5 games com personagens femininas fortes e não sexualizadas

games personagens femininas

 

Como prometido, hoje eu trago uma lista de 5 jogos com personagens femininas fortes e não sexualizadas. Para quem não sabe, este post era para ter saído na semana passada, mas durante a minha pesquisa uma coisa me incomodou profundamente, resultando nesse texto: A invisibilidade da mulher gamer vs a objetificação feminina nos jogos. E se antes eu já queria trazer esta lista, agora estou ainda mais motivada.

Importante frisar que eu sou uma gamer beeeem iniciante. Apesar de viciada em jogos casuais e para celular, só comecei a jogar em consoles e computadores no ano passado. A história de por que eu demorei tanto a me enveredar por esse lado renderia até outro post, mas enfim. Por isso, eu apenas tive oportunidade de jogar três dos itens da lista, sendo ela completada por indicações de terceiros e pesquisa. Mas eu digo que pode confiar sim, tá? E lá vamos nós:

 

Child of Light

Esse e Ori and the Blind Forest são os mais lindos que eu já joguei (e os meus favoritos também). Ele tem uma história ao mesmo tempo delicada e grandiosa, narrada em versos. Child of Light é uma mistura de RPG e plataforma, que se passa no reino fantástico de Lemuria. Entre pequenas aventuras e batalhas, a protagonista Aurora deve buscar e devolver o Sol, a Lua e as estrelas, que foram roubadas pela Rainha da Noite.

Aurora é uma princesa (que não gosta de ser chamada assim), de uma região da Áustria governada por seu pai, um duque. Ela, no entanto, morre e acorda em Lemúria, o que faz seu pai adoecer e seu povo ficar à mercê dos que querem usurpar seu trono. Aurora deve então entrar numa jornada para salvá-los. A sua única ajuda são os vários amigos que encontra pelo caminho, mas ela não precisa ser salva por ninguém. Ela vai desenvolvendo suas habilidades e cresce ao longo do jogo, e nenhuma de suas fases é sexualizada.

Plataformas: PlayStation 4, Xbox One, PlayStation 3, PlayStation Vita, Xbox 360, Wii U, PlayStation Portable, Microsoft Windows

 

Life is Strange            

De uma Áustria fantasiosa do século XIX para a costa oeste americana dos tempos atuais. Life is Strange conta a história de Max, uma estudante de fotografia que presencia o assassinato de uma jovem e ao impedi-lo, descobre ter o poder de voltar no tempo. Os primeiros momentos do jogo mostram um sonho de Max (que mais tarde se revela como um presságio) em que uma enorme tempestade ameaça Arcadia Bay, a cidade fictícia onde se passa a história, levando a garota a tentar salvá-la.

Max também começa a ajudar na investigação do desaparecimento de Rachel Amber, amiga e antiga paixão de Chloe, a garota que ela salvou e que na verdade era sua melhor amiga de infância. O jogo permite que suas escolhas definam o destino do jogo, de modo que Chloe possa ser também o interesse amoroso de Max. Desse modo, Life is Strange não apenas foge dos estereótipos das personagens femininas nos games, como também quebra tabus e traz representatividade LGBT.

Plataformas: PlayStation 4, Xbox One, PlayStation 3, Xbox 360, Microsoft Windows, Mac OS Classic, Linux

 

Alice: Madness Returns

Este jogo é a sequência de American McGee’s Alice, de 2000, inspirado no clássico infantil de Lewis Carroll. Em ambos, uma Alice adulta passa por terapia para superar acontecimentos traumáticos do passado, como a morte de seus pais e sua irmã em um incêndio, que a levam a pesadelos e alucinações. Após uma tentativa de suicídio, Alice é convocada pelo Coelho Branco a retornar ao País das Maravilhas e salvar o local da tirania da Rainha de Copas.

Eu tenho um pouco de relutância com jogos que você tem que controlar a câmera e o personagem separadamente, ainda mais por ser iniciante. Me falta coordenação motora. Por isso, ainda não explorei muita coisa desse. Mas a temática é bem interessante, a trilha sonora é incrível e o visual é bem legal. E a protagonista trazida aqui se encaixa muito bem nas exigências para estar nesta lista.

Plataformas: PlayStation 3, Xbox 360, Microsoft Windows (Madness Returns) e PlayStation 3, Xbox 360, Microsoft Windows, Mac OS Classic (American McGee’s)

 

Mirror’s Edge

Taí um jogo que eu ainda não joguei, perdi a oportunidade de baixar free pro Xbox e agora me arrependo. Mas isso não vem ao caso. Mirror’s Edge é uma mistura de ação, aventura e esporte, tudo em primeira pessoa. O pano de fundo é um regime totalitário onde a privacidade, a liberdade de expressão e a comunicação são suprimidos e controlados. Como alternativa, corredores são usados para transmitir mensagens, utilizando o parkour. A protagonista Faith é uma entre esses corredores.

Apesar de ser em primeira pessoa, os movimentos do jogo permitem que mais do corpo do personagem apareçam na tela, como braços e pernas. No entanto, nem as roupas nem as curvas de Faith são objetificadas, seja nesses momentos, seja em enquadramentos de corpo inteiro. O jogo original de Mirror’s Edge foi lançado em 2008 e em 2016 saiu Mirror’s Edge Catalyst, uma prequel/reboot.

Plataformas: Windows, PlayStation 3, Xbox 360, IOS, Windows Phone (original) e PlayStation 4, Xbox One, Microsoft WindowsMicrosoft (Catalyst).

