se encaixar na normalidade do mundo atual

 

 

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 3-  O Que É O Feminismo (Branca Moreira)

O livro da Branca Moreira confronta os problemas vivenciados pelas mulheres na sociedade atual fazendo um paralelo com os tempos medievais.

 

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     4-     Feminismo e política (Flavia Birolli e Luis Felipe Miguel)

O livro destaca temas de debates feministas e políticos explicando as teorias de forma simples fazendo com que todas as mulheres compreendam e se familiarizem com o assunto.

“Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade” está bloqueado Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade

Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade

 “Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade” está bloqueado Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade
Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio

Eu não sabia se eu deveria mesmo escrever sobre esse assunto na coluna, porque ele está um pouco passado e já foi falado inúmeras vezes. Muitos dos vídeos, textos e comentários feitos, inclusive, continham quase tudo que eu penso sobre. Mas eu sinto que se eu não fizer isso eu estarei sendo omissa, então vou tentar passar minha visão mais pessoal.

À época das notícias sobre a agressão de Johnny Depp à ex-mulher Amber Heard, eu cheguei a elaborar um textinho para postar aqui sobre o assunto, mas por transtornos pessoais acabei não conseguindo. Nele eu falava que se tivesse que escolher um dos dois para oferecer meu benefício da dúvida, seria ela.

Isso não apenas porque “mulheres são sempre inocentes” ou qualquer coisa do tipo. Há evidências contra ele mas não provas concretas, coisa que dificilmente teremos dado o acordo feito entre os dois. Mas isso leva também a não haver provas da inocência dele (e consequente mentira dela).

Meu benefício fica com a Amber simplesmente pela observação de padrões. Como o fato de ela ter retirado as acusações e aceitado um acordo, comum nesses casos (salvo proporções), ainda mais quando o homem é mais influente que a mulher. E o descrédito pelas acusações é um dos motivos que fazem investigações de crimes contra a mulher não irem adiante. Outro padrão que se repete é a invariável culpabilização da vítima. Cheguei a ler recentemente ela sendo julgada por ter retirado a ação, tendo mentido ou não (o que demonstra tanta falta de empatia que eu mal consigo expressar).

Finalmente, há o fator importância que eu já citei. Ele, por ser homem, já tende a ter a imagem mais protegida pela sociedade. Winona Ryder foi pega roubando em lojas e sua carreira nunca mais foi a mesma. Mel Gibson, entre outras ações deploráveis, bateu na ex-namorada e segue renomado. Sendo Depp alguém mais expressivo dentro do meio em que eles estão (e tendo uma legião de fãs absurdamente fiéis, por sinal), isso se potencializa. A imagem de Amber é que fica manchada, tendo mentido ou não. Ela inclusive correu risco de perder seu papel no filme da Liga da Justiça à época das denúncias.

Bojack Horseman. Imagem: O Filme é Legal, Mas

Depois de explicar minha posição sobre o caso em si, é hora de falar sobre a escalação. Harry Potter é uma coisa tão ligada à minha vida e à minha história que eu nem lembro mais como eu era antes de conhecer a saga. Fui apresentada a ela aos 8 anos, quando minha tia me indicou o primeiro livro – “já que você gosta tanto de ler, tá saindo filme dele agora” –, e depois disso não parei mais. O fato de ter tido contato com ela tão jovem ajuda a mesclá-la ao que eu sou, mas não dá para negar que é uma obra com potencial transformador.

Os livros falam sobre tolerância, respeito, amizade, coragem e outros valores que são essenciais para qualquer ser humano. Valores que, por mais óbvios que pareçam, não são todos tão facilmente encontrados assim. Caso contrário, não existiria tanta injustiça e opressão no mundo, e nem este blog em que agora escrevo precisaria existir. Mas há pessoas que sabem a importância dessas questões e me atrevo a dizer que algumas delas aprenderam isso com Harry Potter. Não sem bases: leitores de Harry Potter são menos propensos a serem preconceituosos, segundo estudos.

