Sobre ser exatamente como as outras

Em algum momento das nossas vidas, as seguintes frases já passaram pelos nossos lábios:

 

“Eu prefiro ter amigos homens.”

“Não consigo ter amizade com outras mulheres.”

“Homens são amigos mais sinceros, mulheres são muito falsas.”

“Na minha turma, sou como um dos caras.”

 

Durante alguma fase da infância ou adolescência, um somatório de fatores da socialização pela qual passamos dá muito errado, e nós começamos a ver o nosso gênero com desdém, com aversão. Nós queremos nos assimilar ao masculino, absorver o masculino de alguma forma, para assim absorver também suas vantagens, seus privilégios, seja copiando seus hábitos, seja encarnando os hábitos da feminilidade que mais os agrada.

 

Nós dizemos “eu não sou como as outras”, nós gostamos de ouvir dos lábios masculinos que somos “diferente das outras”, nos sentimos seguras quando os ouvimos contar da ex “que era louca”, e evitamos cometer todos os “erros” que a ex cometeu: ser chata demais, exigente demais, louca demais. Nós falamos mal de outras mulheres para nos sentirmos mais bem-quistas pelos homens, mais integradas em sua sociedade.

 

Em algum momento, se temos sorte, percebemos que ao invés de sermos diferentes, somos exatamente como as outras. Eles riem da gente como riem das outras. Da mesma forma que eles objetificam, menosprezam, diminuem as outras, eles objetificam, menosprezam, diminuem a nós e às nossas irmãs, de sangue ou não. E lá estamos nós, por um motivo ou outro, um medo ou outro, sendo coniventes.

 

“O opressor não seria
tão forte se não tivesse cúmplices
entre os próprios oprimidos.”
Simone de Beauvoir

 

O que nos salva? Nós mesmas, ao estendermos a mão umas às outras.

 

Há algo de muito poderoso em buscar cercar-se de mulheres. Percebemos que compartilhamos de muitos dos mesmos medos, que passamos por muitos dos mesmos constrangimentos, mas ao mesmo tempo abrimos o nosso olhar para outras partes de suas vivências femininas que podem ser muito distintas das nossas. Ao nos cercarmos de mulheres, temos a oportunidade de vê-las como pessoas completas, com seus defeitos e qualidades, seus privilégios e opressões, e assim, em contraste com as vivências delas, reconhecer os nossos próprios privilégios.

 

Ao convidá-las a ocupar o mesmo espaço que conquistamos, nos engrandecemos, nos tornamos mais do que nós mesmas, nós nos tornamos exatamente como as outras em toda a nossa diferença.

 

Para mim, essa certeza tem se tornado cada vez mais forte, e cada vez mais parte da forma como escolho viver minha vida. Escolhi me cercar de mulheres, escolhi me deixar permear por elas, por suas vivências, por seus conhecimentos, e oferecer de volta o pouco que tenho: algum acesso, alguma instrução e diversos privilégios, dos quais não posso me livrar pois foram impregnados em mim, mas dos quais apenas saberei fazer melhor uso se me deixar instruir, se me obrigar a ouvir.

 

A maioria de nós já se sentiu bem, se sentiu mais amada, mais segura, mais feliz por não ser como as outras. Mas esse é um bem-estar emprestado, ilusório, e que compensa desconstruir. Que a presença de outras mulheres no seu grupo de amigos não seja uma ameaça, mas uma adição. Que ser a única mulher no seu ambiente de trabalho ou de estudo não seja uma vitória, mas um sinal de que algo precisa mudar. Que busquemos nos cercar de mulheres sempre, e que isso nos faça entender melhor suas lutas, a respeitar melhor seus espaços e a ceder a elas, quando possível, os nossos.

 

Dedico esse post às mulheres que me cercam e que me engrandecem, em especial ao incrível e diverso grupo de deusas que compõe o Elas por Elas, e à Luana, que compartilhou há alguns dias esse poema de abrir os olhos.