 

Undertale

Este jogo indie e retrô de RPG é bem humorado e tem uma proposta pacifista (ufa, quantos adjetivos). Nele, dá para resolver todos os conflitos sem machucar ninguém. O personagem principal é um humano que cai por um buraco em um mundo subterrâneo cheio de monstros. É revelado que no passado humanos e monstros viviam na superfície, mas após uma guerra estes foram obrigados a viver sob a terra.

Quem recepciona o protagonista é Toriel, uma cabra que explica a ele como é o local onde foi parar. Entre as demais personagens femininas, temos Undyne, peixe líder da guarda real, Dra. Alphys, uma cientista e Chara, que na verdade é andrógina. É outro jogo a explorar temas que são tabu além de não objetificar nenhuma de suas personagens femininas.

Plataformas: Mac OS Classic, Microsoft Windows, Linux

 

Agradecimento especial pela ajuda da Letícia Rodrigues do blog Gênero e Videogames.

A invisibilidade da mulher gamer vs a objetificação feminina nos jogos

Cristina Santos, mulher gamer que EXISTE

O post que eu ia trazer hoje seria apenas uma lista sobre games e personagens femininas fortes. Só que, logo no início da minha pesquisa, eu acabei mudando de ideia por achar um reforço para algo que na verdade todo mundo já sabe. Você talvez tenha visto um tweet que comparava os resultados das buscas no Google “bombeiro” e “bombeira”, que inclusive rendeu um post do Buzzfeed com algumas outras profissões.

Que sexualização feminina existe a gente já cansou de falar e repetir (mesmo que alguns indivíduos insistam em se fazer de surdos), mas a comparação ajuda a explicitá-la ainda mais. Pois bem, acontece que na minha PRIMEIRA pesquisa pro post, ao jogar inocentemente as palavras “mulheres videogame” no Google, o resultado que obtive foi esse:

De 21 imagens, 13 são sexualizadas, sendo que entre as que não são apenas duas não carregam estereótipos (e são basicamente a mesma imagem). Seguindo a ideia do tweet e do Buzzfeed, experimentei digitar as palavras “homens videogame” e ver o que apareceria. Obviamente, o resultado foi BEM diferente, como você pode ver abaixo:

Zero, absolutamente ZERO sexualização. Várias imagens de bancos de fotos, alguns memes, charges e… estereótipos sobre mulher. O mais “grave” contra homens pode ser a piadinha de que eles largam tudo por um videogame. Mas a contrapartida nessas mesmas piadas é a ideia que mulheres são impacientes e encaram isso como megeras. E, claro, jamais poderiam jogar com seus parceiros, onde já se viu? Videogame pra mulher só se for ferramenta de sedução, mesmo. E essa ideia se reforça quando você desce para as páginas seguintes:

Mesmo na pesquisa sobre homens, ainda aparecem aqui e ali imagens de mulheres sexualizadas

Lembrando que essas pesquisas dão destaque aos resultados mais acessados pelo público. Como isso se relaciona à forma como a sociedade enxerga mulheres gamers (e em geral)? São raros os ambientes realmente receptivos e acolhedores ao nosso gênero, e o universo nerd e principalmente o gamer levam essa máxima a níveis elevados. Mesmo representando 52,6% do público de jogos no Brasil, ainda somos vistas como minoria. E a maioria das mulheres já sofreu algum tipo de assédio ou preconceito nesses espaços, levando muitas a diminuírem o hábito e se afastarem.

Somos invisíveis como consumidoras, mas não como produto. Ou ao menos os nossos corpos não são. Personagens e principalmente protagonistas femininas são menos comuns nos jogos, e, quando aparecem, muitas vezes são postas como meros atrativos para o olhar masculino.

Imagens dos jogos Soul Calibur, Street Fighter, Dragon‘s Crown e Mortal Kombat

Em jogos de luta e RPGs online essa característica é gritante, com personagens sempre curvilíneas e com trajes minúsculos. No segundo, a diferença na forma como personagens masculinos e femininos são tratados explicita ainda mais. Enquanto o visual dos primeiros é trabalhado pensando em funcionalidade e verossimilhança, o dos segundos notavelmente não se preocupa com essas questões.

“‘Armaduras femininas em Fantasia’: uma análise – A ‘armadura com seios’: porque armaduras ajustam ao corpo, não é mesmo? – A ‘armadura com seios +’: Caso você não tenha percebido onde estão os seios, aqui está uma dica sutil! – A ‘qual a porra do sentido’: porque, sério, QUE?” (tradução livre) Além de tudo, a “boob plate” (armadura com seios) ainda poderia matar quem a usasse

Felizmente, esse cenário tem apresentado mudanças, mesmo que lentamente.  Um estudo aponta que a sexualização feminina nos videogames tem diminuído, principalmente se comparado ao seu boom no final da década de 90. Um exemplo claro da forma como o mercado tem notado a necessidade de mudança é o reboot de Tomb Raider. Lara Croft sempre teve sua sensualidade muito explorada (e provavelmente foi uma das personagens que mais contribuíram para a explosão da sexualização), no entanto, em 2013 a personagem voltou com uma aparência mais natural, humanizada e discreta.

Com curvas menos acentuadas (e absurdas) e menos pele à mostra, a sensualidade ainda existe, mas é bem mais sutil

Como tudo na vida, a busca por uma melhor representação nos videogames é uma luta diária. Muitos jogos (como vários de luta e RPG já citados) ainda seguem a mesma cartilha de objetificação e tantos deles não parecem querer mudar a fórmula. Mas saber a importância que isso tem para a gente e a forma como esses valores refletem no tratamento das mulheres no ambiente gamer é muito importante. Não somos objetos. Somos consumidoras e, como consumidoras, queremos nos identificar com as personagens com as quais jogamos, e não nos sentirmos como um mero produto.

