ceder

Ceder

Um bicho sem nenhum senso de nada abanando o rabo, balançando o rabo, babando, sacudindo. Eu-festa. Cheiro, dedo, olho, desaconselhável. Eu que sempre trava, peso, ombro doído. Eu que sempre chão agora tenho asas. Meu bem, eu preciso pousar em algum momento, mas estou acoplada ao mundo no céu. Estou fodendo. Não tomei nenhuma droga. Não bebi nenhuma gota. A garganta estava completamente seca. Um bicho com sede de boca e de barba. Um olho com sede de tudo que a vida pode pra sempre. Não consigo ser gente depois de ver de dentro o homem da minha vida.

Aline Dias

 

Assista ao vídeo poesia: Elas Declamam – Ceder

 

Autora Convidada

Aline Dias nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, em 1988. Publicou “Vermelho” (2012), “Além das Pernas,” (2015) e organizou a coletânea “Sem a Loucura não Dá” (2017), com contos inspirados em músicas de Sergio Sampaio. Aprendeu a chorar este ano e acredita no amor. O texto “Ceder” integra as páginas de seu mais recente livro, “A única coisa que fere é manhã pós-amor” (2017). Assista a entrevista com a autora.

Marcela

Marcela,

   Nós temos uma usina hidrelétrica no peito. Não cabemos em pouco. Queremos muito da gente mesmo e dos outros. Sem querer exigimos mais do que a realidade oferece. A realidade nunca nos foi palpável. Rasa demais, a propósito. Queremos é invenção, virar de ponta cabeça. Queremos o estômago saindo pela garganta, taquicardia. Que mundo fosse mais rasgado que toque na ponta dos dedos. Que fosse mais pele quente, mais braços, mais pernas. Olhos grandes encarando a gente do lado de cá. A gente faz prece vendo a ressaca do mar, porque a gente respeita a força da sua existência. Tudo que explode e lava tem nosso respeito. Diz: como é que podemos viver sempre ladeira abaixo, ladeira acima? Se arrebentar e se refazer tantas vezes. Com que cara a gente se ergue? Só sei que sobrevivemos. E ainda sobra cara para bater e peito aberto. Marcela, quantos navios já naufragaram no seu oceano?

   Assista ao vídeo poesia: Elas Declamam – Marcela,

 

Autora convidada

Maria Gabriela Verediano escolhe a cada dia quando vai ser Maria, quando vai ser Gabi, quando Gabriela e quando a gravidade de um nome composto. Maria não tem medo de nada, e o que sente escreve. Gira, gira, gira, e sonha. E samba. E mostra. Ela escreve no blog Sambaprasmoças

 

oaboab, abcabc.

naquele dia resolvi me entregar ao luxo-lixo de despertar apenas na hora em que meu corpo bem escolhesse, fazendo-o sorrir como um corpo sem patrão, um corpo desmandado, reforçando o cotidiano de sarros que tiramos um com o outro entre uma ou outra aposta na liberdade. um corpo ele que, de tão desapregoado, tornou-se digno de ser reconhecido não mais como ninguém, mas sim, como ela. ela, eu, nós.

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A ‘Cidade Persa’ de Marjane Satrapi

Nascida em Rasht e crescendo durante os primeiros anos da guerra Irã- Iraque em Teerã, a franco-iraniana Marjane Satrapi o qual adotou o nome artístico de Marjane Ebhamis anos mais tarde, passou a ser conhecida como a primeira mulher do Oriente Médio a ser indicada ao Oscar por sua série animada adaptada de seus quadrinhos, Persépoles, que retrata da sua infância até a vida adulta.
Crescendo num âmbito familiar instruído e politizado, pois seus pais eram comunistas, Marjane foi criada ouvindo histórias sobre os rebeldes e a queda do governo do Xá, Ruhollah Khomeini,  formando suas próprias opiniões sobre diversos assuntos, como os diretos femininos e religião. Ainda na pré adolescência, ao desafiar o sistema fanático de seu rígido colégio, seus pais decidiram manda-la para morar com uma amiga da família na Áustria, visando livrar-la da represália ditatorial.
Já em Viena ela começou estudar no Liceu Francês de Viena durante todo ensino médio, o qual nesse período teve que sair da casa dos amigos da família, passando pela casa de oito homossexuais, diversas republicas estudantis e pensionatos, o qual desse último, passou a morar nas ruas, adquirindo assim uma pneumonia grave que quase a levou a morte.
De volta a Teerã, mesmo rodeada pelos parentes e pela família, incluindo sua tão amada avó, dona de um perfume peculiar emanado das margaridas em seus seios, presas ao sutiã, Marji, apelido carinhoso de menina, adquirira uma depressão profunda. Após sair do momento depressivo, decidiu por se casar com Reza aos 21 anos por conta das leis iranianas de proibirem o namoro, forçando o matrimônio, mas contrariou as mesmas restrições três anos depois, pedindo o divórcio num país onde as mulheres que o conseguem , passam a ser vistas como constantemente prostitutas.
Com o seu diploma de Comunicação Visual pela faculdade de Belas Artes, a Universidade Islâmica Azad, Marjane se mudou para Estrasburgo, França, mas atualmente mora em Paris, onde trabalha como autora e ilustradora livros infantis.

