Uma reflexão sobre As Caça-Fantasmas, boicotes, machistas e representatividade

Reprodução/internet
Este post pode soar um pouco desatualizado, haja vista que a notícia que o motivou já tem umas boas semanas. Mas a reflexão que ela me trouxe ainda é bem pertinente. O negócio é que eu fiquei sinceramente com medo quando soube que As Caça-Fantasmas deu prejuízo nas salas de cinema.
Antes de tudo, é preciso entender o significado desse filme. E, principalmente, seu papel como símbolo. Versão “gender bender” (de gêneros trocados) do clássico pop dos anos 80, As Caça-Fantasmas pode até não ser uma obra genial – o original também não é -, mas já pode ser considerado corajoso por ser assumida e propositalmente representativo.
E sob uma máscara de nostalgia que mal disfarça o motivo real (dica: machismo),  grupos boicotaram a produção desde antes de seu lançamento. Olha, de fato nem eu gostei muito do primeiro trailer lançado, mas “gosto” definitivamente não é explicação o bastante para que ele tenha batido recorde de avaliações negativas no YouTube.
Isso tudo, aliado à propagação em massa do clássico “nem vi e sei que é ruim” fizeram a película passar quase instantaneamente no Teste da Furiosa. Aquele que mede a qualidade/representatividade de uma produção baseado na fúria (sem trocadilho) dos machistas na internet (leia sobre ele, em inglês, aqui).
É isso (e boicote) que machinhos fazem quando descobrem um filme que não foi feito para eles
Mas, diferentemente de Mad Max: Estrada da Fúria, o boicote dessa vez parece ter dado efeito – ou pelo menos é essa a impressão que ficará para muitos. E é justamente por isso que eu tenho medo. Temo duas fortes – e péssimas – possibilidades: ou os haters se sentirem responsáveis e consequentemente mais encorajados para novas investidas, ou os grandes produtores se sentirem acuados e diminuírem os avanços que já tivemos nesse aspecto. A antes confirmada sequência de As Caça-Fantasmas, inclusive, já foi posta em xeque, como dito na matéria que gerou este post.
A gente sabe bem como funciona o mercado. Tudo é feito visando o público e, principalmente, o lucro. Não dá para ser ingênuo de acreditar que o crescimento de produções representativas e/ou empoderadoras foi meramente por ideologia. O que houve foi um crescimento da projeção do público preocupado com essas questões, que passou a ser visto como expressivo, ao ponto de provocar mudanças.
Mas se os haters e machistas começarem a ser vistos como uma parcela significativa do público, as coisas podem se complicar. Porque se tiverem que escolher entre agradar o público desconstruído (promovendo mais desconstrução, aliás) ou o dinheiro, é óbvio que sempre ficarão com a segunda opção.
Isso pode até parecer desmotivador, mas eu acredito que só reforça que não podemos parar de reivindicar e fazer nossas vozes valerem. Não foi ficando caladas no cantinho em que nos colocaram que conseguimos começar a mudança.
Ao contrário do que tentam alegar, até nosso “textão de Facebook” já fez e continua fazendo diferença. Mas ele de fato não é o bastante. Nossas reclamações e manifestações nos fazem sermos vistas como público em potencial, mas não como efetivo. E é exercendo os dois papéis que conseguimos alguma coisa. E, no final das contas, faz mais sentido focarmos nossas energias (e nosso dinheiro) em produções que se alinham com nossos ideais, né?
É mostrando a que viemos que conseguimos resultados
E é claro que eu não estou falando de simplesmente encher os bolsos de grandes produtores como “prêmio” por terem se adequado a novas tendências. Nem mesmo falo de sair assistindo o que não nos agrada só por ser representativo. Mas, primeiro, eu incluo aqui também o incentivo aos pequenos e principalmente pequenas profissionais da arte e do entretenimento, que precisam ainda mais dele. Segundo que só de nos esforçarmos um pouquinho para prestigiar coisas que gostamos e TAMBÉM são representativas já estamos fazendo alguma coisa.
E por último, mas não menos importante: só se muda um mercado por dentro. E o primeiro patamar que alcançamos para mudar a indústria cultural é o do público. Sendo vistas como público “ganhamos” produções que podem, inclusive, despertar novas criadoras entre nós. 
Isso, aliado às nossas reivindicações por representatividade, só tende a aumentar o número de produtos escritos, desenhados, dirigidos, produzidos por mulheres. Vide os vindouros filmes da Mulher Maravilha e da Capitã Marvel e suas diretorAs. Aos poucos vamos ocupando novos espaços e promovendo exatamente a mudança que os haters não querem ver. E eles que se acostumem

A gente chega lá!

Exercitando o pensamento crítico: Bonequinha de Luxo

Bonequinha de Luxo

Este é a o primeiro post da experiência que eu me propus a fazer aqui. Leia se quiser entender melhor.

Bonequinha de Luxo é um dos meus filmes preferidos, e sem dúvida o mais icônico da maravilhosa Audrey Hepburn. Eu me encantei por ele pela primeira vez aos 17 anos, e foi justamente nessa época que surgiu o meu amor pela atriz.

Entretanto, por mais que então eu não me atentasse tanto aos detalhes, é inegável que a produção possui, sim, alguns problemas. O mais explícito e exaustivamente apontado se trata do yellowface feito pelo ator Mikey Rooney, intérprete do japonês caricato Sr. Yunioshi. O personagem faz uma representação completamente negativa dos orientas: racista, estereotipada e como um mero alívio cômico.

Senhor Yunioshi
Mikey Rooney como senhor Yunioshi (reprodução/internet)

As cenas em que ele aparece, inclusive, são totalmente descartáveis. O que só aumenta a sensação de que era um erro “evitável”. Lógico que não dá para cair no anacronismo: em 1961 as preocupações atuais com representatividade simplesmente não existiam. Mas isso não anula e nem mesmo diminui ou justifica o erro. No máximo o explica e contextualiza.