J.K. Rowling esteve em um relacionamento abusivo antes da fama e chegou a ser agredida pelo ex-marido. Este fato foi uma parte triste e importante da sua trajetória, tendo inclusive contribuído para sua depressão, que mais tarde inspiraria a criação dos Dementadores (e quem os conhece e/ou teve a doença sabe o quanto ambos podem ser terríveis).

É por esses motivos que para mim (e para uma boa parcela do público) a saga é simplesmente incompatível com a presença do Johnny Depp, ainda mais em um papel de destaque como Grindelwald. Eu entendo que contratos são complicados e que as gravações provavelmente ocorreram antes das acusações, mas por bem menos atores são substituídos. Jammie Waylett, que interpretou Crabbe, não retomou o papel no último filme por ter sido condenado por porte de drogas. Para seu azar, Waylett nunca teve o renome de Depp.

Isso, sem falar que o diretor David Yates defendeu a escolha amenizando o acontecimento e, em outras palavras, reforçando a ideia de que “vida pessoal não interfere em vida profissional”. Ou seja, dando a entender que Depp seria escolhido de todo modo. Como eu citei acima, isso seria verdade se substituições não fossem feitas apenas pela vida pessoal dos atores, e se a imagem de um filme não estivesse intrinsecamente ligada à imagem de sua equipe.

Seguir dando destaque e defendendo um ator acusado de violência contra a mulher é reforçar a sensação de impunidade com a qual nós já estamos tão acostumadas a conviver. Todas as nossas ações são políticas, absolutamente tudo. Por que uma produção audiovisual de amplo alcance e influência, que inclusive prega ideais de justiça, não o seria?

Mais um ponto que me incomoda: o fato de eu rejeitar a escolha por motivos ideológicos leva as pessoas a descartarem todos os meus outros motivos. MESMO se Johnny Depp não estivesse envolvido nessas polêmicas eu não teria gostado. O fato de ele ser americano e o personagem alemão (ou coisa do tipo) é o menor dos problemas (mas é um deles).

Eu já fui fã dele, e costumava defender que, apesar dos trabalhos ruins, ele também podia ser muito bom. Mas eu não era cega e sabia que quanto mais “pop” era o filme, pior era sua atuação. E qualquer coisa ligada ao nome Harry Potter é inegavelmente pop. Ir de um vilão tão bem interpretado como o Voldemort de Ralph Fiennes para um Grindewald muito provavelmente caricato não me agrada nem um pouco.

E os dois aspectos nem precisam ser totalmente desassociados. Yates defendeu a escolha com base na ideia de que Depp seria o melhor para o papel. O fato dele não ser só dá mais força para a ideia de que não importa nem se a pessoa está envolvida em um caso de agressão, nem se ele não é tão essencial assim para a trama: ele vai seguir impune.

Por fim, lembro que sim, eu realmente acredito na ressocialização e recuperação das pessoas, mas isso não significa que eu deva aceitar impunidade. E é isso que esse caso GRITA em todos os seus aspectos. Sem falar que em menos de um ano após as denúncias Depp já está sendo não apenas defendido, mas também vangloriado e recebendo aplausos. E, meus amigos, se isso não é um belo tapa na cara de qualquer pessoa que luta pelo fim da violência contra a mulher e sua banalização, eu não sei mais o que é.

Sexualização feminina não é estilo p**ra nenhuma

Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio/via Canva

Quando acreditamos estar vencendo barreiras e prestes a viver uma ótima era como mulheres consumidoras de cultura pop/nerd, a verdade nos dá uma rasteira e mostra que esse ambiente (como todos os outros) continua extremamente tóxico para nós.

Sim, as produções têm cada vez mais colocado a mão na consciência e percebido o óbvio: mulheres também são público. Isso vale em filmes, HQs, livros, séries e outros conteúdos tradicionalmente voltados para o público masculino (mas que sempre foram amplamente consumidos por mulheres).

Eu, particularmente, comecei a ler quadrinhos seriamente há pouco tempo. Antes, consumia mais revistas justamente voltadas para o público feminino (colecionei W.I.T.C.H. por muito tempo) ou misto (e dá-lhe MSP nas minhas seleções).