Poema: Rupi Kaur

Outros jeitos de usar a boca de Rupi Kaur – (des)fazendo os nós na garganta

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

 

O livro, originalmente publicado com o título milk and honey da escritora e artista Indiana Rupi Kaur, traz a cada poema um soco e, por vezes, um abraço.

Imagem: divulgação

Éle propõe ao leitor quatro momentos: a dor, o amor, a ruptura e a cura. Em cada um deles encontramos histórias de família, de relacionamentos, histórias que doem em mulheres, histórias que falam daquele relacionamento abusivo disfarçado de amor, daquela ruptura que antes de mais nada é um acordar para um mundo onde conseguimos perceber o abuso psicológico que sofremos diariamente e que por mais libertador que seja, não deixa de ser sofrido. Então vamos lá, vejamos mais detalhadamente o que ela está dizendo e se tu realmente sente esses socos que eu falo.

Todas nós já sabemos que ninguém precisa ser estuprada para sentir o que é a dor de um estupro, além disso, o estupro é diário e, infelizmente, poucas são as mulheres que nunca sofreram nenhum tipo de abuso (ou seria – nenhuma?!). No segundo poema temos:

“o primeiro menino que me beijou

segurou meus ombros com força

como se fossem o guidão da

primeira bicicleta

em que ele subiu

eu tinha cinco anos” (Kaur, 2017, p.12)

Não chegamos ao final, mas aí já temos bastante discussão e questionamentos – afinal de contas em que momento meninos aprendem que ‘podem’ nos segurar dessa forma?, e que lugar é esse que vivemos, e que parece não ter fronteiras, onde o corpo de crianças é sexualizado?

Não é bonitinho ver o menininho agarrando a menininha, é deprimente. Isso é o início da iniciação machista, isso é o inicio da opressão de mulheres e também do silenciamento de muitas delas, que se sentem perdidas e amedrontadas com a normalidade social de um abuso.

“ele tinha cheiro

de fome nos lábios

algo que aprendeu com

o pai comendo a mãe às 4h da manhã” (Kaur, 2017, p.12)

Esse cheiro de fome, lembra esse lado animalesco masculino, já discutido por muitas feministas e nada admirável. Não precisamos ir muito longe pra ver homens achando bonito ser um animal, eles se comportam assim.

 “ele foi o primeiro menino

a ensinar que meu corpo foi

feito para dar aos que quisessem

que eu me sentisse qualquer coisa

menos que inteira

 

 e meu deus

eu de fato me senti tão vazia

quanto a mãe dele às 4h25” (Kaur, 2017, p.12)

Sentir-se vazia, parece que é algo que só pertence à mulher, porque não é só o poema que diz isso, todas nós em algum momento sentimos. Há muitos homens que dentro de famílias, com suas mães sofrendo, reproduzem o mesmo com mulheres na rua. Eu não estou dizendo que eles não sofram, mas estou dizendo que a ideia de empatia entre os dois sexos não parece ser uma via de mão dupla, e se a mãe precisa ter compaixão com o filho, esse mesmo não precisa ter com ela, muito menos compreendê-la antes mesmo de mãe, como mulher.

No amor, ela diz:

“toda revolução

começa e termina

com os lábios dele” (Kaur, 2017, p.48)

Achou bonito? Romântico? Olha, numa primeira leitura é, e eu realmente acho que muitas pessoas podem romantizar tal poema, mas tu já parou pra pensar no significado da palavra revolução? E uma revolução ser motivada por um ‘ele’ e acabar pelo mesmo ‘ele’ não parece ser algo de um universo masculino e dominado por um homem?

Eu não acredito que a revolução tenha que começar e terminar por um ‘ele’, um ‘ele’ que parece ser tão poderoso a ponto de mandar eu agir e parar. Homem não tem que mandar e amor não deveria ser motivado e decidido atráves de um – muito menos um ‘eu – homem’ que historicamente não tem provado muitos atos de amor genuíno pelas mulheres. E falando nesse amor a eu-lirico diz:

“ele só sussura eu te amo

quando desliza a mão

para abrir o botão

de sua calça

 

é aí que você tem

que entender a diferença

entre querer e precisar

você pode querer esse menino

mas você com toda certeza

não precisa dele” (Kaur, 2017, p.86)