Um comparativo: o mesmo filme traz um ator espanhol (José Luis de Vilallonga) como um personagem brasileiro. Primeiramente, tal fato é recorrente ainda hoje. Vide a mesma troca feita em Comer, Rezar, Amar (2010), onde Javier Bardem também interpreta um brasileiro, e o recente caso do Wagner Moura interpretando o colombiano Pablo Escobar. E, mas importante ainda, apesar de pecar em representatividade, o personagem não é caricato ou ofensivo. Sr. Yunioshi é isso tudo, com o adicional da prática do yellowface, o que aumenta o absurdo.

Villalonga
Villalonga em Bonequinha de Luxo (reprodução/internet)

Apesar de ser o mais famoso – e óbvio –, esse não é o único ponto do filme que pede reflexão. No que diz respeito à trama em si, há dois pontos que eu queria destacar. Um deles é meio baseado em “achismo”, porque eu ainda não tive oportunidade de ler a novela na qual o filme se inspira para tirar melhores conclusões. Mas pelo que sei, comparada à obra original de Truman Capote, a versão cinematográfica pode ser considerada meio medrosa.

Como tantas adaptações da época, a película deixou de lado alguns aspectos considerados polêmicos e/ou pesados do livro. Como, por exemplo, a sexualidade dos protagonistas: Holly seria supostamente bissexual, e Paul/Fred, gay. Isso tudo não apenas tornou Bonequinha de Luxo menos representativo, como menos subversivo – e mais despretensioso.

O outro ponto, e provavelmente o que eu tenho mais dificuldade de admitir, faz parte justamente da mensagem do filme. Não custa nada avisar sobre spoilers (mesmo sendo de algo de 55 anos), já que vou citar mais detalhes, inclusive o final. Holly é uma personagem complexa. Dá para dizer que ela esconde muitas características através de seus opostos: insegura, mas se faz de forte; profundamente ligada ao irmão, mas age como desapegada; indecisa, mas se enche de planos mirabolantes.

Mas nada disso a torna uma personagem fraca, pelo contrário. E, apesar de muitos desses opostos serem usados como casca, alguns são naturais. Como o seu espírito livre, a despeito de sua vontade de encontrar seu lugar. Essa liberdade a faz fugir de Paul até o final, quando ela finalmente se rende e os dois ficam juntos. A mensagem que fica é que, assim, ela encontrou seu lugar.

Talvez isso não fosse tão incômodo se não desse a sensação de descarte do diálogo que os dois têm na cena anterior (imagem abaixo).

Bonequinha de Luxo
Paul: Holly, eu estou apaixonado por você / Holly: E daí? /  Paul: E daí? Tudo! Eu amo você! Você pertence a mim. /  Holly: Não. Pessoas não pertencem umas às outras. /  Paul: Claro que elas pertencem! /  Holly: Não vou deixar ninguém me colocar em uma jaula! /  Paul: Eu não vou colocá-la em uma jaula! Eu quero amá-la! /  Holly: É a mesma coisa!

Holly acredita que o amor é uma prisão. Não há nada entre esse diálogo e a cena final que realmente demonstre que ela mudou esse pensamento. A sensação que fica é, ao contrário, que ela escolhe abdicar da própria liberdade em prol desse amor. E é um pouco decepcionante que uma personagem tão interessante e, principalmente, livre, abra mão de algo tão importante para ela, bem… por um homem. Talvez se houvesse algo mais claro que demonstrasse que ela passou a enxergar o amor de outra forma, o final não passasse essa sensação. Mas da forma como foi apresentado, infelizmente é isso que fica.

Mas, hei, eu ainda amo esse filme. Enxergo suas falhas, mas não deixo de amá-lo. E, aproveitando a oportunidade, quero fazer o inverso nesse último parágrafo e apresentar uma “contra-crítica”. Eu sempre vejo a Holly sendo incluída nas listas de Manic Pixie Dream Girls do cinema (como você vê aqui, em inglês), e não consigo concordar. MPDG são personagens femininas “maluquinhas”, sem muito pano de fundo, com defeitos “adoráveis” e que só servem de motivação para um pobre e infeliz protagonista masculino. Exemplos clássicos: a personagem que fez surgir o conceito, Claire (Kirsten Dunst), de Elizabethtown, e Allison (Zooey Deschanel), de Sim, Senhor.

Kirsten Dunst e Zooey Deschanel
Claire e Alisson (reprodução/internet)

Eu não vejo sentido nessa classificação. Na verdade, várias personagens da Audrey o são, mas não vejo a Holly assim. Tanto pela complexidade da personagem, que eu já apresentei, quanto pela sensação de que, na verdade, Paul é o personagem raso da história. Holly tem pano de fundo, defeitos de verdade e muda ao longo da trama. Já Paul permanece praticamente o mesmo do começo ao fim. Ele no máximo tem bons momentos com Holly, mas não sofreu realmente nenhuma grande transformação. Isso, se pararmos para pensar, quem passou foi ela. Seria Paul, então, um Manic Pixie Dream Boy? Algo a se pensar…