Ps: Quanto à lista que citei no primeiro parágrafo, fica para um próximo post. Aguardem que ela ainda virá!

Exercitando o pensamento crítico: FRIENDS

Reprodução/internet


Este é a o segundo post da experiência que eu me propus a fazer aqui. Leia se quiser entender melhor. Ele também foi feito voltado para pessoas que já assistiram/assistem FRIENDS. Se você for “leigo”, perdoe-me se o texto ficar um pouco confuso.

 

    Depois de falar sobre um dos meus filmes favoritos, é a hora de uma das minhas séries favoritas. “FRIENDS” divide com “Doctor Who”, o topo do ranking das minhas paixões televisivas (não, eu não consigo escolher uma só). Comecei a assisti-la em 2010, fora de ordem, pela Warner. Não foi a primeira série que assisti freneticamente (deve ter sido alguma da Nickelodeon), mas foi a primeira que me fez ir atrás de séries.

     Relutei muito em ver na ordem, para não ter vazio existencial, mas um dia a vontade de ver tudo foi maior que o medo de não ter mais o que assistir. Atualmente estou revendo aos poucos os episódios pelo box que me dei de presente na Black Friday do ano passado. Sim, sou fã, estou em grupos da série, faço inúmeras referências a ela, salvo várias imagens e gifs, sou 100% Mondler shipper, mas isso não me impede de ver seus problemas. A máxima que eu levo não só para esta coluna e para o blog, como para a vida, é que é possível ser fã e raciocinar direito.

     Foto do meu Instagram pessoal pra provar: meu box aí

     Enfim, protocolo seguido, vamos aos elementos que eu quero apontar. Lembrando da questão do cuidado com o anacronismo: ser algo do passado não ameniza as falhas, mas as vezes as “justifica” até certa medida. “FRIENDS” foi exibida entre 1994 e 2004, numa época em que preocupações sobre representatividade, por exemplo, estavam só engatinhando. E esse é, inclusive, o maior problema da produção.

     Além do núcleo principal – não apenas dos protagonistas, mas de todos os recorrentes – ser inteiro caucasiano, em 10 anos de série, apenas 2 pessoas não-brancas apareceram em mais de um episódio. É tanta brancura que nem sei como os dentes do Ross ainda ofuscaram alguém no s6e8. Esse é um padrão que infelizmente era muito forte na época. Ou a série era “de negros” (como “Um Maluco no Pedaço”), ou o elenco é branquíssimo. E isso é algo que ainda hoje tem melhorado beeeeeem devagar.

Charlie e Julie, únicas personagens não-brancas a aparecerem em mais de um episódio. Ambas saíram com o Ross, tendo Charlie saído também com o Joey. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio, via Canva

      A questão LGBT, apesar de mais presente, não é apresentada da melhor forma possível. Até dá para considerar progressista a presença, como personagens recorrentes, de um casal de duas mulheres, que ainda por cima compartilhavam a guarda de um filho com o pai biológico. Mas algumas das piadas sobre isso têm caráter lesbofóbico gritante, mesmo sendo reprovadas pelos próprios personagens da série – o que acaba parecendo uma tentativa falha de amenização, já que o público ri da piada, e não do contexto.

     Sem falar de Charles Bing, pai do Chandler, que na verdade é trans e carrega estereótipos, piadas preconceituosas e desinformações sobre gênero/sexualidade. Apesar da maioria dessas brincadeiras serem feitas sob a ótica de um filho “traumatizado” e mostrando sua lenta desconstrução, há o mesmo problema da situação anterior. O que causa o riso é a ridicularização da personagem trans, e não o preconceito dos demais.

Kathleen Turner como Charles Bing/Helena Handbasket. A personagem é tratada como gay, drag queen, trans, cross-dresser… Enfim, uma enorme confusão. Imagem: reprodução/internet

      A série ainda traz uma falha que as grandes produções até hoje insistem em repetir: a escalação de uma atriz cis para uma personagem trans, o que reduz as já limitadas oportunidades para essas pessoas. E reforça a higienização, uma vez que a sociedade e a mídia em si tendem a acolher (quando acolhem) apenas trans com passabilidade cis.

     Outro problema gritante em “FRIENDS” é a gordofobia. Foram várias as vezes em que o peso de alguém rendeu deboches, e “Fat Monica” é tratada quase como uma personagem à parte, que serve apenas como piada. Na verdade, a série praticamente não tem personagens gordos que não estejam ali única e exclusivamente para provocar risadas pelos estereótipos, em vez de serem tratados como pessoas reais.

    Ainda não dá para não ver o problema do machismo que permeia vários episódios. Apesar das protagonistas femininas serem liberadas sexualmente, outros personagens e até elas mesmas ocasionalmente praticam slut shame umas com as outras. Há piadas que se sustentam em estereótipos de gênero, como o episódio em que Joey estava “virando uma mulher”. E mais uma vez, várias piadas e objetificações são falsamente amenizadas pela reprovação de outros personagens (tá aí algo que parece uma constante).

Imagem: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio, via Canva

    O ódio criado em cima da Emily também é desproporcional, já que sua reação era totalmente coerente com o trauma que havia sofrido. E, por fim, Ross é extremamente machista e um clássico “nice guy”. Mas salvo raríssimas exceções, isso nunca é posto como algo tão negativo quanto de fato é (o que renderia um post inteiro à parte).