Uma ruptura libertadora, afinal de contas, não é facil perceber e se descobrir sendo usada diariamente e abusada emocionalmente. Quantas mulheres já ouviram uma palavra de carinho e logo em seguida um toque malicioso? Muitos homens usam disso para ter o que querem, usam isso, principalmente, em um momento de fragilidade a mulher. Os homens definitivamente não são burros – são maldosos, e pra isso, muito espertos -, mas a ruptura deixa claro que não vamos aceitar esse tipo de comportamento, pois:

 “o amor fez com que o perigo

em você parecesse seguro” (Kaur, 2017, p. 104)

Mas agora não parece mais! E por fim, a cura:

“perder você

foi o que levou

a mim mesma” (Kaur, 2017, p.174)

Aqui ela mostra o quanto juntas podemos ser mais fortes:

“você olha pra mim e chora

tudo dói

 

eu te abraço e susurro

mas tudo pode curar” (Kaur, 2017, p. 181)

Imagem: divulgação

Além de trazer a perspectiva da cura desses ditos ‘amores’, ela também traz a cura atráves da libertação dos padrões sociais que fazem as pessoas achar que devemos ter sempre alguém e que

somos inimigas umas das outras.

Esse livro abre espaço para questionamentos, com poemas curtinhos Kaur nos leva a olhar não só com olhos, ela traz essa sororidade que tanto precisamos, ela traz a empatia que devemos exercer e mostra com toda lírica que esse espaço (dentro e fora da gente) não é determinado por homens e pelos padrões sociais machistas que ainda existem.

E a cura, essa cura que faz com que prestemos atenção em quem realmente importa, nós – e aqui o ‘nós’ é feminino, porque eu falo de nós mulheres.

Homem, você tem medo de quê?

Em uma sala de aula de inglês, dividi os oito alunos em dois grupos – quatro mulheres e quatro homens – e pedi para que eles conversassem entre eles sobre quais seriam as vantagens de ser do sexo oposto. Os homens conversaram sobre as vantagens de ser mulher, e as mulheres sobre as vantagens de ser homem. Até então, havia sido uma aula bem leve, engraçada, sobre os estereótipos de gênero presentes na sociedade e o quão distantes da realidade eles de fato são. A maioria das minhas alunas, por exemplo, não gostava de crianças e não pretendia ser mãe. Meus alunos todos gostavam de cozinhar e eram responsáveis por afazeres domésticos. Até aí, ok.

A discussão em grupos, no entanto, tomou uma proporção que talvez eu já devesse ter esperado. Ao listarem as vantagens de ser mulher, meus alunos – talvez inocentemente – apontaram que mulheres pagam menos para entrar nas festas, recebem bebidas e geralmente não precisam pagar a conta em um encontro. Da mesma forma, mulheres não são obrigadas a se alistarem, se aposentam mais cedo e etc.

Podemos discutir sobre a forma como meus alunos, enquanto homens, são alheios ao real significado dessas supostas vantagens: pagamos menos em festas pois somos a mercadoria da festa; recebemos bebidas pois os homens tendem a esperar receber algo em troca; não pagamos a conta pois o cavalheirismo assim o dita, e o que é o cavalheirismo se não uma forma de afirmação de superioridade, de dominação?; podemos dizer que o alistamento não é obrigatório a mulheres por que, majoritariamente, não nos querem lá, porque não somos consideradas fortes o suficiente, boas o suficiente; nos aposentamos mais cedo pois vivemos, ainda, uma dupla jornada que nos liquida no decorrer dos anos e, muitas vezes, impede o nosso progresso profissional. Mas não é sobre isso que precisamos conversar.

É sobre as vantagens de ser homem.

Minhas alunas, todas novas, adolescentes e jovens adultas, entre risadas desconfortáveis, sorrisos resignados e olhares para mim – como elas, uma mulher – listavam as vantagens de ser homem: as pessoas te respeitam sem você precisar fazer nada de mais; você pode andar na rua de noite sem ter medo de ser estuprada; se é um assalto, só levam as suas coisas, você não corre outros riscos; você pode beber em festas sem ser julgada por isso e sem se tornar vulnerável aos avanços de homens ao redor.

