Rivalidade feminina Música

Rivalidade feminina na música pop: por quê?

Rivalidade feminina definitivamente é meu tema da vez. Já falei sobre ele nos meus dois últimos posts nesta coluna, que você pode ler aqui e aqui.

Disputas entre fanbases são o tipo de coisa que a gente até pensa que ficou lá em 2012, mas elas ainda são reais – e intensas. Um rápido passeio por portais do gênero pode chegar a ser assustador para os mais desavisados.

Fonte: @reasonyoutalita

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5 Produções que subvertem a rivalidade feminina

Há duas semanas, eu postei um texto sobre a falta de filmes, séries e etc sobre amizade feminina e o excesso de produções sobre rivalidade entre mulheres. Prometi que traria semana passada uma lista de obras que subvertem esse conceito machista, mas alguns contratempos me fizeram atrasar um pouco. Eu tardo, mas não falho, e aqui está ela!

Como recorte, trouxe produções que ou poderiam optar por seguir o caminho da rivalidade, mas não o fazem, ou que propositalmente trazem uma rivalidade e a abandonam (transformando-a em amizade, ou não). Apesar disso, sabemos que elas não são perfeitas e podem apresentar falhas (por exemplo, quanto à diversidade). Outro recorte: optei apenas por séries ou filmes dos quais nunca falei aqui no blog.

Apesar dos contras e da escassez de obras assim, é bom saber que ao menos temos opções. Vamos valorizar o que temos, e torcer para que haja cada mais espaço para essa subversão. Espero que gostem!

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Por que é mais fácil achar produções sobre rivalidade do que sobre amizade feminina?

 

A ideia de que mulheres são rivais por natureza é um dos conceitos machistas mais sutis entre os que encaramos no dia a dia. Ele parece inofensivo, mas quando paramos para pensar melhor sobre isso vemos que não é.

Uma das formas de chegar a essa constatação é pensando no poder que a união e a amizade feminina podem ter. A forma como a naturalização da rivalidade feminina sabota a criação desses laços é apenas um dos problemas, sobre o qual a Jade já falou nesse post aqui.

Na cultura pop, essa ideia é presente em músicas, filmes, séries, animações, novelas, livros e até em narrativas da imprensa… É extremamente fácil encontrar produções que se sustentem nela ou a reforcem. O oposto, nem tanto.

 

Bad Blood
Imagem do clipe da música Bad Blood, da Taylor Swift (reprodução/internet)

 

É até grave pensar que, enquanto histórias sobre amizades masculinas são muito populares e até consagradas como clássicos, relatos sobre união entre mulheres são bem menos comuns.

Sim, também há grandes histórias sobre inimigos masculinos. Mas é importante lembrar que há diferenças não tão sutis assim no tratamento da rivalidade masculina e da feminina. Enquanto a primeira é pautada geralmente em motivos ideológicos ou de poder, a segunda costuma ser jogada como inevitável ou motivada por interesses românticos.

Isso faz com que seja muito importante a valorização de produções sobre amizade e/ou união feminina. Algumas delas, como já mencionado, são fortes exemplos do que mulheres juntas podem fazer.

 

Mad Max
Mad Max: Estrada de Fúria (imagem: reprodução)

 

Outras, não tão pretensiosas, ao menos servem para mostrar que nada se compara a ter uma amiga mulher. Elas nos entendem em nossos conflitos e necessidades, ao mesmo tempo que podem apresentar vivências completamente diferentes das nossas.

 

Quatro Amigas e um Jeans Viajante
Quatro Amigas e um Jeans Viajante (imagem: reprodução)

 

Há ainda as produções que fazem uma completa (ou ao menos parcial) desconstrução da rivalidade feminina, sobre as quais trarei uma lista no meu próximo post. São histórias que em um primeiro momento parecem se render ao conceito machista, mas que em algum ponto o desconstroem e passam uma mensagem oposta.

 

Meninas Malvadas
Meninas Malvadas (imagem: reprodução/internet)

 

Em resumo, os meios de comunicação e a arte podem sempre ser ferramentas para reforçar ou reverter elementos machistas. Com a rivalidade feminina não é diferente. Quando escolhemos valorizar a desconstrução dela estamos, ao mesmo tempo, abrindo nossos próprios olhos para a importância da amizade feminina, e preparando o terreno para que mais mulheres enxerguem o mesmo.