    Eu poderia me prolongar em cada tópico e citar situações específicas que me incomodaram (como o fato da Phoebe, personagem com maior potencial feminista da série, ter feito uma vez um comentário desmerecendo a causa). Infelizmente, como típica série americana dos anos 90 que é, FRIENDS tem inúmeros problemas.

Phoebe sobre feministas: “Nós podemos dirigir. Nós podemos votar. Nós podemos trabalhar. O que mais essas garotas quererm?” Ok, não preciso explicar por que isso tá errado, né? Espero que não. Imagem: reprodução/internet

    Mas isso, apesar de me entristecer, não me impede de ainda amá-la. Assim como eu citei vários pontos negativos, eu poderia citar muitos positivos. Mas esse não é o foco desta série de posts, então só me limito a dizer que, quando nós assistimos às coisas que gostamos criticamente, podemos até sofrer um pouco. Mas isso faz muito bem para a nossa consciência, além de até mesmo nos ajudar a valorizar ainda mais as coisas boas.

Reprodução/internet
“Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade” está bloqueado Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade

Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade

 “Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade” está bloqueado Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade
Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio

Eu não sabia se eu deveria mesmo escrever sobre esse assunto na coluna, porque ele está um pouco passado e já foi falado inúmeras vezes. Muitos dos vídeos, textos e comentários feitos, inclusive, continham quase tudo que eu penso sobre. Mas eu sinto que se eu não fizer isso eu estarei sendo omissa, então vou tentar passar minha visão mais pessoal.

À época das notícias sobre a agressão de Johnny Depp à ex-mulher Amber Heard, eu cheguei a elaborar um textinho para postar aqui sobre o assunto, mas por transtornos pessoais acabei não conseguindo. Nele eu falava que se tivesse que escolher um dos dois para oferecer meu benefício da dúvida, seria ela.

Isso não apenas porque “mulheres são sempre inocentes” ou qualquer coisa do tipo. Há evidências contra ele mas não provas concretas, coisa que dificilmente teremos dado o acordo feito entre os dois. Mas isso leva também a não haver provas da inocência dele (e consequente mentira dela).

Meu benefício fica com a Amber simplesmente pela observação de padrões. Como o fato de ela ter retirado as acusações e aceitado um acordo, comum nesses casos (salvo proporções), ainda mais quando o homem é mais influente que a mulher. E o descrédito pelas acusações é um dos motivos que fazem investigações de crimes contra a mulher não irem adiante. Outro padrão que se repete é a invariável culpabilização da vítima. Cheguei a ler recentemente ela sendo julgada por ter retirado a ação, tendo mentido ou não (o que demonstra tanta falta de empatia que eu mal consigo expressar).

Finalmente, há o fator importância que eu já citei. Ele, por ser homem, já tende a ter a imagem mais protegida pela sociedade. Winona Ryder foi pega roubando em lojas e sua carreira nunca mais foi a mesma. Mel Gibson, entre outras ações deploráveis, bateu na ex-namorada e segue renomado. Sendo Depp alguém mais expressivo dentro do meio em que eles estão (e tendo uma legião de fãs absurdamente fiéis, por sinal), isso se potencializa. A imagem de Amber é que fica manchada, tendo mentido ou não. Ela inclusive correu risco de perder seu papel no filme da Liga da Justiça à época das denúncias.

Bojack Horseman. Imagem: O Filme é Legal, Mas

Depois de explicar minha posição sobre o caso em si, é hora de falar sobre a escalação. Harry Potter é uma coisa tão ligada à minha vida e à minha história que eu nem lembro mais como eu era antes de conhecer a saga. Fui apresentada a ela aos 8 anos, quando minha tia me indicou o primeiro livro – “já que você gosta tanto de ler, tá saindo filme dele agora” –, e depois disso não parei mais. O fato de ter tido contato com ela tão jovem ajuda a mesclá-la ao que eu sou, mas não dá para negar que é uma obra com potencial transformador.

Os livros falam sobre tolerância, respeito, amizade, coragem e outros valores que são essenciais para qualquer ser humano. Valores que, por mais óbvios que pareçam, não são todos tão facilmente encontrados assim. Caso contrário, não existiria tanta injustiça e opressão no mundo, e nem este blog em que agora escrevo precisaria existir. Mas há pessoas que sabem a importância dessas questões e me atrevo a dizer que algumas delas aprenderam isso com Harry Potter. Não sem bases: leitores de Harry Potter são menos propensos a serem preconceituosos, segundo estudos.

J.K. Rowling esteve em um relacionamento abusivo antes da fama e chegou a ser agredida pelo ex-marido. Este fato foi uma parte triste e importante da sua trajetória, tendo inclusive contribuído para sua depressão, que mais tarde inspiraria a criação dos Dementadores (e quem os conhece e/ou teve a doença sabe o quanto ambos podem ser terríveis).

É por esses motivos que para mim (e para uma boa parcela do público) a saga é simplesmente incompatível com a presença do Johnny Depp, ainda mais em um papel de destaque como Grindelwald. Eu entendo que contratos são complicados e que as gravações provavelmente ocorreram antes das acusações, mas por bem menos atores são substituídos. Jammie Waylett, que interpretou Crabbe, não retomou o papel no último filme por ter sido condenado por porte de drogas. Para seu azar, Waylett nunca teve o renome de Depp.

Isso, sem falar que o diretor David Yates defendeu a escolha amenizando o acontecimento e, em outras palavras, reforçando a ideia de que “vida pessoal não interfere em vida profissional”. Ou seja, dando a entender que Depp seria escolhido de todo modo. Como eu citei acima, isso seria verdade se substituições não fossem feitas apenas pela vida pessoal dos atores, e se a imagem de um filme não estivesse intrinsecamente ligada à imagem de sua equipe.