Se algum leitor homem chegar a esse texto, gostaria que me respondesse essa pergunta: Qual é o seu maior medo? Por que o nosso, claramente, é você.

Me chocou naquele momento, como sempre me choca quando escuto relatos de mulheres sobre as batalhas de se ser mulher, a quantidade extrema de medo com a qual convivemos diariamente. Temos medo de sair de casa, temos medo, em alguns casos, de voltar para casa. Temos medo no nosso ambiente de trabalho, de estudo, de lazer. Carregamos esse medo conosco todo o dia, e ele pesa, e ele nos limita. Me pergunto agora, assim como me perguntei naquela hora, olhando para os meus alunos calmos e leves, e para as minhas alunas que traziam um misto de tensão, tristeza e revolta, se os homens fazem ideia do medo que sentimos, do que é viver com pavor.

Me lembrei, compartilhei com eles, e venho aqui compartilhar com vocês, uma frase da maravilhosa Margaret Atwood que resume bem a discrepância entre os pesos que sujeitos masculinos e femininos carregam na nossa sociedade, na esperança de gerar uma reflexão da importância do feminismo como um movimento filosófico e político, e do longo caminho que ainda temos a percorrer para que uma total igualdade seja alcançada:

“Homens têm medo que mulheres riam deles. Mulheres têm medo que homens as matem.”

Stella Gibson,  The Fall – BBC

A Teta Racional e a Maternidade Desmistificada

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

O primeiro livro que recebi do Clube do Garimpo foi o “A Teta Racional” de Giovana Madalosso. Li em dois dias – um livro curtinho, mas cheio de conteúdo e vozes de mulheres. Um livro com dez contos e a primeira publicação da autora.

Imagem: Divulgação

As vozes vêm de vários lugares e vários momentos – mas eu, hoje, vou falar do que mais me tocou como leitora: a maternidade. Giovana conseguiu em diferentes contos mostrar a maternidade como algo sofrido, algo cansativo, e em alguns momentos, ruim. Não, não tem mãe abandonando filho, não tem mãe batendo no filho, não tem o estereótipo da ‘louca’, ‘dissimulada’ – não estamos condenando as mulheres que se sentem exaustas na maternidade, e por isso mesmo esse discurso não cabe aqui.

Imagina como é difícil para as mulheres serem mães: tu tens que estar sempre linda, feliz, amando o mundo com um ar sereno. Se teu filho chora, teu instinto tem que ser de correr para acalmá-lo. Se teu filho se suja, teu instinto deve ser limpá-lo (sem nojo, claro). PARA! Quantas mães não puderam dizer o que de fato sentem por medo de serem reprimidas pela sociedade? Quantas mulheres criam os seus filhos completamente sozinhas porque afinal de contas “quem mandou fazer?!”? Esse tipo de ideia e de julgamento já está mais que na hora de ser rejeitado. Esse tipo de julgamento, tem base em uma ideia de mulher que está determinada a ser mãe, que nasce para exercer uma função e que não tem opção de fugir para ser outra coisa. É como se ‘mulher e mãe’ fossem a mesma coisa. Beauvoir já falou sobre isso, vale a pena ler.

Nesse livro, há mulheres que sofrem e que mostram um lado da maternidade até hoje escondido para a sociedade e para mídia. Mostra a mãe indo ao banheiro com o filho no colo, sendo amamentado, e por mais nojento que isso pode parecer, não é! Isso mostra sim, o amor dela, a intenção de não deixar o filho sozinho ou chorando de fome. A narradora do conto “XX + XY” nos lembra que o corpo da mulher ainda é preparado para ser mãe precocemente e que carregar um bebê na barriga e no colo machuca o corpo – dói assim como amamentar. Uma mãe não dorme mais que duas horas continuas e isso irrita, isso causa desconfortos, isso dá vontade de chorar. Porque a mulher, antes de ser mãe, é humano.

Imagem: Divulgação.