Quando meu interesse em expandir esse consumo aumentou, eu já estava inserida no feminismo e pendendo a consumir produtos feitos sobre mulheres e por mulheres. Entretanto, apesar de estar ficando cada vez mais fácil encontrar conteúdos que se adequem ao primeiro requisito, o segundo continua escasso.

A nova revista da Miss Marvel foi uma das responsáveis pelo aumento do meu interesse por quadrinhos, e foge totalmente do padrão de personagens sexualizadas. Por trás de sua produção, nomes femininos. Imagem: reprodução/internet

E isso provavelmente explica por que a gente continua se decepcionando com a indústria cultural. Eu mal havia elogiado a Marvel (que, em detrimento da DC, estava reduzindo bastante a sexualização de personagens femininas e dando cada vez mais protagonismo para elas), e me surge a polêmica da capa variante da Invincible Iron Man que trazia a personagem Riri Williams, de apenas 15 anos, objetificada.

A arte era de J. Scott Campbell e teve que ser alterada (às pressas e com um resultado bem ruim, diga-se de passagem). O desenhista reclamou das críticas dizendo que sua intenção era desenhar “uma jovem mulher atrevida e em fase de crescimento”. A justificativa, que leva em conta características menos importantes (e às vezes até inexistentes) de personagens femininas já é clássica.

Da esquerda para a direita: a primeira capa com a personagem a ser apresentada, a versão original da capa feita por Campbell e a versão modificada. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio

O grupo que sai em defesa de Campbell alega que esse é o seu estilo, que reclamar disso é limitar um artista. Seria como reclamar do surrealismo da obra de Dali. Ou, pegando algo ainda mais próximo, reclamar da sexualização das personagens de Milo Manara, famoso por suas histórias eróticas.

Este, por sinal, está envolvido em outro acontecimento que foi um belo tapa na cara das mulheres consumidoras de HQs. Na verdade, foram dois absurdos reunidos em pouquíssimo tempo. Primeiro: Milo Manara e Frank Cho foram protagonistas de um painel na Comic Com italiana sobre… mulheres no quadrinhos.

Cho também é conhecido por retratar personagens femininas extremamente sexualizadas e desproporcionais. Manara pode ter sido revolucionário quando surgiu, mas hoje em dia é só mais um homem desenhando mulheres sob uma ótica masculina – não tem absolutamente nada de novo nisso. Os dois são as ÚLTIMAS pessoas que se pode esperar em um painel decente sobre desenhar mulheres.

Segundo: os dois teriam “unido forças para combater a censura nos quadrinhos” e blablablá. Nisso, Manara presenteou Cho com uma ilustração da Mulher-Aranha ainda mais sexualizada que sua famosa capa para uma edição da revista da heroína. Seria algo apenas de mau gosto e material de punheta presente para o Cho, se este não tivesse a brilhante ideia de publicar a imagem explícita no seu Facebook. E ainda se vangloriar pela sua “luta contra tabus”.

Ninguém é obrigado a ver essa imagem escrota explícita, então deixo a borrada aqui e quem quiser pode clicar acima ou aqui pra ser redirecionado a ela

Eu vou evitar falar sobre o choro de Cho, que até eu que estou há pouco tempo no mundo dos quadrinhos não aguento mais. Deixo aqui um texto excelente do Collant Sem Decote sobre o mesmo caso e que foca nesse aspecto.

Agora eu vou tentar fazer uma convergência sobre os dois casos e o que mais me incomodou sobre eles. Claro, além da ofensiva objetificação das duas personagens (que atinge as mulheres em geral). Eu estou falando da defesa incansável, para não falar endeusamento, dos três artistas.

Já era de se esperar que a tal “broderagem” entraria em cena nesse contexto, assim como a galera conservadora/machista. Mas nesse caso entram também os que, assim como Cho, se acham subversivos e destruidores de tabus, e ainda os que colocam artistas masculinos num pedestal intocável.

O argumento do estilo ecoa por todo lado em que alguém se posiciona a favor deles. Mas vamos lá, não é no mínimo curioso que TRÊS artistas envolvidos em polêmicas recentes tenham como “estilo” a sexualização? Manara ainda é um artista de nicho (mas que curiosamente estava em um painel sobre quadrinhos para um público amplo). Mas Campbell e Cho estão inseridos num meio bem menos específico.

