Amor

Amor é só um sentimento

O nosso grande erro é idealizar o amor. E isso não só diminui a gente perante o amor, como diminui o amor perante a gente.

Temos a mania de achar que o amor se basta e que ele é uma espécie de elemento inigualável em todo o universo. Que o amor é uma divindade que não apenas deve ser cultuada, como que também exige uma série de dogmas a serem seguidos.

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Pseudo-gaia

Existem várias maneiras de virar o mundo de alguém de ponta cabeça, ter um filho pode estar no topo da lista de muitas pessoas.

Nunca foi o meu caso.

Sou uma feminista vadia, odiadora de homens, apoiadora de assistência médica em abortos (cof cof itonia cof cof)… e eu sempre quis ser mãe.

Então a minha única reação possível seriam sorrisos durante nove meses.
Vou te dizer uma coisa amiga, minha gravidez foi tranquila.

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Drabble: Angústia

Drabble: Angústia

Quando ainda era muito pequena, aprendera nos livros uma palavra que passou a usar para todos os sentimentos que não sabia explicar: angústia. Mesmo com a descoberta, às vezes ela ainda não se fazia entender. Afinal de contas, não deixava de ser um termo avançado para sua idade, e seus coleguinhas não eram ratos de biblioteca como ela para conhecê-lo.

Demorou a perceber que, no entanto, se enganara por todo esse tempo. Angústia não era um único nome para todos os sentimentos inexplicáveis. E sim o que vivenciava ao não conseguir entender as emoções que cresciam nela, sem explicação.

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Microcosmos

Drabble: Microcosmos

Depois de um longo período explorando o cosmos, chegara a hora de voltar à Terra. O prazer de saltar entre corpos celestes já não mais abafava a saudade de casa.

Tirou o capacete ainda no quintal e colocou-o debaixo do braço para abrir a porta de entrada. Limpou o pó de estrelas dos pés antes de entrar. A mãe não ia gostar se fizesse sujeira.

Mesmo recebida com um abraço quente como uma supernova e um sorriso brilhante como um sol, não pôde evitar sentir certa melancolia. Gostava muito do espaço, afinal. Mas tudo bem: amanhã ela voltaria para lá.

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Corpo em cena

Sinto meu corpo preso na maré de sentimentos.
O equilíbrio que busco a longo prazo me puxa para o fundo do mar.
A âncora é pesada, repleta de durezas e cobranças.

Autopunição
Desrespeito
Intolerância
Se eu deixar, afundo.
Eu já quis.

Não vou mentir, o desespero bate.
A ansiedade e autocobrança em fazer dar certo me imundam.
Eu quero prosperar e alcançar o que acredito,
mas as ondas me puxam com tanta força que eu ainda não consigo domá-las.

Doi.

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Série One Day at a Time

Dica de série imperdível: One Day at a Time

Quando o assunto é engajamento social e político, a maioria das produções audiovisuais opta por uma ou duas pautas a serem abordadas, muitas vezes para evitar o risco (real) de se criar algo forçado ou raso. São poucas as obras que conseguem trazer múltiplos assuntos relevantes de forma orgânica e bem trabalhada. One Day at a Time (Netflix, 2017) é uma delas.

A série é um reboot da sitcom de mesmo nome exibida entre 1975 e 1984, que relatava o dia-a-dia de uma mãe solteira (vivida por Bonnie Franklin) criando suas duas filhas (Mackenzie Phillips e Valerie Bertinelli) em Indianápolis. A nova versão transformou a família em cubano-americana, com Justina Machado (Six Feet Under) como Penelope, a mãe, Isabella Gomez e Todd Grinnell como os filhos e Rita Moreno (a Anita de West Side Story e ganhadora dos EGOT) como a “abuelita” Lydia.

Série One Day at a Time
Os elencos da série original e do reboot, respectivamente

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Carta para uma versão mais evoluída de mim mesma

Poderia começar dizendo “Olá!”, mas ambas sabemos que eu não falo “olá”. Eu mal falo “oi”, apesar de não saber para qual lado pode ocorrer essa evolução, né. Hoje, nesse momento, as coisas estão em processo, como sempre. Talvez essa seja a hora que eu, ou você, consiga ver que eu posso fazer melhor do que isso, em alguns aspectos, e começar a arrumar a casa daqui.

(Será que daqui 5 anos vou estar morando em um apartamento? Espero que não, mas, se tiver, nada contra.)

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Contos Aleatórios sobre elas – Adessa

Adessa

 

Primeira Parte

A dúvida toma conta de cada passo que dou. Talvez eu devesse ter dado ouvidos a Tia Marli, ela estava certa, vir aqui foi um erro.

_ Boa noite senhorita, posso apanhar o seu casaco?

_ Ah sim, obrigada.

_ Adessa, você veio!

Tudo o que eu queria era chegar e ficar escondida em um canto, mas com essa sorte que tenho, claro que a escandalosa da Lola seria a primeira a me notar.

_ Olá Lola. Como você está?

_ Estou ótima! Melhor agora por saber que você e a Laura conseguiram se entender.

Falsa.

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Corpo infinito

Meu bem, quero te mostrar uma coisa:

Meu corpo.

Vem que eu te deixo tocar cada dobra, passar seus dedos em cada curva, volume, cada linha que me desenha. Eu te quero é me desenhando com suas mãos, sentindo minha pele arrepiar com seu toque. Te deixo apertar minha bunda com toda força, mas tem que mostrar que gosta, que minha bunda é gostosa desse jeito mesmo. Te deixo morder minhas coxas grossas e depois ir subindo aos poucos, me deixando tensa de tesão, dentro de mim. Eu tenho lábios lindos – em cima e embaixo, externo e interno. São carnudos, macios e ultra sensíveis. Se você quiser, te deixo fazer um estrago com eles, você vai ficar louco. Nego, quero sentir seu corpo quente ao meu, pele com pele, mão com mão, peito com peito, órgão com órgão. Entra e sai, entra e fica, sai e volta. Fundo. Profundo.

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Algo sobre Carolina Maria de Jesus

Há dias que fiquei ruminando pensamentos sobre como poderia expressar em palavras o que a escrita de Carolina me fez sentir, falar sobre os efeitos dos ecos que cada palavra escrita por ela reverberou em meu ser.

Poderia aqui falar a partir de uma perspectiva social baseando-me nas denúncias feitas por Carolina à uma realidade que ainda se faz presente- a realidade cruel vivida pelo povo negro, pobre, a realidade do quadro político do Brasil- o mesmo desavergonhado e perverso de hoje ou me ater à perspectiva feminista- sim, Carolina era feminista, um feminismo não acadêmico ou teorizado, mas fruto de uma experiência de vida, um feminismo de uma mulher que também foi “macho”, um feminismo honesto de uma mulher que ousava, sempre que possível, driblar o próprio machismo e fugir da linha reta e inflexível traçada pelo patriarcado.

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