Seu gosto pessoal não precisa engolir seu pensamento crítico

Reprodução/internet
Quando gostamos muito de alguma coisa, muitas vezes acabamos tendo dificuldade para ver as suas imperfeições. É como quando estamos apaixonados por alguém, né? Pensando bem, é mais fácil ver os defeitos das pessoas que amamos (ainda mais quando eles irritam) do que ver os dos filmes, livros e séries dos quais somos fãs. E se os vemos, acabamos sentindo até uma dorzinha por aquela falha existir.
Dor e sofrimento (reprodução/internet)
Mas isso não deveria e nem precisa ser assim. Dá pra analisar  friamente uma produção e ainda assim ser fã dela. É difícil e eu sei bem disso, mas não são coisas desassociadas. Gosto pessoal e pensamento crítico, ao mesmo tempo que são idéias completamente diferentes, não são antônimos e podem andar lado a lado. Uma coisa pode inclusive complementar e contribuir com a outra.
E como eu falei, tudo bem ter essa dificuldade ou até sentir aquela dorzinha que eu já citei. Eu mesma ainda passo por isso. O problema é que muita gente simplesmente não consegue ver o pensamento crítico e o gosto pessoal dessa forma, e ainda não aceita que alguém veja. Ou acham que fãs devem idolatrar cegamente aquilo de que gostam, ou que seu gosto pessoal é uma regra absoluta, ou que, por ser só entretenimento, não podemos ficar “pensando demais” em vez de “só curtir” aquela coisa.
Não sei lidar… (reprodução/internet)
Nenhuma dessas hipóteses parece muito saudável. Não vou nem entrar no mérito da arrogância de achar que sua opinião é a única coisa importante no mundo, mas os outros dois exemplos acima têm problemáticas semelhantes. Tanto a ideia de “só curtir” quanto a de ser fã de algo sem questionamentos são alienadoras e, de certo modo, até ingênuas.
Produtos culturais possuem panos de fundo além daquilo que mostram, além de refletirem a sociedade em que vivemos. Uma produção cultural pouco representativa, que cria esteriótipos ou preconceituosa demonstra desinteresse dos produtores de fugirem disso e refletem uma sociedade que segue os mesmos moldes. Além do mais, como o nome já diz, esses produtos são feitos visando o lucro. E nós, como público, deveríamos ao menos parar para pensar em quem nós estamos enriquecendo (direta ou indiretamente) com os nossos gostos.
O pessoal da indústria já tá assim, aliás (reprodução/internet)
Pensando nisso e em outras coisas, decidi começar aqui no blog um projeto de exercício de pensamento crítico. Eu me englobo de verdade no grupo que “sofre” para ver defeitos nas coisas de que gosto. Por isso vou começar a fazer análises mais frias de produções das quais eu gosto muito e postar no blog. Será uma série, mas não obrigatoriamente os posts serão feitos em sequência. E a ótica será principalmente dentro da temática do Elas por Elas (ou seja, feminista).
Vai ser duro? Vai. Justamente por isso vou tentar começar devagar, por coisas com as quais tenho menos apego e ir aumentando gradativamente. Assim eu tenho fé que vai dar certo. Quem sabe um dia não chego a falar mal de Harry Potter? -sqn
Enfim, espero que gostem dos próximos posts, e que eles ajudem quem tiver as mesmas dificuldade que eu a exercitar a visão analítica. Até o próximo post!
lolita

Ships problemáticos – parte IV: o fetiche sobre “a novinha”

lolita

Esta é a quarta parte de uma série de posts. Leia a primeira parte aqui. A segunda aqui. E a terceira aqui.

 

Estou entrando em terreno pedregoso com este post, eu sei.  Tanto pela amplitude do tema quanto por sua densidade. O fenômeno da sexualização infantil é muito complexo, o que dificulta um texto breve e recortado sobre ele, com o peso correto nas palavras. Mas vamos tentar…

Quando se fala em proteção às crianças, é importante lembrar que não apenas essa é uma preocupação recente, como o próprio conceito de infância só surgiu na idade moderna. E a sociedade ainda demorou alguns séculos para começar a se atentar a elas. Isso NÃO ameniza os males feitos no passado, mas nos ajuda a entender por que eles faziam parte de um assunto que era deixado de lado.

Hoje em dia, entretanto, ao mesmo tempo em que se fala muito disso, temos muito a melhorar. E uma das coisas que nossa sociedade ainda tem dificuldade de discernir é o conceito de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo que se repudia consideravelmente a sexualização de meninas de 11, 12 anos, ela também naturaliza e relativiza a objetificação e adultização de também meninas (sim, meninas) de 16, 17 anos. E isso pode ser exemplificado com um dos ships problemáticos mais antigos: a romantização de Lolita.

Lolita - Poster
reprodução/internet

A personagem título, na obra original de Vladimir Nabokov, tem apenas 12 anos, algo chocante até para a época (1955). Em seu filme de 1962 baseado na obra, Stanley Kubrick, além de amenizar a sexualização e não mostrar o sofrimento de Lolita, teve de escalar uma atriz de 14 anos e aumentar a idade da personagem para passar pela censura.

A redução do impacto, no entanto, levou ao aumento da romantização. Lolita virou sinônimo para adolescentes provocativas e sexualmente atraentes, que ainda guardam aspectos da infância. E ironicamente é esse ar de criança (daqueeeelas mesmas que a sociedade jura querer proteger) que mais contribui para a criação de um fetiche sobre esse esteriótipo.

Mas a “lolitização” não é exclusiva como distorção da noção de vulnerabilidade, uma vez que o inverso também acontece. Se uma menina (inclusive de menos de 13 anos) possui feitios de adulta e uma suposta maturidade, já são depositadas sobre ela responsabilidades e expectativas de adulta.

E qualquer comportamento serve de gatilho para a adultização. Como esquecer o caso de Valentina, participante do MasterChef Jr, que virou alvo na internet por sua aparência, levando até à criação da campanha Meu Primeiro Assédio? O próprio fato da menina cozinhar já era visto como sinal de maturidade.

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Uma parte do assédio sofrido por Valentina (reprodução/internet)

Lembrando que a própria sociedade também pressiona meninas a se tornarem mulheres, e então se aproveita dos resultados para responsabilizá-las. Se uma menina de 13 anos já procura se relacionar com meninos, da sua idade ou mais velhos, consideram que ela sabe o que faz e “dá conta do recado”. Mas se uma menina da mesma idade se comporta como criança, a tratam como imatura (coisa que nem deveria ser um problema, ela é uma CRIANÇA).

Um exemplo curioso: colegas de elenco numa novela infantil, Larissa Manoela e Maisa Silva têm perfis diferentes e consequentes repercussões diferentes na mídia. Enquanto a primeira é considerada responsável pelas próprias ações e até chamada de “puta” por namorar desde os 12 anos, a segunda já teve que rebater críticas por se comportar e se assumir como uma criança.

