Virgínia Woolf e a luta pelo espaço da mulher – Parte II

Como seguir o caminho do feminismo sempre remendado pela sociedade? 

 

Foto: Google Imagens

 

No Entendendo o Feminismo da semana passada (12/04), publicamos a primeira parte do texto Profissões para Mulheres, da ensaísta, escritora e editora britânica, Virgínia Woolf. O texto foi produzido especialmente para um encontro entre profissionais na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, pela qual a escritora foi convidada para falar sobre suas experiências profissionais. Era 21 de janeiro de 1931, ano em que muitas mulheres começaram a ingressar no mercado de trabalho britânico. Hoje publicamos a segunda parte do texto, lido por Woolf nesse encontro.

 

Profissões para mulheres

Parte II

 

Mas retomando a história de minhas experiências profissionais. Recebi uma libra, dez xelins e seis pences por minha primeira resenha, e comprei um gato persa com esse dinheiro. E aí fiquei ambiciosa. Um gato persa é uma coisa ótima, disse eu; mas um gato persa não chega. Preciso de um carro. E foi assim que virei romancista – pois é muito estranho que as pessoas nos deem um carro se a gente contar uma história para elas. E é ainda mais estranho, pois a coisa mais gostosa do mundo é contar histórias. É muito mais agradável do que escrever resenhas de romances famosos. Mas, se é para atender à secretária de vocês e lhes contar minhas experiências profissionais como romancista, preciso falar de uma experiência muito esquisita que me aconteceu como romancista. E, para entende, primeiro vocês têm de tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Acho que não estou revelando nenhum segredo profissional ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser o mais inconsciente possível. Ele precisa se induzir a um estado de letargia constante. Ele quer que a vida siga com toda a calma e regularidade. Enquanto escreve, ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas um dia depois do outro, um mês depois do outro, para que nada venha a romper a ilusão em que vive – para que nada incomoda ou perturbe os misteriosos movimentos de farejar e sentir ao redor, os saltos, as arremetidas e as súbitas descobertas daquele espírito tão tímido e esquivo, a imaginação.

Desconfio que seja o mesmo estado de espírito para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês imaginem uma moça sentada com uma caneta na mão, passando minutos, na verdade horas, sem molhar a pena no tinteiro. Quando penso nessa moça, a imagem que me ocorre é alguém pescando, em devaneios à beira de um lago fundo, com um caniço na mão. Ela deixava a imaginação vaguear livre por todas as pedras e fendas do mundo submerso nas profundezas de nosso ser inconsciente. Então vem a experiência, a experiência que creio ser muito mais comum com as mulheres do que com os homens que escrevem. A linha correu pelos dedos da moça Um tranco puxou a imaginação. Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes maiores. E então bateu em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada, tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do sonho. E de fato ficou na mais viva angústia e aflição. Falando sem metáforas, ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela, como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe dizia que os homens ficariam chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que escrevem – ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois, embora sensatamente o homens e permitam grande liberdade em tais assuntos, duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a mesma liberdade nas mulheres.

Então, essas foram duas experiências muito genuínas que tive. Foram duas das aventuras de minha vida profissional. A primeira – matar o Anjo do Lar – creio que resolvi. Ele morreu. Mas a segunda, falar a verdade sobre minhas experiências do corpo, creio que não resolvi. Duvido que alguma mulher já tenha resolvido. Os obstáculos ainda são imensamente grandes – e muito difíceis de definir. De fora, existe coisa mais simples do que escrever livros? De fora, quais os obstáculos para uma mulher, e não para um homem? Por dentro, penso eu, a questão é muito diferente; ela ainda tem muitos fantasmas a combater, muitos preconceitos a vencer. Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez?

