oaboab, abcabc.

naquele dia resolvi me entregar ao luxo-lixo de despertar apenas na hora em que meu corpo bem escolhesse, fazendo-o sorrir como um corpo sem patrão, um corpo desmandado, reforçando o cotidiano de sarros que tiramos um com o outro entre uma ou outra aposta na liberdade. um corpo ele que, de tão desapregoado, tornou-se digno de ser reconhecido não mais como ninguém, mas sim, como ela. ela, eu, nós.

olhos ainda marejados em sono, corpo ainda quente de horas de cama, abri a janela e assisti papéis voarem já na primeira jarrada de vento. vi quase tombar de dentro de um copo americano – esses de proveito de um furto noturno mal lembrado e cheio de graça, atestado recorrente de uma adolescência mal atravessada – todas aquelas contas emboladas, atrasadas. vi como parte da estranha reunião de papéis no chão o carnê da minha dita profissão, ainda sem o carimbo de satisfação anual. ela, um projeto de sonho do ontem, hoje quase um atravanque, um corpo apatronado, e por homens. nós, eu, ela.

amassei os olhos, os vesti com os velhos óculos, avaliei todos aqueles manuais de sermões completos que ainda perduravam numa prateleira qualquer, pesada de tantos desmotivos. perguntei quem me fizera ler aquele conjunto de tantos contos – da carochinha e de réis – de capa impenetravelmente grossa. perguntei em qual momento permiti atestarem a necessidade de me converter em reprodutora daqueles artigos definidos de tolos e por tolos em coleguismo engravatado com tantos outros tolos reprodutores. perguntei quando que resolvi sangrar minha língua naquele linguajar morimbundo – nunc, tunc, omnes, data, vênia, obladi, obladá – e naqueles pronomes que se convertiam tão facilmente e propositalmente em elogios e vice-versa. eram tantas as excelências, tantos senhores – querendo ser de si e de nós – doutores do nada. e todos são ele.

perguntei-me em que momento nos convencem de que o recalcar a própria essência deve ser maior do que o poder exteriorizá-la, agir conforme se é, de facto e de juri. questionei em qual momento nos convencem a adentrar a maratona por caber em muito mais que duas camisas pretas, uma calça jeans, tênis, caderno e lápis, muito mais este que acaba por sempre se converter em algo que afague a alguém, e aqui alguém sempre é ele. rasguei, larguei, convencendo-me a seguir como se ainda estivesse parada no momento anterior à estação das decisões, aquele das despreocupações de uma quase-juventude ocupada apenas da liberdade de exercer seu vazio de expectativas. expectativas também são elas, nós.

perguntei em que momento fizemos do corpo a contingência de uma enorme fila para fotos e autógrafos; perguntei quando nos desfiguramos numa berlinda de uma entidade relatora que, ao dizer revelar de tudo, assombreia o mais elementar: os seus tantos recados às mulheres-alunas, dichavados nos grupos e nos convites meramente formais em saguões de hotéis, circulo infinito, bis in idem de tentativas de sujeitação.

– vamos escrever um artigo juntos, menina? tão jovem e bonita, mas tão inteligente.

– a mulher linda encanta. a mulher que é inteligente é interessante. se ela for as duas coisas, e inventar de ser criminalista, é invencível.

– te trouxe um livro meu autografado. sobe ali no quarto comigo pra buscar?

– amanhã venha assim, de salto e vestido, pois vais despachar com o juiz. é causa ganha na certa.

– quer um chocolate, querida? trouxe da viagem do congresso pra você.

do alto do palanque, que imensa a tontura, que imensa a tontidão. balas e recados perdidos nas confrarias dos rostos-homens marcados, e os vinhos, a lógica-mercado, os restaurantes e as cadeiras nas quais o objeto do desejo jamais faria casa, se fazendo presente sempre apenas como pauta maliciosa de pensamentos.

milionárias famílias trajadas de verde-esperança, ainda que já desvelado em seu tom musgo morto, meio de cujus, que segue pedindo que confiemos. eles são e estão na Ordem, e em seu discurso repetem oaboaboab. dizem que eu, mulher culpada de ser desconforme, só sou hábil de dizer abcabcabc.

não podendo recolher os papéis, juntei-me à sua reunião e sustentei perante eles todas essas coisas, já que coisas também são ela, e ela também sou eu e somos nós. e foi assim que, quando vi, já estava tudo aqui, tudo dito, e alea jacta est.

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