Edit: não vou deixar uma resposta explícita à pergunta do título (apesar de ter algumas opiniões. Spoiler: todas envolvem machismo). Prefiro deixar em aberto, para promover a reflexão. E você, o que acha?

 

Esvaziar-se

Esvaziar-se

 

Ahhhh…
O suspiro escapa por entre meus lábios
Cansados. Cansada
O corpo pesado, mas frágil
De leve, só o ar, que vaza

As vozes ecoam por cada canto
Os vultos se impõe à minha volta
As perguntas se repetem
Elas se repetem
Se repetem

Mas eu não digo que sim
Não digo que não
Nem talvez
Eu só me calo

As vozes dizem por mim
O sim, o não e o talvez
As vozes sabem melhor que eu
Elas falam, GRITAM, sussurram
Por mim

É, elas sabem melhor que eu
Elas sabem melhor que eu?
Emudecida, pesada, frágil
Facilmente deslocada
Para onde as vozes me levam

impunidade

Impunidade masculina segue firme (e nós seguimos com medo)

A violência contra a mulher é um mal sistêmico ao qual absolutamente todas estamos sujeitas. A configuração de nossa sociedade é o que nos empurra para essa situação, onde as que não sofreram ainda alguma situação de violência de gênero aprenderam a conviver com o medo dela.

E a forma como são tratados os agressores não apenas cria sentimentos de injustiça e impotência, como também reforça a insegurança. No caso do estupro, por exemplo, estima-se que apenas 3% das denúncias resultam em condenação no Brasil. TRÊS-POR-CENTO. É importante lembrar que calcula-se também que apenas 35% dos estupros no Brasil são notificados. Isso significa que 65% dos casos de estupro não têm a menor chance de condenação.

Impunidade
Imagem: Istoé

Em meio a isso, uma sugestão de lei em tramitação no Senado Federal torna crime hediondo e inafiançável a falsa comunicação de estupro. Atualmente ela se encontra aberta para votação do público, com 21.255 votos a favor e 20.297 votos contra.

Para uma comunicação de crime ser considerada falsa, é necessário muito pouco. Os números acima já demonstram o quanto nosso sistema ainda precisa evoluir para agir adequadamente perante casos de violência sexual. Com nosso judiciário atual, uma denúncia considerada falsa não necessariamente é falsa.

Se essa lei for aprovada, ao não conseguirem reunir provas suficientes (que muitas vezes não existem, pois nem toda violência sexual deixa marcas físicas), além do medo de ver seus agressores impunes, mulheres abusadas também deverão temer a cadeia.

A impunidade masculina conta ainda com ferramentas poderosas para sua própria manutenção. Quanto mais alta sua posição na pirâmide social, maior a chance de um homem não pagar pelos seus atos. E a ausência de penalidade não aparece apenas no âmbito judicial, mas contempla todos as esferas da sociedade.

Sempre que um caso de assédio, estupro, violência doméstica ou qualquer outra opressão de gênero repercute na mídia, uma boa parcela da população se arma em defesa do agressor. Vide textos já postados aqui no blog, sobre os casos dos atores José Mayer e Johnny Depp.

São tantos exemplos, alguns já repetidos diversas vezes, mas as listas crescem cada vez mais. Assédio na Playboy. Abuso e assédio sexual por Cassey Affleck. Agressão e violência psicológicas televisionadas em reality show. Goleiro Bruno. Isso, para citar apenas alguns dos casos que repercutiram este ano. E ainda estamos em abril.

 

Da esquerda para a direita: André Luís Sanseverino e Marcos Aurélio de Abreu (presidentes da Playboy), Casey Affleck, Marcos e Bruno. (Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio via Canva)

 

Os dois últimos devem ser comentados aqui. A espetaculização de um caso de violência contra a mulher marcou o caso do Big Brother Brasil, em que Marcos (37 anos) agrediu diante de câmeras sua parceira Emily (21).

Providências tomadas pela Globo? Nenhuma. Ao menos não até que a polícia do Rio de Janeiro começar a investigar o caso e determinar a expulsão do participante. Isso, pouco depois da repercussão do caso José Mayer, que resultou apenas no afastamento do ator. Novamente, reforçando: a emissora não fez nem a sua obrigação.