Lotte Reiniger


Acho incrível como, não importa o ramo, sempre nos lembramos mais das contribuições dos homens do que das mulheres. Aprendemos na escola nomes de vários cientistas, compositores, romancistas e artistas, mas quantos deles eram mulheres? Quantas mulheres tiveram a honra de terem seus nomes mencionados em uma sala de aula do ensino médio junto com sua importância?
Eu só consigo me lembrar de três, mas não sei se o problema era específico da minha escola, ou com minha memória. Conversando com outras pessoas em vários outros lugares, incluindo países, não creio que seja o caso.

O ponto em que quero chegar é, essa é uma tendência que vejo acontecendo em praticamente todos os ramos, e com a animação não é diferente.

Charlotte “Lotte” Reiniger (1899 – 1981) foi uma grande animadora e fez grandes contribuições técnicas para o ramo. Walt Disney mesmo só conseguiu Branca de Neve e os Sete Anões (1937) graças a algumas das técnicas desenvolvidas por Lotte e seu marido. Uma delas foi sua técnica de utilizar camadas de vidro para poder dar o efeito de profundidade em suas obras.

Lotte Reinigier em sua mesa de trabalho. O mecanismo serve para ajustar e acionar a câmera localizada logo acima da mesa. Assim, foto a foto, Lotte animava suas silhuetas.

Aliás, contrária a crença popular, o mais antigo longa de animação não foi Branca de Neve, e sim As Aventuras do Príncipe Achmed (1926), produzido pela nossa querida Reiniger em um tempo em que ninguém realmente considerava a ideia e uma animação que durasse mais de 10 minutos e não servisse apenas para fazer o público rir.

Seu estilo de animação com silhuetas foi grandemente inspirado pela arte chinesa de teatro de sombras e seu amor pelo cinema. Enquanto a maioria dos filmes na época dependiam das expressões faciais para demonstrar emoções e ações, Reiniger utilizava-se apenas da linguagem corporal de seus personagens para passar as histórias de suas animações.

Frame do curta Däumelinchen.

Em vida, Lotte Reiniger produziu cerca de 40 animações em seu estilo único. Uma boa parte delas pode ser encontrada no youtube, inclusive o longa As Aventuras do Príncipe Achmed. Fora, é claro, as inúmeras homenagens e referências que encontramos por aí, como a animação d’O Conto dos Três Irmãos em Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte II, e a homenagem do Google em seu 117º aniversário.

E deixo aqui, com vocês, um dos meus curtas favoritos produzidos por ela, Däumelinchen (Polegarzinha. Alemão é uma língua tão desnecessariamente agressiva), para vocês terem um gostinho da graciosidade que são as animações dela.

Até breve! | Pausa no Blog

     Se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que a gente tem que saber a hora de dar uma pausa e respirar. Com o blog isso não poderia ser diferente. Nós amamos o que fazemos e temos muito orgulho do conteúdo que entregamos para vocês. Mas, infelizmente, nosso trabalho estava sendo comprometido por inúmeros fatores.

     Nós somos quatro autoras, e se as quatro estão tendo dificuldades de continuar postando e estão estafadas pelos compromisso (com o blog ou não), é sinal que precisamos de férias. Infelizmente de outros compromissos nós não podemos nos desvincular, mas o blog era pra ser uma atividade prazerosa. Como escrevemos aqui por amor e despretensiosamente, optamos por parar por uns dias.

     Não, isso definitivamente não é um adeus. É sim um até breve. Não temos uma data certa de retorno, mas será dentro de alguns meses. Nesse tempo, além de refrescar a mente (o que pode até nos ajudar a ter mais ideias para vocês), nós vamos também fazer uma pequena reforma no blog. Reforma essa que já estamos planejando há tempos.

     Isso não significa, no entanto, que nossa ausência será garantida nesse período. Nos demos o direito de não postar com obrigatoriedade, mas ocasionalmente podem surgir posts descompromissados aqui, assim como na página. Esperamos que possam aguardar pelo nosso retorno e que nosso trabalho melhore cada vez mais. Voltaremos logo, com energias renovadas e cheias de mudanças positivas pra vocês!

Tem que ser pra sempre?