Seguir dando destaque e defendendo um ator acusado de violência contra a mulher é reforçar a sensação de impunidade com a qual nós já estamos tão acostumadas a conviver. Todas as nossas ações são políticas, absolutamente tudo. Por que uma produção audiovisual de amplo alcance e influência, que inclusive prega ideais de justiça, não o seria?

Mais um ponto que me incomoda: o fato de eu rejeitar a escolha por motivos ideológicos leva as pessoas a descartarem todos os meus outros motivos. MESMO se Johnny Depp não estivesse envolvido nessas polêmicas eu não teria gostado. O fato de ele ser americano e o personagem alemão (ou coisa do tipo) é o menor dos problemas (mas é um deles).

Eu já fui fã dele, e costumava defender que, apesar dos trabalhos ruins, ele também podia ser muito bom. Mas eu não era cega e sabia que quanto mais “pop” era o filme, pior era sua atuação. E qualquer coisa ligada ao nome Harry Potter é inegavelmente pop. Ir de um vilão tão bem interpretado como o Voldemort de Ralph Fiennes para um Grindewald muito provavelmente caricato não me agrada nem um pouco.

E os dois aspectos nem precisam ser totalmente desassociados. Yates defendeu a escolha com base na ideia de que Depp seria o melhor para o papel. O fato dele não ser só dá mais força para a ideia de que não importa nem se a pessoa está envolvida em um caso de agressão, nem se ele não é tão essencial assim para a trama: ele vai seguir impune.

Por fim, lembro que sim, eu realmente acredito na ressocialização e recuperação das pessoas, mas isso não significa que eu deva aceitar impunidade. E é isso que esse caso GRITA em todos os seus aspectos. Sem falar que em menos de um ano após as denúncias Depp já está sendo não apenas defendido, mas também vangloriado e recebendo aplausos. E, meus amigos, se isso não é um belo tapa na cara de qualquer pessoa que luta pelo fim da violência contra a mulher e sua banalização, eu não sei mais o que é.

Sexualização feminina não é estilo p**ra nenhuma

Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio/via Canva

Quando acreditamos estar vencendo barreiras e prestes a viver uma ótima era como mulheres consumidoras de cultura pop/nerd, a verdade nos dá uma rasteira e mostra que esse ambiente (como todos os outros) continua extremamente tóxico para nós.

Sim, as produções têm cada vez mais colocado a mão na consciência e percebido o óbvio: mulheres também são público. Isso vale em filmes, HQs, livros, séries e outros conteúdos tradicionalmente voltados para o público masculino (mas que sempre foram amplamente consumidos por mulheres).

Eu, particularmente, comecei a ler quadrinhos seriamente há pouco tempo. Antes, consumia mais revistas justamente voltadas para o público feminino (colecionei W.I.T.C.H. por muito tempo) ou misto (e dá-lhe MSP nas minhas seleções).

Quando meu interesse em expandir esse consumo aumentou, eu já estava inserida no feminismo e pendendo a consumir produtos feitos sobre mulheres e por mulheres. Entretanto, apesar de estar ficando cada vez mais fácil encontrar conteúdos que se adequem ao primeiro requisito, o segundo continua escasso.

A nova revista da Miss Marvel foi uma das responsáveis pelo aumento do meu interesse por quadrinhos, e foge totalmente do padrão de personagens sexualizadas. Por trás de sua produção, nomes femininos. Imagem: reprodução/internet

E isso provavelmente explica por que a gente continua se decepcionando com a indústria cultural. Eu mal havia elogiado a Marvel (que, em detrimento da DC, estava reduzindo bastante a sexualização de personagens femininas e dando cada vez mais protagonismo para elas), e me surge a polêmica da capa variante da Invincible Iron Man que trazia a personagem Riri Williams, de apenas 15 anos, objetificada.

A arte era de J. Scott Campbell e teve que ser alterada (às pressas e com um resultado bem ruim, diga-se de passagem). O desenhista reclamou das críticas dizendo que sua intenção era desenhar “uma jovem mulher atrevida e em fase de crescimento”. A justificativa, que leva em conta características menos importantes (e às vezes até inexistentes) de personagens femininas já é clássica.

Da esquerda para a direita: a primeira capa com a personagem a ser apresentada, a versão original da capa feita por Campbell e a versão modificada. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio

O grupo que sai em defesa de Campbell alega que esse é o seu estilo, que reclamar disso é limitar um artista. Seria como reclamar do surrealismo da obra de Dali. Ou, pegando algo ainda mais próximo, reclamar da sexualização das personagens de Milo Manara, famoso por suas histórias eróticas.

Este, por sinal, está envolvido em outro acontecimento que foi um belo tapa na cara das mulheres consumidoras de HQs. Na verdade, foram dois absurdos reunidos em pouquíssimo tempo. Primeiro: Milo Manara e Frank Cho foram protagonistas de um painel na Comic Com italiana sobre… mulheres no quadrinhos.

Cho também é conhecido por retratar personagens femininas extremamente sexualizadas e desproporcionais. Manara pode ter sido revolucionário quando surgiu, mas hoje em dia é só mais um homem desenhando mulheres sob uma ótica masculina – não tem absolutamente nada de novo nisso. Os dois são as ÚLTIMAS pessoas que se pode esperar em um painel decente sobre desenhar mulheres.