São perguntas que gostaria de lhes fazer, se tivesse tempo. Na verdade, se insisti nessas minhas experiências profissionais, foi porque creio que também sejam as de vocês, embora de outras maneiras. Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto – quando nada impede que uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública –, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver as dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente. Toda a questão, como eu vejo – aqui neste salão, cercada de mulher que praticam pela primeira vez na história não sei quantas profissões diferentes –, é de importância e interesse extraordinário. Vocês ganharam quartos próprios na casa que até agora era só dos homens. Podem, embora com muito trabalho e esforço, pagar o aluguel. Estão ganhando suas quinhentas libras por ano. Mas essa liberdade é só o começo; o quarto é de vocês, mas ainda está vazio. Precisa ser mobiliado, precisa ser decorado, precisa ser dividido. Como vocês vão mobiliar, como vocês vão decorar? Com quem vão dividi-lo, e em que termos? São perguntas, penso eu, da maior importância e interesse. Pela primeira vez na história, vocês podem fazer essas perguntas; pela primeira vez, podem decidir quais serão as respostas. Bem que eu gostaria de ficar e discutir essas perguntas e respostas – mas não hoje. Meu tempo acabou, e paro por aqui.

 

*Virgínia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942. 

 

 

 

Angélique Namaika

 

Imagem de reprodução Google imagens 

 

Uma mulher simples. Poucos recurso.       Um coração gigante.

     Tamanho é este coração, e tamanha é a sua fé na vida, no recomeço, que está simples mulher é a maior inspiração para nós.

     Uma freira congolesa, premiada pelo Alto Comissionado das Nações unidas (ACNUR), ganhadora do prêmio Nansen 2013, por ajudar mulheres vítimas de violência sexual e crimes brutais de gênero, cometidos pelo Exército de Resistência do Senhor (LRA, em inglês), e por outros grupos.

     Uma freira, que percorre todo o Nordeste da República Democrática do Congo, na tentativa de minimizar os danos e traumas sofridos por essas mulheres, covardemente agredidas, abusadas de todas as formas, e como se não bastasse, também privadas da convivência com suas famílias e a sociedade. Mulheres julgadas culpadas pela violência que sofreram.

     Namaika é líder no Centro de Reintegração e Desenvolvimento, e já ajudou mais de duas mil mulheres e meninas, que foram.obrigadas a deixar suas casa após sofrerem violência.

     Nakaima, considerada como mãe por muitas, tem um cuidado especial. Ajuda na recuperação da vida, incentiva a volta aos estudos e ensina atividades remuneradas, assim como empreender.

      Parte da motivação de Nakaima vem do seu próprio sofrimento, após ser vítima do LRA em 2009, e ser obrigada a deixar sua casa, e sair de sua cidade, Dungu.

     Uma mulher guerreira de verdade, que transformou sua dor em amor ao próximo, em empatia, em sororidade. Em compaixão.

“Jamais vou parar de fazer tudo o que estiver ao alcance para dar- lhes esperança é uma chance de viver de novo.”

Uma mulher que traz um sorriso, uma marca é uma lição à nós todas.

 

Sobre ela…

   São 2:29 da madrugada e não sei como começar, por onde começar, não consigo lembrar exatamente como começou. Só me lembro que de orgulho, passei a ser o motivo das piadinhas na mesa, nos almoços de domingo. Eu fui até meus 19 anos bem atlética, sempre fui padrão, praticava esporte. Aos 15 anos me chamavam de Viviane Araújo, pela semelhança.

     Altura, cabelos, perna grossa, acinturada.

     Ela, que me vestia, queria mesmo é que eu morasse o quanto era bonita, o quanto meu corpo era bonito.  Sempre calças justas, saltos, blusas decotadas.

     Aos 19 anos, engravidei. Tive minhas primeiras crises de ansiedade e pânico quando minha filha nasceu.

     Tive meus primeiros miomas, cauterizados, muito anticoncepcional pra regular.

     Engordei.

     Já era de se esperar. A genética da família também não ajuda. O gosto por cozinhar também contribui.

     De repente, eu estava gorda. E isso era o assunto principal de qualquer pessoa que me encontrasse. Antigos amigos de escola, familiares. E dela.

      Todo mundo que se aproxima ela faz questão de falar – ela era tão magra, tão bonita, agora é gorda. -, é o único assunto dela.

