Série One Day at a Time

Dica de série imperdível: One Day at a Time

Quando o assunto é engajamento social e político, a maioria das produções audiovisuais opta por uma ou duas pautas a serem abordadas, muitas vezes para evitar o risco (real) de se criar algo forçado ou raso. São poucas as obras que conseguem trazer múltiplos assuntos relevantes de forma orgânica e bem trabalhada. One Day at a Time (Netflix, 2017) é uma delas.

A série é um reboot da sitcom de mesmo nome exibida entre 1975 e 1984, que relatava o dia-a-dia de uma mãe solteira (vivida por Bonnie Franklin) criando suas duas filhas (Mackenzie Phillips e Valerie Bertinelli) em Indianápolis. A nova versão transformou a família em cubano-americana, com Justina Machado (Six Feet Under) como Penelope, a mãe, Isabella Gomez e Todd Grinnell como os filhos e Rita Moreno (a Anita de West Side Story e ganhadora dos EGOT) como a “abuelita” Lydia.

Série One Day at a Time
Os elencos da série original e do reboot, respectivamente

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Algo sobre Carolina Maria de Jesus

Há dias que fiquei ruminando pensamentos sobre como poderia expressar em palavras o que a escrita de Carolina me fez sentir, falar sobre os efeitos dos ecos que cada palavra escrita por ela reverberou em meu ser.

Poderia aqui falar a partir de uma perspectiva social baseando-me nas denúncias feitas por Carolina à uma realidade que ainda se faz presente- a realidade cruel vivida pelo povo negro, pobre, a realidade do quadro político do Brasil- o mesmo desavergonhado e perverso de hoje ou me ater à perspectiva feminista- sim, Carolina era feminista, um feminismo não acadêmico ou teorizado, mas fruto de uma experiência de vida, um feminismo de uma mulher que também foi “macho”, um feminismo honesto de uma mulher que ousava, sempre que possível, driblar o próprio machismo e fugir da linha reta e inflexível traçada pelo patriarcado.

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O que chamou nossa atenção em 2017: 4 séries, 1 filme e 1 bônus

2017 foi um ano marcante para o entretenimento, especialmente no que diz respeito às mulheres. Por um lado, inúmeras denúncias de casos de assédio, violência sexual e machismo escancararam a face mais feia dessa indústria, ao mesmo tempo em que foram uma vitória da voz feminina, que começa a se fazer ouvir. Por outro, o protagonismo das mulheres teve destaque na mídia, com feitos históricos e grandes sucessos de público, crítica e premiações.

Alguns acontecimentos importantes e recordes (como Lady Bird, de Greta Gerwig, se tornando o filme mais bem avaliado da história do Rotten Tomatoes) estão na ótima retrospectiva do Mulher no Cinema. Inclusive, além do próprio site, fica a recomendação do post deles Os 10 melhores filmes de/sobre mulheres de 2017.

Para o último post do ano da coluna Culturarte, optamos por uma visão pessoal, e escolhemos algumas das produções que mais chamaram a nossa atenção ao longo dele. As indicações vêm com os nomes das autoras do blog que as fizeram. A última e o bônus são as minhas. Confira:

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sociedade idolatra machistas

Dudu Camargo é a prova que nossa sociedade idolatra machistas

Antes de tudo, uma contextualização: no dia 18/06, foi ao ar uma edição do Programa Silvio Santos, com participação de Maisa e Dudu Camargo no Jogo das 3 Pistas. Na ocasião, o apresentador começou a fazer “brincadeiras”, dizendo que eles deveriam formar um casal, já que ambos estavam solteiros. Além de dizer que o rapaz não fazia seu tipo, a insistência de Silvio a levou a criticar o rapaz e chamá-lo de engessado. Durante o quadro, as brincadeiras e as provocações se seguiram, e ainda com o ingresso de Dudu em certo ponto.

sociedade idolatra machistas
Incentivado por Silvio, Dudu dançou em torno de Maisa para provocá-la (Imagem: reprodução/internet)

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Rivalidade feminina Música

Rivalidade feminina na música pop: por quê?

Rivalidade feminina definitivamente é meu tema da vez. Já falei sobre ele nos meus dois últimos posts nesta coluna, que você pode ler aqui e aqui.

Disputas entre fanbases são o tipo de coisa que a gente até pensa que ficou lá em 2012, mas elas ainda são reais – e intensas. Um rápido passeio por portais do gênero pode chegar a ser assustador para os mais desavisados.