O público também tem a sua parcela de culpa na criação do circo em torno da situação, já que é a audiência que guia as ações da emissora e sua insistência em sustentá-la. Importante lembrar que, inclusive, Marcos teve a preferência do público para ficar no programa mesmo depois que as agressões viralizavam pela internet, e à época de sua expulsão, a hashtag “forcamarcos” chegou aos Tredding Topics no Twitter.

Para fechar (ao menos por enquanto), no dia 22 de abril, Marcos publicou uma carta aberta para Emily em que se colocava como vítima da situação, inclusive a culpabilizando por denunciar sua agressão. E além de ele continuar recebendo apoio, internautas agora caem na mesma linha de raciocínio e acusam Emily de falsa e aproveitadora, espalhando a nova hashtag “emilyjudas”.

Já sobre o goleiro Bruno, caso antigo que voltou a receber atenção este ano com a soltura do jogador, dois pontos. O primeiro: acusado de mandar matar e ocultar o corpo da ex-companheira Eliza Samúdio (que estava grávida), Bruno tem fã-clube, assédio (positivo) de público em busca de selfies e autógrafos e foi contratado pelo time Boa Esporte Clube. Tratado como celebridade por um número muito maior de pessoas que se esperaria de alguém que ainda nem mesmo pagou pelo seu crime.

Segundo ponto: o Boa amargou a péssima repercussão da contratação, perdendo patrocinadores. Bruno voltou à prisão por decisão STF. É um ponto positivo, sim, mas que infelizmente não apaga todos os pontos negativos que já vivenciamos. É sempre bom lembrar que cada vitória conta, mas uma sociedade machista sempre nos colocará em risco.

Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” Simone de Beauvoir

É por isso que é tão importante não nos silenciarmos. Para não deixarmos que nossos direitos nos sejam tomados e para lutar para que agressores sejam punidos. E outra coisa que eu sempre insisto quando reclamam da repercussão que damos para esses casos, como se “não soubessemos perdoar”:

Muitos deles têm como única punição a repercussão negativa espalhada por nós. Se você é um dos que nos criticam, por favor: nos deixem falar. Já é tão pouco comparado com o que realmente é justo, e querem nos calar. Nos deixe ao menos fazer algo, mesmo que seja pouco, para tentar equilibrar essa balança. Porque o mundo está cheio de advogados para os homens, contra muito poucos promotores. E isso não é, de forma alguma, justiça.

“Por enquanto”: HQ sobre automutilação busca por financiamento coletivo

Por Enquanto

 

Vanessa Bencz é jornalista, palestrante e autora de quatro livros publicados. Há 5 anos, seu trabalho gira principalmente em torno de problemas da adolescência como bullying, depressão e violência familiar. Seu novo projeto é a HQ “Por Enquanto”, que está em financiamento coletivo no Catarse até amanhã às 23H59.

Segundo Vanessa, “‘Por Enquanto’ trata de Ana, 16 anos, que pratica automutilação. Ela foi vítima de violência dentro de casa e na escola. Por conta disso, se torna a chamada ‘aluna problema’. Esta poderia ser a história de muitos estudantes brasileiros que vivenciam rotinas difíceis e depressão.”

Eu conheci a autora em um grupo de Facebook. Lendo um pouco sobre seu trabalho e os textos que ela costuma postar em seu perfil, fui “intrometida” e pedi para adicioná-la. Ela aceitou, e desde então, tenho lido seus relatos sobre suas palestras, seus livros e sua determinação em fazer da vida escolar uma experiência melhor.

Palestra e livros
Vanessa palestra principalmente em escolas, para estudantes de Ensino Médio (Imagem: arquivo pessoal)

Foi isso, somado à importância dos assuntos tratados em “Por Enquanto”, que me motivou a entrevistar Vanessa sobre o projeto. Confira abaixo:

 

Tamires Arsênio: O que te motivou a começar a falar sobre temas como saúde mental, bullying e etc?

Vanessa Bencz: O que me motivou foi a necessidade dos estudantes ouvirem sobre isso. Quando comecei a fazer palestras, há cinco anos, a intenção era falar sobre a importância da leitura para os alunos de escolas públicas. Mas percebi que havia assuntos mais graves e urgentes a serem discutidos. Como eu vou incentivar um estudante a ler, se ele está sofrendo violência na escola? Ou dentro de casa? É questão de prioridades. Então, comecei a falar sobre bullying, sobre depressão na adolescência, sobre ferramentas emocionais de busca por ajuda e superação.