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Maisa inclusive não escapou do assédio (reprodução/internet)

Voltando aos ships, temos o filme O Profissional, de 1994. No roteiro original, o matador profissional Léon (Jean Reno), e a jovem Mathilda (Natalie Portman), de apenas 12 anos, viravam amantes. Apesar da alteração no resultado final, ainda é possível encontrar quem romantize a relação, tomando como base tanto o vínculo afetivo mostrado nas telas, quanto as ações mais adultas de Mathilda.

O Profissional
Cena de O Profissional (reprodução/internet)

Também dá para fazer um post especial só sobre a fetichização da relação professor-aluna, mas vamos simplificar com um exemplo. Uma das coisas mais lindas no grupo CLAMP é que todas as formas de amor valem. Uma das coisas mais problemáticas do CLAMP é que todas as formas de “amor” valem. E em Sakura Card Captors, no mangá, há um relacionamento entre a estudante Rika Sasaki e seu professor, Yoshiyuki Terada (mesmo ela sendo uma criança). Os dois chegam a ficar noivos.

CCS
Página do Mangá em que Yoshiyuki dá um anel de compromisso a Rika (reprodução/internet)

Indo para um universo mais fanon, temos os inúmeros ships feitos entre Hermione e adultos. Hermione/Snape, Hermione/Sirius, Hermione/Lupin, até Hermione/Dumbledore: tudo isso você encontra em fanfics por aí. A própria intérprete da personagem nos cinemas, Emma Watson, já se queixou sobre a sexualização que sofreu desde muito nova, reconhecida inclusive por seus colegas de elenco. E sua personagem passou pela fetichização e pela adultização forçada, o que inclusive contribui para a objetificação da atriz.

ME-DO. E dica: não pesquise sobre Hermione/Hagrid. Sério, não pesquise (imagens: reprodução/internet)

E como eu já falei inúmeras vezes nessa série, o grande problema da romantização de elementos problemáticos da ficção é justamente o reflexo que isso traz para a realidade. Desde a transferência da carga de um personagem para a atriz que o interpreta, até a naturalização de situações como as pelas quais passaram Valentina, Maisa e Larissa Manoela.

Em tempo: de algum modo essa série está me fazendo notar que Crepúsculo consegue se enquadrar em quase todos os tipos de ships problemáticos dos quais me proponho a falar. E para não dizerem que não citei dessa vez: Bella tinha 16 anos no primeiro livro, e Edward 114. Auto-explicativo? Espero que sim.

Sobre ser mãe de menino

Confesso que quando descobri que estava grávida, foi um verdadeiro susto, mas também confesso que quando descobri que seria um menino, achei mesmo que seria mais fácil. Não que como mulher eu tenha tido uma vida difícil: nunca! Classe média, vida normal, família estruturada e até que um pouco desconstruída. Mas é isso que ouvimos sempre, né? Que não é fácil ser mulher e que menino dá menos trabalho. Pudera.

Não faz muito tempo que conheci o feminismo a fundo, não faz muito tempo que me apaixonei por toda ideologia e transformei no meu ideal de vida praticar sororidade. Mas eu vivo num mundo masculino: filho, marido e até cachorro. Como praticar tudo isto então, como encaixar tudo isto no meu mundo além internet? E foi ai que descobri que o que de melhor posso fazer pelo mundo, seja pelo feminismo ou não, é criar meu filho Giovanni, meu filho homem, de maneira desconstruída, com liberdade e, principalmente, tirar dele qualquer chance de reproduzir machismo.

Não é fácil, aliás, é qualquer coisa menos fácil. Até porque, por mais desconstruída que você tente ser, você tem mais e mais a desconstruir, você tem que se policiar. Mas, se você for aguardar a perfeição, nunca fará nada. Comecei pelas pequenas coisas, pela gentileza. Comecei a ensinar que meninos e meninas são iguais, podem gostar das mesmas coisas, podem brincar com os mesmos brinquedos, podem usar as mesmas cores. Comecei, como mãe (e posso afirmar que o Marlon, como pai), a procurar desenhos e similares que estimulem a igualdade, e qual foi minha surpresa: existem – se você tem filhos pequenos, deixem que assistam Luna, sério.

Se ter que educar um filho não é fácil, desconstruir um pouco que seja meu marido também é uma luta. A criação não colabora, mas com certeza o diálogo sempre nos fez mais fortes e ele sabe, hoje, que respeitar o outro, as escolhas, o ser, suas opções e suas orientações, é fundamental para sermos humanos e que devemos exercer isso com nosso filho, um com o outro e com qualquer pessoa.

Às vezes é desanimador, são tantas histórias e notícias, tantas vivências, porém, como uma otimista, tenho certeza que esta geração do Giovanni vem muito mais forte, mais tolerante, mais resistente e que estamos criando verdadeiros seres humanos, como sempre deveria ter sido. Giovanni tem personalidade forte, mas é doce, compreensivo, sensível e humano, e se depender somente de mim, para sempre será assim.

Rafaela Arnoldi (Mãe de menino)
Imagem: arquivo pessoal

Quem escreve?

Rafaela Arnoldi é administradora, blogueira e mãe do Giovanni. Ela escreve sobre moda (e outros assuntos desse universo) no blog Diariamente.

stranger things - ships problemáticos

Ships problemáticos – parte III: quando o ‘creepy’ vira ‘fofo’

stranger things - ships problemáticos

Esta é a terceira parte de uma série de posts. Leia a primeira parte aqui. E a segunda aqui.

 

Em um episódio de How I Met Your Mother (P.S. I Love You, 8×15), o pior personagem protagonista Ted apresenta a teoria “Dobler-Dahmer”*:

“Se duas pessoas estão a fim uma da outra, então um grande ato romântico funciona: Dobler, mas se uma pessoa não está a fim, o mesmo gesto vira uma loucura de serial-killer: Dahmer”

Ele usa essa teoria para justificar as ações de uma garota em quem ele está interessado, Dobler, mas que ao longo do episódio vai se revelando mais e mais esquisita, até acabar virando uma Dahmer.