Outra narrativa nos leva a relação entre mãe e filha, a preocupação e a possessão de algumas relações. Penso que isso se explica muito pela pressão que se tem na sociedade em fazer com que as mulheres cuidem (e muito bem) dos seus filhos. Essa possessão é quase uma imposição social, porque se algo der errado, ela é quem será a culpada. No conto “Suíte das Sobras” temos o questionamento: “Por que será que até amar tem que ser tão difícil?”. E não é?! E esse amor de mãe, mais difícil ainda. Nesse conto conhecemos mãe e filha fazendo uma viagem, e o que parece ser somente um passeio com alguns flashbacks, mostra muito mais. Mostra uma relação quebrada e sofrida – uma relação quase de fuga entre mãe e filha, que se restabelece quando alguns padrões são deixados de lado, quando os papeis sociais de mãe se suavizam.

O conto que dá título ao livro mostra uma mulher que se divide entre o trabalho e a maternidade. Algo bem comum hoje em dia, mas ainda assim, ignorado. “… trancada no banheiro da agência ordenhando” essa mulher separa o leite para o filho. Mas ordenhar é uma palavra forte! Parece referência aos animais! E não é assim?! E por que não pode falar assim? Ofende quem? A mãe idealizada da novela?! O pai?! Uma mulher, por muitas vezes, vive uma maternidade solitária, vira escrava desse momento. E no final das contas, o discurso não é que ela tem o que escolheu? Veja bem, não tem aqui nenhum tipo de compaixão! O discurso que recebemos todos os dias é assim, e dói, mas não só para mãe. Dói em todas as mulheres!

Giovana conseguiu desmistificar essa maternidade – e sim, deixou claro para mim o que de fato é a beleza disso tudo. Porque ninguém deve disputar mais disposição, a questão aqui é mostrar que a beleza disso tudo é a força das mulheres que ainda sozinhas na sociedade se mantém firmes. Giovana mostra que não é errado a forma como falamos sobre a maternidade e sim, a maneira como compreendem a maternidade, quase como um produto vendido pelas telenovelas com intuito de reforçar a feminilidade.

Eu, que nunca quis ser mãe, agora quero. Porque pela primeira vez, eu li algo que vez eu me identificar. Eu li o que minha mãe e as mulheres da minha vida nunca disseram, por medo de serem mais punidas do que já foram. Eu li o que eu sempre pensei e pela primeira vez eu senti que está tudo bem.

Deixo vocês com um book trailer do livro. Deixo também uma leitura!

Mariana

– Cês ouviram da Mariana?

– Que Mariana?

– A Mariana Castro, do terceiro semestre.

– Não, que foi?

Imagem: Gregory Crewdson

Contou as pílulas. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Será que isso dava? Tinha que dar, ela pensou.

– Tá no hospital. Tentou se matar, parece.

– Mentira! A Mariana?

– Pois é.

– Pai? – Começou com cautela, torcendo as mãos.

– Hm.

– Dá pra falar agora?

– Tô saindo já. Que foi, Mariana?

– Eu acho que eu tô com um problema.

– Tem que ser agora, filha?

Ficou em silêncio.

– Anda, Mariana.

– Nada não, pai. Pode ir.

 – Caramba…

– Pois é. Quem vê não diz, né?

Não tinha gaze em casa. Nunca tinha nada em casa, capaz que ia ter gaze. Teve que colocar papel higiênico entre a pele das coxas e o jeans da calça pra não roçar nos cortes. 

– Não, nem a pau.

– Bom, teve aquela vez… Lembra? Na aula de semiótica?

Sentiu um nó na garganta, um aperto. Quando a cena começou ela desviou o olhar da tela, mas ainda dava pra ouvir os gemidos. “Não, não”, Grace implorava, mas óbvio que ninguém fazia nada. Voltou a olhar pra frente quando achou que a cena tinha terminado, mas ela seguia, em silêncio. Chuck em cima dela. A ausência de cenário era uma estratégia simbólica, a professora havia dito. Era como se todos soubessem. E todos sabiam. E ninguém fazia nada. Que merda. Saiu da sala correndo, deu sorte de chegar a tempo no banheiro feminino, abrir a tampa do vaso e vomitar.

