É tão agressivo assim limpar sujeira? E a sensibilidade do resíduo, como fica?

Helena sabe o que quer, mas não vê como pesar esse custo. Ela vai atrás, mas quem a segue e distancia ainda mais? Se vê cercada de pontos finais, algumas reticências e se aborrece com a quebra da continuidade. Helena quer. O quê? Viver(se). Ser. Clarear a vista nublada da miopia emocional dessa avenida de cruzamentos, semáforos e ladeiras. Mas então há subidas e descidas? E o topo, quanto dura? O verde apagou… Tudo agora é vermelho. O sangue pula das gengivas de Helena quando escova os dentes. É tão agressivo assim limpar sujeira? E a sensibilidade do resíduo, como fica? Tem tártaro nesse molho. Bom… é forte mas doce. Como Helena. Um toque azedo também, aquele azedinho na medida que faz falta no meio de tanto açúcar refinado. Amarelo seria o equilíbrio? Helena não clareia a mente para todos nem para si, sequer consegue clarear seus dentes. Não há retorno para o que foi nem desejo para voltar-se. Ela só segue a avenida a pé, sentindo a leveza do seu corpo limpar tanto vermelho. Helena não busca o branco. Espera por uma nova paleta de cor.

Eu sou meu próprio mar

Não preciso de um marinheiro para me navegar. Quero que ele fique se for para acompanhar meu movimento.  O controle não faz parte da minha travessia, mesmo o mar entende que as ondas do meu cabelo formam seu próprio caminho. Elas se tornam. O marinheiro tentou tomar posse dessas ondas. Ele quis prendê-las num coque, deixá-las menos selvagens e mais retas. Desde quando onda forma linha?  Marinheiro que é marinheiro respeita e compreende o mar, se deixa levar.  Entende essa mansidão que logo se transforma em tempestade, que vem chegando sereno, logo expande e te abraça para o fundo. Como estar com um homem que não aprecia as ondas? Não há fórmula para domar o oceano. Ele é seu próprio domínio, sua casa, sua morada, ele também só deixa entrar quem se entrega e mergulha profundo, não importa o tamanho. Só se apaixona pelo mar quem ama sua intensidade e imprecisão. Sei da minha impulsividade e fraqueza. Sei também da minha força, minha feminilidade. Só quero que o marinheiro entenda: sou eu quem escolho minha forma. São as minhas ondas que me levam.

Elas por Elas chegou!

É bom estar de volta. Estamos com cara e espírito renovados. Durante o período de hiato, aproveitamos para resolver questões pessoais e dar um fôlego antes de retornarmos à rotina. E também trabalhamos em mudanças e aprimoramentos para tornar o projeto algo não apenas mais agradável para a gente, mas principalmente mais bacana para vocês.

Entre as novidades, estamos de roupa nova! O template que usamos agora é mais completo (o antigo, por exemplo, não tinha nem barra de busca!) e com elementos que conversam melhor com nossa proposta. A navegação é mais fácil e dinâmica, e a aparência tem mais elementos do que queríamos para o nosso cantinho.

Também estamos nos organizando para trazer um conteúdo cada vez melhor e mais diversificado pro nosso público. Por isso, vamos mergulhar de cabeça em novos e maiores projetos e formatos. Vamos nos aventurar cada vez mais em vídeo e postagens mais elaboradas, posts colaborativos, reportagens, mas sem deixar nossas raízes de lado: a literatura. Inclusive, em breve devemos ter mais uma novidade com relação a isso, mas por enquanto fica o suspense!

Além disso tudo, esperamos poder ir além desse espaço de uma URL. Vamos produzir mais conteúdo para as redes sociais, tentando não apenas aumentar o nosso alcance em números, mas principalmente em engajamento na nossa causa. Que mais e mais mulheres possam ser lidas, ouvidas e respeitadas. E, quem sabe, não possamos logo derrubar mais uma barreira, e tirar o Elas por Elas do mundo virtual?

Agrademos a paciência de todos vocês e podemos dizer de peito aperto, em alto e bom som: o Elas por Elas está de volta.

Precisamos falar sobre Kelvin

Precisamos falar sobre Kelvin

A gente tem uma temperatura de pele incontrolada. Não podemos habitar o mesmo espaço, sem evitar abraços e afagos. Você me pergunta se isso é saudável para nós. Eu também não sei. Quero o que tivemos, quero a leveza e a sinceridade da paixão descomprometida. Era bom. Foi. Você me olha com olhar de apaixonado, mas eu sei que sou apaixonante e você também se apaixona fácil. Percebo o mesmo sobre você. “O melhor”, elas disseram. Não discordo. É difícil escrever sobre algo inacabado, diante desse meio com linhas desfiadas. Você não consegue me dizer o que quer. Não quero controlar o roteiro, só vivê-lo. Mas falta gás, falta cor. Volume. Quero ondas. Brisa do mar com aroma de melancia. Sim, melancia. Eu estou seca do seu silêncio, preciso dessa fruta fluída para hidratar o corpo. Quero água corrente misturada com chama flamejante, quero juntar as temperaturas de pele e chegar a uma escala bonita para nós dois, que dá para ir e voltar com fogo ardente. Não seja ausente. Detesto esse seu jeito incapaz de lidar com sentimentos. Você que tanto escreve e sente, por que se cala? Eu preciso achar novas temperaturas como a sua, mas sem tantas oscilações que só me ferem. Nosso Kelvin deveria permanecer em zero absoluto.