Segundo: os dois teriam “unido forças para combater a censura nos quadrinhos” e blablablá. Nisso, Manara presenteou Cho com uma ilustração da Mulher-Aranha ainda mais sexualizada que sua famosa capa para uma edição da revista da heroína. Seria algo apenas de mau gosto e material de punheta presente para o Cho, se este não tivesse a brilhante ideia de publicar a imagem explícita no seu Facebook. E ainda se vangloriar pela sua “luta contra tabus”.

Ninguém é obrigado a ver essa imagem escrota explícita, então deixo a borrada aqui e quem quiser pode clicar acima ou aqui pra ser redirecionado a ela

Eu vou evitar falar sobre o choro de Cho, que até eu que estou há pouco tempo no mundo dos quadrinhos não aguento mais. Deixo aqui um texto excelente do Collant Sem Decote sobre o mesmo caso e que foca nesse aspecto.

Agora eu vou tentar fazer uma convergência sobre os dois casos e o que mais me incomodou sobre eles. Claro, além da ofensiva objetificação das duas personagens (que atinge as mulheres em geral). Eu estou falando da defesa incansável, para não falar endeusamento, dos três artistas.

Já era de se esperar que a tal “broderagem” entraria em cena nesse contexto, assim como a galera conservadora/machista. Mas nesse caso entram também os que, assim como Cho, se acham subversivos e destruidores de tabus, e ainda os que colocam artistas masculinos num pedestal intocável.

O argumento do estilo ecoa por todo lado em que alguém se posiciona a favor deles. Mas vamos lá, não é no mínimo curioso que TRÊS artistas envolvidos em polêmicas recentes tenham como “estilo” a sexualização? Manara ainda é um artista de nicho (mas que curiosamente estava em um painel sobre quadrinhos para um público amplo). Mas Campbell e Cho estão inseridos num meio bem menos específico.

Tão repetitivo que chega a cansar, sério. Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio/via Canva

Meio esse que usa o corpo feminino como produto há tanto tempo que isso provavelmente nunca foi realmente marca de estilo. É algo que todo mundo faz. O diferente, inclusive, é a criação de personagens femininas que sejam mais que apenas adereços de cena para agradar os olhos (e os hormônios) masculinos.

Campbell postou em seu Facebook uma arte (desvinculada) com uma releitura da Riri. E provou ali que era capaz sim de sair de sua zona de conforto (o tal do “estilo”), respeitando a proposta da personagem. Será que era tão difícil assim fazer o mesmo em um trabalho oficial?

“Riri Rethink” (Riri reimaginada), legenda que Campbell deu para a própria postagem. Imagem: reprodução/J. Scott Campbell

Não dá pra chamar de estilo algo que se repete incansavelmente, na indústria cultural como um todo e também especificamente nos quadrinhos. No máximo é mais do mesmo com algumas variações pessoais. Também não dá pra chamar de estilo algo que estereotipa, ofende e oprime um grupo de pessoas.

Enfim, indo na vibe boca suja do título desse texto, não dá pra aceitar que um monte de homens escrotos siga fazendo trabalhos ofensivos. E que um monte de cuzão no público os defenda como intocáveis apenas por serem homens e atenderem suas “necessidades” sexuais. Não, não é defender estilo porra nenhuma: é só privilégio masculino, mesmo.

[ATUALIZAÇÃO: a imagem postada por Campbell acabou se tornando capa variante da edição #2 de Invincible Iron Man. Veja a arte finalizada aqui]

Você não é obrigada a ter sororidade, mas também não nasceu desconstruída

A sororidade é uma das coisas mais complicadas no feminismo. Eu falo “complicada” tanto no sentido de dificuldade, quando de complexidade. A maioria de nós, quando decide exercer a sororidade, acaba sendo testada e desafiada de inúmeras formas.

Eu já tive (e tenho ainda) momentos em que quis mandar a sororidade pro quinto dos infernos e ser grosseira com alguma mulher. E sei que muitas passam pelo mesmo que eu. Nossa paciência é pequena, e a tentação de rachar mina às vezes é grande. A gente passa tanta raiva e já levamos tanta porrada nessa vida, que acabamos ficando na defensiva – ou no ataque, mesmo –, até com outras mulheres.

Além disso, é bem problemático cobrar sororidade de quem é mais oprimida que a gente. A mina que foi estuprada NÃO é obrigada a ser didática ou a “pagar com amor” quando diminuem a dor pela qual ela passou. A negra NÃO é obrigada a ver como irmã a branca que a oprime – direta ou indiretamente. A gorda NÃO é obrigada a ter paciência com a mulher que reclama de “magrofobia”

Sororidade é uma coisa linda, mas não podemos exigir que você tenha com quem te oprime. Só parar para pensar em como o discurso “mas somos todas mulheres!” se assemelha à fala masculina “somos todos seres humanos”. Sim, é absurdo.

“Mana, sou magra mas também sofro, vamos todas lutar juntazzzzzzzzzz” (reprodução/internet)

Aqui eu quero lembrar de que nós (e acredito que todas nós) já estivemos no papel dessa mulher. Sabemos bem que ainda são raras as pessoas nascidas em lares feministas (talvez na próxima geração isso mude), e que portanto quase todas as que estão hoje na luta trilharam um caminho até ela.Em contrapartida, nós temos que tomar muito cuidado para não cairmos na armadilha de deixar o sangue ferver demais e acabar criando rivalidade com as mulheres que ainda não são desconstruídas. Não vou nem entrar no mérito da tecla sempre batida quando é esse assunto (de que assim estamos afastando mulheres da luta).

Não estou dizendo que o fato de já termos feito bobagens na vida anule os erros das outras pessoas. Se nós mudamos, é porque reprovamos as atitudes do nosso passado, afinal de contas. Não, não precisamos passar a mão na cabeça de ninguém.