Tão repetitivo que chega a cansar, sério. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio/via Canva

Meio esse que usa o corpo feminino como produto há tanto tempo que isso provavelmente nunca foi realmente marca de estilo. É algo que todo mundo faz. O diferente, inclusive, é a criação de personagens femininas que sejam mais que apenas adereços de cena para agradar os olhos (e os hormônios) masculinos.

Campbell postou em seu Facebook uma arte (desvinculada) com uma releitura da Riri. E provou ali que era capaz sim de sair de sua zona de conforto (o tal do “estilo”), respeitando a proposta da personagem. Será que era tão difícil assim fazer o mesmo em um trabalho oficial?

“Riri Rethink” (Riri reimaginada), legenda que Campbell deu para a própria postagem. Imagem: reprodução/J. Scott Campbell

Não dá pra chamar de estilo algo que se repete incansavelmente, na indústria cultural como um todo e também especificamente nos quadrinhos. No máximo é mais do mesmo com algumas variações pessoais. Também não dá pra chamar de estilo algo que estereotipa, ofende e oprime um grupo de pessoas.

Enfim, indo na vibe boca suja do título desse texto, não dá pra aceitar que um monte de homens escrotos siga fazendo trabalhos ofensivos. E que um monte de cuzão no público os defenda como intocáveis apenas por serem homens e atenderem suas “necessidades” sexuais. Não, não é defender estilo porra nenhuma: é só privilégio masculino, mesmo.

[ATUALIZAÇÃO: a imagem postada por Campbell acabou se tornando capa variante da edição #2 de Invincible Iron Man. Veja a arte finalizada aqui]

O que torna um filme feminista?

Mad Max: Estrada de Fúria (imagem: reprodução/internet)

Filmes e produções audiovisuais como um todo se diferem da maioria das formas de arte pelo seu caráter primordialmente coletivo. Eles não são como um livro, uma pintura ou uma escultura, que por serem feitos quase sempre de forma individual – no máximo em pequenos grupos – trazem clara a marca de seu criador.

Ao contrário, eles quase sempre demandam grandes equipes, que podem até seguir a mente de uma única pessoa, mas que contribuem de algum modo para a pluralidade do resultado. E grandes produções, principalmente, refletem os interesses de várias pessoas e organizações. Mesmo obras mais autorais, muitas vezes, acabam tendo um dedo ou outro de colaboração criativa.

Por isso é tão difícil pensar no caráter ideológico de um filme ou série de TV. Se por um lado é perigoso definir a bandeira de um filme apenas por seu conteúdo, sem considerar os interesses por trás dele, por outro é complexa a própria classificação desses interesses. Na hora de fazer essa análise entram em jogo os objetivos artísticos e financeiros, a liberdade criativa, o envolvimento de cada membro da equipe e vários outros fatores.

Eu acredito que isso faz com que a definição “este filme é feminista” VS “este filme não é feminista” acabe sendo mais subjetiva. Tendo, entretanto, critérios objetivos. Por mais que se possa entrar em dúvida se Mad Max – Estrada de Fúria (filme com conceitos feministas, mas dirigido e produzido por homens) é um filme feminista, não dá pra creditar como feminista uma comédia depreciativa do nível de A Verdade Nua e Crua apenas por ter mulheres no elenco. Também é bem doloroso ver alguma obra sendo considerada feminista a despeito de seu envolvimento com um diretor ou produtor abusador, por exemplo.

É compreensível a escolha tanto de quem só considera um filme feminista pela combinação de bastidores e conteúdo, quanto quem dá pesos diferentes para ambos os lados. É uma análise complexa, afinal de contas.

Inspiradas em Frida: Três pintoras surrealistas que você precisa conhecer

Jacqueline Lamba e Frida Kahlo (Foto: Divulgação) 

Enquanto uma guerra eclodia na Europa mulheres inspiradas suspiravam suas artes pelas mãos de Frida Kahlo, a grande inspiração feminista e surrealista da época.