Moça,

 

 

 

Escrevo uma carta para tu. Eu sei que ainda doi, mas resista. A dor tá indo, a vontade de um Oi também. Aguenta! Logo, mais amor surge.

 

 

******

nem sua, nem meu
ainda não somos:
seus
meus
nossos.
ainda não somos eus.

 

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Mas não adianta insistir moça, a flor se abre quando ela quer, quando sente. Pétala quando cai é renovação, um novo começo pra essa flor, seja acompanhada ou só(lidão). Quando fechada, a flor não quer mais seu toque, a flor não quer mais seu amor.
******
Eu disse para ele, moça, pelo menos pretendo em meus pensamentos:

 

– Eu preciso achar novas temperaturas como a sua, mas sem tantas oscilações. Nosso Kelvin deveria permanecer em zero absoluto.
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Ai, moça, o concreto virou porta. E a porta, poesia. Eu que antes via de olhos fechados, passei a enxergar. Sorri.

We have a ocean

Coração do mar é terra que ninguém conhece – Oswald de Andrade

 

Foto: Ana Luiza Calmon

 

 

– Your hair has waves, just like the ocean.

Foto: Ana Luiza Calmon

 

Sabe, não imaginava que um loiro com olhos cor azul cinza fosse me encantar. Seu olhar reflete a água da Irlanda. Flui. Corre. Percorre. Transpassa pelo seu sorriso, seu sotaque, seu curto, porém musculoso corpo. Nunca havia te visto, mas sinto que já nos cruzamos. Temos aquela sintonia de pronunciar frases idênticas ao mesmo tempo, na mesma respiração. Depois rimos de nós mesmos. Coincidência.

Sua pele é quente. See, you are so warm que toda a minha quentura se reduz a temperatura ambiente quando estou com você. Te toco e não sinto frio. Você me faz rir, parece acreditar em mim. Te pareço idealista, boba e gentil. Sim, eu sou isso tudo. Mas você desperta isso em mim. Me sinto engraçada e feliz conversando com você. Mas foram apenas dois dias. Dois dias. Me sinto confortável, leve, eu mesma. Você tenta me conhecer, me descobrir, me sentir. Você acredita em mim. E eu, acredito?

Talvez.

Talvez, eu precise que você, vindo de outro lado do oceano, me diga que é possível sonhar o meu sonho, realizar o que idealizo. Você me disse para não pensar demais, e eu tenho tentado, acredite. Mas é que nasci sambando com a filosofia mais do que com o próprio som que veio lá do morro. Sim, sambo também. E queria dançar para você como havíamos imaginado. Você me ensinando salsa e eu forró. Como seria nosso gingado, como seria nossa dança?

Não sei por que escrevo isso tudo sobre você, sobre nós. É tão pouco tempo, mas parece tão certo, tão diferente, tão novo. Muitos adjetivos, eu sei. Eu apenas sinto, meu bem. Sinto que é, que está sendo. Você parte daqui a dois dias para o outro continente, pegará outras ondas. “I want to keep contact”, você diz. Sinto que também quero. Mas ai eu penso. É perigoso.

Todo esse tempo eu nunca havia sentido tanta ansiedade e medo ao mesmo tempo ao encontrar um estranho como você. Parecia uma menina toda nervosa porque vai encontrar seu namorado. E parecia uma mulher desconfiada, receosa desse encontro às cegas que não são a primeira vez que lhe ocorrem. Você é o primeiro com quem tenho imensa vontade de arriscar meu inglês, sem vergonha. Talvez seja a autoconfiança finalmente em atividade, talvez seja a coragem, talvez seja você. Está acontecendo.

E nós nos entendemos como eu não entendo sequer um português bem brasileiro. Nós nos entendemos. Você me vê e eu te vejo, e assim trocamos piadas e inventamos histórias futurísticas sobre nosso casamento que sequer existirá porque não queremos uma casa com filhos. Mas até no estilo da casa nós concordamos, sem combinar. A gente pensa tão igual, não é?