      Eu tentei de tudo para emagrecer. Quanto mais tentava mais engordava, mais as pessoas comentavam.

     No começo me doía, me angustiava. Eu chorava.

     Foi um longo processo até eu olhar no espelho sem chorar. Foi um longo caminho.

     E pasmem, meu maior apoio nesta jornada foi um homem.

     Durante anos eu me fui me escondendo em roupas de senhora, fui perdendo a vaidade.

     Até o dia em que lembrei que não era feliz magra. Eu vivia contando calorias, fazendo dias de jejum antes de festas, pra entrar numa roupa. Eu vivia com o estômago doendo de fome, mas não comia porque não queria engordar.

      Eu vivi de macarrão instantâneo por meses, apenas um por dia para não engordar.

     Eu não era feliz. Eu não era.

     Foram anos até olhar no espelho e não me incomodar com o braço grande, com as costas largas, com o quadril largo, com os seios enormes.

     Foi um processo doloroso até eu parar de ouvir a voz dela ecoando na minha cabeça todo dia, rindo, contando cada grama que aumentava no meu corpo.

      Foi um longo caminho até eu me impor, parar de aceitar calada as piadas e os insultos e falar que eu sou feliz, hoje, gorda.

     Foi difícil falar que gorda, e aceitar essa característica, sem pensar em perjúrio.

     Foi difícil. Mas eu consegui.

     Foram 10 anos.

     Foram longos anos, superados e comemorados com um cropped, um maiô branco na praia, um vestido de malha colado ao corpo, um top que deixa parte da barriga de fora, minha carta de alforria das dietas. Minha liberdade.

     Ela foi por muito tempo a causa do meu desgraçamento mental.

     Mas eu te agradeço hoje mãe, porque eu me torno a cada dia o melhor que eu poderia ser.

Ilustração by Rachele Cateyes

“Por enquanto”: HQ sobre automutilação busca por financiamento coletivo

Por Enquanto

 

Vanessa Bencz é jornalista, palestrante e autora de quatro livros publicados. Há 5 anos, seu trabalho gira principalmente em torno de problemas da adolescência como bullying, depressão e violência familiar. Seu novo projeto é a HQ “Por Enquanto”, que está em financiamento coletivo no Catarse até amanhã às 23H59.

Segundo Vanessa, “‘Por Enquanto’ trata de Ana, 16 anos, que pratica automutilação. Ela foi vítima de violência dentro de casa e na escola. Por conta disso, se torna a chamada ‘aluna problema’. Esta poderia ser a história de muitos estudantes brasileiros que vivenciam rotinas difíceis e depressão.”

Eu conheci a autora em um grupo de Facebook. Lendo um pouco sobre seu trabalho e os textos que ela costuma postar em seu perfil, fui “intrometida” e pedi para adicioná-la. Ela aceitou, e desde então, tenho lido seus relatos sobre suas palestras, seus livros e sua determinação em fazer da vida escolar uma experiência melhor.

Palestra e livros
Vanessa palestra principalmente em escolas, para estudantes de Ensino Médio (Imagem: arquivo pessoal)

Foi isso, somado à importância dos assuntos tratados em “Por Enquanto”, que me motivou a entrevistar Vanessa sobre o projeto. Confira abaixo:

 

Tamires Arsênio: O que te motivou a começar a falar sobre temas como saúde mental, bullying e etc?

Vanessa Bencz: O que me motivou foi a necessidade dos estudantes ouvirem sobre isso. Quando comecei a fazer palestras, há cinco anos, a intenção era falar sobre a importância da leitura para os alunos de escolas públicas. Mas percebi que havia assuntos mais graves e urgentes a serem discutidos. Como eu vou incentivar um estudante a ler, se ele está sofrendo violência na escola? Ou dentro de casa? É questão de prioridades. Então, comecei a falar sobre bullying, sobre depressão na adolescência, sobre ferramentas emocionais de busca por ajuda e superação.