O que estou falando é que muitas vezes nossa gana de berrar aos quatro ventos a nossa militância pode nos colocar num pedestal que não existe. Ser feminista não é suficiente para que você seja uma pessoa melhor: isso é exercício.  E ser uma pessoa melhor definitivamente não é a mesma coisa que se sentir superior.

Sororidade em ação (gif meio fora de contexto, sim). Imagem: reprodução/internet

Se somos empoderadas e feministas, é porque tivemos oportunidade para sê-lo. E se isso não é um privilégio, sinceramente, eu não sei mais o que pode ser. Por isso eu sempre tento pensar duas vezes antes de rachar mina, já que na minha condição de classe média, graduada e com pleno acesso (e filtro) à internet, seria extremamente elitista da minha parte fazê-lo apenas porque eu posso.Além de tudo isso, temos que medir nossas palavras em especial porque muitas vezes não enxergamos nossos próprios privilégios. E ser feminista pode ser considerado um deles sim. Não é apenas uma escolha, uma vez que existem mulheres inseridas em ambientes com pouca informação, ou que minam suas autoestimas, ou nos quais simplesmente aprenderam que a opressão que sofrem é correta.

Mais uma vez, ninguém está falando que devemos passar a mão na cabeça de todas as mulheres do mundo e que seremos condenadas eternamente por perdermos a cabeça com alguma delas. Mas o mínimo que podemos fazer é nos esforçarmos para não usar nosso feminismo para oprimir nossas irmãs, já que é exatamente o oposto que procuramos.

sororidade
“Pra mim já chega. Pra mim definitivamente já chega” (tradução livre). Sugestão pra quando começar a perder a paciência e perceber que vai começar a rachar mina: simplesmente sair da discussão. (Imagem: reprodução/internet)

O que torna um filme feminista?

Mad Max: Estrada de Fúria (imagem: reprodução/internet)

Filmes e produções audiovisuais como um todo se diferem da maioria das formas de arte pelo seu caráter primordialmente coletivo. Eles não são como um livro, uma pintura ou uma escultura, que por serem feitos quase sempre de forma individual – no máximo em pequenos grupos – trazem clara a marca de seu criador.

Ao contrário, eles quase sempre demandam grandes equipes, que podem até seguir a mente de uma única pessoa, mas que contribuem de algum modo para a pluralidade do resultado. E grandes produções, principalmente, refletem os interesses de várias pessoas e organizações. Mesmo obras mais autorais, muitas vezes, acabam tendo um dedo ou outro de colaboração criativa.

Por isso é tão difícil pensar no caráter ideológico de um filme ou série de TV. Se por um lado é perigoso definir a bandeira de um filme apenas por seu conteúdo, sem considerar os interesses por trás dele, por outro é complexa a própria classificação desses interesses. Na hora de fazer essa análise entram em jogo os objetivos artísticos e financeiros, a liberdade criativa, o envolvimento de cada membro da equipe e vários outros fatores.

Eu acredito que isso faz com que a definição “este filme é feminista” VS “este filme não é feminista” acabe sendo mais subjetiva. Tendo, entretanto, critérios objetivos. Por mais que se possa entrar em dúvida se Mad Max – Estrada de Fúria (filme com conceitos feministas, mas dirigido e produzido por homens) é um filme feminista, não dá pra creditar como feminista uma comédia depreciativa do nível de A Verdade Nua e Crua apenas por ter mulheres no elenco. Também é bem doloroso ver alguma obra sendo considerada feminista a despeito de seu envolvimento com um diretor ou produtor abusador, por exemplo.

É compreensível a escolha tanto de quem só considera um filme feminista pela combinação de bastidores e conteúdo, quanto quem dá pesos diferentes para ambos os lados. É uma análise complexa, afinal de contas.

‘Mais feminista que eu?’ (ou o papel do homem no feminismo)

Já começa errado nessa imagem… (reprodução/internet)

Este é um texto de opinião. Ele representa a visão pessoal da autora do post, e não se trata de um consenso dentro do feminismo.

Ser homem em uma sociedade patriarcal é viver cercado de privilégios. Privilégios esses que são conferidos, via de regra, às custas da opressão sobre mulheres. E entre os vários direitos historicamente negados ao sexo feminino e cedidos ao masculino está a voz.

Homens estão acostumados a serem o centro de tudo, inclusive dos discursos. Enquanto isso às mulheres só restava (e quase sempre ainda resta) ouvir e acatar. Até mesmo durante a primeira onda feminista, quando as mulheres começaram a se posicionar e a lutar por seus direitos, os homens chegavam a projetar nelas seus próprios interesses.

E até hoje temos que ver homens que tentam a todo custo reivindicar o protagonismo da luta feminista. Será que é tão difícil assim ver o quanto isso é injusto? É uma tentativa de fazer a manutenção de um sistema opressivo, centrado no homem, dentro de um movimento que visa a libertação e a autonomia da mulher. Isso acaba apenas reforçando a incapacidade desses indivíduos de abrirem mão dos próprios privilégios.

Não é justo que homens queiram falar pelas mulheres, não é justo que homens não ouçam as mulheres, não é justo que homens queiram “igualdade” apenas quando se sentem prejudicados pelo machismo, enquanto não dão a mínima para as mulheres realmente vitimadas, inclusive por eles mesmos.

