We have a ocean

Foto: Ana Luiza Calmon

Coração do mar é terra que ninguém conhece – Oswald de Andrade

– Your hair has waves, just like the ocean.

Foto: Ana Luiza Calmon

Sabe, não imaginava que um loiro com olhos cor azul cinza fosse me encantar. Seu olhar reflete a água da Irlanda. Flui. Corre. Percorre. Transpassa pelo seu sorriso, seu sotaque, seu curto, porém musculoso corpo. Nunca havia te visto, mas sinto que já nos cruzamos. Temos aquela sintonia de pronunciar frases idênticas ao mesmo tempo, na mesma respiração. Depois rimos de nós mesmos. Coincidência.

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Eu amo o que acredito que você cause em mim

 

 

    (Foto: Tumblr)

 

A manhã dá as caras, e me escancaram no espelho mais uma noite mal dormida, olheiras profundas e o desejo de uma alforria inalcançável.

Talvez eu devesse parar de fumar, ou até ler menos, esses fatores principais da minha personalidade são as que mais destroem minha pele e meu sono. A minha cabeça trovoa, talvez se você estivesse aqui eu saberia silenciar minha mente insana com o timbre da tua voz, ou  umas caminhadas pelas ruas da augusta me deixariam mais leve,mesmo me lembrando com nostalgia um passado recente que tanto me tortura.

O cigarro que citei no começo do texto já se faz aceso novamente, minha cabeça cigana circula por entre portas e janelas, as nuvens me fazem pensar em tudo que eu já fiz na minha vida, tento entender meus desejos e controlo minha vontade de me atirar na vida e quem sabe gritar seu nome, ou talvez caçar o seu perfume em algum outro corpo por aí.

Construir mais um texto sem padrões, sem métrica, sem rima, sem coesão, talvez minhas linhas sejam só agudas como um reflexo do meu próprio eu, talvez meu negócio seja o estrago, a bagunça, a tara por algo que eu nem sei o que.

Escrevo a você porque supostamente a sua presença é o que existe de mais sutil e ligeira em minha vida, a bagunça dos meus vícios, e a ilusão de uma calmaria. Eu não te amo, eu amo o que eu acredito que você cause em mim, e eu nem ao menos sei qual o sentido de tantas linhas tortas às 10h59 da manhã, eu só sei que preciso escrever para me manter acordada em meio a fuligem, e as obrigações do cotidiano.

Já dizia Rubi:

“Se teu amor te pesa mais que o mundo que carregas: degela-o e deixa-o beber os deltas”

A Solidão foi uma escolha que eu sempre fiz, mas sempre relutei com os meus próprios princípios. Eu me amo, eu me admiro, eu me conheço, mas os  freaks pela marginalidade que me habitam, confundem e me transtornam. Talvez você possa vir aqui para fumarmos um cigarro, e tomarmos um café como nos velhos tempos, eu finjo que não te conheço, e talvez não conheça mesmo mais.

Acho que minha vida é uma inspiração de Baden, e você é  meu samba triste, talvez o destino seja rimas tortas de amor e travesseiro que nunca farão sentido pra ninguém.

A penumbra é o consolo da almas solitárias que esquecem ter sangue circulando nas veias, que se escondem atrás de seus próprios descaminhos, nos salve do fim, ou engula minhas linhas aleatórias, dificuldades com vírgulas e crases por mais umas centenas de textos.

Em um mundo de fugitivos, revolucione: Fique

 

 

 

O sol da tarde engole minha disposição enquanto minha bagunça mental atravessa barreiras e passa o dia no meu quarto. Tênis, livros, histórias, CDs, músicas. É como se tudo fosse uma caixa grande de madeira, com uma luz no teto e ursos fofos sobre a cabeceira. É inevitável não lembrar os dias que você aparecia e me deixava mais calma, mais viva, mais eu mesma. Talvez eu seja uma pessoa dependente, talvez eu goste de pessoas que aparecem, talvez eu mereça mais do que pessoas que se sentem no direito de entrar e sair da minha vida como se ela fosse uma festa open bar.