 

Tamires: Você pode falar um pouco sobre suas publicações anteriores? Elas sempre seguem essa temática?

Vanessa: Sou mãe orgulhosa de quatro livros, e o quinto está nascendo! Meu primeiro livro, “Relato do Sol”, foi lançado em 2011 e trata-se de contos que produzi durante a faculdade. Meu segundo livro se chama “Memórias de uma Jornalista Distraída”, que também são contos, mas desta vez sobre minha carreira como repórter de jornal diário. Meu terceiro material é a história em quadrinhos “A Menina Distraída”, de 2014, que é minha publicação de estréia nos assuntos de bullying, violência e depressão. A quarta obra foi lançada em 2016 e se chama “Leia Quando Chegar em Casa”. São relatos que coletei nas escolas do Brasil inteiro como palestrante. O quinto livro está sendo financiando agora. É uma história em quadrinhos chamada “Por Enquanto”, que vai falar especificamente de automutilação, depressão na adolescência, bullying e suicídio.

 

A menina distraída
Em sentido horário: capa de A Menina Distraída, destaque da personagem Ana e sua reformulação (Imagem: arquivo pessoal)

 

Tamires: De onde surgiu a inspiração para a HQ Por Enquanto?

Vanessa: Por Enquanto é um spin-off de “A Menina Distraída”. Trata-se da história de Ana, uma personagem que era coadjuvante na MD e que agora ganhou uma história toda para ela. Ana foi a personagem mais comentada da MD, então, nada mais justo do que homenageá-la agora. Na MD falamos sobre bullying, violência e dificuldades de aprendizado. Agora, em “Por Enquanto”, continuo com a temática da violência – acrescentando temas totalmente pertinentes à adolescência, como depressão, suicídio e automutilação. Chamei a desenhista Yasmin Moraes para trabalhar comigo e estou muito motivada com este material.

 

T: Quem são as pessoas envolvidas no projeto?

V: Somos eu (autora), a ilustradora Yasmin Moraes e a namorada da Yasmin, Ruth Pavanello Bianchini, que serviu como referência visual para nossa personagem e está dando a maior força no financiamento.

 

Vanessa e Yasmin
A autora Vanessa e a desenhista Yasmin. Os filtros das fotos podem ser utilizados no seu perfil do Twitter ou Facebook clicando aqui (Imagens: arquivo pessoal)

 

T: Quantas “Anas” você já conheceu ao longo da vida?

V: Digamos que conheço uma todos os dias. São incontáveis Anas – e na versão masculina também. É uma pena que seja tão comum encontrar crianças e adolescentes com uma realidade tão triste e negligenciada. A escola deveria ser um local de segurança, aprendizado e amizade. Mas geralmente não é! O sistema educacional tem criado espaços perigosos em que jovens são julgados, criticados e destruídos. Até os professores saem perdendo, porque são desvalorizados. Eles são jogados dentro das salas de aula com a responsabilidade absurda de construir conhecimento dentro de cabecinhas machucadas e doentes.

 

Por Enquanto
Páginas de Por Enquanto (imagem: arquivo pessoal)

 

T: Você já viu de perto o resultado do seu trabalho? Pode contar algum caso específico?

V: Após uma palestra, uma garota de 16 anos me falou o seguinte: “Vanessa, eu morava com meu pai. Mas ele era uma má influência para o meu irmão pequeno (8 anos) porque era alcoolatra e cometia furtos. Me mudei para a casa da minha mãe para que meu irmão pudesse ter uma vida melhor. Ele ainda não sabia ler. Entretanto… comecei a ser abusada durante as madrugadas pelo meu padrasto. Não sei o que faço: não sei se volto para a casa do meu pai e exponho meu irmão a ele, ou se continuo na minha mãe onde meu irmão finalmente está aprendendo a ler e aguento os abusos do meu padrasto.”

Quando ela me contou isso, choramos juntas. Dei para ela um exemplar de A Menina Distraída e falei: “Eu quero que tu aceite este presente. Quero que esta história em quadrinhos te lembre todos os dias que tu precisa ser uma guerreira. Lembre-se que estou contigo. Tenha coragem de denunciar, por favor!”

