Algumas concepções sobre a tristeza

 

      É preocupante ver como algumas pessoas se referem à tristeza como se esta fosse um demônio e não um sentimento legítimo e inerente a todos os seres humanos.

      Questiono em que ponto da história ela ganhou esse título, e percebo que no momento atual também é de se espantar com o que algumas pessoas fazem para serem “felizes”. A impressão que se tem é de que estas pessoas vivem apenas uma expectativa de futuro, um futuro onde todos os seus mais doces desejos seriam saciados, um futuro completamente feliz e em contrapartida, a vivência do presente segue sendo prejudicada.

      Honestamente, já tentou imaginar como seria o mundo se todas as pessoas fossem completamente felizes? acredito que o mundo seria um caos. Há quem viva seus dias tentando burlar cada sinal de tristeza que aparece, e isso é adoecedor.

      Eu penso que a tristeza é como se fosse a pitada de sal que equilibra o sabor do doce- é extremamente importante.

      Às vezes, quando escuto a palavra “felicidade” me vem instantaneamente à cabeça a palavra “venda”, que por sua vez me lembra a palavra “produto”. A ideia que fica é a de que “felicidade” é um produto que se vende no mercado, é algo que se vende e muita gente compra, mas ninguém tem- o que as pessoas compram na verdade é uma ideia de mercado.

      Acredito que o grande desafio é viver os dias como se é possível viver e não fazer da vivência dos dias uma busca insana pela felicidade. É se permitir ser capturado por um momento puro de alegria que pode surgir a qualquer hora pelos mais diversos motivos, é viver cada momento com suas dores e alegrias.

      A tristeza tem sua importância em nossas vidas, não me refiro aqui à depressão e seus desdobramentos, mas a tristeza nossa de cada dia. O grande desafio referente à tristeza é tentar produzir algo com essa experiência é usá-la a nosso favor ao invés de extirpar toda possibilidade de sentir.

      Por fim, se para ser feliz eu tiver que adoecer e prejudicar o tempo presente que é onde as coisas acontecem, eu desisto, e concordo plenamente com o que disse certa vez o psicanalista Contardo Calligares: “Não quero ser feliz, quero é ter uma vida interessante”.

 

oaboab, abcabc.

naquele dia resolvi me entregar ao luxo-lixo de despertar apenas na hora em que meu corpo bem escolhesse, fazendo-o sorrir como um corpo sem patrão, um corpo desmandado, reforçando o cotidiano de sarros que tiramos um com o outro entre uma ou outra aposta na liberdade. um corpo ele que, de tão desapregoado, tornou-se digno de ser reconhecido não mais como ninguém, mas sim, como ela. ela, eu, nós.

olhos ainda marejados em sono, corpo ainda quente de horas de cama, abri a janela e assisti papéis voarem já na primeira jarrada de vento. vi quase tombar de dentro de um copo americano – esses de proveito de um furto noturno mal lembrado e cheio de graça, atestado recorrente de uma adolescência mal atravessada – todas aquelas contas emboladas, atrasadas. vi como parte da estranha reunião de papéis no chão o carnê da minha dita profissão, ainda sem o carimbo de satisfação anual. ela, um projeto de sonho do ontem, hoje quase um atravanque, um corpo apatronado, e por homens. nós, eu, ela.

amassei os olhos, os vesti com os velhos óculos, avaliei todos aqueles manuais de sermões completos que ainda perduravam numa prateleira qualquer, pesada de tantos desmotivos. perguntei quem me fizera ler aquele conjunto de tantos contos – da carochinha e de réis – de capa impenetravelmente grossa. perguntei em qual momento permiti atestarem a necessidade de me converter em reprodutora daqueles artigos definidos de tolos e por tolos em coleguismo engravatado com tantos outros tolos reprodutores. perguntei quando que resolvi sangrar minha língua naquele linguajar morimbundo – nunc, tunc, omnes, data, vênia, obladi, obladá – e naqueles pronomes que se convertiam tão facilmente e propositalmente em elogios e vice-versa. eram tantas as excelências, tantos senhores – querendo ser de si e de nós – doutores do nada. e todos são ele.

perguntei-me em que momento nos convencem de que o recalcar a própria essência deve ser maior do que o poder exteriorizá-la, agir conforme se é, de facto e de juri. questionei em qual momento nos convencem a adentrar a maratona por caber em muito mais que duas camisas pretas, uma calça jeans, tênis, caderno e lápis, muito mais este que acaba por sempre se converter em algo que afague a alguém, e aqui alguém sempre é ele. rasguei, larguei, convencendo-me a seguir como se ainda estivesse parada no momento anterior à estação das decisões, aquele das despreocupações de uma quase-juventude ocupada apenas da liberdade de exercer seu vazio de expectativas. expectativas também são elas, nós.

perguntei em que momento fizemos do corpo a contingência de uma enorme fila para fotos e autógrafos; perguntei quando nos desfiguramos numa berlinda de uma entidade relatora que, ao dizer revelar de tudo, assombreia o mais elementar: os seus tantos recados às mulheres-alunas, dichavados nos grupos e nos convites meramente formais em saguões de hotéis, circulo infinito, bis in idem de tentativas de sujeitação.

– vamos escrever um artigo juntos, menina? tão jovem e bonita, mas tão inteligente.

– a mulher linda encanta. a mulher que é inteligente é interessante. se ela for as duas coisas, e inventar de ser criminalista, é invencível.

– te trouxe um livro meu autografado. sobe ali no quarto comigo pra buscar?

– amanhã venha assim, de salto e vestido, pois vais despachar com o juiz. é causa ganha na certa.