Imagem: Tumblr

Na nossa condição irracional, impetuosa, e muitas vezes invejosa temos ânsia de um pra sempre.

Seja o que for, temos a ideia de que todas as coisas não possuem a necessidade de fluir mas sim permanecer estáticas em nossas vidas, como se a escolha fosse apenas nossa, ou melhor necessária.

Vi amigas sustentando um relacionamento abusivo, quantos casamentos sem amor, quantos amigos cursando faculdades infelizes por não se identificarem com a carreira escolhida… Pra que?

Pra que relutar com o destino? Pra que sofrer em vão e derramar gotas de vida lutando por um pra sempre que supostamente deixa sua vida mais sólida ou mais “feliz”?

Por que não deixar o curso da vida nos arrebatar, e nos deixar livres, recomeçar do zero, até que por fim nos encontremos com nós mesmos?

Se pertencer talvez seja a missão mais complexa de nossas vidas, vivemos em busca da liberdade, mas talvez não saibamos ser livres, vivemos em buscas de correntes que fazem nossas vidas fazerem sentido sendo que só é possível viver sem correntes.

Não existem segredos para se viver, e nem livro de autoajuda que nos tire do abismo que chamamos de vida.

Opiniões alheias já não acrescentam mais. Relacionamento bengala, amizade interesseira, faculdade sem vocação, nada disso é vida! A vida tá no respirar livre, no dormir em paz, no reconhecimento de si mesmo quando olha para trás e possui orgulho do caminho seguido.

Só você pode se fazer feliz, e só você é pra sempre seu.

A Rainha de Benguela

Imagem: Google/internet

     Existem heroínas os quais merecem igualmente o nosso reconhecimento assim como as que vemos em quadrinhos e séries de televisão, e uma delas é Teresa de Benguela.

     Mulher negra e forçada a escravidão como muitas no século 18 ( vide  Dandara e Aqualtune já citadas), com a morte de seu marido, José do Piolho, comandara o Quilombo do Piolho ou dp Quariterê, localizado no atual estado do Mato Grosso, entre o rio Guaporé e a atual cidade de Cuiabá.

     Conhecida como Rainha Teresa, negros e indígenas faziam o uso da plantação de algodão – privilégio dos senhores do engenho – para a produção de tecidos, e também do uso da agricultura, cultivando desde milho a mandioca.

     Quando o Quilombo foi destruido pelos homens de Luiz Pinto de Souza Coutinho em 1770, população de 79 negros e 30 índios, rumores que Benguela cometera suícidio ou foi morta por uma doença jamais foram confirmados. Teresa manteve um sistema de trocas de  armas com os brancos resgatados de vilas próximas, transformando os objetos de ferro em instrumentos de trabalho, pois os quilombos da Benguela possuíam exímio dominio da forja. 

     Dia 25 de julho foi instituído pelo Brasil e pela Lei n. 12 987 como dia nacional de Teresa de Benguela e dia da Mulher Negra.

A princesa à frente de 10 mil

Possível registro de Aqualtune

Aproveitando o mês da visibilidade negra, mas um ícone de resistência histórica será enaltecido, e esse ícone é Aqualtune, a princesa do Congo, que no ano de 1665, Aqualtune comandou um exército de 10 mil soldados congolenses contra uma invasão – alguns dizem que de portugueses colonizadores, outros de uma tribo inimiga. Todavia, infelizmente perdeu, sendo capturada e seu pai, o rei do Congo, morte e tendo sua cabeça exposta em praça pública.

Sendo levada até o forte de Elmina na época, em Gana, foi batizada por um padre católico e marcada a ferro com uma flor acima do seio, acabou sendo vendida como escrava reprodutora. Desembarcando em solo recifience, acredita que tenha chegado já grávida de outro negro escravo, pois havia sido estuprada diversas vezes durante sua travessia no mar. Ao chegar ao Recife, Aqualtune tentou se jogar no oceano, na tentativa de voltar para a sua já muito longica terra natal.

Ouvindo falar do ” Reino dos Palmares” já num estado avançado de gravidez, a princesa se juntou a um grupo de escravos que iria destruir a Casa Grande e fugiu para Palmares, chegando por lá com mais de 200 refugiados, tendo sido reconhecida sua origem real.

Dando a luz ali a dois dos maiores lideres do Quilombo dos Palmares: Ganga – Zumba e Ganga Zona, conhecidos por sua liderança e coragem, Aqualtune deu a luz também a Sabine, mãe de Zumbi dos Palmares.

Sua morte possui muitas controvérsias, alguns dizendo que ela foi queimada durante as expedições e outros que ela conseguiu escapar e morreu de velhice anos depois, mas de uma coisa a história esta certa, Aqualtune, princesa do Congo, deve ser lembrada como um grande ícone feminino de resistência até a atualidade.