Fonte: @reasonyoutalita

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10 canais para seguir

    A internet hoje é muito mais que um veículo de entretenimento. Através delas é possível se comunicar, aprender, conhecer pessoas, participar de debates, trabalhar, entre outras coisas.

    O YouTube surgiu há mais ou menos 11 anos e hoje é uma plataforma de multifunções. Uma plataforma que tem crescido e dado oportunidade para pessoas compartilharem opiniões sobre diversos assuntos. E  o feminismo tem sido mais explorado e mais falado em muitos canais.

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5 Produções que subvertem a rivalidade feminina

Há duas semanas, eu postei um texto sobre a falta de filmes, séries e etc sobre amizade feminina e o excesso de produções sobre rivalidade entre mulheres. Prometi que traria semana passada uma lista de obras que subvertem esse conceito machista, mas alguns contratempos me fizeram atrasar um pouco. Eu tardo, mas não falho, e aqui está ela!

Como recorte, trouxe produções que ou poderiam optar por seguir o caminho da rivalidade, mas não o fazem, ou que propositalmente trazem uma rivalidade e a abandonam (transformando-a em amizade, ou não). Apesar disso, sabemos que elas não são perfeitas e podem apresentar falhas (por exemplo, quanto à diversidade). Outro recorte: optei apenas por séries ou filmes dos quais nunca falei aqui no blog.

Apesar dos contras e da escassez de obras assim, é bom saber que ao menos temos opções. Vamos valorizar o que temos, e torcer para que haja cada mais espaço para essa subversão. Espero que gostem!

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Por que é mais fácil achar produções sobre rivalidade do que sobre amizade feminina?

 

A ideia de que mulheres são rivais por natureza é um dos conceitos machistas mais sutis entre os que encaramos no dia a dia. Ele parece inofensivo, mas quando paramos para pensar melhor sobre isso vemos que não é.

Uma das formas de chegar a essa constatação é pensando no poder que a união e a amizade feminina podem ter. A forma como a naturalização da rivalidade feminina sabota a criação desses laços é apenas um dos problemas, sobre o qual a Jade já falou nesse post aqui.

Na cultura pop, essa ideia é presente em músicas, filmes, séries, animações, novelas, livros e até em narrativas da imprensa… É extremamente fácil encontrar produções que se sustentem nela ou a reforcem. O oposto, nem tanto.

 

Bad Blood
Imagem do clipe da música Bad Blood, da Taylor Swift (reprodução/internet)

 

É até grave pensar que, enquanto histórias sobre amizades masculinas são muito populares e até consagradas como clássicos, relatos sobre união entre mulheres são bem menos comuns.

Sim, também há grandes histórias sobre inimigos masculinos. Mas é importante lembrar que há diferenças não tão sutis assim no tratamento da rivalidade masculina e da feminina. Enquanto a primeira é pautada geralmente em motivos ideológicos ou de poder, a segunda costuma ser jogada como inevitável ou motivada por interesses românticos.

Isso faz com que seja muito importante a valorização de produções sobre amizade e/ou união feminina. Algumas delas, como já mencionado, são fortes exemplos do que mulheres juntas podem fazer.

 

Mad Max
Mad Max: Estrada de Fúria (imagem: reprodução)

 

Outras, não tão pretensiosas, ao menos servem para mostrar que nada se compara a ter uma amiga mulher. Elas nos entendem em nossos conflitos e necessidades, ao mesmo tempo que podem apresentar vivências completamente diferentes das nossas.

 

Quatro Amigas e um Jeans Viajante
Quatro Amigas e um Jeans Viajante (imagem: reprodução)

 

Há ainda as produções que fazem uma completa (ou ao menos parcial) desconstrução da rivalidade feminina, sobre as quais trarei uma lista no meu próximo post. São histórias que em um primeiro momento parecem se render ao conceito machista, mas que em algum ponto o desconstroem e passam uma mensagem oposta.

 

Meninas Malvadas
Meninas Malvadas (imagem: reprodução/internet)

 

Em resumo, os meios de comunicação e a arte podem sempre ser ferramentas para reforçar ou reverter elementos machistas. Com a rivalidade feminina não é diferente. Quando escolhemos valorizar a desconstrução dela estamos, ao mesmo tempo, abrindo nossos próprios olhos para a importância da amizade feminina, e preparando o terreno para que mais mulheres enxerguem o mesmo.