Dobler-Dahmer
Reprodução/internet


Por mais que eu deteste o Ted e essa teoria seja problemática, o episódio faz uma brincadeira que ajuda a esclarecer uma coisa: não importa o quanto haja interesse das duas partes, existe um limite, em que você começa a invadir o espaço pessoal de alguém, e em que invariavelmente você se torna um stalker.

Dito isso, é interessante observar o quanto a ficção ignora esse limite, mesmo quando o cara tem tudo para se enquadrar num Dahmer. Isso até quando não existe qualquer reciprocidade (elemento básico para considerá-lo um Dobler, só lembrando).

Finn - Futurama
“Não tenho certeza se é romântico ou assustador” Na dúvida, assustador. Sempre asustador (reprodução/internet)


Ah, e claro, aquela velha regra de “aceitável para homens mas não para mulheres” permanece aqui, viu? Enquanto o cara obcecado é romântico, a moça que faz as mesmas coisas que ele é patética. Por isso é tão mais comum ver ações masculinas do tipo sendo romantizadas na ficção.

Assim, se cria um fenômeno tão assustador quanto seus protagonistas: o “creepy guy” que acaba virando “o fofo”. Não importa se ele se pendura em uma roda gigante e ameaça se matar se a garota não sair com ele, se ele fica no quarto dela escondido a vendo dormir (cof-Crepúsculo de novo-cof) ou se ele é um dos muitos personagens bizarros de filmes do Adam Sandler.

Crepúsculo
“Edward: Eu estou aqui todas as noites… Te observando enquanto dorme. Bella: Oh, Edward! Isso é tão romântico!” “STALKERS: Eles NÃO são românticos. Eles são ASSUSTADORES. Chame a polícia” (reprodução/internet)


Essas coisas não são apresentadas como atos perturbadores e sinais de possíveis distúrbios psicológicos, mas como ações de românticos incorrigíveis. Ah, importante frisar: nem sempre o creepy guy precisa de ajuda psicológica; às vezes ele é só um babaca acostumado a ter tudo o que quer.

E como eu já falei no último post, esses padrões das grandes produções estão entre os responsáveis pelo surgimento e manutenção de ships com a mesma ideia. Em Friends, por exemplo, há um episódio em que a Phoebe passa a ser seguida por um cara que acha que ela é sua irmã gêmea, Ursula. Ela acaba se afeiçoando ao stalker, e inclusive deixa que ele a siga. O relacionamento dos dois não chega nem perto de dar certo por motivos óbvios, mas eu já topei com fãs que chegaram a shippar o “casal”.

Friends
Malcolm (stalker da Ursula) e Phoebe  (reprodução/internet)


Um caso bem recente vem da nova produção da Netflix, Stranger Things – que, aliás, foi o que me fez lembrar desse fenômeno e adicionar este post à série –. Vou tentar não dar spoilers (até porque eu ainda estou no 4º episódio e só vou falar sobre o que já vi e no máximo me basear no que me falaram). Mas se não quiser saber nada sobre, pule os dois próximos parágrafos.

Basicamente, não é nada legal um romance entre a Nancy e o Jonathan depois que ele a espionou e fotografou escondido em um momento de intimidade. Aliás, a espiada já é creepy e invasão de privacidade por si só, mas o registro da sua imagem sem autorização não só é ainda mais assustador como, com o perdão da palavra, bem escroto.

Jonathan e Nancy  (reprodução/internet)

Surge também a questão que shippá-la com ele só por considerar pior o outro pretendente dela, Steve, é um reforço da ideia de que uma personagem feminina precisa de um homem para ter sua trama completa.

E enquanto o padrão da semana passada (o personagem feminino como redenção do masculino) trazia a mulher como recompensa pelo bom comportamento do homem, este de certo modo faz um caminho inverso: não só não importa o quanto o cara ultrapasse o limite pessoal da moça, como é isso que o leva a conquistá-la. Acho que dá pra entender o que tem de errado aí, né?

* A teoria faz referência a Lloyd Dobler, do filme Digam o que quiserem, e ao serial-killer Jeffrey Dahmer

Ships problemáticos – parte II: ‘Ela é a redenção dele’

ships problemáticos


Esta é a segunda parte de uma série de posts. Leia a primeira parte aqui.

Era uma vez, uma mocinha. Essa mocinha era uma pessoa legal, que não desejava mal a quase ninguém, e na maior parte do tempo estava até fazendo o bem. Mas existia também um cara mau que não a deixava em paz. Ele a tratava das piores maneiras possíveis, sem se importar. Os sentimentos dela? Não valiam nada. O que valia era a vontade dele.

Só que, secretamente, esse cara mau escondia um enorme amor pela mocinha. Mas como ele era mau, simplesmente seguiu fazendo essas coisas horríveis com ela. Até que, um dia, alguma coisa fez com que ele deixasse de fazer uma coisa ruim com ela, e o amor falou mais alto. Isso fez então com que a mocinha não apenas o perdoasse, como caísse de amores por ele. E, assim, os dois ficam juntos, se amam, ele se redime de todos os pecados e eles vivem felizes para sempre.

Será?

Essa história te comoveu? Se sim, não deveria. Se não, você consegue ver por que? Há algo de cruel aí. Pra início de conversa, temos a limitação de uma personagem feminina, que poderia ter mil potenciais a serem explorados, a mero interesse romântico do personagem masculino. Mas isso, apesar de ser um problema, ainda é menor do que o que dá nome a esse post: a redução da personagem feminina ao elemento de redenção do cara que a fez tanto mal.

Esse é um elemento comum na ficção: Crepúsculo, 50 Tons de Cinza, Gossip Girl, inúmeras novelas… São várias as tramas em que a personagem feminina é maltratada por um cara (vilão anunciado ou não), mas que no final é o amor dele por ela (e, claro, o fato deles acabarem ficando juntos) que faz com que ele se arrependa dos seus erros e passe a ser um cara legal.