– É, aquilo foi estranho. E depois ela não voltou mais, né?

– Não, pra essa cadeira não.

– Teu pai e eu te damos tudo, Mariana! Teu pai tá com dois empregos pra pagar essa tua faculdade, que nem dinheiro vai dar, e tu me roda numa cadeira pra gente ter que pagar de novo?

– Desculpa, mãe. Não vou mais rodar, juro.

– Desculpa não adianta. Desculpa não vai pagar a mensalidade.

– Desculpa…

– Cês acham que tem alguma coisa a ver?

– Claro que não. Quem é que se mata por causa de filme?

– Sei lá, vai saber. Nem conheço a guria direito.

Faltou ao estágio naquela manhã. Eles ligaram, mas ela não atendeu. A faculdade era longe, a porta era longe, o telefone era longe.

– Anda, Mariana! – a mãe bateu na porta.

– Eu tô doente, não vou hoje.

– Doente do quê, menina? Tá doente nada. Ontem fui trabalhar com 39 graus de febre e tu fica aí nessa cama?

– Roberto pegou ela, cês sabiam?

– Roberto? Sério?

– Sim. Comeu e tudo.

Se encolheu na cama quando Roberto saiu. Viu o vulto dele se afastar pra jogar a camisinha fora, ouviu o som do chuveiro logo em seguida. Parecia chuva. Dormiu.

– Como tu sabe?

– Ué, todo mundo sabe.

– Vem pra minha casa, tá tarde.

– Não, eu tô bem, eu chamo um táxi.

– Vem, Mari, te levo no outro dia.

– Não precisa, Roberto.

– Tu não pode chegar em casa assim. E a gente pode ficar mais um tempo juntos.

– Que tenso.

– Diz ele que ela até era legal, mas aí ele voltou com a Bruna…

– Tu engordou, Mariana?

– Sei lá, tia, acho que sim.

– Tem que ver isso. Mulher gorda nenhum homem quer.

– Credo, tia!

– E tu também não te cuida. Não pinta as unhas, não arruma o cabelo. E ainda vai assim na festa?

– Na boa, se quisesse se matar mesmo, tinha conseguido.

– Credo, Diego!

Será que isso dava? Tinha que dar, ela pensou. Tinha que dar por que não aguentava mais. Não via saída, tinha medo de tudo, de todos, de si, do mundo. O túnel era tão longo que nem luz se via. Não tinha como seguir assim. Mariana só queria apagar. Se acabasse com tudo, tudo ia ficar bem.

– Mas é, ué! Deve tá querendo chamar atenção.

Leia Mulheres e os Clubes de Leituras

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

Esse ano, iniciei um projeto pessoal, mas antes, explico: sou estudante de Letras e durante quatro anos de graduação, e alguns anos de vida, dedico parte do meu tempo e dos meus estudos à leitura de obras literárias. Até aí, ok. Não! Conheci obras muito boas, mas não conheci mulheres escrevendo. Li livros sobre mulheres, escrito por homens. Isso me chocou, me desassossegou.

Para isso, 2017 iniciou de um jeito diferente: Esse ano só leio mulheres. Quero poder falar sobre isso, mostrar isso para os outros e ajudar a mostrar as mulheres que escrevem e que ainda são marginalizadas justamente por serem mulheres. Logo em seguida, surgiu um problema: que mulheres escritoras eu conheço? Confesso, eram poucas. Eu não sabia por onde começar e foi aí que pesquisando conheci o Clube do Garimpo, que tem um dos clubes intitulado Leia Mulheres. <3

A ideia é simples, basta assinar o clube e mensalmente recebemos um livro escolhido pelas curadoras. Mas, espera um pouquinho, eu já falo dele. Antes disso, vamos falar do Leia Mulheres.

O #leiamulheres começou faz um tempinho já, mais exatamente em 2014 com a escritora  Joanna Walsh que lançou a hashtag #readwomen2014. O objetivo, como já se pode imaginar, era ler mais essa mulherada que produz um montão, mas que é esquecida.