 

Tamires: Você pode falar um pouco sobre suas publicações anteriores? Elas sempre seguem essa temática?

Vanessa: Sou mãe orgulhosa de quatro livros, e o quinto está nascendo! Meu primeiro livro, “Relato do Sol”, foi lançado em 2011 e trata-se de contos que produzi durante a faculdade. Meu segundo livro se chama “Memórias de uma Jornalista Distraída”, que também são contos, mas desta vez sobre minha carreira como repórter de jornal diário. Meu terceiro material é a história em quadrinhos “A Menina Distraída”, de 2014, que é minha publicação de estréia nos assuntos de bullying, violência e depressão. A quarta obra foi lançada em 2016 e se chama “Leia Quando Chegar em Casa”. São relatos que coletei nas escolas do Brasil inteiro como palestrante. O quinto livro está sendo financiando agora. É uma história em quadrinhos chamada “Por Enquanto”, que vai falar especificamente de automutilação, depressão na adolescência, bullying e suicídio.

 

A menina distraída
Em sentido horário: capa de A Menina Distraída, destaque da personagem Ana e sua reformulação (Imagem: arquivo pessoal)

 

Tamires: De onde surgiu a inspiração para a HQ Por Enquanto?

Vanessa: Por Enquanto é um spin-off de “A Menina Distraída”. Trata-se da história de Ana, uma personagem que era coadjuvante na MD e que agora ganhou uma história toda para ela. Ana foi a personagem mais comentada da MD, então, nada mais justo do que homenageá-la agora. Na MD falamos sobre bullying, violência e dificuldades de aprendizado. Agora, em “Por Enquanto”, continuo com a temática da violência – acrescentando temas totalmente pertinentes à adolescência, como depressão, suicídio e automutilação. Chamei a desenhista Yasmin Moraes para trabalhar comigo e estou muito motivada com este material.

 

T: Quem são as pessoas envolvidas no projeto?

V: Somos eu (autora), a ilustradora Yasmin Moraes e a namorada da Yasmin, Ruth Pavanello Bianchini, que serviu como referência visual para nossa personagem e está dando a maior força no financiamento.

 

Vanessa e Yasmin
A autora Vanessa e a desenhista Yasmin. Os filtros das fotos podem ser utilizados no seu perfil do Twitter ou Facebook clicando aqui (Imagens: arquivo pessoal)

 

T: Quantas “Anas” você já conheceu ao longo da vida?

V: Digamos que conheço uma todos os dias. São incontáveis Anas – e na versão masculina também. É uma pena que seja tão comum encontrar crianças e adolescentes com uma realidade tão triste e negligenciada. A escola deveria ser um local de segurança, aprendizado e amizade. Mas geralmente não é! O sistema educacional tem criado espaços perigosos em que jovens são julgados, criticados e destruídos. Até os professores saem perdendo, porque são desvalorizados. Eles são jogados dentro das salas de aula com a responsabilidade absurda de construir conhecimento dentro de cabecinhas machucadas e doentes.

 

Por Enquanto
Páginas de Por Enquanto (imagem: arquivo pessoal)

 

T: Você já viu de perto o resultado do seu trabalho? Pode contar algum caso específico?

V: Após uma palestra, uma garota de 16 anos me falou o seguinte: “Vanessa, eu morava com meu pai. Mas ele era uma má influência para o meu irmão pequeno (8 anos) porque era alcoolatra e cometia furtos. Me mudei para a casa da minha mãe para que meu irmão pudesse ter uma vida melhor. Ele ainda não sabia ler. Entretanto… comecei a ser abusada durante as madrugadas pelo meu padrasto. Não sei o que faço: não sei se volto para a casa do meu pai e exponho meu irmão a ele, ou se continuo na minha mãe onde meu irmão finalmente está aprendendo a ler e aguento os abusos do meu padrasto.”

Quando ela me contou isso, choramos juntas. Dei para ela um exemplar de A Menina Distraída e falei: “Eu quero que tu aceite este presente. Quero que esta história em quadrinhos te lembre todos os dias que tu precisa ser uma guerreira. Lembre-se que estou contigo. Tenha coragem de denunciar, por favor!”

