Outros jeitos de usar a boca de Rupi Kaur – (des)fazendo os nós na garganta

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

 

O livro, originalmente publicado com o título milk and honey da escritora e artista Indiana Rupi Kaur, traz a cada poema um soco e, por vezes, um abraço.

Imagem: divulgação

Éle propõe ao leitor quatro momentos: a dor, o amor, a ruptura e a cura. Em cada um deles encontramos histórias de família, de relacionamentos, histórias que doem em mulheres, histórias que falam daquele relacionamento abusivo disfarçado de amor, daquela ruptura que antes de mais nada é um acordar para um mundo onde conseguimos perceber o abuso psicológico que sofremos diariamente e que por mais libertador que seja, não deixa de ser sofrido. Então vamos lá, vejamos mais detalhadamente o que ela está dizendo e se tu realmente sente esses socos que eu falo.

Todas nós já sabemos que ninguém precisa ser estuprada para sentir o que é a dor de um estupro, além disso, o estupro é diário e, infelizmente, poucas são as mulheres que nunca sofreram nenhum tipo de abuso (ou seria – nenhuma?!). No segundo poema temos:

“o primeiro menino que me beijou

segurou meus ombros com força

como se fossem o guidão da

primeira bicicleta

em que ele subiu

eu tinha cinco anos” (Kaur, 2017, p.12)

Não chegamos ao final, mas aí já temos bastante discussão e questionamentos – afinal de contas em que momento meninos aprendem que ‘podem’ nos segurar dessa forma?, e que lugar é esse que vivemos, e que parece não ter fronteiras, onde o corpo de crianças é sexualizado?

Não é bonitinho ver o menininho agarrando a menininha, é deprimente. Isso é o início da iniciação machista, isso é o inicio da opressão de mulheres e também do silenciamento de muitas delas, que se sentem perdidas e amedrontadas com a normalidade social de um abuso.

“ele tinha cheiro

de fome nos lábios

algo que aprendeu com

o pai comendo a mãe às 4h da manhã” (Kaur, 2017, p.12)

Esse cheiro de fome, lembra esse lado animalesco masculino, já discutido por muitas feministas e nada admirável. Não precisamos ir muito longe pra ver homens achando bonito ser um animal, eles se comportam assim.

 “ele foi o primeiro menino

a ensinar que meu corpo foi

feito para dar aos que quisessem

que eu me sentisse qualquer coisa

menos que inteira

 

 e meu deus

eu de fato me senti tão vazia

quanto a mãe dele às 4h25” (Kaur, 2017, p.12)

Sentir-se vazia, parece que é algo que só pertence à mulher, porque não é só o poema que diz isso, todas nós em algum momento sentimos. Há muitos homens que dentro de famílias, com suas mães sofrendo, reproduzem o mesmo com mulheres na rua. Eu não estou dizendo que eles não sofram, mas estou dizendo que a ideia de empatia entre os dois sexos não parece ser uma via de mão dupla, e se a mãe precisa ter compaixão com o filho, esse mesmo não precisa ter com ela, muito menos compreendê-la antes mesmo de mãe, como mulher.

No amor, ela diz:

“toda revolução

começa e termina

com os lábios dele” (Kaur, 2017, p.48)

Achou bonito? Romântico? Olha, numa primeira leitura é, e eu realmente acho que muitas pessoas podem romantizar tal poema, mas tu já parou pra pensar no significado da palavra revolução? E uma revolução ser motivada por um ‘ele’ e acabar pelo mesmo ‘ele’ não parece ser algo de um universo masculino e dominado por um homem?