Esse é um padrão que GRITA machismo. Sabemos que a sociedade prioriza os sentimentos dos homens aos das mulheres. Isso a gente vê o tempo todo: com o monte de “not all men” que surgem quando estamos falando de casos de estupro, com o benefício da dúvida que eles sempre recebem ao cometerem violência contra nós (para não correr risco de manchar suas reputações com nosso sangue), com a exaltação dos “heróis da friendzone” que foram rejeitados pelas moças malvadas… E inclusive na ideia de que se um homem te ama, tudo que ele faz se justifica. E consequentemente a arte espelha em si esse padrão.

E como o fandom (universo de fãs) espelha tanto a sociedade quanto a cultura de massas, não chega a ser completamente surpreendente que surjam ships não-canônicos que seguem essa mesma lógica. No primeiro post eu citei um deles, um dos piores aliás: Jessica Jones e Kilgrave. Mas não precisa ir tão longe para encontrar ships que costumam ser defendidos com base na ideia de que o amor da mocinha pode levar o cara mau para o caminho do bem.

Em Star Wars VII, há pessoas que shippam Rey e Kylo Ren por esse motivo, mesmo depois dele tentar matá-la. Mas a ideia de que ele poderia sair do lado negro da força se ficar com ela parece ser argumento suficiente para isso acontecer, né? Né? Este texto no Tumblr (em inglês) faz uma excelente análise do caso, que também  se aplica a este post em geral.

É justamente no Tumblr que esse ship é tão  popular, e onde mais aparecem fanarts como essa

 

Não, nem o seu Dramione escapa desse padrão. Draco é sim um personagem complexo, que cresceu numa família que não lhe passou outro tipo de comportamento senão o elitista e preconceituoso. Mas isso não muda o fato de que ele era racista e cruel, inclusive com a Hermione. Só por um instante, traga a situação para a vida real e substitua a expressão “sangue-ruim” por “macaca” ou qualquer outra ofensa racista. Ia continuar sendo legal que os dois ficassem juntos, depois de tudo que ele fez com ela, só porque isso significaria que ele estava se redimindo? Esse tipo de bullying pesado, especialmente o bullying racista, deixa marcas profundas. Até a ideia dos dois ficarem juntos só depois que ele encontrasse essa redenção, sozinho, me desagrada. É um tipo de passado difícil de ser deixado para trás.

Snape/Lily é outro ship que se assemelha a Dramione e não  deixa de ser complicado. Apesar de “Always” ter virado um lema entre os potterheads, não dá para esquecer  que Snape praticou esse mesmo bullying racista contra Lily, que pra piorar era sua amiga. Isso tudo além  de ter colocado essa amizade abaixo do orgulho e seguido por um caminho que faria mal a ela mesma.

Em suma, o problema é que esse tipo de ship nunca leva em conta os sentimentos da personagem feminina. Quando muito, dão uma medalhinha de honra ao mérito pela conquista de ter mudado a vida de alguém. Só que mulher nenhuma tinha que ter uma obrigação moral de mudar um homem, muito menos de um que a fez tanto mal. E esse papel parece inofensivo quando falamos de ficção, mas aplicado à vida real ele é extremamente nocivo. E assim como a ficção reproduz elementos da vida, ela também faz a manutenção de  valores e padrões sociais.

Ah, algo que eu já falei na primeira parte dessa série, mas sempre é bom reforçar. Quando falamos de ships não-canônicos temos uma margem muito grande, feita pela imaginação dos fãs. Um ship muito problemático pode virar algo muito mais complexo dependendo da motivação de cada pessoa. O importante aqui é fazer uma reflexão sincera sobre a sua, e se necessário admitir que alguma coisa não tá legal aí.

SPOILER DE BUFFY: THE VAMPIRE SLAYER

Deixo aqui um mea culpa: já shippei Buffy e Spike por esse motivo. Quando caiu minha ficha, me senti mal, mas fiquei feliz por ter refletido sobre o assunto. Lógico que não vou negar que eu ainda vejo certa química entre eles, mas não mais ao ponto de querer que ele fique com ela só porque ficou (ou para ficar) bonzinho, né? E, olha, uma coisa a ser aprendida com a série: o cara pode ficar bonzinho (ou mais ou menos) porque gosta da garota legal, mas ele não precisa ficar com ela ou ganhar uma estrela dourada por/para isso.

Ships problemáticos – Parte I

Ship é o termo usado para designar o casal (real ou em potencial) apoiado por um ou mais fãs. Essa ação se chama shippar. Ou seja, por exemplo, Rony e Hermione é um ship, e eu, que sempre torci para que eles ficassem juntos, shippo os dois. O universo de fãs é imenso e cheio de termos e definições, inclusive no que diz respeito aos ships, mas esse é o básico.

Quando se está há muito tempo envolvido nesse meio, a gente acaba aprendendo e se acostumando com o fato de que quase tudo é shippável. Desde personagens sem química, ou que nunca apresentaram qualquer intenção romântica, até personagens que nunca se conheceram (e aí se inclui até crossovers).

Recentemente até viralizaram umas fanfics super trashFaustão e Selena Gomez, Faustão/Ana Maria Braga/Harry StylesSelena Gomez e Stalin. Por algum motivo, brasileiros têm fixação por fanfics bizarras. Mas lááá atrás, no Orkut, eu já havia me deparado com uma comunidade chamada “Gina, Grope e o Salgueiro Lutador, melhor ship”. Sério.

O melhor do Brasil é o brasileiro (Imagens: reprodução/internet)

O problema é que atualmente eu vejo uma adesão e uma defesa cada vez maiores de ships realmente problemáticos, e que são levados de forma séria pelo público. Não que a romantização e naturalização de relacionamentos tóxicos seja um fenômeno recente; desde sempre eles são retratados pela mídia como histórias de amor, e com apoio do público. Entretanto, quase sempre essa problemática se escondia sob sutilezas, que não amenizavam a situação, mas que dificultavam o entendimento de que havia algum problema.