“Então qual é o meu papel como um homem no feminismo?” “De forma simples, seu papel é ouvir as queixas femininas, questionar seu privilégio masculino e se responsabilizar por outros homens” Olha aí, tá até desenhadinho (reprodução/internet)

O papel do homem no feminismo é de ouvinte. Ele só deve ser ativo na própria desconstrução (que já é um trabalhão, por sinal, que nunca acaba), no máximo na dos seus iguais. Ainda assim, quando um homem quer desconstruir o outro, é mais justo que ele o faça também ouvir as mulheres.

Reconhecer os próprios privilégios e fazer o máximo para não reforçá-los é como os homens podem contribuir para o feminismo. Mas se eles não forem capazes nem de ceder a uma mulher um pouco da voz que eles sempre tiveram, também por privilégio, como esperam fazer o resto?

PS: pesquisando por imagens para ilustrar este post, acabei achando este texto, excelente. Vale a leitura. Clique aqui para acessar.

Por que não podemos gostar de histórias de amor?

Por que não podemos gostar de histórias de amor?
Eu sempre gostei de histórias de amor, em todas as suas formas. Meu TCC foi sobre isso, aliás. O resultado não me agradou, mas definitivamente não me arrependo da escolha do tema. Talvez seja meu sol em Câncer falando alto, mas acho que não é só isso que me liga a esse sentimento. Também há o fato dele carregar em si o significado de ser humano.

E sim, eu incluo aqui o tal “amor romântico”. Não entendo por que as pessoas não conseguem ver seriedade e importância em histórias assim. Seres humanos são feitos de carne, osso e sentimento. São eles que nos movem, que nos mantém no lugar. E o amor está lá, entre eles.

Criou-se um esteriótipo de futilidade sobre histórias de amor. E, claro, a quem todas as coisas fúteis são relacionadas? Mulheres, claro. Não sei ao certo qual a causa e a consequência, mas tenho certeza que as duas coisas estão erradas. Sentimentos não são fúteis nem exclusividade de mulheres (que são menos fúteis ainda).

E por isso algumas mulheres se recusam a falar de amor, como se fossem fracas se o fizessem (e não as julgo por isso). Mas eu, ao contrário, continuo falando. Não quero deixar de ser ligada a sentimentos porque as pessoas os consideram vazios, e sim que as pessoas possam enxergá-los em sua completude.

E este post (escrito meios às pressas e com uma inspiração meio vaga) acabou me lembrando da imagem abaixo. É uma mensagem tão forte, tão bonita… Acho que é por isso que gosto tanto principalmente de histórias de amor entre duas mulheres, inclusive são as que mais gosto de escrever. Porque se amar é sobre ser humano, amar de forma revolucionária é sobre( )viver.

Imagem: facebook.com/devaneioscomcanela/

Vamos conversar sobre traição masculina?

 

Já faz algum tempo que eu venho reparando em uma coisa quando ouço alguma história de traição masculina. Se o caso é de reincidência ou traição constante, quase sempre alguém fala algo como “eu não sei por que ele não termina. Deve ser pela segurança de ter alguém ali sempre”.

Já ouvi isso de amigos do cara, conhecidos, da traída (neste caso, no passado), e principalmente da pessoa com quem ele traiu (não cabe julgamento aqui, mas vou linkar um bom texto do blog Mandy Francesa sobre isso). Pode mudar o locutor em alguns aspectos, mas o cerne da fala é sempre o mesmo.

Mas é algo que me incomoda tanto, mas tanto, que eu sinto até uma certa raiva sempre que ouço (ou leio) isso. Não necessariamente da fala ou de quem a proferiu (às vezes, sim), mas sempre do cara. Porque se tem alguém por quem eu não sinto a menor compaixão nessa história, esse alguém é o cara.

 

Sim, a esse nível

Nós fomos ensinados (e principalmente ensinadAS) a sempre justificar as ações masculinas. Se não assumiu um filho é porque não estava preparado para ser pai, se tem ciúmes excessivos é porque ama demais, se vacila com a namorada é porque ela deu margem. E não é diferente no caso da traição.

São inúmeras as justificativas: “é o instinto masculino”; “não deu assistência, perdeu pra concorrência”; “o ser-humano não deveria ser monogâmico”; “ela o pressionava demais, ele precisou extravasar”… Até o famigerado “homem não presta, mesmo” acaba ficando mais ao lado deles que nosso: se homem é assim mesmo, nos resta aceitar.

Mas esse caso em específico, do cara que “não termina por segurança”, não apenas é uma dessas justificativas que tentam isentar o homem de culpa, como é machista por si só. Ele não apenas trai, como o faz por um motivo opressor. Repare: aqui o que se justifica não é a traição, mas o fato dele manter o namoro.

E manter um namoro por conforto pessoal é opressor. É tratar a mulher como propriedade, como “estepe”. Prender uma mulher a uma relação que ela acredita ser recíproca, sincera e saudável, enquanto tudo que ela representa para você é estabilidade, chega a ser cruel. E sim, é muito machista.

E isso não acontece só com traição: a maioria de nós tem, já teve, é ou já foi aquela amiga que virou “peguete fixa” de um cara, mas que só é procurada quando ele não consegue ficar com mais ninguém. Ele nunca rompe o vínculo com ela porque precisa de uma “garantia”. A mulher, por sua vez, muitas vezes acaba continuando na situação, também por insegurança. Mas enquanto a insegurança dele o beneficia, a dela a prejudica.

E por que essa situação é machista? Porque uma sociedade patriarcal ensina homens a buscarem a satisfação pessoal e colocarem o interesse das mulheres em segundo (ou terceiro, ou quarto, ou quinto…) lugar. O prazer do homem vem em primeiro lugar. Isso, aliado à objetificação feminina com a qual estamos acostumadas a conviver, cria homens que não são apenas traidores, como egoístas e covardes.