E olha que eu nem bebo mais.

Dentre um devaneio aqui e uma paz emocional ali, eu me deparo com uma expressão não muito nova sobre coisas passageiras: Amor de verão.

Vocês sabem, né? Aquela coisa que ferve, que é sensacional, que te vira do avesso, e que acaba quando o verão acaba. Curto, intenso e, mesmo você acreditando que é mais do que você vê, é exatamente só aquilo que você vê, porque na hora que o inverno pessoal chega, é onde as pessoas fogem para lugares mais quentes.

Elas não esperam o frio passar. Elas não se importam em ser presente ou em ajudar você a se manter aquecida durante o inverno que parece sempre ser infinito, então elas fogem. Sinceramente, não sei por que. Pode ser que seja mais fácil, que seja mais cômodo, que seja hábito. A vida é corrida e eu sei, e sempre foi, e sempre será, mas nada justifica abandonar pessoas em seus invernos particulares, sabe. Nada justifica.

Então sejamos o melhor futuro imaginável: ficaremos. Enfrentaremos. Tentaremos.

Amor de verão é legal e tudo mais, mas eu mereço um amor para a vida toda, por todos os dias. Eu vejo cada indivíduo como um ser cheio de histórias e aprendizados a ensinar, com um coração fofo e cheio de amor, então eu sempre escolho ficar. Por mim, por elas, por nós, por tudo. Enfrentar todas as estações possíveis me deixa com o coração quente e a alma leve.

Eu escolho revolucionar.

Sempre tive problemas com os excessos, mas eu não abandono pessoas. Eu não fujo, eu não me escondo.

Eu escolho ficar.

O pesadelo

De repente me vi fazendo tudo certo
Escolhendo bem as palavras 
Os tons 
Os gestos

Os caminhos eram sempre retos
Sem buracos
Lombadas
Curvas
Descidas ou subidas
Nada de emoção ou surpresa

Os erros 
As falhas
As angústias do não sei
Os risos e os choros
De um tudo
De algumas coisas
E do nada
Eram apenas a sombra rala da imagem quase transparente de um horizonte inalcançável

Sufoquei.

Era a terra ou a era da perfeição?
Era um mundo sem Deus
Sem Cão
Sem as espertezas inocentes dos gatos
E os tropeços do homem

Éramos máquinas?

Assustei.

Enfim, acordei do pesadelo com minha angústia já denunciando o mundo real certificando-me de que minha vida é ainda é um verdadeiro jazz.

Dança morena

Foto: Ana Luiza Calmon

 

a morena sempre te esperou

sentada, feliz, sorridente

alongou os cabelos para te fazer feliz

todo o tempo do mundo valia a pena quando ela estava com você.

 

a morena sempre achou que você chegasse já

porque era tudo amor

e a saudade apertava.

 

mas a morena viu que você nunca chegaria

aquele amor virou mágoa

e a saudade apenas memória.

 

hoje a morena tem cachos

lindas ondas que moldam seu rosto

ela continua sorridente e alegre.

 

mas agora ela dança como nunca

movimenta seu corpo como dona de si própria

seus olhos abriram para o mundo.

 

Foto: Ana Luiza Calmon

Por que é mais fácil achar produções sobre rivalidade do que sobre amizade feminina?

 

A ideia de que mulheres são rivais por natureza é um dos conceitos machistas mais sutis entre os que encaramos no dia a dia. Ele parece inofensivo, mas quando paramos para pensar melhor sobre isso vemos que não é.

Uma das formas de chegar a essa constatação é pensando no poder que a união e a amizade feminina podem ter. A forma como a naturalização da rivalidade feminina sabota a criação desses laços é apenas um dos problemas, sobre o qual a Jade já falou nesse post aqui.

Na cultura pop, essa ideia é presente em músicas, filmes, séries, animações, novelas, livros e até em narrativas da imprensa… É extremamente fácil encontrar produções que se sustentem nela ou a reforcem. O oposto, nem tanto.