Eu não acredito que a revolução tenha que começar e terminar por um ‘ele’, um ‘ele’ que parece ser tão poderoso a ponto de mandar eu agir e parar. Homem não tem que mandar e amor não deveria ser motivado e decidido atráves de um – muito menos um ‘eu – homem’ que historicamente não tem provado muitos atos de amor genuíno pelas mulheres. E falando nesse amor a eu-lirico diz:

“ele só sussura eu te amo

quando desliza a mão

para abrir o botão

de sua calça

 

é aí que você tem

que entender a diferença

entre querer e precisar

você pode querer esse menino

mas você com toda certeza

não precisa dele” (Kaur, 2017, p.86)

Uma ruptura libertadora, afinal de contas, não é facil perceber e se descobrir sendo usada diariamente e abusada emocionalmente. Quantas mulheres já ouviram uma palavra de carinho e logo em seguida um toque malicioso? Muitos homens usam disso para ter o que querem, usam isso, principalmente, em um momento de fragilidade a mulher. Os homens definitivamente não são burros – são maldosos, e pra isso, muito espertos -, mas a ruptura deixa claro que não vamos aceitar esse tipo de comportamento, pois:

 “o amor fez com que o perigo

em você parecesse seguro” (Kaur, 2017, p. 104)

Mas agora não parece mais! E por fim, a cura:

“perder você

foi o que levou

a mim mesma” (Kaur, 2017, p.174)

Aqui ela mostra o quanto juntas podemos ser mais fortes:

“você olha pra mim e chora

tudo dói

 

eu te abraço e susurro

mas tudo pode curar” (Kaur, 2017, p. 181)

Imagem: divulgação

Além de trazer a perspectiva da cura desses ditos ‘amores’, ela também traz a cura atráves da libertação dos padrões sociais que fazem as pessoas achar que devemos ter sempre alguém e que

somos inimigas umas das outras.

Esse livro abre espaço para questionamentos, com poemas curtinhos Kaur nos leva a olhar não só com olhos, ela traz essa sororidade que tanto precisamos, ela traz a empatia que devemos exercer e mostra com toda lírica que esse espaço (dentro e fora da gente) não é determinado por homens e pelos padrões sociais machistas que ainda existem.

E a cura, essa cura que faz com que prestemos atenção em quem realmente importa, nós – e aqui o ‘nós’ é feminino, porque eu falo de nós mulheres.

A Teta Racional e a Maternidade Desmistificada

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

O primeiro livro que recebi do Clube do Garimpo foi o “A Teta Racional” de Giovana Madalosso. Li em dois dias – um livro curtinho, mas cheio de conteúdo e vozes de mulheres. Um livro com dez contos e a primeira publicação da autora.

Imagem: Divulgação

As vozes vêm de vários lugares e vários momentos – mas eu, hoje, vou falar do que mais me tocou como leitora: a maternidade. Giovana conseguiu em diferentes contos mostrar a maternidade como algo sofrido, algo cansativo, e em alguns momentos, ruim. Não, não tem mãe abandonando filho, não tem mãe batendo no filho, não tem o estereótipo da ‘louca’, ‘dissimulada’ – não estamos condenando as mulheres que se sentem exaustas na maternidade, e por isso mesmo esse discurso não cabe aqui.

Imagina como é difícil para as mulheres serem mães: tu tens que estar sempre linda, feliz, amando o mundo com um ar sereno. Se teu filho chora, teu instinto tem que ser de correr para acalmá-lo. Se teu filho se suja, teu instinto deve ser limpá-lo (sem nojo, claro). PARA! Quantas mães não puderam dizer o que de fato sentem por medo de serem reprimidas pela sociedade? Quantas mulheres criam os seus filhos completamente sozinhas porque afinal de contas “quem mandou fazer?!”? Esse tipo de ideia e de julgamento já está mais que na hora de ser rejeitado. Esse tipo de julgamento, tem base em uma ideia de mulher que está determinada a ser mãe, que nasce para exercer uma função e que não tem opção de fugir para ser outra coisa. É como se ‘mulher e mãe’ fossem a mesma coisa. Beauvoir já falou sobre isso, vale a pena ler.