Voltei pra casa e chorei muito. Dias se passaram. Semanas. Meses. Se passou um ano, e eu nunca mais encontrei com esta garota.

Em março de 2017, eu estava em uma escola qualquer de Joinville palestrando sobre bullying. Contei, com muito orgulho, que estou lutando para lançar uma nova história em quadrinhos. Encerrei a palestra e perguntei para a plateia se alguém queria falar alguma coisa. Lá do fundo do auditório levantou uma garota. Ela estava chorando.

Era ela! A garota pediu o microfone e disse: “Você, Vanessa, me deu coragem de denunciar aqueles crimes. Denunciei no dia seguinte daquela tua palestra. Meu irmão aprendeu a ler com a tua HQ. Obrigada por existir.”
Existe melhor sentimento do que a construção coletiva da felicidade? Eu diria que não.

 

Vanessa Bencz
Vanessa com a HQ “A Menina Distraída” (Imagem: arquivo pessoal)

 

T: Qual resultado você espera para a HQ?

V: Que sensibilize as pessoas para este assunto. Que levante debates, que coloque holofotes em assuntos essenciais para o bem estar dos estudantes. Que os leitores aprendam o significado de valores como empatia e respeito, e os coloquem em prática.

 

“Por Enquanto” está em financiamento em https://www.catarse.me/porenquanto#_=_ . Você pode ser um apoiador com a partir de 10 reais. Confira as fotos das recompensas na galeria abaixo:

 

A única coisa que fere é manhã pós-amor

Novo livro de Aline Dias mergulha na prosa poética

O verão de Aline Dias foi na Bahia, com a promessa de que voltaria com um livro. Em seu regresso para Vitória, percebeu que suas vivências e jornadas pelo litoral baiano se transformaram em páginas de prosa e poesia. “A única coisa que fere é manhã pós-amor” é o terceiro livro de Aline, “pequeno porque está muito denso”, afirma. No vídeo abaixo, a escritora e jornalista capixaba, de mudança para Recife (PE), fala sobre a construção espontânea e intensa da obra, da viagem de autoconhecimento e  a coragem para se jogar.

Lançamento

“A única coisa que fere é manhã pós-amor” será lançado em Vitória, seguindo para outras duas cidades, pertencentes à jornada da escritora: Iúna (ES) e Trancoso (BA). Acompanhe o evento no Facebook. O livro também pode ser adquirido no valor de R$15,00 pela página da Editora Cousa.

A autora

Aline Dias nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, em 1988. Publicou “Vermelho” (2012), “Além das Pernas,” (2015) e organizou a coletânea “Sem a Loucura não Dá” (2017), com contos inspirados em músicas de Sergio Sampaio. Aprendeu a chorar este ano e acredita no amor.

A única coisa que fere é manhã pós-amor

Editora: Cousa

Páginas: 63 páginas
Valor: R$ 15,00

Imagem: Pexels/reprodução

A Filha do Vento

Imagem: Pexels/reprodução
Este é um texto em prosa inspirado pela música “The Blower’s Daughter”, de Damien Rice. Para uma experiência mais completa, leia enquanto escuta o player no final do post. Você também pode ler a tradução aqui.

Depois de tanto tempo, foi engraçado perceberem naquela reunião que continuavam os mesmos. Haviam tido um rápido mas marcante encontro anos antes. E aquele dia parecia, se não um flashback, uma remontagem com a essência original.

Tudo bem, as mudanças eram grandes. Além de não estarem mais juntos, ele encontrara uma nova pessoa que o fazia muito bem. Como ela previra à época do rompimento, ele superou e soube tocar a vida como antes dela.

Já ela mantinha o mesmo espírito. Sempre fora livre. Agora ainda mais, já que ele fora o último homem a quem se ligou com alguma amarra.

Mas algo mantinha-se. E ele sentia culpa por ter de admitir que superara, mas não a esquecera. Vê-la reavivou o sentimento apenas adormecido dentro dele.

