Rivalidade feminina Música

Rivalidade feminina na música pop: por quê?

Rivalidade feminina definitivamente é meu tema da vez. Já falei sobre ele nos meus dois últimos posts nesta coluna, que você pode ler aqui e aqui.

 

Disputas entre fanbases são o tipo de coisa que a gente até pensa que ficou lá em 2012, mas elas ainda são reais – e intensas. Um rápido passeio por portais do gênero pode chegar a ser assustador para os mais desavisados.

 

 

Fonte: @reasonyoutalita

 

Apesar de render piadas, o cenário de guerra, no entanto, denuncia algo extremamente grave: a mais pura misoginia. É verdade que no universo dos fandoms a rivalidade é bem comum, mesmo em assuntos que não envolvam, necessariamente, figuras femininas – vide disputas como Marvel x DC Comics, por exemplo.

Mas quando vamos para o campo das divas pop, a coisa fica muito mais séria. A rivalidade não só cria uma atmosfera hostil, como vira uma desculpa para serem destiladas ofensas machistas e ataques baixíssimos.

 

Rivalidade feminina - música
Alguns comentários coletados hoje em páginas do Facebook

 

O fato desse público ser composto principalmente por pessoas LGBT+ ainda reforça algo importante: gays também podem ser misóginos. Homens gays ainda são homens, e o fato deles sofrerem um tipo de opressão não apaga aquelas que eles venham a causar. Mulheres hétero sofrem machismo mas podem ser homofóbicas, não é? Opressões podem se complementar, mas não se anulam. E são justamente homens gays os que mais vemos perpetuando a rivalidade no universo da música pop.

 

O papel da mídia

Acontece que, como é falado diversas vezes no meio feminista, não é tão fácil resistir a uma opressão, muito menos a conceitos sociais que somos ensinadas a reproduzir. Em parte este é um dos motivos de existir sim rivalidade entre mulheres. E o ambiente competitivo – mercadologicamente falando – da música, com charts, premiações, e todo tipo de disputa do tipo “quem é melhor” apenas contribui para seu surgimento.

No entanto, mesmo quando a rivalidade simplesmente não existe, ela pode ser vista como extremamente lucrativa. A indústria musical faz rios de dinheiro com brigas reais, e disso é apenas um pulo para serem insinuadas em situações irreais. Afinal de contas, tudo é válido enquanto o dinheiro estiver entrando.

 

Money
Topa tudo por dinheiro

 

Tudo isso com aval – e incentivo – da mídia, que constrói narrativas inteiras ao redor dessas disputas, e do público, que compra um lado – mesmo nas situações onde não há lados a serem comprados. E isso se mostra também de forma sutil, não apenas com os ataques mostrados no início do texto, mas também com insinuações, alfinetadas e coisas do tipo.

Lutar contra a rivalidade feminina não necessariamente significa que não possam existir desavenças reais, muito menos que todas as mulheres devam passar pano umas para as outras. Existem sim ocasiões em que mulheres são nocivas e dignas de repreensão. E também não queremos culpabilizar mulheres que estão inseridas numa sociedade que as ensina a competirem entre si.

O que não pode acontecer é a naturalização desses discursos, especialmente quando isso significa inocentar os principais responsáveis pela sua manutenção. A crítica deve ser feita sempre ao sistema machista e suas consequências. E podemos sim apontar os problemas do comportamento de mulheres que reproduzem machismo, mas isso não é desculpa para julgá-las sem compreender o que há por trás disso.

 

Mas é só com as mulheres?

Como sempre, tudo fica mais gritante quando fazemos a comparação com o outro gênero. Na música, especificamente, além da competição entre homens não resultar em ataques direcionados ao sexo masculino e suas vidas pessoais, ela é definitivamente muito menos acirrada. Isso também em todas as esferas: indústria, mídia e público.

Fãs do Bruno Mars e do Drake não aproveitam toda matéria sobre eles para falarem mal um do outro, visando exaltar seus ídolos. Por que fãs da Lady Gaga e da Katy Perry precisam fazer o mesmo?

A coexistência entre homens talentosos e/ou que fazem sucesso parece ser algo completamente natural e aceitável. Mulheres, no entanto, só podem ser boas se forem melhores que as outras. E isso não é nada normal.

Tamires Arsênio
Me segue aí!

Tamires Arsênio

24 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
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