Eu tenho medo do que poderá ser, continua novo demais para mim. O que apenas tenho certeza é que você está me entendendo do jeito que eu me entendo. Você percebeu essas ondas em mim que tantos não viram. E você tem toda razão. Meu cabelo tem ondas como o oceano. Assim como eu, por completo. Eu começo pequena, cresço e me transformo, percorrendo aonde eu desejar que seja a minha praia. E ai eu recomeço. Tem dias que sou onda rasa, mansa, outros que sou onda brava, forte e avassaladora. Mas sou toda eu, unicamente meu próprio mar. Se você saberá navegar ou não, ainda não sei. Assustadoramente, sei que quero descobrir.

– Don´t think too much, Ana.
Ok, você tem razão. Estou sendo boba demais.

Dança morena

Foto: Ana Luiza Calmon

 

a morena sempre te esperou

sentada, feliz, sorridente

alongou os cabelos para te fazer feliz

todo o tempo do mundo valia a pena quando ela estava com você.

 

a morena sempre achou que você chegasse já

porque era tudo amor

e a saudade apertava.

 

mas a morena viu que você nunca chegaria

aquele amor virou mágoa

e a saudade apenas memória.

 

hoje a morena tem cachos

lindas ondas que moldam seu rosto

ela continua sorridente e alegre.

 

mas agora ela dança como nunca

movimenta seu corpo como dona de si própria

seus olhos abriram para o mundo.

 

Foto: Ana Luiza Calmon

Acredite na (sua) beleza

E isso não é apenas um slogan da Boticário

 

Foto: Rock This Town

 

Lembro muito bem desse comercial e do quanto me marcou. Um mundo cinza, onde todas as mulheres são visualmente iguais enquanto uma moça procura pelo batom vermelho que dá cor e identidade a si própria. Apenas com imagens, a Boticário responde que não, não seria bom um mundo sem a vaidade.

Para além dessa mensagem, o que realmente captei nesse comercial de uma grande empresa de cosméticos foi a valorização da personalidade. Muito além da vaidade, do culto à beleza, ali vi o respeito e incentivo ao estilo individual, ao “ser você mesma” que tanto ouvimos e defendemos, mas dificilmente praticamos. É um trabalho árduo se aceitar e se assumir, em um mundo com tantas tendências, referências, padrões.

Independentemente do grupo social que se encontra ou deseja fazer parte – aqui exemplifico com gêneros musicais: sertanejo, hippie, rock, samba, forró –, você precisa estar a par do look e referências visuais. Cabelo alisado, peças de cor específica, olhos claro, muita/pouca maquiagem, acessórios alegres, despojados ou artesanais. Cada um tem sua etiqueta, seu ingresso de entrada e aceitação.

Não venho aqui criticar a moda ou as etiquetas sociais. Possuo pouco embasamento para tanto. Só venho aqui para reafirmar o título. Acredite na sua beleza. Por vivência pessoal, nunca me senti parte de um grupo específico de amigos, me considerando sempre o patinho feio. Ou minha roupa não combina, ou a forma de expressão não se encaixa, ou mesmo sou expansiva demais no meio de tantos introvertidos.
A gente nunca se acha bonita o suficiente do jeito que é. Sempre tem algo que você quer melhorar ou forçar para si mesma. Mas por que insistir em um biquíni da moda se ele não valoriza o formato do seu corpo? Por que usar lente de contato colorida se aquela não é a cor dos seus olhos? Por que usar shorts curtos e apertados apenas porque tem lindas pernas e precisa mostrá-las em nossa cultura?

Há uma linha tênue entre achar algo bonito porque lhe agrada e achar algo bonito porque é tendência, é novidade. Você não precisa ser clássica, hipster, despojada, fashion para ser percebida. Você precisa ser apenas você. É o seu nariz ou cabelo, seja como forem, que te tornam quem você é – porque você é única. Quando a beleza vem nós, ela se expressa de uma maneira muito mais poderosa e plena. Porque é uma energia interior, única e exclusivamente nossa.

Percebo isso apenas por agora, depois de anos tentando me sentir igual: nossa beleza é bela porque somos quem somos. É a beleza verdadeira. É aquela beleza que representa o batom vermelho do comercial. Quando o utilizamos em um mundo estético tão fordista, nos tornamos únicas. Acredite na sua beleza e seja o seu batom vermelho. Dê cor ao jeito que você é.

Dor de dente

Foto: Acervo pessoal

 

o canal que lateja nos fundos de minha boca pede socorro.
ele bate, late – só não mia!

todo santo dia,
me lembra que tem um buraco em minha boca.
que antes era cárie
agora é fundo do poço

todo santo dia,
o canal late
bate
pulsa
lembra que não tem tempo pra deixar pra depois

todo santo dia,
o canal me lembra que nem água morna
com sal e vinagre
vai tirar de mim sua dor

todo dia tem dor.

o canal cava cada vez mais pro poço negro
todo dia a dor do dente me lembra que o dia ainda vai chegar.