 

Bad Blood
Imagem do clipe da música Bad Blood, da Taylor Swift (reprodução/internet)

 

É até grave pensar que, enquanto histórias sobre amizades masculinas são muito populares e até consagradas como clássicos, relatos sobre união entre mulheres são bem menos comuns.

Sim, também há grandes histórias sobre inimigos masculinos. Mas é importante lembrar que há diferenças não tão sutis assim no tratamento da rivalidade masculina e da feminina. Enquanto a primeira é pautada geralmente em motivos ideológicos ou de poder, a segunda costuma ser jogada como inevitável ou motivada por interesses românticos.

Isso faz com que seja muito importante a valorização de produções sobre amizade e/ou união feminina. Algumas delas, como já mencionado, são fortes exemplos do que mulheres juntas podem fazer.

 

Mad Max
Mad Max: Estrada de Fúria (imagem: reprodução)

 

Outras, não tão pretensiosas, ao menos servem para mostrar que nada se compara a ter uma amiga mulher. Elas nos entendem em nossos conflitos e necessidades, ao mesmo tempo que podem apresentar vivências completamente diferentes das nossas.

 

Quatro Amigas e um Jeans Viajante
Quatro Amigas e um Jeans Viajante (imagem: reprodução)

 

Há ainda as produções que fazem uma completa (ou ao menos parcial) desconstrução da rivalidade feminina, sobre as quais trarei uma lista no meu próximo post. São histórias que em um primeiro momento parecem se render ao conceito machista, mas que em algum ponto o desconstroem e passam uma mensagem oposta.

 

Meninas Malvadas
Meninas Malvadas (imagem: reprodução/internet)

 

Em resumo, os meios de comunicação e a arte podem sempre ser ferramentas para reforçar ou reverter elementos machistas. Com a rivalidade feminina não é diferente. Quando escolhemos valorizar a desconstrução dela estamos, ao mesmo tempo, abrindo nossos próprios olhos para a importância da amizade feminina, e preparando o terreno para que mais mulheres enxerguem o mesmo.

Edit: não vou deixar uma resposta explícita à pergunta do título (apesar de ter algumas opiniões. Spoiler: todas envolvem machismo). Prefiro deixar em aberto, para promover a reflexão. E você, o que acha?

 

“Ai de mim que sou romântica…”

Ai de mim que sou romantica

Chego ao compromisso na hora exata, com aquela pitada de atraso, e, de longe, vejo ele me vendo chegar. Sentado, tranquilo, fofo calmo. A praça quase vazia não surpreende, pois o vento rasga pernas peladas como as minhas. Ele pergunta:

– Que horas você sai?

– Em uma hora, mas tudo bem se você não ficar.

– Em uma hora?

– Sim.

“Ué”.

Subo, finalizo e trombo com a praça na saída. Nem parece que ele saiu dali.

– Ué.

– Passei pra te dar um beijo.

Fofo Bacana.

Um beijo, um sorriso, um abraço e um convite:

– Quer pipoca?

Pipoca, praça, noite fria e eu de mãos dadas. Fofo Clichê.

Não tenho histórico de namoricos em praças públicas, mas sempre achei algo que deveria ser feito mais vezes. Não só por casais que estão começando, mas acho que a simplicidade é um ponto que vale voltar de tempos em tempos. Talvez esse seja o nosso tempo de voltar aos princípios.

Entre “me dá um queijo” e “não come meu bacon”, me imaginei em um futuro – espero que um pouco – distante com uma barriga um pouco maior, sentindo um corpo chutando costelas e dizendo que “não é desejo, é só vontade”. Sem muita pressão, sem planos, sem por quês. Apenas curti um banco duro e gelado enquanto o fofo do meu lado fingia que não estava comendo meus amendoins. Pela primeira vez em algum tempo, eu simplesmente estava ali, da forma mais leve e mais gostosa possível.