Edit: não vou deixar uma resposta explícita à pergunta do título (apesar de ter algumas opiniões. Spoiler: todas envolvem machismo). Prefiro deixar em aberto, para promover a reflexão. E você, o que acha?

 

Leitura necessária: Chimamanda Ngozie Adichie

(Foto: Divulgação)

 

Chimamanda Ngozie Adichie  é uma das escritoras nigerianas mais influentes e jovens da atualidade. Sua obra tem um enfoque feminista didático responsável por atrair cada vez mais a atenção das Africanas. Trata a importância dos temas de extrema importância com a leveza da literatura, sua escrita envolve ao mesmo tempo que mostra a partir de suas vivências os desafios sociais que a mulher vive na Nigéria de antes e de agora.

 

Conheça um pouco de sua obra, que já foi traduzida para mais de trinta línguas:

 

Meio sol amarelo: O livro agradou tanto que virou filme, conta a história de  irmãs gêmeas que não são nada parecidas. Enquanto uma abandona os jogos sociais de sua influente família para dar aulas e viver a revolução, a outra participa de todas as situações possíveis para se favorecer. O livro ilustra bem a divisão social da Nigéria, inclusive nos tempos da ditadura.

Meio sol amarelo, Companhia das letras

Americanah: Conta a história de amor entre dois jovens nigerianos em meio ao cenário da ditatorial. A menina passa por cima de todos os preconceitos e consegue estudar em uma das mais aclamadas universidades Dos EUA, porém quando retorna às suas raízes já como uma conceituada blogueira, se choca com a mudança do cenário e o que deixou para trás.

O livro vai bem além de uma história de amor, ele faz uma crítica social importantíssima de maneira inspiradora.

 

Americanah, Companhia das letras

Hibisco Roxo: Narradora e personagem, Kambili conta a sua história mostrando as opressões que sofreu por seu pai que abominava as raízes nigerianas e idolatrava o segmento católico, tal opressão religiosa o levou a negar o próprio pai e sua outra filha, porém ao decorrer da história a jovem se apaixona por um padre, e sua falta de perspectiva faz com que ela seja obrigada a sair da Nigéria.

Hibisco roxo, companhia das letras

Sejamos todos feministas: Uma palestra da autora que virou livro, e trata da importância da igualdade de gêneros, a partir de situações que ela mesma viveu durante o decorrer da sua vida em uma nigeria machista;  além de contar a experiência de outras mulheres e expor os julgamentos que sofreu.

Um livro super curtinho e gostoso de ler, fundamental para quem quer compreender um pouco mais sobre igualdade.

Sejamos todos feministas, companhia das letras

Extremamente inspiradora, Chimamanda tem uma escrita necessária, inclusive um de seus discursos foi musicado pela Beyonce, (https://www.youtube.com/watch?v=IBe9Vtodzg4)

Uma obra útil apenas para  maior conhecimento da Nigéria, mas sim livros  que mostram os desafios de ser mulher em países de construções machistas e preconceituosas, valorizando e apresentando o poder do feminismo e da liberdade de qualquer preconceito.

Site oficial: http://chimamanda.com/

Outros jeitos de usar a boca de Rupi Kaur – (des)fazendo os nós na garganta

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

 

O livro, originalmente publicado com o título milk and honey da escritora e artista Indiana Rupi Kaur, traz a cada poema um soco e, por vezes, um abraço.

Imagem: divulgação

Éle propõe ao leitor quatro momentos: a dor, o amor, a ruptura e a cura. Em cada um deles encontramos histórias de família, de relacionamentos, histórias que doem em mulheres, histórias que falam daquele relacionamento abusivo disfarçado de amor, daquela ruptura que antes de mais nada é um acordar para um mundo onde conseguimos perceber o abuso psicológico que sofremos diariamente e que por mais libertador que seja, não deixa de ser sofrido. Então vamos lá, vejamos mais detalhadamente o que ela está dizendo e se tu realmente sente esses socos que eu falo.

Todas nós já sabemos que ninguém precisa ser estuprada para sentir o que é a dor de um estupro, além disso, o estupro é diário e, infelizmente, poucas são as mulheres que nunca sofreram nenhum tipo de abuso (ou seria – nenhuma?!). No segundo poema temos:

“o primeiro menino que me beijou

segurou meus ombros com força

como se fossem o guidão da

primeira bicicleta

em que ele subiu

eu tinha cinco anos” (Kaur, 2017, p.12)

Não chegamos ao final, mas aí já temos bastante discussão e questionamentos – afinal de contas em que momento meninos aprendem que ‘podem’ nos segurar dessa forma?, e que lugar é esse que vivemos, e que parece não ter fronteiras, onde o corpo de crianças é sexualizado?