Voltei pra casa e chorei muito. Dias se passaram. Semanas. Meses. Se passou um ano, e eu nunca mais encontrei com esta garota.

Em março de 2017, eu estava em uma escola qualquer de Joinville palestrando sobre bullying. Contei, com muito orgulho, que estou lutando para lançar uma nova história em quadrinhos. Encerrei a palestra e perguntei para a plateia se alguém queria falar alguma coisa. Lá do fundo do auditório levantou uma garota. Ela estava chorando.

Era ela! A garota pediu o microfone e disse: “Você, Vanessa, me deu coragem de denunciar aqueles crimes. Denunciei no dia seguinte daquela tua palestra. Meu irmão aprendeu a ler com a tua HQ. Obrigada por existir.”
Existe melhor sentimento do que a construção coletiva da felicidade? Eu diria que não.

 

Vanessa Bencz
Vanessa com a HQ “A Menina Distraída” (Imagem: arquivo pessoal)

 

T: Qual resultado você espera para a HQ?

V: Que sensibilize as pessoas para este assunto. Que levante debates, que coloque holofotes em assuntos essenciais para o bem estar dos estudantes. Que os leitores aprendam o significado de valores como empatia e respeito, e os coloquem em prática.

 

“Por Enquanto” está em financiamento em https://www.catarse.me/porenquanto#_=_ . Você pode ser um apoiador com a partir de 10 reais. Confira as fotos das recompensas na galeria abaixo:

 

Imagem: Pexels/reprodução

A Filha do Vento

Imagem: Pexels/reprodução
Este é um texto em prosa inspirado pela música “The Blower’s Daughter”, de Damien Rice. Para uma experiência mais completa, leia enquanto escuta o player no final do post. Você também pode ler a tradução aqui.

Depois de tanto tempo, foi engraçado perceberem naquela reunião que continuavam os mesmos. Haviam tido um rápido mas marcante encontro anos antes. E aquele dia parecia, se não um flashback, uma remontagem com a essência original.

Tudo bem, as mudanças eram grandes. Além de não estarem mais juntos, ele encontrara uma nova pessoa que o fazia muito bem. Como ela previra à época do rompimento, ele superou e soube tocar a vida como antes dela.

Já ela mantinha o mesmo espírito. Sempre fora livre. Agora ainda mais, já que ele fora o último homem a quem se ligou com alguma amarra.

Mas algo mantinha-se. E ele sentia culpa por ter de admitir que superara, mas não a esquecera. Vê-la reavivou o sentimento apenas adormecido dentro dele.

O reencontro se deu no litoral, na praia onde costumavam frequentar em períodos diferentes, um sem saber do costume do outro. E a inevitável coincidência aconteceu. Chegava a ser estranho que ambos tenham ido à costa em pleno inverno.

Mesmo estando ao lado da noiva, para ele foi inevitável se distrair ao vê-la. Gastou um pouco de seu tempo para apresentá-las, e todo o resto relembrando o passado e se inteirando sobre a vida da ex-namorada.

Ele podia ver em seus olhos que ela conseguira o que tanto queria, que seu espírito voava livre. Mas também notava que faltava algo… Um brilho… Faltava-lhe amor?

Mas o que fosse, ele não podia fazer nada. Ela fizera sua escolha. Entre pertencer a ele e não pertencer a ninguém, escolhera a segunda opção.

E ele podia perceber isso enquanto ela era a única a mergulhar nas águas gélidas do mar, sem medo. De fato, em nada ela se parecia com os outros.

Assim era ela… De alma solta, tanto que era impossível pegá-la. Afinal, era a filha do vento. E o vento não se prende.

José Mayer, o seu assédio não é sobre você

Globais na campanha "Mexeu com uma, mexeu com todas" (Chega de assédio)

Na última sexta-feira (31/03), a figurinista Susslem Tonani expôs o assédio sexual que sofreu por parte do ator José Mayer. O relato, publicado em um blog do jornal Folha de São Paulo, logo foi tirado do ar, mas ficou tempo o bastante para que internautas capturassem a tela e o espalhassem pela rede. A repercussão foi imediata. E, como em toda situação do tipo, ao mesmo tempo em que muitos discutiam a gravidade da situação, logo o brado dos defensores do privilégio masculino começou a se fazer ouvir.