Estranhezas à parte, essas coisas são tão absurdas (e muitas vezes assumidas como tal) que não há muito questionamento a ser feito, no máximo alguns “wtf?”. Na verdade, me lembro que na época do Orkut havia duas “correntes” principais: as disputas de ships – Rony/Hermione VS Harry Hermione, por exemplo – e a “o ship é estranho, mas é meu”, das pessoas que gostavam, mas sabiam que havia algo de estranho ou mesmo de errado ali.

Apesar de não ser mais tão bem aceito, esse fenômeno até segue acontecendo. Vide a legião de fãs da Saga Crepúsculo que sonhavam com Edwards Cullens, e mais grave, o estouro 50 Tons de Cinza e a paixão despertada pelo obsessivo Christian Grey. Não à toa o segundo é inspirado no primeiro, mas isso já é assunto para outro post…

Enfim, eu não estou falando aqui de histórias de abuso disfarçadas de romance, mas de casos que se vestem e se apresentam como tóxicos, mas que parte do público insiste em enfiar romance em algum lugar. Nesses casos, geralmente, os idealizadores dessas histórias fazem até certo esforço para explicitar que ao menos uma pessoa está ficando machucada com aquilo.

Provavelmente um dos casos mais clássicos e antigos é o relacionamento entre Harley Quinn e Coringa. Pessoas chegam ao ponto de colocá-los como exemplo e ideal de casal que “aceita e ama as loucuras um do outro”. NÃO. Isso não é amor, é abuso. A “loucura” da Harley é Síndrome de Estocolmo causada pelo próprio Coringa, e seu “amor” é o mesmo que incapacita mulheres todos os dias de saírem de relacionamentos abusivos. A “loucura” do Coringa é o que o torna cruel e egoísta, e seu “amor” é seu sentimento de posse e prazer de manipular, ferir e maltratar alguém que faz tudo por ele.

 

“Você não precisa ser louco para se apaixonar. Mas ajuda” Não, isso não é amor (reprodução/internet)

 

Tudo isso era explícito, mas uma grande parte do público seguiu e segue shippando os dois. Mesmo depois de a Harley ter finalmente caído fora dessa relação e engatado um romance com a Hera Venenosa (desmitificando a ideia de que um relacionamento entre vilões só poderia ser doentio). Até hoje eles são vistos apenas como um casal de loucos, que se merecem e foram feitos uma para o outro.

Tem algo errado aqui, né? (reprodução/internet)

Outro ship, provavelmente ainda mais extremo – e talvez por isso com menos adeptos – é Jessica Jones e Kilgrave. A HQ já trazia explícito o fato de que Kilgrave era um abusador, e a série da Netflix fez o mesmo, para um novo público. Mas, por algum motivo, algumas pessoas começaram a sentir empatia e até carinho pelo vilão. Eu não aceito a desculpa de que os responsáveis por isso sejam o carisma e a afeição pelo seu intérprete, David Tennant (que arrastou a legião de fãs de seu trabalho em Doctor Who para JJ).

 

Reprodução/internet

Tennant é um excelente ator, que conseguiu passar a essência cruel e manipuladora do personagem. Mesmo sendo fã dele e adorando suas aparições, eu torci pela morte do desgraçado do personagem. Mas eu cheguei a ver pessoas que acreditavam no “amor” de Kilgrave e que, por isso, torciam para que Jessica o perdoasse e, assim, ele encontrasse sua redenção. E é nesse ponto que mora todo o perigo e é um dos motivos de existirem ships como esses.

Enquanto o “casal” Harley/Coringa é defendido pelo suposto “merecimento” de um pelo outro, “relacionamentos” como o de Jessica e Kilgravesão apoiados pela ideia do merecimento dele à redenção, e a quase obrigatoriedade dela curá-lo. Não importa o quanto a vítima tenha sofrido nas mãos do abusador, o quanto ela tenha sido controlada, traumatizada e atormentada. Ela pode – e deve – usar seu amor para salvar o vilão e leva-lo para o caminho do bem.

Ships baseados em pensamentos como os dois acima são absurdamente comuns, e ainda existem outros tão problemáticos quanto. Todos eles, no entanto, possuem um ponto em comum: são reflexos de comportamentos e problemáticas do mundo real. Costumamos direcionar para os personagens os direitos e deveres que a sociedade impões sobre homens e mulheres. No caso da Harley e do Coringa, por exemplo. A sociedade tende a amenizar a dor da mulher abusada quando acredita que ela deseja estar naquela relação (quem nunca ouviu a expressão “mulher de malandro gosta de apanhar”?). E, como de costume, esse mesmo pensamento é transferido para a ficção.

Note-se que nem todo ship com potencial para ser problemático sempre é. Outra peculiaridade do universo dos fãs é a capacidade que eles têm de moldar as produções e os personagens a sua própria vontade, principalmente quando falamos de ships não canônicos (aqueles que não têm existência romântica na história original). Por isso é fundamental tentar entender os motivos de existir aquele ship, e não necessariamente classificar todos como problemáticos (o que pode, inclusive, diminuir a força do questionamento).

Eu fiz uma pequena pesquisa sobre o assunto e acabei descobrindo que a temática é muito mais extensa que eu pensava. Por isso, em vez de fazer um único post sobre isso, resolvi fazer uma série. Nas próximas postagens da coluna Mulheres na Cultura Pop você confere reflexões mais detalhadas de cada caso. Lembrando que esta semana houve um atraso e o texto saiu no domingo, mas a previsão é que a coluna saia sempre na quinta-feira. Continue com a gente nas próximas semanas, e não deixe de comentar com a sua opinião.

A Women Up Games quer que as mulheres tenham o controle

Women Up
Imagem: reprodução/Women Up Games

Women Up Games é uma empresa idealizada pela engenheira Ariane Parra, e que busca o empoderamento feminino através dos vídeo-games. Em 2013, observando a baixa presença de mulheres em seu curso de Design de Games, Ariane começou a pesquisar sobre o assunto e a iniciativa começou a engatinhar.