A pipoca acabou e o tempo dizia que era hora de ir embora. Ele segura minha mão e me acompanha até a próxima praça, contando coisas corriqueiras e sem sentido enquanto eu analiso suas expressões.

Fim da linha. Um beijo, um sorriso e um abraço. Dessa vez, o convite virou lembrete (“Durmo com você amanhã”) e veio acompanhado por outra afirmação:

– Eu te amo.

Fofo.

Esvaziar-se

Esvaziar-se

 

Ahhhh…
O suspiro escapa por entre meus lábios
Cansados. Cansada
O corpo pesado, mas frágil
De leve, só o ar, que vaza

As vozes ecoam por cada canto
Os vultos se impõe à minha volta
As perguntas se repetem
Elas se repetem
Se repetem

Mas eu não digo que sim
Não digo que não
Nem talvez
Eu só me calo

As vozes dizem por mim
O sim, o não e o talvez
As vozes sabem melhor que eu
Elas falam, GRITAM, sussurram
Por mim

É, elas sabem melhor que eu
Elas sabem melhor que eu?
Emudecida, pesada, frágil
Facilmente deslocada
Para onde as vozes me levam

Acredite na (sua) beleza

E isso não é apenas um slogan da Boticário

 

Foto: Rock This Town

 

Lembro muito bem desse comercial e do quanto me marcou. Um mundo cinza, onde todas as mulheres são visualmente iguais enquanto uma moça procura pelo batom vermelho que dá cor e identidade a si própria. Apenas com imagens, a Boticário responde que não, não seria bom um mundo sem a vaidade.

Para além dessa mensagem, o que realmente captei nesse comercial de uma grande empresa de cosméticos foi a valorização da personalidade. Muito além da vaidade, do culto à beleza, ali vi o respeito e incentivo ao estilo individual, ao “ser você mesma” que tanto ouvimos e defendemos, mas dificilmente praticamos. É um trabalho árduo se aceitar e se assumir, em um mundo com tantas tendências, referências, padrões.

Independentemente do grupo social que se encontra ou deseja fazer parte – aqui exemplifico com gêneros musicais: sertanejo, hippie, rock, samba, forró –, você precisa estar a par do look e referências visuais. Cabelo alisado, peças de cor específica, olhos claro, muita/pouca maquiagem, acessórios alegres, despojados ou artesanais. Cada um tem sua etiqueta, seu ingresso de entrada e aceitação.

Não venho aqui criticar a moda ou as etiquetas sociais. Possuo pouco embasamento para tanto. Só venho aqui para reafirmar o título. Acredite na sua beleza. Por vivência pessoal, nunca me senti parte de um grupo específico de amigos, me considerando sempre o patinho feio. Ou minha roupa não combina, ou a forma de expressão não se encaixa, ou mesmo sou expansiva demais no meio de tantos introvertidos.
A gente nunca se acha bonita o suficiente do jeito que é. Sempre tem algo que você quer melhorar ou forçar para si mesma. Mas por que insistir em um biquíni da moda se ele não valoriza o formato do seu corpo? Por que usar lente de contato colorida se aquela não é a cor dos seus olhos? Por que usar shorts curtos e apertados apenas porque tem lindas pernas e precisa mostrá-las em nossa cultura?

Há uma linha tênue entre achar algo bonito porque lhe agrada e achar algo bonito porque é tendência, é novidade. Você não precisa ser clássica, hipster, despojada, fashion para ser percebida. Você precisa ser apenas você. É o seu nariz ou cabelo, seja como forem, que te tornam quem você é – porque você é única. Quando a beleza vem nós, ela se expressa de uma maneira muito mais poderosa e plena. Porque é uma energia interior, única e exclusivamente nossa.

Percebo isso apenas por agora, depois de anos tentando me sentir igual: nossa beleza é bela porque somos quem somos. É a beleza verdadeira. É aquela beleza que representa o batom vermelho do comercial. Quando o utilizamos em um mundo estético tão fordista, nos tornamos únicas. Acredite na sua beleza e seja o seu batom vermelho. Dê cor ao jeito que você é.