Comentários na postagem no Facebook de uma das matérias sobre o assunto

Mas nesse caso, diferentemente​ de muitos outros, a discussão não se limitou aos espaços da internet. Várias artistas (principalmente globais) começaram a se posicionar a favor de Susslem, espalhando a campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”. Uma das primeiras a se manifestar repudiando o ocorrido foi a atriz Letícia Sabatella, ainda dando a entender que esse não teria sido a primeira atitude reprovável do ator.

Nessa sucessão de acontecimentos, o que veio a seguir foram reações que ora beiravam o absurdo, ora a dissimulação. Primeiro, José Mayer declarou inocência, alegando ainda que as ações descritas por Susllem não eram de seu feitio, e sim dignas de seu personagem Tião Bezerra, vilão na novela A Lei do Amor. Mesmo se houvesse prova de sua inocência, a falsa leveza com que o ator tratou o assunto revela uma realidade sobre a forma como o assédio é encarado em nossa sociedade: uma trivialidade.

Após o aumento da repercussão do caso, no entanto, Mayer voltou atrás na negação e divulgou uma carta aberta onde dizia que “errou” e que não tinha “a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar” com suas “brincadeiras machistas”. Sim, brincadeiras. Sem chegar a negar qualquer parte específica do depoimento de Susllem (que incluíam a descrição de um momento em que o ator tocou suas partes íntimas), Meyer disse que tudo não passou de uma suposta brincadeira de mau gosto. Ao minimizar as próprias ações, ele não apenas reforça a já forte naturalização dessa forma de violência, como ainda diminui a credibilidade dessa e consequentemente de outras denúncias.

Vale ressaltar que o conteúdo da carta, é uma sucessão de justificativas e tentativas de mudar o foco do assunto. O único momento em que ela se direciona propriamente​ a vítima, é ao se anunciar como um pedido de desculpas. Ainda assim, não é isso que seu conteúdo traz. Todo o tempo a única palavra que parece ressoar é “eu”. Chegando ao ponto inclusive​ de trazer este absurdo trecho: “A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança”. O que em tese seria um reconhecimento do mal causado a uma mulher, não passa de uma tentativa de apaziguamento.

O foco de uma experiência de assédio não deve jamais ser o aprendizado do homem. Homens esses que não deveriam precisar assediar ninguém para aprender que não devem fazê-lo ou que o mundo é machista. E tratar essa situação puramente como um aprendizado pessoal, sem citar por um único segundo o sofrimento infringido por ele em uma ou talvez até mais mulheres, é covarde e desonesto.

Globais na campanha "Mexeu com uma, mexeu com todas"
Atrizes com a camiseta da campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”

Prosseguindo, muitos comemoraram a atitude da Rede Globo, de suspender indefinidamente o ator, já tomando um de seus papeis garantidos em uma próxima novela. Seja por não estarmos acostumados a ver punição para assediadores (principalmente em posições com certo poder), seja por isso supostamente criar um precedente para que novos casos sejam suprimidos. Eu, no entanto, não consigo ser tão otimista. Antes de tudo, é importante lembrar que a emissora não fez nem o mínimo, que seria demitir um ator que cometeu um crime. Para piorar, diretamente relacionado com a empresa (por ter sido contra outra funcionária) e em local de trabalho.

Além disso, o histórico de inconsistências da Globo não me deixa acreditar que isso seja um precedente nem dentro da própria empresa. E fica ainda mais difícil acreditar que uma ação específica teria tanto poder para mudar um problema estrutural. Aliás, algo já deu para perceber que não mudou. Mesmo após a confirmação do ato pelo próprio José Mayer, ainda é possível notar todo tipo de absurdo o público comum, com defesa do assediador e culpabilização da vítima.

Comentários na postagem sobre a carta aberta

Como eu sempre falo no blog, a luta não pode parar. Ao menos uma coisa me deixa esperançosa nessa repercussão. A ação das artistas em prol de Susllem mostrou o poder que nós mulheres temos ao nos unirmos. Por mais que nesse caso tenha sido necessária a voz de mulheres em alguma posição de poder, isso já é um avanço e um incentivo para que continuemos nessa jornada, nos apoiando e erguendo umas às outras. Que possamos cada vez mais nos fazer ouvir e surtir os efeitos que queremos e precisamos. E sem mais homens tomando a dor que nos provocam como suposto aprendizado para eles mesmos, sem mais impunidade para seus atos, sem mais naturalização de violência que nos atinge.