Nesse livro, há mulheres que sofrem e que mostram um lado da maternidade até hoje escondido para a sociedade e para mídia. Mostra a mãe indo ao banheiro com o filho no colo, sendo amamentado, e por mais nojento que isso pode parecer, não é! Isso mostra sim, o amor dela, a intenção de não deixar o filho sozinho ou chorando de fome. A narradora do conto “XX + XY” nos lembra que o corpo da mulher ainda é preparado para ser mãe precocemente e que carregar um bebê na barriga e no colo machuca o corpo – dói assim como amamentar. Uma mãe não dorme mais que duas horas continuas e isso irrita, isso causa desconfortos, isso dá vontade de chorar. Porque a mulher, antes de ser mãe, é humano.

Imagem: Divulgação.

Outra narrativa nos leva a relação entre mãe e filha, a preocupação e a possessão de algumas relações. Penso que isso se explica muito pela pressão que se tem na sociedade em fazer com que as mulheres cuidem (e muito bem) dos seus filhos. Essa possessão é quase uma imposição social, porque se algo der errado, ela é quem será a culpada. No conto “Suíte das Sobras” temos o questionamento: “Por que será que até amar tem que ser tão difícil?”. E não é?! E esse amor de mãe, mais difícil ainda. Nesse conto conhecemos mãe e filha fazendo uma viagem, e o que parece ser somente um passeio com alguns flashbacks, mostra muito mais. Mostra uma relação quebrada e sofrida – uma relação quase de fuga entre mãe e filha, que se restabelece quando alguns padrões são deixados de lado, quando os papeis sociais de mãe se suavizam.

O conto que dá título ao livro mostra uma mulher que se divide entre o trabalho e a maternidade. Algo bem comum hoje em dia, mas ainda assim, ignorado. “… trancada no banheiro da agência ordenhando” essa mulher separa o leite para o filho. Mas ordenhar é uma palavra forte! Parece referência aos animais! E não é assim?! E por que não pode falar assim? Ofende quem? A mãe idealizada da novela?! O pai?! Uma mulher, por muitas vezes, vive uma maternidade solitária, vira escrava desse momento. E no final das contas, o discurso não é que ela tem o que escolheu? Veja bem, não tem aqui nenhum tipo de compaixão! O discurso que recebemos todos os dias é assim, e dói, mas não só para mãe. Dói em todas as mulheres!

Giovana conseguiu desmistificar essa maternidade – e sim, deixou claro para mim o que de fato é a beleza disso tudo. Porque ninguém deve disputar mais disposição, a questão aqui é mostrar que a beleza disso tudo é a força das mulheres que ainda sozinhas na sociedade se mantém firmes. Giovana mostra que não é errado a forma como falamos sobre a maternidade e sim, a maneira como compreendem a maternidade, quase como um produto vendido pelas telenovelas com intuito de reforçar a feminilidade.

Eu, que nunca quis ser mãe, agora quero. Porque pela primeira vez, eu li algo que vez eu me identificar. Eu li o que minha mãe e as mulheres da minha vida nunca disseram, por medo de serem mais punidas do que já foram. Eu li o que eu sempre pensei e pela primeira vez eu senti que está tudo bem.

Deixo vocês com um book trailer do livro. Deixo também uma leitura!

Leia Mulheres e os Clubes de Leituras

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

Esse ano, iniciei um projeto pessoal, mas antes, explico: sou estudante de Letras e durante quatro anos de graduação, e alguns anos de vida, dedico parte do meu tempo e dos meus estudos à leitura de obras literárias. Até aí, ok. Não! Conheci obras muito boas, mas não conheci mulheres escrevendo. Li livros sobre mulheres, escrito por homens. Isso me chocou, me desassossegou.

Para isso, 2017 iniciou de um jeito diferente: Esse ano só leio mulheres. Quero poder falar sobre isso, mostrar isso para os outros e ajudar a mostrar as mulheres que escrevem e que ainda são marginalizadas justamente por serem mulheres. Logo em seguida, surgiu um problema: que mulheres escritoras eu conheço? Confesso, eram poucas. Eu não sabia por onde começar e foi aí que pesquisando conheci o Clube do Garimpo, que tem um dos clubes intitulado Leia Mulheres. <3

A ideia é simples, basta assinar o clube e mensalmente recebemos um livro escolhido pelas curadoras. Mas, espera um pouquinho, eu já falo dele. Antes disso, vamos falar do Leia Mulheres.