Com um misto de sonhos, folclore, sentimentos e extrema realidade, essas mulheres transbordaram a sua arte e inspiraram o México e o mundo.

 

1- Jacqueline Lamba: Conhecida pela sua personalidade ardente e forte, sua obra transbordava o eu da artista, sendo diferenciada, forte e única.

2-  Remedios Varo:   Ela foi forçada a exilar-se da capital francesa durante a ocupação nazista da França e mudou-se para a Cidade do México em fins de 1941. Embora ela considerasse o México como um refúgio temporário, o país acabou por tornar-se sua residência definitiva inspirando muitas de suas obras e personalidade de suas pinturas

3-   Maria Izquierdo: considerada pelo  pintor mexicano Diego Rivera, a artista com uma das personalidades mais atraentes do panorama artístico da época e da Academia, chamando-a de “um valor seguro; seguro y concreto”. Suas obras são conhecidas pela intensidade de suas cores

Cinco mulheres essenciais para o cinema brasileiro

 

O cinema atual não é só constituído das mesmas cartas marcadas (normalmente do sexo masculino) onde mulheres costumavam a ter papeis coadjuvantes ás margens de um personagem masculino e poderoso.

Atualmente o cinema brasileiro apesar de estar longe de uma igualdade, é bem  mais dependente das mãos de cineastas femininas. Conheça cinco mulheres que fazem toda a diferença na sétima arte em solos brasileiros.

 

(Foto:Divulgação)

1-     Lucia Murat: foi presa e torturada nos porões da ditadura militar fato que exerceu uma influencia fundamental para a sua obra.

Obras de destaque: Que bom te ver viva (1989), Quase dois irmãos (2004), e A memória que me contam (2013)

 

(Foto:Divulgação)

2-     Lais Bodanzky: Além de diretora, também é roteirista e sua obra “Bicho de sete cabeças” foi considerada um dos filmes mais marcantes do cinema brasileiro o que lhe rendeu diversos prêmios

 

(Foto:Divulgação)

3-     Anna Muylaert: Produtora de diversos programas de TV a cineasta produziu diversos curtas e teve sua carreira marcada pelo filme “Que Horas ela volta” sendo ganhadora da premiação “Grande premio do cinema Brasileiro”

 

(Foto:Divulgação)

4-     Carla Camurati: Além de cineasta Carla também é atriz. Dirigiu diversas adaptações de Giacomo Puccini. Atuou em novelas e em 12 longas metragens.

 

(Foto:Divulgação)

5-     Petra Costa: Estreou no cinema produzindo e dirigindo o curta-metragem Olhos de Ressaca (2009). O primeiro longa, Elena (2012) que foi praticamente um documentário autobiográfico, foi exibido no festival Internacional de Cinema de São Paulo, na Semana dos Realizadores (Rio de Janeiro), no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA) e no Festival de Brasília do Cinema Nacional.

Exercitando o pensamento crítico: Bonequinha de Luxo

Bonequinha de Luxo

Este é a o primeiro post da experiência que eu me propus a fazer aqui. Leia se quiser entender melhor.

Bonequinha de Luxo é um dos meus filmes preferidos, e sem dúvida o mais icônico da maravilhosa Audrey Hepburn. Eu me encantei por ele pela primeira vez aos 17 anos, e foi justamente nessa época que surgiu o meu amor pela atriz.

Entretanto, por mais que então eu não me atentasse tanto aos detalhes, é inegável que a produção possui, sim, alguns problemas. O mais explícito e exaustivamente apontado se trata do yellowface feito pelo ator Mikey Rooney, intérprete do japonês caricato Sr. Yunioshi. O personagem faz uma representação completamente negativa dos orientas: racista, estereotipada e como um mero alívio cômico.

Senhor Yunioshi
Mikey Rooney como senhor Yunioshi (reprodução/internet)

As cenas em que ele aparece, inclusive, são totalmente descartáveis. O que só aumenta a sensação de que era um erro “evitável”. Lógico que não dá para cair no anacronismo: em 1961 as preocupações atuais com representatividade simplesmente não existiam. Mas isso não anula e nem mesmo diminui ou justifica o erro. No máximo o explica e contextualiza.