Ps: e reforçando a ideia de que a prioridade em casos de assédio nunca é o assediador, este post não traz imagens de José Mayer

Também recomento este texto da Carta Capital sobre o assunto: A carta de José Mayer mostra o fosso entre homens e mulheres

Sereias

 

“Eu daria tudo por um pouco de silêncio agora”

A frase inevitavelmente se repetia de novo e de novo no interior da cabeça loura repousada tristemente sobre um par de braços frágeis. Estes por sua vez se cruzavam sobre o parapeito da varanda de uma cobertura onde uma festa acontecia. Pela relativamente pouca altura do prédio, ali fora o som do trânsito chegava com facilidade. Do lado de dentro, a seleção agitada do aspirante a DJ fazia as paredes vibrarem brevemente.

Silêncio parecia uma ideia muito distante. A blusa de cetim fino e mangas compridas não era o bastante para bloquear o frio da noite litorânea, em pleno mês de maio. A escolhera pensando no calor humano que agora fazia questão de rejeitar. Sair não resolvera muita coisa com relação ao barulho, mas ao menos agora tinha um pouco de ar para respirar e não precisava encarar tanta gente se divertindo ou querendo interagir com ela.

“Quero ir embora”

Aos poucos ia conseguindo organizar os próprios pensamentos acima da zoeira constante, ainda que eles continuassem reincidentes. Sabia que sua amiga para quem dera carona estava se divertindo o bastante para não ir procurá-la, então definitivamente não queria atrapalhá-la. A outra muito provavelmente acabaria indo embora com algum rapaz, mas não podia contar com isso. Mas ela continuava mal por ainda estar ali. E isso só aumentava o ódio por sua própria mania de se preocupar tanto com os outros, até em momentos como aquele.

Seu estômago embrulhava levemente, e era incapaz de dizer se por nervosismo ou por estar há tanto tempo sem comer. Passara o dia correndo de lá para cá e se preocupando com cabelo, unhas, roupa e maquiagem, de modo que só beliscara alguns petiscos desde o almoço. Podia ser isso. Ou podia ser a ansiedade que ela não podia manifestar fazendo mal de dentro pra fora, inclusive fisicamente. Mentalmente ela já sabia que não estava nada bem.

“Eu preciso ir embora”

Estava prestes a chorar quando um susto a tirou um pouco de seus pensamentos. Um grito longo e agudo foi se espalhando pelo ambiente, a alcançando nitidamente quando todo o som da festa cessou. A injeção de adrenalina instantaneamente a fez se virar e correr de volta para dentro. Era difícil distinguir rostos ou interpretar a confusão que se passava, mas a certo ponto todos pareciam entrar em um consenso e se aglomerar próximo à porta do banheiro.

“O que tá acontecendo?”
“Meu Deus, não acredito!”
“Ai, não consigo ver…”

Ela também não conseguia ver. O grupo de pessoas se amontoara tanto que criara uma forma compacta e difícil de transpor. No meio daquele empurra-empurra frenético e principalmente contra qualquer rapaz de estatura normal seu corpo pequeno não tinha muita vez. Se demorasse um pouco mais, talvez a eletricidade da ação diminuísse e ela acabaria pensando melhor, desistindo e aproveitando a confusão para ir embora de fininho – a amiga arrumaria um jeito, afinal.

“É o Túlio mesmo, gente?”

Ouvir aquele nome era o que faltava para manter seu estado de alerta. Ou melhor, para aumentá-lo ainda mais. A ansiedade se manifestou trazendo a dicotômica sensação de arrepio e calor, com uma leve acentuação no suor. O nome, naquela situação específica, causara ainda mais curiosidade sobre o que estava acontecendo. Normalmente ouvi-lo a faria ficar ainda mais desconfortável e impelida a ir embora, mas algo a fez permanecer e se empenhar um pouco mais na tentativa de entranhar-se na multidão. Era como se algum tipo de intuição lhe desse um palpite vago.