O #leiamulheres começou faz um tempinho já, mais exatamente em 2014 com a escritora  Joanna Walsh que lançou a hashtag #readwomen2014. O objetivo, como já se pode imaginar, era ler mais essa mulherada que produz um montão, mas que é esquecida.

Mas ué, tem um monte de livro da Clarisse Lispector! E… Sim, eu sei que há muitas pessoas que conhecem muito mais, mas tem mais outro montão de gente que não. No curso de Letras, por exemplo, tive contato com pouquíssimas mulheres. Conto nos dedos – Clarisse, Cecília Meirelles, Atwood, Angélica Freitas, não fechou uma mão! Acontece que se dentro do ambiente acadêmico isso ainda é deixado de lado, imagina na vida!

Enquanto nós temos que demonstrar interesse e correr atrás dessas produções, os homens ocupam as prateleiras das livrarias e a lista de obras de leitura obrigatória nas escolas. Ah! Mas aí é só procurar e ler! Gente, não é assim tão simples! E é nosso dever mostrar essa literatura e dividir o que aprendemos.

É nosso dever questionar porque as mulheres são tão apagadas – isso está para além das questões de produção literária, isso é um reflexo social e triste.

As meninas do #leiamulheres estão ganhando esse Brasil com clubes de leitura em várias cidades do país. Iniciativa muito importante! Se tu entrares no site, encontrarás resenhas, os clubes que existem, entre outras coisas. Entra lá, agorinha! Não deixa pra depois!

Aí, chegou o Garimpo Clube do Livro nesse esquema, não sei como exatamente, mas as meninas estão lá, escolhendo livros e enviando para leitores interessados. O Garimpo tem outros clubes também, de poesia, ficção, literatura infantil e humor e amor. Cada um atende um grupo específico de leitores. Todos indicados por uma galera que entende do que está fazendo.

E o que eu estou fazendo aqui? Eu vou falar sobre os livros que eu recebo mensalmente – assim, bem tranquilo, tentando deixar vocês com vontade de ler o que eu li. Pode ser?

Para saber mais sobre as meninas e a proposta vale a pena entrar nesses links: http://www.garimpoclube.com.br/ e https://leiamulheres.com.br/

Amor mesma

"Eu estou chegando ao meu eu, querido ex-amor."
Foto: Ana Luiza Calmon

 

Sabe amor, todo dia lembro de você ao acordar e ao dormir. Todo dia lembro na minha rotina de algum momento ao seu lado, bom e ruim. Lembro do seu toque – tão ardente! Nossa química era forte demais, envolvente. Encostamos nossas bochechas e ali eu senti um quente amor. Ainda não senti o mesmo novamente. Mas ai eu lembro do quanto você me diminuía! Eu mal recebia parabéns no meu próprio aniversário… Meus planos? reduzidos a pó por você. Meus projetos? legais…

Sabe, eu senti que te amava de verdade quando pelo seu simples sorriso tão sincero de felicidade eu me emocionei. Eu senti alegria imensa por te ver feliz! Mas em todos os momentos em que a felicidade era minha, o silêncio era predominantemente violento. Como se entrasse em meu peito e arrancasse o pulsar da minha pura e lúdica alegria.

Eu perdi meu sorriso com você. Tanto perdi que até você reconheceu… Esse meu sorriso largo, grande e contagiante, que gera empatia nas pessoas. Você me calou amor! Perdi meu eu e nem percebi de tão distante que já permanecia. Foi preciso você partir, você deixar os pedaços já semi mortos em mim, para eu voltar.

Ainda não regressei por completo. É um quebra-cabeça, onde a cada dia procuro a peça certa para cicatrizar os rasgos profundos aqui deixados. Todo dia, lembro de você ao acordar e ao dormir. Mas todo dia eu também lembro de mim mesma, de quem fui ao seu lado. Eu estou chegando ao meu eu, querido ex-amor. Estou chegando a um tipo de amor que representa a química mais verdadeira que irei encontrar: eu mesma.