– quer um chocolate, querida? trouxe da viagem do congresso pra você.

do alto do palanque, que imensa a tontura, que imensa a tontidão. balas e recados perdidos nas confrarias dos rostos-homens marcados, e os vinhos, a lógica-mercado, os restaurantes e as cadeiras nas quais o objeto do desejo jamais faria casa, se fazendo presente sempre apenas como pauta maliciosa de pensamentos.

milionárias famílias trajadas de verde-esperança, ainda que já desvelado em seu tom musgo morto, meio de cujus, que segue pedindo que confiemos. eles são e estão na Ordem, e em seu discurso repetem oaboaboab. dizem que eu, mulher culpada de ser desconforme, só sou hábil de dizer abcabcabc.

não podendo recolher os papéis, juntei-me à sua reunião e sustentei perante eles todas essas coisas, já que coisas também são ela, e ela também sou eu e somos nós. e foi assim que, quando vi, já estava tudo aqui, tudo dito, e alea jacta est.

10 canais para seguir

    A internet hoje é muito mais que um veículo de entretenimento. Através delas é possível se comunicar, aprender, conhecer pessoas, participar de debates, trabalhar, entre outras coisas.

    O YouTube surgiu há mais ou menos 11 anos e hoje é uma plataforma de multifunções. Uma plataforma que tem crescido e dado oportunidade para pessoas compartilharem opiniões sobre diversos assuntos. E  o feminismo tem sido mais explorado e mais falado em muitos canais.

Pensando no crescimento dos debates sobre o tema, separei alguns canais voltados para o empoderamento feminino, canais que também falam de questões importantes sobre a mulher na sociedade atual, feminismo, desconstrução de conceitos e entretenimento com informação de qualidade. Canais de mulheres que falam sobre mulheres, que valem a pena acompanhar e abrir mais espaço para a discussão desses temas, de forma saudável.

 

1- Alexandrismos por Alexandra Gurgel

O canal fala sobre a vida da mulher gorda na sociedade, machismo, empoderamento, aceitação e situações atuais de forma clara, objetiva, abrindo nossa mente para questionamentos e reflexões.

Link para o canal: www.youtube.com/channel/UC2LQ5jMieMZjb5k5Gprp2JQ

 

2- Nunca te pedi nada por Maíra Medeiros

Além de falar sobre situações cotidianas, o canal aborda entretenimento, quadros que ressaltam feitos de mulheres importantes na nossa história e no mundo.

Maíra também criou a série Por que mulher?, onde cada vídeo falava sobre os estigmas impostos às mulheres pela sociedade.

Link para o canal: www.youtube.com/channel/UCYWtYb0GcYrhDxOykcUpzJw

 

3- Mais magenta por Dani Cruz

Dani traz temas mais relacionados ao feminismo didático, falando sobre vertentes, também aborda tutoriais de maquiagem, faça você mesmo e música.

Link para o canal: www.youtube.com/user/BlogMaisMagenta

 

4- Olívia do Olivices por Olívia Godoy

Olívia é uma pessoa que reflete pura luz, fala sobre autoconhecimento, vida, sexualidade e feminismo de uma forma leve, além de compartilhar experiências pessoais

Link para o canal: www.youtube.com/user/ligmoreira101

 

5-  Ellora Haone

Um canal que fala sobre relacionamentos, sexualidade, feminismo, vivências e saúde mental. Totalmente descontraída e genuína.

Hellora fala sobre também aceitação, privilégios e assuntos cotidianos.

Link para o canal: www.youtube.com/user/ElloraHaonne

 

6- Jana Viscardi

Fala sobre tudo. Educação, feminismo, machismo, como lidar com algumas frustrações da vida, sobre saúde e sobre assuntos polêmicos, política, atualidades. Sempre abrindo o espaço para refletirmos enquanto parte dessa sociedade cheia de tabus e conceitos padronizados e impostos ao longo dos tempos.

Link para o canal: www.youtube.com/user/janaisaviscardi

 

7- DePretas por Gabi Oliveira

Um canal sobre questões raciais e estética da mulher negra, vivências e atualidades. A pessoa mais sorridente que está plataforma já teve, mesmo quando fala de assuntos mais sérios como racismo.

Link para o canal: www.youtube.com/channel/UCF108KZPnFVxP8lILiJ1kng

 

8-  Bonjur monamour por Ju Giampaoli

Um misto de ativismo lgbt, feminismo, arte e vivências. Problematizações, políticas, ocupação do nosso espaço são uns dos assuntos que ela também aborda no canal.

Link para o canal:  https://www.youtube.com/channel/UCQMkZR8vkwPdxzgOxvTwd2Q

 

9- Barraco da Rosa

Vivências da mulher transsexual, periférica e negra e afro-latina, em toda sua extensão.

Um canal que todos, independente de gênero deveriam conhecer, e consequentemente ter maior visibilidade.

Link para o canal: www.youtube.com/channel/UCCX7dUMgO8_ORxWQ4PU4ISA

 

10- Sheylli Caleffi

Aborda a liberdade de expressão e a liberdade sexual da mulher, quebra de tabus, experiências pessoais, formas de amor, feminismo, arte e cultura.

Link para o canal: www.youtube.com/channel/UCUf6JNKUrzEdppdOt2-Xk-Q

 

    Há vários outros canais que poderiam ter sido listados, mas além de canais já conhecidos houve a intenção de mostrar os canais que tem surgido com a proposta de sempre abrir mais espaço ao debate e a discussão de temas importantes para a nossa desconstrução pessoal, além de uma quebra de padrões e uma série de possibilidades para as mulheres.

     Aproveita esse fim de semana e dá uma passada nesses canais para fortalecer as criadoras de conteúdo e abrir seu leque de conhecimentos​ não só sobre feminismo, mas também sobre a vida e o universo.