Não foi fácil vencer a barreira humana que a separava do foco de toda aquela atenção. Teve de fazer coisas que em outras situações rejeitaria por serem humilhantes, como se abaixar e passar por sob as axilas de alguém. Mas aos poucos foi conseguindo se aproximar do centro e se posicionar de forma a não ser muito massacrada. Em determinado ponto, ficou mais difícil avançar, e teve que se dar por satisfeita com a distância que alcançou. Ali, no entanto, ao se erguer nas pontas dos pés e se apoiar nos ombros de alguém, ela já conseguiu ver…

Seu olhar surpreso foi de encontro exatamente a aquele outro par de olhos, vidrados e turvos pela água que escorria sobre ele. O corpo na banheira parecia ter sido cuidadosamente ajeitado para ficar sentado sob o chuveiro ligado, que continuava a encher a banheira transbordante. Só então ela percebeu a enorme poça, que começava a se extender pela porta afora. Mas isso não era exatamente o que prendia sua atenção nesse momento. Ela continuou encaranto aquele rosto jovem e inerte por uns segundos, sentindo… paz.

Devia ficar mal por se sentir assim pela morte (e provável assassinato) de alguém? Nem se preocupava com isso, na verdade. Só conseguia pensar em como todo o asco, o medo, a vergonha e a incerteza pareciam ter sido lavados de dentro dela, desde o momento em que viu aqueles olhos cobertos pela água, pacificadora. Quando recuperou a própria reação, tornou a se esgueirar em meio à multidão, agora no sentido contrário. Parecia mais fácil agora, seja pela menor resistência dos demais a cederem espaço, seja por sua própria sensação de leveza.

Depois de se esquivar de todos e voltar ao espaço aberto da sala de estar, teve sua atenção tomada por uma uma pessoa que, ao contrário de todos os demais presentes, estava totalmente alheia à situação. Uma mulher mais ou menos da sua idade estava sentada calmamente sobre um dos pufs da festa, com os cabelos blorange presos em um coque frouxo lateral. Sua pele era dourada, mas dourada mesmo; ela brilhava suavemente. Provavelmente usava algum glitter corporal ou coisa assim…

E estava olhando diretamente para ela. Era estranho para sua timidez, mas ela não se sentiu desconfortável com a encarada. Segurou o olhar, assim como a outra, que se levantou lentamente do acento, sempre a fitando. A ruiva só se virou quando começou a andar em direção à saída, sempre de forma displicente, mas hipnotizante. Um lampejo de racionalidade a impediu de seguir a mulher misteriosa pela porta da frente. A polícia já devia estar chegando – ouvira alguém ligar em meio à confusão -, não poderia abandonar o local.

Em vez disso voltou para a varanda, agora não em busca de silêncio, mas de outra coisa. Sozinha, lá ela finalmente pode soltar um longo suspiro de alívio e deixar surgir um sorriso discreto no canto dos lábios, sem o perigo de ser vista. Tirou um maço de cigarros de dentro da bolsa de mão e acendeu um, se debruçando novamente sobre o parapeito. Se deixou ficar ali por alguns minutos.

Estava quase terminando o cigarro quando viu. O apartamento dava de frente para a praia, deserta, exceto… A tal mulher estava agora andando na areia, soltando os cabelos que caíam suavemente pelas costas, sua aura fascninante sempre presente. Ela parecia estranhamente decidida ao ir em direção ao mar noturno e gélido. A visibilidade era pouca, proporcionada apenas pela lua e alguns postes no asfalto, mas a loura não parou de observar aquela caminhada.

Quando começou a chegar próximo à beira foi se despindo, mas não estava usando traje de banho. Não hesitou nem quando seus pés tocaram a água fria e continuou, até finalmente estar numa produndidade que lhe permitia mergulhar. E sumiu. Uma pequena angústia tomou conta de sua observadora enquanto ela ficava dois, três minutos submersa sem reaparecer.

Mas como já havia acontecido tantas vezes naquela noite, a emoção logo foi substituída por outra, quando por um instante um brilho emergiu, como se flertasse com o ar. Ela podia jurar por todas as coisas sagradas que uma cauda com escamas douradas fez um movimento suave de C até bater novamente na água e desaparecer novamente. E apenas pela segunda vez naquela noite inteira, ela sorriu.