Mas ué, tem um monte de livro da Clarisse Lispector! E… Sim, eu sei que há muitas pessoas que conhecem muito mais, mas tem mais outro montão de gente que não. No curso de Letras, por exemplo, tive contato com pouquíssimas mulheres. Conto nos dedos – Clarisse, Cecília Meirelles, Atwood, Angélica Freitas, não fechou uma mão! Acontece que se dentro do ambiente acadêmico isso ainda é deixado de lado, imagina na vida!

Enquanto nós temos que demonstrar interesse e correr atrás dessas produções, os homens ocupam as prateleiras das livrarias e a lista de obras de leitura obrigatória nas escolas. Ah! Mas aí é só procurar e ler! Gente, não é assim tão simples! E é nosso dever mostrar essa literatura e dividir o que aprendemos.

É nosso dever questionar porque as mulheres são tão apagadas – isso está para além das questões de produção literária, isso é um reflexo social e triste.

As meninas do #leiamulheres estão ganhando esse Brasil com clubes de leitura em várias cidades do país. Iniciativa muito importante! Se tu entrares no site, encontrarás resenhas, os clubes que existem, entre outras coisas. Entra lá, agorinha! Não deixa pra depois!

Aí, chegou o Garimpo Clube do Livro nesse esquema, não sei como exatamente, mas as meninas estão lá, escolhendo livros e enviando para leitores interessados. O Garimpo tem outros clubes também, de poesia, ficção, literatura infantil e humor e amor. Cada um atende um grupo específico de leitores. Todos indicados por uma galera que entende do que está fazendo.

E o que eu estou fazendo aqui? Eu vou falar sobre os livros que eu recebo mensalmente – assim, bem tranquilo, tentando deixar vocês com vontade de ler o que eu li. Pode ser?

Para saber mais sobre as meninas e a proposta vale a pena entrar nesses links: http://www.garimpoclube.com.br/ e https://leiamulheres.com.br/

Sexo é biológico e gênero é social?

Quando ultrapassamos aquela barreira do senso-comum de que “homem é homem” e “mulher é mulher”, essa é a primeira dicotomia que encontramos: sexo x gênero. Através dessas duas ideias opostas mas complementares, fica fácil iniciar a nossa compreensão do que é de fato ser homem ou mulher em sociedade. O sexo é o biológico, a nossa genitália, o nosso fenótipo, o qual desenvolvemos no útero e sobre o qual não temos poder nenhum de decisão. Somos ou XX ou XY. Ok. Aí nascemos, e somos socializados de uma ou outra forma de acordo com a genitália que possuímos. Rosa para meninas, azul para meninos. Bonecas para meninas, carrinhos para meninos. Essa dicotomia faz tanto sentido que de fato algumas correntes do feminismo não vêem necessário ir além da oposição desses termos para a construção de sua teoria e de suas lutas – e não tem nada de errado nisso.

Símbolo Intersex, Fonte: Wikipedia

No entanto, o filósofo da linguagem J.L. Austin costumava dizer que podemos perceber a existência das convenções justamente quando elas são quebradas. Assim, é interessante pensar o que acontece quando alguém desestabiliza a dicotomia sexo x gênero. Esse é o caso dos indivíduos intersexuais, por exemplo.

Começando por uma pesquisa superficial na wikipédia sobre intersexualidade, já podemos levantar algumas questões. A definição que encontramos é a seguinte: “Intersexualidade, em seres humanos, é qualquer variação de caracteres sexuais incluindo cromossomos, gônadas e/ou órgãos genitais que dificultam a identificação de um indivíduo como totalmente feminino ou masculino”. Um indivíduo intersex é, segundo essa definição, qualquer indivíduo cuja biologia não o permite encaixá-lo em um dos dois sexos existentes. Sendo a intersexualidade advinda da biologia de um indivíduo, podemos nos perguntar o porquê de ela não existir enquanto possibilidade de gênero. E se ela não existe como possibilidade, como é possível encaixar esse indivíduo na sociedade?

