Microcosmos

Drabble: Microcosmos

Depois de um longo período explorando o cosmos, chegara a hora de voltar à Terra. O prazer de saltar entre corpos celestes já não mais abafava a saudade de casa.

Tirou o capacete ainda no quintal e colocou-o debaixo do braço para abrir a porta de entrada. Limpou o pó de estrelas dos pés antes de entrar. A mãe não ia gostar se fizesse sujeira.

Mesmo recebida com um abraço quente como uma supernova e um sorriso brilhante como um sol, não pôde evitar sentir certa melancolia. Gostava muito do espaço, afinal. Mas tudo bem: amanhã ela voltaria para lá.

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Corpo em cena

Sinto meu corpo preso na maré de sentimentos.
O equilíbrio que busco a longo prazo me puxa para o fundo do mar.
A âncora é pesada, repleta de durezas e cobranças.

Autopunição
Desrespeito
Intolerância
Se eu deixar, afundo.
Eu já quis.

Não vou mentir, o desespero bate.
A ansiedade e autocobrança em fazer dar certo me imundam.
Eu quero prosperar e alcançar o que acredito,
mas as ondas me puxam com tanta força que eu ainda não consigo domá-las.

Doi.

Sinto meu corpo encharcado não dos respingos da água.
É tudo lágrima.
Vocês me exigem o equilíbrio e a liderança de um ninho fraco.
Eu não sou matriarca.
Sou prole aprendendo a voar.

Para onde carregamos nossos braços quando livres?
Para onde nos levam nossas pernas?
Ainda não sou a leveza do corpo.
Não consigo voar pelo oceano, não consigo boiar sobre as ondas.

 

Foto: Ana Luiza Calmon

 

Pescoço, quando duro, trava o corpo.
Joelho falha quando falta equilíbrio.
Cabeça lateja sempre que falta oxigênio.
E os dentes gritam por voz quando falta expressão.

Meu cabelo quebrou quando faltou amor. Próprio.
Violei meu corpo de todas as formas para fazer tudo certo, para vocês.
Não quero ser boneca de pano vivendo remendada.

Sou inteira, sem retalhos.
Tentam apagar essa luz que vive acesa dia e noite, ensolarado ou nublado.
A luz pode até diminuir sua intensidade de vez e quando, mas ela sempre volta radiante.
É como um farol. O maior guia para um inteiro oceano.

Meu corpo segue preso na maré.
Não afunda, mas também não volta para a terra firme.
Não sou de falsas estabilidades. Tudo pertence ao mar, tudo navega com ou sem ondas.
Meu corpo pode travar e recuar, mas ele sempre avança.

A maré de sentimentos vai e volta, fica cheia e rasa.
Mas eu permaneço aqui.
Viva, forte e iluminada.
Meu corpo segue em cena.

 

Foto: Ana Luiza Calmon