Moda e Opressão

Moda e opressão

Moda e Opressão

 

Antes de começar este texto, só quero deixar claro o quanto ele é baseado em mim. Sim, ele é baseado nas minhas vivências, com um cadinho de história envolvida e só quero te convidar e pensar.

Antes de começar o Blog, sempre lutei e relutei em abordar moda, porque sim, porque para a maioria das pessoas moda é futilidade. Mas, assim como tinha esse receio, me veio a vontade de mostrar a quem eu pudesse que moda é muito mais do que esta camiseta que você veste neste momento. Toda roupa, cor, influência, tem o porquê de ser, mas, não é sobre esta questão técnica que quero falar, quero na verdade te convidar a pensar no quanto a moda pode libertar e aprisionar, no caso, nós mulheres.

A moda, mais do que estar nela, existe como parte de expressão pessoal. É você dizendo, em cada detalhe, quem você é, porque é, e logo, podemos tratá-la como resistência ou subordinação. Por mais que a gente tente, a todo o momento, resistir às opressões e a socialização, existem outras mulheres que sucumbem a elas, e pouco podem fazer a respeito. Não faz muito tempo em que a burca, por exemplo, não era obrigatória em alguns países de origem islâmica, e convido você a ler o post da Ingrid sobre isso, é só clicar aqui.

Ao mesmo tempo em que tentamos nos expressar, lutamos contra uma indústria totalmente machista e que nos divide entre padrão e não padrão. Uma indústria que vê nos tempos atuais, uma espécie de mude ou morra, porque nós, dentro da nossa cultura, não aceitamos o que querem que a gente aceite. Não aceitamos sermos chamadas de plus size, quando não usamos manequim 38, não aceitamos que certas peças de roupa, sejam para poucos, não aceitamos que expressões culturais sejam chamadas de brega. Nós também não aceitamos mais que nossos cabelos tenham que ser lisos, só para fazermos parte de um grupo. Não aceitamos, simples.

 

Moda e Opressão
Ju Romano. Referência em moda, empoderamento, amor próprio e quebra de padrões.

 

A meu ver, além de uma forma fundamental de expressão, a moda torna-se resistência. Usamos o que queremos, porque queremos e nos aceitamos como somos, e a indústria de consumo tem que aceitar, são as nossas regras. Por isso, mana, amiga, irmã: afirme-se. Não tenha medo, use e abuse da moda, esteja nela se quiser, não esteja se for sua opção. Não se anule por nada e nem por ninguém. A parte mais deliciosa de ser moda é ser o que quiser, usar o que quiser, sem deixar de ser o que mais você deve amar: você!

Nota: Esse texto foi feito pela blogueira Rafaela Arnoldi, feminista e proprietária do blog de moda Diariamente.

Sobre ser mãe de menino

Confesso que quando descobri que estava grávida, foi um verdadeiro susto, mas também confesso que quando descobri que seria um menino, achei mesmo que seria mais fácil. Não que como mulher eu tenha tido uma vida difícil: nunca! Classe média, vida normal, família estruturada e até que um pouco desconstruída. Mas é isso que ouvimos sempre, né? Que não é fácil ser mulher e que menino dá menos trabalho. Pudera.

Não faz muito tempo que conheci o feminismo a fundo, não faz muito tempo que me apaixonei por toda ideologia e transformei no meu ideal de vida praticar sororidade. Mas eu vivo num mundo masculino: filho, marido e até cachorro. Como praticar tudo isto então, como encaixar tudo isto no meu mundo além internet? E foi ai que descobri que o que de melhor posso fazer pelo mundo, seja pelo feminismo ou não, é criar meu filho Giovanni, meu filho homem, de maneira desconstruída, com liberdade e, principalmente, tirar dele qualquer chance de reproduzir machismo.