Existem duas formas: “Modelo centrado no sigilo e cirurgia: Fazer a cirurgia e medicar nos primeiros 24 meses de vida; Modelo centrado no paciente: Esperar o paciente crescer, explicar a complexidade das questões envolvidas e permitir que ele escolha qual gênero prefere, o momento que deseja a cirurgia e quais cirurgias prefere fazer.”

Essas duas formas de inserção do indivíduo na sociedade são, na verdade, tratamentos, como que para curá-lo de uma doença e, assim, torná-lo bem-ajustado. No primeiro modelo, o indivíduo intersex tem um dos sexos imposto a ele, e o sigilo garante (ou tenta garantir) que ele jamais descubra o procedimento pelo qual passou. O segundo modelo se baseia na vontade e escolha do paciente. Um dos motivos para se preferir o segundo é “evitar a insatisfação do paciente ao qual foi imposto um sexo, mas desenvolve preferência pelo outro”. Em ambos os casos, não se considera o não-tratamento como uma opção, e a designação de um gênero ou de outro é dada arbitrariamente pelo médico, determinada pelo menor nível de complexidade da cirurgia – “É mais fácil fazer genitais femininos e por isso ela tem sido preferida pelo modelo médico tradicional” – ou se permite ao paciente escolher um ou outro.

Como pode o sexo biológico, a base de nossa socialização, de nossa existência enquanto indivíduos em sociedade, ser tão arbitrário e necessariamente binário? Ainda mais: como pode a intersexualidade, sendo uma ocorrência biológica, ser tão incompreensível a ponto de tentarmos eliminá-la para que colocar o indivíduo de volta em um local de compreensão social, um local ou feminino, ou masculino?

A filósofa Judith Butler coloca que “o ‘sexo’ é (…) não simplesmente aquilo que alguém tem ou uma descrição estática daquilo que alguém é: ele é uma das normas pelas quais o ‘alguém’ simplesmente se torna viável, é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade cultural”. Em outras palavras, ser homem ou mulher é o que nos torna compreensíveis dentro do sistema binário em que vivemos. Qualquer coisa fora disso e deixamos de existir, de ser visíveis, compreensíveis.

Assim, a intersexualidade é considerada vazia de significado, é um sexo vazio de “gênero”, por assim dizer. E se um sexo é vazio de gênero, como podemos dizer que sexo e gênero são, de fato, dois lados de uma mesma moeda?

Dessa desestabilização de conceitos, Butler propõe: “A categoria do “sexo” é, desde o início, normativa: ela é aquilo que Foucault chamou de ‘ideal regulatório’. Nesse sentido, pois, o ‘sexo’ não apenas funciona como uma norma, mas é parte de uma prática regulatória que produz os corpos que governa, isto é, toda força regulatória manifesta-se como uma espécie de poder produtivo, o poder de produzir — demarcar, fazer, circular, diferenciar — os corpos que ela controla.”

Partindo desse pressuposto, podemos dizer que não só o gênero é um construto social, mas o sexo também. Assim como o gênero, o sexo é um arbitrário com impressão de naturalidade. A categoria sexo não é apenas descritiva de uma biologia pré-existente, mas também produz a biologia possível: a biologia que seja ou feminina ou masculina, excluindo outras biologias e outros corpos, e roubando-os de sua possibilidade de existência.

Butler reconhece que a distinção entre sexo e gênero foi crucial ao feminismo beauvoiriano, mas essa distinção esconde que “a natureza tem uma história”. Segundo ela, “a construção social do natural pressupõe o cancelamento do natural pelo social”. A questão da interssexualidade serve como exemplo desse cancelamento: para construir-se a natureza do sexo, apaga-se a natureza do intersexo.

A pergunta que fica é: se o gênero é o significado social que o sexo assume em uma determinada cultura, o que resta do biológico (sexo) uma vez que ele tenha assumido seu caráter social (gênero)? Mais importante ainda: de que forma essa perspectiva transforma o nosso entendimento e prática do feminismo?

Leituras:
BUTLER, Judith. Corpos que pensam: sobre os limites discursivos do sexo. In: LOURO, G. L. (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.