Mulheres Cabulosas da História

Entrevista: Mulheres Cabulosas da História

Confira nossa entrevista sobre o projeto Mulheres Cabulosas da História, sobre o qual falamos aqui:

ELAS POR ELAS: Quando e como surgiu o Mulheres Cabulosas da História?
MULHERES CABULOSAS DA HISTÓRIA: O projeto teve início em fevereiro de 2016, desenvolvido pelas mulheres do movimento social “Levante Popular da Juventude” em Belo Horizonte. O objetivo era lançar o projeto no dia 8 de marco, Dia Internacional das Mulheres.  As mulheres retratadas foram sugeridas pelas próprias fotografadas com o auxílio do setor, no total foram 43 fotografias. Em cada uma há um pequeno texto explicativo sobre quem foi a mulher retratada e quem é a militante fotografada, fazendo assim uma relação de que nós, inspiradas pelas trajetórias delas, damos continuidade à luta em prol de uma sociedade feminista e popular.

EE: Qual foi a motivação para o projeto?
MCH: A motivação é de resgatar a história e vida dessas mulheres, como forma a nos inspirar a sermos o que quisermos. As mulheres que representamos são referências, exemplos para nós, já que queremos construir e viver em uma sociedade justa, igualitária, feminista. Trazer a história e a imagem dessas mulheres representadas por nós, mulheres jovens e militantes, mostra que todas as mulheres já são cabulosas no cotidiano por enfrentarem e resistirem à violência e ao machismo. Queremos inspirar mais mulheres a perceberem que não precisamos obrigatoriamente ser “belas, recatadas e do lar”, podemos ser grandes cientistas, artistas, podemos ser e já somos cabulosas! Uma motivação é também disputar o conceito de história. A história dos livros de escola é retratada como eventos grandiosos, liderados ou protagonizados por homens brancos. Queremos trazer a história que foi tecida a mão, talhada na madeira, prensada na chapa, feita na linha de produção, uma história que foi construída por tantas mulheres que se uniram e assim transformaram, trabalharam, militaram, cuidaram, viveram, inspiraram.

Malala Yousafzai
Marina Lorentz encarna Malala Yousafzai

EE: Quais resultados e conquistas vocês já vivenciaram com ele?
MCH: Após o lançamento, o projeto foi intensamente replicado nas mídias sociais, tanto nas mídias parceiras, como no Jornal Brasil de Fato e Jornalistas Livres, quanto em inúmeros blogs feministas e sites de maior alcance. Além do sucesso nas redes, o projeto teve diversas solicitações para exposições em centros culturais, biblioteca pública municipal e eventos culturais em toda cidade. No início de 2016, foi feita uma exposição também na Universidade Federal de São Paulo (USP) e em outras Universidade em Minas Gerais. Em 2016 também ganhamos a medalha “Clara Zetkin”, concedida pelo SINPRO Minas, uma premiação que homenageia mulheres com iniciativas inspiradoras. Em 2017 fizemos em parceria com o projeto Fica Vivo, um evento de rua onde interagimos com jovens e adultos da periferia para trabalharmos sobre empoderamento das mulheres periféricas em seu meio social.

EE: O que levou ao desejo de lançar o livro, que agora está no Catarse?
MCH: A experiência com a primeira sessão e sua repercussão, nos deu possibilidade de pensar a produção de um livro com as fotografias artísticas das “100 Mulheres Cabulosas da História” e uma pequena biografia sobre elas. A ideia é produzir um livro que retrate com qualidade as fotografias das mulheres cabulosas, e resgate com mais intensidade e compromisso, a história de luta dessas mulheres.

Margaret Hamilton
Luiza Gaillac como Margaret Hamilton

EE: Que tipo de mudança vocês esperam alcançar com o livro?
MCH: O nosso desejo é levar essas histórias para mais mulheres, para mais pessoas. Temos o desejo de disputar as histórias dos livros de escola, uma história branca, masculina e eurocêntrica, que nunca valorizou o papel das mulheres, principalmente as marginalizadas. Esperamos inspirar mais pessoas, para que consigam se espelharem nessas histórias e seguirem inspiradas por elas, para que também transformem a realidade em que vivem.