 

Essa beleza de corpo

Projetos fotográficos exaltam a diversidade do corpo feminino

 

Ocupa Corpos – Foto: Thais Carletti

 

 

– Você ama o seu corpo do jeito que ele é?

 

Começar a matéria com uma pergunta dessas não tem como intenção te afastar das linhas a seguir. Na verdade, é um questionamento, que essa autora sempre procurou fazer e percebeu que todas as respostas, suas e de algumas amigas, são negativas. As imperfeições estão lá e sempre são apontadas. Estria, celulite, espinha, assimetria, gorduras localizadas, coxas finas ou grossas demais, pouca cintura, braço largo, pouca bunda, muito seio – nada belo o bastante para se admirar.

Mas se são as imperfeições que nos definem, deveríamos nos enxergar naturalmente belas. Afinal, não há perfeição. “O que a mídia impõe para a gente são corpos esculturais de revistas. O padrão é absurdo, impossível de alcançar, até por que essas imagens vinculadas não são corpos reais de mulheres, mas sim vítimas de um tratamento de imagem irreal”, afirma a fotógrafa Thais Carletti.

Foi através desse questionamento, sobre objetificação da mulher e os casos de revenge porn, que Thais criou, em 2015, o projeto fotográfico Ocupa Corpos. Com a proposta de valorizar e refletir sobre a libertação sexual e corporal, a fotógrafa produz ensaios nus de mulheres das mais diversas imperfeições. Não há correção ou camuflagem. É o corpo ocupando seu espaço, a mulher presente como ela é.

Outro que surgiu no mesmo ano com a proposta de libertação do corpo feminino, também em Vitória (ES), é o Corpos Libres, da curitibana Juliana Guariza. Na época em que fixou residência na capital capixaba, Juliana criou o projeto inspirada em suas amigas locais – uma delas, inclusive, a própria Thais Carletti –, voltado para esse outro olhar mais generoso com o próprio corpo. “Minhas amigas realmente transformaram minha ideia do que é ser mulher em sociedade. Além delas genuinamente se apoiarem entre si, elas não pediam desculpas por serem o que elas são. Elas não se encaixam em padrões e lutam pelo direito de ser o que elas quiserem ser. Para mim essa autenticidade é inspiradora”, reflete.

 

 

Libertar-se
A naturalidade e o conforto da modelo são prioridade para ambas fotógrafas. Juliana busca ambientes acolhedores e externos, onde a luz natural seja trabalhada – “acho que combina com essa natureza selvagem da mulher”. A espontaneidade e a identificação com o espaço também importam no momento do ensaio, “para se sentir confortável com as fotos e mais importante consigo mesmas. É uma espécie de conversa com o próprio corpo, e o que eu faço é registrar essa conversa”, explica Thais Carletti.

 

 

 

Nos ensaios, vemos mulheres de todas as formas, tamanhos e perfis. Não há padrão e nem restrição, apenas o libertar-se. De tantas belezas femininas que suas lentes registraram, as fotógrafas não carregam apenas a experiência profissional, mas também subjetiva, de mulher para mulher, Afinal, conforme colocado nas primeiras linhas dessa matéria, amar nosso corpo do jeito que ele é não é uma realidade majoritária. Mas o que é a beleza feminina?

“Autenticidade. Estar confortável na própria pele. E todas as pequenas peculiaridades do corpo de cada uma que as fazem únicas. Eu percebo que essas mulheres que fotografei têm tem muita vontade de abraçar e amar suas imperfeições. São elas que as fazem únicas. Falo também por mim mesma, eu precisei me libertar de muitas questões que eu tinha com meu corpo para ter mais sensibilidade para fazer esses retratos“, conta Juliana Guariza.

“Todas as vezes que eu fotografo eu aprendo principalmente a me relacionar melhor com meu próprio corpo. A gente precisa se amar muito e sempre, e com todas essas mulheres eu repenso que tipo de relação eu tenho comigo mesma. E o objetivo do projeto é criar essa discussão: é preciso falar de nudez, é preciso falar de feminismo, é preciso naturalizar e amar os corpos”, Thais Carletti. Amar os corpos. Amar nosso corpo. Amar-se. Uma atividade tão complexa que requer exercícios diários. Uma vez que que você se liberta, no entanto, você enxerga. É uma beleza de corpo. E é só seu.

Ocupa Corpos e Corpos Libres são projetos autorais que seguem em atividade no ano de 2017. Visite a página de cada e conheça mais:

Ocupa Corpos
Instagram: @ocupacorpos
https://ocupacorpos.wordpress.com/

Corpos Libres
Facebook / Instagram: @corposlibres
https://corposlibres.tumblr.com/