Não é bonitinho ver o menininho agarrando a menininha, é deprimente. Isso é o início da iniciação machista, isso é o inicio da opressão de mulheres e também do silenciamento de muitas delas, que se sentem perdidas e amedrontadas com a normalidade social de um abuso.

“ele tinha cheiro

de fome nos lábios

algo que aprendeu com

o pai comendo a mãe às 4h da manhã” (Kaur, 2017, p.12)

Esse cheiro de fome, lembra esse lado animalesco masculino, já discutido por muitas feministas e nada admirável. Não precisamos ir muito longe pra ver homens achando bonito ser um animal, eles se comportam assim.

 “ele foi o primeiro menino

a ensinar que meu corpo foi

feito para dar aos que quisessem

que eu me sentisse qualquer coisa

menos que inteira

 

 e meu deus

eu de fato me senti tão vazia

quanto a mãe dele às 4h25” (Kaur, 2017, p.12)

Sentir-se vazia, parece que é algo que só pertence à mulher, porque não é só o poema que diz isso, todas nós em algum momento sentimos. Há muitos homens que dentro de famílias, com suas mães sofrendo, reproduzem o mesmo com mulheres na rua. Eu não estou dizendo que eles não sofram, mas estou dizendo que a ideia de empatia entre os dois sexos não parece ser uma via de mão dupla, e se a mãe precisa ter compaixão com o filho, esse mesmo não precisa ter com ela, muito menos compreendê-la antes mesmo de mãe, como mulher.

No amor, ela diz:

“toda revolução

começa e termina

com os lábios dele” (Kaur, 2017, p.48)

Achou bonito? Romântico? Olha, numa primeira leitura é, e eu realmente acho que muitas pessoas podem romantizar tal poema, mas tu já parou pra pensar no significado da palavra revolução? E uma revolução ser motivada por um ‘ele’ e acabar pelo mesmo ‘ele’ não parece ser algo de um universo masculino e dominado por um homem?

Eu não acredito que a revolução tenha que começar e terminar por um ‘ele’, um ‘ele’ que parece ser tão poderoso a ponto de mandar eu agir e parar. Homem não tem que mandar e amor não deveria ser motivado e decidido atráves de um – muito menos um ‘eu – homem’ que historicamente não tem provado muitos atos de amor genuíno pelas mulheres. E falando nesse amor a eu-lirico diz:

“ele só sussura eu te amo

quando desliza a mão

para abrir o botão

de sua calça

 

é aí que você tem

que entender a diferença

entre querer e precisar

você pode querer esse menino

mas você com toda certeza

não precisa dele” (Kaur, 2017, p.86)

Uma ruptura libertadora, afinal de contas, não é facil perceber e se descobrir sendo usada diariamente e abusada emocionalmente. Quantas mulheres já ouviram uma palavra de carinho e logo em seguida um toque malicioso? Muitos homens usam disso para ter o que querem, usam isso, principalmente, em um momento de fragilidade a mulher. Os homens definitivamente não são burros – são maldosos, e pra isso, muito espertos -, mas a ruptura deixa claro que não vamos aceitar esse tipo de comportamento, pois:

 “o amor fez com que o perigo

em você parecesse seguro” (Kaur, 2017, p. 104)

Mas agora não parece mais! E por fim, a cura:

“perder você

foi o que levou

a mim mesma” (Kaur, 2017, p.174)

Aqui ela mostra o quanto juntas podemos ser mais fortes:

“você olha pra mim e chora

tudo dói

 

eu te abraço e susurro

mas tudo pode curar” (Kaur, 2017, p. 181)

Imagem: divulgação

Além de trazer a perspectiva da cura desses ditos ‘amores’, ela também traz a cura atráves da libertação dos padrões sociais que fazem as pessoas achar que devemos ter sempre alguém e que

somos inimigas umas das outras.

Esse livro abre espaço para questionamentos, com poemas curtinhos Kaur nos leva a olhar não só com olhos, ela traz essa sororidade que tanto precisamos, ela traz a empatia que devemos exercer e mostra com toda lírica que esse espaço (dentro e fora da gente) não é determinado por homens e pelos padrões sociais machistas que ainda existem.

E a cura, essa cura que faz com que prestemos atenção em quem realmente importa, nós – e aqui o ‘nós’ é feminino, porque eu falo de nós mulheres.