We have a ocean

Coração do mar é terra que ninguém conhece – Oswald de Andrade

 

Foto: Ana Luiza Calmon

 

 

– Your hair has waves, just like the ocean.

Foto: Ana Luiza Calmon

 

Sabe, não imaginava que um loiro com olhos cor azul cinza fosse me encantar. Seu olhar reflete a água da Irlanda. Flui. Corre. Percorre. Transpassa pelo seu sorriso, seu sotaque, seu curto, porém musculoso corpo. Nunca havia te visto, mas sinto que já nos cruzamos. Temos aquela sintonia de pronunciar frases idênticas ao mesmo tempo, na mesma respiração. Depois rimos de nós mesmos. Coincidência.

Sua pele é quente. See, you are so warm que toda a minha quentura se reduz a temperatura ambiente quando estou com você. Te toco e não sinto frio. Você me faz rir, parece acreditar em mim. Te pareço idealista, boba e gentil. Sim, eu sou isso tudo. Mas você desperta isso em mim. Me sinto engraçada e feliz conversando com você. Mas foram apenas dois dias. Dois dias. Me sinto confortável, leve, eu mesma. Você tenta me conhecer, me descobrir, me sentir. Você acredita em mim. E eu, acredito?

Talvez.

Talvez, eu precise que você, vindo de outro lado do oceano, me diga que é possível sonhar o meu sonho, realizar o que idealizo. Você me disse para não pensar demais, e eu tenho tentado, acredite. Mas é que nasci sambando com a filosofia mais do que com o próprio som que veio lá do morro. Sim, sambo também. E queria dançar para você como havíamos imaginado. Você me ensinando salsa e eu forró. Como seria nosso gingado, como seria nossa dança?

Não sei por que escrevo isso tudo sobre você, sobre nós. É tão pouco tempo, mas parece tão certo, tão diferente, tão novo. Muitos adjetivos, eu sei. Eu apenas sinto, meu bem. Sinto que é, que está sendo. Você parte daqui a dois dias para o outro continente, pegará outras ondas. “I want to keep contact”, você diz. Sinto que também quero. Mas ai eu penso. É perigoso.

Todo esse tempo eu nunca havia sentido tanta ansiedade e medo ao mesmo tempo ao encontrar um estranho como você. Parecia uma menina toda nervosa porque vai encontrar seu namorado. E parecia uma mulher desconfiada, receosa desse encontro às cegas que não são a primeira vez que lhe ocorrem. Você é o primeiro com quem tenho imensa vontade de arriscar meu inglês, sem vergonha. Talvez seja a autoconfiança finalmente em atividade, talvez seja a coragem, talvez seja você. Está acontecendo.

E nós nos entendemos como eu não entendo sequer um português bem brasileiro. Nós nos entendemos. Você me vê e eu te vejo, e assim trocamos piadas e inventamos histórias futurísticas sobre nosso casamento que sequer existirá porque não queremos uma casa com filhos. Mas até no estilo da casa nós concordamos, sem combinar. A gente pensa tão igual, não é?

Eu tenho medo do que poderá ser, continua novo demais para mim. O que apenas tenho certeza é que você está me entendendo do jeito que eu me entendo. Você percebeu essas ondas em mim que tantos não viram. E você tem toda razão. Meu cabelo tem ondas como o oceano. Assim como eu, por completo. Eu começo pequena, cresço e me transformo, percorrendo aonde eu desejar que seja a minha praia. E ai eu recomeço. Tem dias que sou onda rasa, mansa, outros que sou onda brava, forte e avassaladora. Mas sou toda eu, unicamente meu próprio mar. Se você saberá navegar ou não, ainda não sei. Assustadoramente, sei que quero descobrir.

– Don´t think too much, Ana.
Ok, você tem razão. Estou sendo boba demais.

Ana

Ana

Ana Luiza Calmon, 26 anos, é jornalista e produtora audiovisual. Apaixonada pelas histórias dos outros, pela dança e toda a poesia que toma forma no corpo. Capixaba de Vila Velha, precisa ver o mar todos os dias, andar de bike ou apenas andar. Encontra na escrita uma forma de sentir o mundo.
Ana

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