EE: Vocês podem falar um pouquinho sobre o projeto em geral e sobre o livro?
MCH: O livro está sendo pensando num processo coletivo de construção. Vai ser um livro fotográfico e biográfico, que tem como intenção ser um instrumento de agitação e propaganda do feminismo popular, também tem como intenção a formação das mulheres, além de ser uma profissionalização da nossa militância na produção cultural, científica, e literária, por ser uma obra totalmente produzida por mulheres como experiência de trabalho auto organizado. O Estúdio Guayabo também se somou a nós para pensarmos as soluções graficamente possíveis para que conceitualmente passe a mensagem que desejamos.

Margarida Alves
Deisy dos Santos reproduz registro de Margarida Alves

EE: Como vocês selecionaram as histórias e imagens das mulheres que integram o projeto?
MCH: Fizemos duas sessões de fotos. Uma em 2016, onde retratamos 43 mulheres, e outra em 2017, quando completamos 100 fotografias para o lançamento do livro. Na primeira sessão as mulheres escolheram as personagens com o auxílio do setor de mulheres que se preocuparam também com o cuidado estético, para que as mulheres fotografadas tivessem traços físicos semelhantes com as originais. Na segunda sessão, além desses cuidados selecionamos previamente algumas personagens que acreditávamos ser essenciais, buscamos mulheres que atuaram em lutas de emancipação feminina e da classe trabalhadora, assim como mulheres que em outras áreas se destacaram e contribuíram para a construção de uma sociedade mais justa, feminista e popular.

EE: E as modelos, como foram escolhidas?
MCH: Foram todas mulheres militantes do movimento Levante Popular da Juventude de Belo Horizonte.

Frida Kahlo
Rafaella Dotta como Frida Kahlo

EE: Qual a importância de dar visibilidade para grandes mulheres da história?
MCH: Porque sempre foram os homens os grandes protagonistas retratados nos processos e registros históricos. As mulheres sempre tiveram papel secundário ou nunca foram vistas, porque sofreram boicote do machismo e do patriarcado estrutural que subjugam o papel das mulher na sociedade. A nossa pretensão é refazer, reescrever, reconstruir, subverter a ordem, ir contra a maré que sempre nos impediu de sermos vistas, valorizadas e reconhecidas pelo que somos e fazemos fora do lar. Reconhecemos que valorizar o papel social da mulher é mostrar para a sociedade que nós sempre protagonizados processos, nós sempre tivemos muita importância em diversas áreas de atuações, mas mesmo assim fomos apagadas e não queremos aceitar essa condição, é preciso que sejamos ousadas para subvertermos a ordem imposta!

EE: E qual a importância de projetos como esse, feitos inteiramente por mulheres?
MCH: Essa iniciativa constrói o empoderamento coletivo das mulheres, fortalece e serve de espelho para que as mulheres atuais continuem construindo a própria história e de um mundo novo. Construir esse processo inteiramente por mulheres, faz com que nós possamos sentir que somos por si só o motor que movimenta o mundo e as transformações sociais que acreditamos.

Elza Soares
Ana Carolina Vasconcelos encarna Elza Soares

EE: Quem são as pessoas envolvidas direta e/ou indiretamente com o projeto?
MCH: Esse é um projeto do Levante Popular da Juventude e teve apoio e inúmeras parcerias ao longo do tempo. Tiveram inúmeras mulheres também fora do movimento que nos apoiaram, trabalharam, contribuíram e ofereceram ajuda para construirmos juntas. Alguns movimentos e coletivos parceiros: Jornal Brasil de Fato, Radioagencia Brasil de fato, Sindicato dos Jornalistas do Estado de Minas Gerais, Jornalistas Livres, Carol Rossetti (Ilustração), MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra), MMM (Marcha Mundial de Mulheres) entre outros.

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Tamires Arsênio

24 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
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