Um comparativo: o mesmo filme traz um ator espanhol (José Luis de Vilallonga) como um personagem brasileiro. Primeiramente, tal fato é recorrente ainda hoje. Vide a mesma troca feita em Comer, Rezar, Amar (2010), onde Javier Bardem também interpreta um brasileiro, e o recente caso do Wagner Moura interpretando o colombiano Pablo Escobar. E, mas importante ainda, apesar de pecar em representatividade, o personagem não é caricato ou ofensivo. Sr. Yunioshi é isso tudo, com o adicional da prática do yellowface, o que aumenta o absurdo.

Villalonga
Villalonga em Bonequinha de Luxo (reprodução/internet)

Apesar de ser o mais famoso – e óbvio –, esse não é o único ponto do filme que pede reflexão. No que diz respeito à trama em si, há dois pontos que eu queria destacar. Um deles é meio baseado em “achismo”, porque eu ainda não tive oportunidade de ler a novela na qual o filme se inspira para tirar melhores conclusões. Mas pelo que sei, comparada à obra original de Truman Capote, a versão cinematográfica pode ser considerada meio medrosa.

Como tantas adaptações da época, a película deixou de lado alguns aspectos considerados polêmicos e/ou pesados do livro. Como, por exemplo, a sexualidade dos protagonistas: Holly seria supostamente bissexual, e Paul/Fred, gay. Isso tudo não apenas tornou Bonequinha de Luxo menos representativo, como menos subversivo – e mais despretensioso.

O outro ponto, e provavelmente o que eu tenho mais dificuldade de admitir, faz parte justamente da mensagem do filme. Não custa nada avisar sobre spoilers (mesmo sendo de algo de 55 anos), já que vou citar mais detalhes, inclusive o final. Holly é uma personagem complexa. Dá para dizer que ela esconde muitas características através de seus opostos: insegura, mas se faz de forte; profundamente ligada ao irmão, mas age como desapegada; indecisa, mas se enche de planos mirabolantes.

Mas nada disso a torna uma personagem fraca, pelo contrário. E, apesar de muitos desses opostos serem usados como casca, alguns são naturais. Como o seu espírito livre, a despeito de sua vontade de encontrar seu lugar. Essa liberdade a faz fugir de Paul até o final, quando ela finalmente se rende e os dois ficam juntos. A mensagem que fica é que, assim, ela encontrou seu lugar.

Talvez isso não fosse tão incômodo se não desse a sensação de descarte do diálogo que os dois têm na cena anterior (imagem abaixo).

Bonequinha de Luxo
Paul: Holly, eu estou apaixonado por você / Holly: E daí? /  Paul: E daí? Tudo! Eu amo você! Você pertence a mim. /  Holly: Não. Pessoas não pertencem umas às outras. /  Paul: Claro que elas pertencem! /  Holly: Não vou deixar ninguém me colocar em uma jaula! /  Paul: Eu não vou colocá-la em uma jaula! Eu quero amá-la! /  Holly: É a mesma coisa!

Holly acredita que o amor é uma prisão. Não há nada entre esse diálogo e a cena final que realmente demonstre que ela mudou esse pensamento. A sensação que fica é, ao contrário, que ela escolhe abdicar da própria liberdade em prol desse amor. E é um pouco decepcionante que uma personagem tão interessante e, principalmente, livre, abra mão de algo tão importante para ela, bem… por um homem. Talvez se houvesse algo mais claro que demonstrasse que ela passou a enxergar o amor de outra forma, o final não passasse essa sensação. Mas da forma como foi apresentado, infelizmente é isso que fica.

Mas, hei, eu ainda amo esse filme. Enxergo suas falhas, mas não deixo de amá-lo. E, aproveitando a oportunidade, quero fazer o inverso nesse último parágrafo e apresentar uma “contra-crítica”. Eu sempre vejo a Holly sendo incluída nas listas de Manic Pixie Dream Girls do cinema (como você vê aqui, em inglês), e não consigo concordar. MPDG são personagens femininas “maluquinhas”, sem muito pano de fundo, com defeitos “adoráveis” e que só servem de motivação para um pobre e infeliz protagonista masculino. Exemplos clássicos: a personagem que fez surgir o conceito, Claire (Kirsten Dunst), de Elizabethtown, e Allison (Zooey Deschanel), de Sim, Senhor.