Ariane Parra, idealizadora da Women Up Games
O projeto começou efetivamente em 2014, e em julho de 2015 a fotógrafa Juliana Coringa entrou para a equipe, como braço direito e Diretora de Imagem e Conteúdo das redes sociais. Em agosto do mesmo ano fizeram seu primeiro evento, com a participação de cerca 80 mulheres. Desde então são realizadas atividades que visam inserir o público feminino no mercado de games, como consumidoras e também como desenvolvedoras. Se destacam entre as ações palestras, workshops e campeonatos de vídeo-game inteiramente voltados para elas.

“Em todos nossos eventos nosso papel é deixar o público feminino a vontade para jogar e conhecer esse mundo. O importante para a gente é a diversão e a experiência que cada evento proporciona para as participantes. É tão gratificante ver um grupo grande de mulheres se permitindo divertir jogando juntas e aprendendo coisas novas” – Ariane

Juliana Coringa, Diretora de Imagem e Fotografia

Uma pesquisa divulgada em março deste ano revelou que 52,6% do público de games no Brasil é composto por mulheres. Ainda assim, a atividade continua sendo vista como algo de predominância masculina. Na área de desenvolvimento, no entanto, o mercado ainda é dominado pelos homens. A Women Up quer mudar esse cenário e equilibrar cada vez mais a balança.

“[Nós queremos] Fazer com que a frase ‘eu não sei jogar’ suma e dê lugar para “eu posso tentar jogar”. Só dessa forma as mulheres vão dar uma chance para conhecer os jogos digitais e se empoderar desse mundo que tem espaço para todo mundo. A equidade no mundo dos games só vai acontecer quando mais mulheres participarem ativamente de eventos e de workshops e perceberem que nosso lugar também é na tecnologia, nos games, onde quisermos” – Ariane

À medida em que o projeto vai crescendo, esse sonho vai parecendo cada vez mais próximo. Mas Ariane, Juliana e as WUGERS (como são chamadas as integrantes da equipe) querem muito mais. Elas ainda sonham em realizar campeonatos femininos em vários estados do Brasil e conquistar mais colaboradoras regionais. Também esperam encontrar empresas interessadas em parcerias para ajudar a expandir a ideia.

“[Queremos] O crescimento [do número] de mulheres inseridas no mercado de trabalho e consumindo mais títulos de jogos. Nosso sonho é que as mulheres brasileiras se tornem referência no desenvolvimento de games e que a participação global feminina seja cada vez mais forte na economia do setor.”

As WUGERS

A vida das borboletas

imagem: tumblr

Uma vez, como costuma acontecer todos os dias, eu me perdi nos meus pensamentos e meio que do nada me veio em mente o ciclo de vida das borboletas. Sem querer, comecei a examinar cada fase que elas vivem, a começar por quando elas ainda estão no ovo. É nessa fase que elas começam a se desenvolver, e ainda estão despreparadas para enfrentar o mundo.

Depois que saem do ovo, elas são apenas larvas, lagartas que têm como “tarefa” se alimentarem e crescerem. Essa é a fase mais longa de suas vidas, e mesmo que não seja a mais graciosa, é a na qual elas mais passam por preparações para a fase seguinte. Então formam um casulo ao redor do próprio corpo, ficam na fase de pupa, quando elas passam por um período em que ficam lá dentro, longe do resto do mundo, para desenvolver suas asas. No fim dessa fase, elas passam pelo maior desafio: sair do casulo.

Elas se esforçam ao máximo para conseguir, e assim preparam suas asas para a fase seguinte. Se não passarem por isso, suas asas ficam fracas, e seu destino provavelmente é ser pega por algum predador. Então vem a mais graciosa das fases, quando se tornam borboletas, e abrem suas asas para o mundo. Porém essa é a mais curta de todas. Por fim, após o acasalamento, elas põem seus ovos, e logo em seguida morrem, mas não sem antes deixar novos “projetos” de borboletas.

Nossas vidas são muito mais semelhantes às das borboletas do que costumamos pensar. Nós também passamos por essas fases. Cada uma da vida das borboletas equivale a uma nossa. A fase do ovo é quando nós também estamos despreparados para enfrentar o mundo, e nos desenvolvemos aprendendo a cada dia. Quase sempre, nessa fase estamos envolvidos por uma proteção que pode ser a de nossos pais, ou até a de nossa própria timidez.

Quando ela é uma lagarta é equivalente ao momento em que continuamos crescendo e aprendendo, mas não estamos mais envolvidos por essa proteção, e às vezes o que nos faz desenvolver são os erros e feridas que sofremos ao explorar esse mundo novo. Geralmente também é a nossa fase mais longa, pois precisamos aprender muito na vida, e como com as borboletas, não é nossa fase de mais destaque.

Passamos pela fase de pupa em um momento crucial de nossas vidas, quando também abrimos mão de algo que amamos por muito tempo para completarmos nosso crescimento. Esse objeto de nossa estima muda para cada pessoa, e quase sempre ele retorna a nós. Sair do casulo também é um desafio para as pessoas. É uma grande provação pela qual passamos, que nos exige muito esforço, porém é ela que nos faz melhores para o futuro, e muitas vezes sem isso não podemos seguir fortes.

E então vêm as nossas asas. É o fruto de tudo pelo que passamos durante a vida, quando nos desenvolvemos por completo. Essa fase não quer dizer necessariamente reconhecimento, mesmo que alguns o consigam, mas sim um crescimento para nós mesmos.

Quando chega o fim de nossas vidas, colocamos os nossos “ovos”. Aqui essa palavra não quer dizer exatamente nossos filhos (mesmo que possa incluí-los), mas aquilo que deixamos para o futuro, e até mesmo nossas marcas na história.

Essas fases não devem ser confundidas com faixas etárias, pois elas pouco se influenciam pela idade. As fases se embaralham para cada pessoa, podendo algumas simplesmente “pularem” algumas fases, ou virem a não completar esse ciclo. O que deve ser levado em consideração é que nós mesmos não devemos tentar interferir nele, pois todas essas fases são necessárias para nos tornarmos alguém a ser lembrado, como uma graciosa borboleta.