Não é fácil, aliás, é qualquer coisa menos fácil. Até porque, por mais desconstruída que você tente ser, você tem mais e mais a desconstruir, você tem que se policiar. Mas, se você for aguardar a perfeição, nunca fará nada. Comecei pelas pequenas coisas, pela gentileza. Comecei a ensinar que meninos e meninas são iguais, podem gostar das mesmas coisas, podem brincar com os mesmos brinquedos, podem usar as mesmas cores. Comecei, como mãe (e posso afirmar que o Marlon, como pai), a procurar desenhos e similares que estimulem a igualdade, e qual foi minha surpresa: existem – se você tem filhos pequenos, deixem que assistam Luna, sério.

Se ter que educar um filho não é fácil, desconstruir um pouco que seja meu marido também é uma luta. A criação não colabora, mas com certeza o diálogo sempre nos fez mais fortes e ele sabe, hoje, que respeitar o outro, as escolhas, o ser, suas opções e suas orientações, é fundamental para sermos humanos e que devemos exercer isso com nosso filho, um com o outro e com qualquer pessoa.

Às vezes é desanimador, são tantas histórias e notícias, tantas vivências, porém, como uma otimista, tenho certeza que esta geração do Giovanni vem muito mais forte, mais tolerante, mais resistente e que estamos criando verdadeiros seres humanos, como sempre deveria ter sido. Giovanni tem personalidade forte, mas é doce, compreensivo, sensível e humano, e se depender somente de mim, para sempre será assim.

Rafaela Arnoldi (Mãe de menino)
Imagem: arquivo pessoal

Quem escreve?

Rafaela Arnoldi é administradora, blogueira e mãe do Giovanni. Ela escreve sobre moda (e outros assuntos desse universo) no blog Diariamente.

Eu te amo, mas não sou obrigada – por Mandy (blog Vintezanos)

Deixa eu te perguntar, rapidão mesmo, você já se deu conta alguma vez que amor, por mais importante que seja, não é tudo? Às vezes acho que nos prendemos tanto as histórias românticas de livros e séries, que nos esquecemos de quem realmente somos. Quantas vezes você não se deixou levar por um argumento do seu namorado ou marido, mas pensando que, na real, você não estava errada?

Você tem que se lembrar que antes de amores, você é você. Tem opiniões, queixas e adjetivos diferentes das outras pessoas. Você é uma corda, não uma corda que precisa de um punho para segurar, você é uma corda que sabe dar seus próprios nós. Não precisa de ninguém nem nada para se queixar no seu lugar.

Se no momento você está acreditando que o seu relacionamento acabou, mas algo sempre te puxa a dúvida do e se, caia fora. Não é porque é amor, que é eterno ou que se é obrigatório que aconteça. Amar é amar, realmente algo que não tem como explicar, mas também não é algo que te obrigue a ser ou viver o que não quer.

Sufocar em um relacionamento que não te faz bem, miga, é uma mancada daquelas que vai doer até os ossos das mãos. Pense comigo, tente se imaginar daqui há cinco anos junto com essa pessoa, essa mesma que você ama, consegue? Não? Isso não significa que você não ama, apenas que consegue reconhecer que não é algo duradouro.

Não são todos os amores que foram feitos para acontecer até a eternidade. Alguns fazem mal. Alguns machucam mais que saram e isso você, simplesmente, não é obrigada a lidar.

Não tenha medo de reconhecer que seu amor é um amor passageiro ou um amor que não vai ficar ao seu lado. Isso não te faz fraca ou incapaz, na verdade, só mostra que você é madura o suficiente para dizer a si mesma que ‘na boa, eu te amo, mas não sou obrigada a sofrer por nada’.

Miga, tu é algo muito maior que um relacionamento, existe amores a um, o amor próprio. Ele te faz muito mais feliz que muito amor ciumento, amor sem freio, amor mandão, amor de bad. Então levanta essa cabeça ai e tenha força. Tu ama sim, só não é obrigada a nada.

Caia fora.

 Blog Vintezanos
Este post faz parte da nossa parceria com o blog Vintezanos, da Mandy Castilho