Kirsten Dunst e Zooey Deschanel
Claire e Alisson (reprodução/internet)

Eu não vejo sentido nessa classificação. Na verdade, várias personagens da Audrey o são, mas não vejo a Holly assim. Tanto pela complexidade da personagem, que eu já apresentei, quanto pela sensação de que, na verdade, Paul é o personagem raso da história. Holly tem pano de fundo, defeitos de verdade e muda ao longo da trama. Já Paul permanece praticamente o mesmo do começo ao fim. Ele no máximo tem bons momentos com Holly, mas não sofreu realmente nenhuma grande transformação. Isso, se pararmos para pensar, quem passou foi ela. Seria Paul, então, um Manic Pixie Dream Boy? Algo a se pensar…

Cinco poemas para celebrar 127 anos de Cora Coralina



                                                          Foto: Divulgação




Há 127 nascia a poetisa e contista brasileira Cora Coralina. A Goiana que apesar de transbordar doçura, delírio e beleza em suas palavras só foi reconhecida após seus 70 anos quando teve seu primeiro livro publicado.
Aproveitando a data fiz uma seleção de cinco de suas dezenas de poemas maravilhosos, para quem já é apaixonado e para quem esta prestes a se apaixonar pela peculiaridade de suas obras únicas.
       1-     Mulher da vida
           Mulher da Vida,
            Minha irmã.
           De todos os tempos.
           De todos os povos.
           De todas as latitudes.
           Ela vem do fundo imemorial das idades
           e carrega a carga pesada
           dos mais torpes sinônimos,
           apelidos e ápodos:
           Mulher da zona,
           Mulher da rua,
           Mulher perdida,
           Mulher à toa.
           Mulher da vida,
           Minha irmã.
         2-    Meu destino
         Nas palmas de tuas mãos
          leio as linhas da minha vida.
          Linhas cruzadas, sinuosas,
          interferindo no teu destino.
          Não te procurei, não me procurastes –
          íamos sozinhos por estradas diferentes.
          Indiferentes, cruzamos
          Passavas com o fardo da vida…
          Corri ao teu encontro.
          Sorri. Falamos.
          Esse dia foi marcado
          com a pedra branca
         da cabeça de um peixe.
         E, desde então, caminhamos
          juntos pela vida…
    3-      Aninha e suas pedras
          Não te deixes destruir…
            Ajuntando novas pedras
            e construindo novos poemas.
            Recria tua vida, sempre, sempre.
            Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
            Faz de tua vida mesquinha
            um poema.
            E viverás no coração dos jovens
            e na memória das gerações que hão de vir.
            Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
            Toma a tua parte.
            Vem a estas páginas
            e não entraves seu uso
             aos que têm sede.
        4-    Amigo
           Vamos conversar
          Como dois velhos que se encontraram
          no fim da caminhada.
          Foi o mesmo nosso marco de partida.
          Palmilhamos juntos a mesma estrada.
          Eu era moça.
          Sentia sem saber
          seu cheiro de terra,
          seu cheiro de mato,
          seu cheiro de pastagens.
         É que havia dentro de mim,
         no fundo obscuro de meu ser
         vivências e atavismo ancestrais:
         fazendas, latifúndios,
        engenhos e currais.
        Mas… ai de mim!
        Era moça da cidade.
        Escrevia versos e era sofisticada.
        Você teve medo. O medo que todo homem sente
        da mulher letrada.
       Não pressentiu, não adivinhou
       aquela que o esperava
        mesmo antes de nascer.
       Indiferente
        tomaste teu caminho
        por estrada diferente.
        Longo tempo o esperei
        na encruzilhada,
        depois… depois…
        carreguei sozinha
        a pedra do meu destino.
         Hoje, no tarde da vida,
        apenas,
        uma suave e perdida relembrança.
        5-    Ofertas de Aninha
              (aos moços)
          Eu sou aquela mulher
           a quem o tempo
           muito ensinou.
           Ensinou a amar a vida.
           Não desistir da luta.
           Recomeçar na derrota.
           Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
           Acreditar nos valores humanos.
           Ser otimista.
            Creio numa força imanente
           que vai ligando a família humana
           numa corrente luminosa
           de fraternidade universal.
          Creio na solidariedade humana.
          Creio na superação dos erros
          e angústias do presente.
          Acredito nos moços.
          Exalto sua confiança,
         generosidade e idealismo.
         Creio nos milagres da ciência
         e na descoberta de uma profilaxia
         futura dos erros e violências
         do presente.
          Aprendi que mais vale lutar
          do que recolher dinheiro fácil.
         Antes acreditar do que duvidar.

