uma mulher nada de bem

Uma mulher – nada – de bem

Short curto e cabelos na cintura

Via de baixo para cima pela falta de altura

Inocência minha pela falta de idade

Mas metralhavam a moça por estar à vontade

Apelido não positivo é o que mais chovia

E, vira e mexe, na rua eu a via

As mulheres daqui a olhavam com desdém

As mesmas que se auto chamavam “mulheres de bem”

 

O tempo então, como sempre, voava

E sempre que a mesma moça passava, eu olhava

Percebi que xingava a moça sem nem perceber

Até que um dia pensei “O que ela fez para você?”

Me choquei com a resposta, pois não havia nenhuma

Se ela quiser, use salto, vestido ou pluma

Dali senti a liberdade saindo de dentro

Quando aprendi a ver a moça sem julgamento

 

Enxerguei a rivalidade que me foi imposta

Nos jogam contra todas com um tapa nas costas

Passei a vê-la com inveja branca

Abri a cabeça e quebrei a tranca

Soltei o cabelo, abusei do decote

Não somos cabritas, não existe “o bode”

Permiti me tornar um ser humano só meu

Hoje a cabeluda de short sou eu

Precisamos falar sobre Kelvin

Precisamos falar sobre Kelvin

A gente tem uma temperatura de pele incontrolada. Não podemos habitar o mesmo espaço, sem evitar abraços e afagos. Você me pergunta se isso é saudável para nós. Eu também não sei. Quero o que tivemos, quero a leveza e a sinceridade da paixão descomprometida. Era bom. Foi. Você me olha com olhar de apaixonado, mas eu sei que sou apaixonante e você também se apaixona fácil. Percebo o mesmo sobre você. “O melhor”, elas disseram. Não discordo. É difícil escrever sobre algo inacabado, diante desse meio com linhas desfiadas. Você não consegue me dizer o que quer. Não quero controlar o roteiro, só vivê-lo. Mas falta gás, falta cor. Volume. Quero ondas. Brisa do mar com aroma de melancia. Sim, melancia. Eu estou seca do seu silêncio, preciso dessa fruta fluída para hidratar o corpo. Quero água corrente misturada com chama flamejante, quero juntar as temperaturas de pele e chegar a uma escala bonita para nós dois, que dá para ir e voltar com fogo ardente. Não seja ausente. Detesto esse seu jeito incapaz de lidar com sentimentos. Você que tanto escreve e sente, por que se cala? Eu preciso achar novas temperaturas como a sua, mas sem tantas oscilações que só me ferem. Nosso Kelvin deveria permanecer em zero absoluto.