Seu gosto pessoal não precisa engolir seu pensamento crítico

Reprodução/internet
Quando gostamos muito de alguma coisa, muitas vezes acabamos tendo dificuldade para ver as suas imperfeições. É como quando estamos apaixonados por alguém, né? Pensando bem, é mais fácil ver os defeitos das pessoas que amamos (ainda mais quando eles irritam) do que ver os dos filmes, livros e séries dos quais somos fãs. E se os vemos, acabamos sentindo até uma dorzinha por aquela falha existir.
Dor e sofrimento (reprodução/internet)
Mas isso não deveria e nem precisa ser assim. Dá pra analisar  friamente uma produção e ainda assim ser fã dela. É difícil e eu sei bem disso, mas não são coisas desassociadas. Gosto pessoal e pensamento crítico, ao mesmo tempo que são idéias completamente diferentes, não são antônimos e podem andar lado a lado. Uma coisa pode inclusive complementar e contribuir com a outra.
E como eu falei, tudo bem ter essa dificuldade ou até sentir aquela dorzinha que eu já citei. Eu mesma ainda passo por isso. O problema é que muita gente simplesmente não consegue ver o pensamento crítico e o gosto pessoal dessa forma, e ainda não aceita que alguém veja. Ou acham que fãs devem idolatrar cegamente aquilo de que gostam, ou que seu gosto pessoal é uma regra absoluta, ou que, por ser só entretenimento, não podemos ficar “pensando demais” em vez de “só curtir” aquela coisa.
Não sei lidar… (reprodução/internet)
Nenhuma dessas hipóteses parece muito saudável. Não vou nem entrar no mérito da arrogância de achar que sua opinião é a única coisa importante no mundo, mas os outros dois exemplos acima têm problemáticas semelhantes. Tanto a ideia de “só curtir” quanto a de ser fã de algo sem questionamentos são alienadoras e, de certo modo, até ingênuas.
Produtos culturais possuem panos de fundo além daquilo que mostram, além de refletirem a sociedade em que vivemos. Uma produção cultural pouco representativa, que cria esteriótipos ou preconceituosa demonstra desinteresse dos produtores de fugirem disso e refletem uma sociedade que segue os mesmos moldes. Além do mais, como o nome já diz, esses produtos são feitos visando o lucro. E nós, como público, deveríamos ao menos parar para pensar em quem nós estamos enriquecendo (direta ou indiretamente) com os nossos gostos.
O pessoal da indústria já tá assim, aliás (reprodução/internet)
Pensando nisso e em outras coisas, decidi começar aqui no blog um projeto de exercício de pensamento crítico. Eu me englobo de verdade no grupo que “sofre” para ver defeitos nas coisas de que gosto. Por isso vou começar a fazer análises mais frias de produções das quais eu gosto muito e postar no blog. Será uma série, mas não obrigatoriamente os posts serão feitos em sequência. E a ótica será principalmente dentro da temática do Elas por Elas (ou seja, feminista).
Vai ser duro? Vai. Justamente por isso vou tentar começar devagar, por coisas com as quais tenho menos apego e ir aumentando gradativamente. Assim eu tenho fé que vai dar certo. Quem sabe um dia não chego a falar mal de Harry Potter? -sqn
Enfim, espero que gostem dos próximos posts, e que eles ajudem quem tiver as mesmas dificuldade que eu a exercitar a visão analítica. Até o próximo post!