O reencontro se deu no litoral, na praia onde costumavam frequentar em períodos diferentes, um sem saber do costume do outro. E a inevitável coincidência aconteceu. Chegava a ser estranho que ambos tenham ido à costa em pleno inverno.

Mesmo estando ao lado da noiva, para ele foi inevitável se distrair ao vê-la. Gastou um pouco de seu tempo para apresentá-las, e todo o resto relembrando o passado e se inteirando sobre a vida da ex-namorada.

Ele podia ver em seus olhos que ela conseguira o que tanto queria, que seu espírito voava livre. Mas também notava que faltava algo… Um brilho… Faltava-lhe amor?

Mas o que fosse, ele não podia fazer nada. Ela fizera sua escolha. Entre pertencer a ele e não pertencer a ninguém, escolhera a segunda opção.

E ele podia perceber isso enquanto ela era a única a mergulhar nas águas gélidas do mar, sem medo. De fato, em nada ela se parecia com os outros.

Assim era ela… De alma solta, tanto que era impossível pegá-la. Afinal, era a filha do vento. E o vento não se prende.

Alguma coisa sobre mãe

Mãe e Filho/Picasso- 1906

 

Poderia discorrer sobre as construções e desconstruções que o termo “mãe” vem sofrendo ao longo do tempo, sobre este assunto não faltam explicações, sejam elas de ordem histórica, psicológica ou social- todas de grande relevância. Poderia ainda discorrer sobre as imposições feitas às mulheres para que estas se tornem mães “perfeitas” ou até mesmo mães e sobre os efeitos de tais imposições, mas resolvi associar livremente e compartilhar um poema que pari faz algum tempo.

O objetivo ao compartilhar este fruto não gira em torno de explicações e justificativas, é apenas uma demonstração decorrente de uma nova forma de ver uma mãe – uma mãe possível.

Por fim, o mais próximo de uma justificativa a que posso chegar, é que tal poema é relativo a algo que eu como filha tive que aprender. Segue o poema:

 

 

MÃE

 

A-MÃE-É-SER

O BRILHO DO SOL

UMA FLOR

UM ESPINHO

E UM TANTO DE DOR

 

AMOR.

 

MÃE NÃO VEM DE FÁBRICA!

 

A- MÃE- É-SER

A- MÃE-É-SENDO.

 

7 músicas da Pitty que me colocaram no cantinho da disciplina para pensar na vida

“Cantinho da disciplina”, para quem não sabe, é para onde as crianças que não foram tão boazinhas ficam para realizar o maior ato de crescimento pessoal: pensar na vida. Cada música dessa lista me fez sentar no meu cantinho imaginário e pensar. Na vida, nas pessoas, na sociedade, nos meus atos e, principalmente, onde eu posso melhorar. Segue a lista:

7 – Admirável Chip Novo

Nome do primeiro álbum da baiana, que saiu em 2003, “Admirável Chip novo” me fez ver e pensar na manipulação que sofremos mesmo sem perceber. Fora o clipe que é uma chacoalhada digna de “eita”.

(Informação inútil: o Duda, baterista, ainda tinha cabelo)

A música fala sobre a sensação de nos sentirmos únicos e totalmente independentes (“Nada é orgânico/É tudo programado/E eu achando que tinha me libertado”). Mostra também algo que lembra uma lista de coisas que precisam ser feitas (“Pense, fale, compre, beba/Leia, vote, não se esqueça/ Use, seja, ouça diga/ Tenha, more, gaste, viva”) e finaliza o refrão com aquele tapa carinhoso no meio da nossa cara, mostrando a nossa submissão (“Não senhor, sim senhor, não senhor, sim senhor”).

6 – Na Sua Estante

 

Música do segundo álbum, “Anacrônico”, lançado em 2005, “Na Sua Estante” conta a história de amor de um robô por uma humana. Deixo o clipe aqui pois a versão ao vivo é a que mais me faz sentir, seja lá o que for isso que sobe pelo meu corpo quando a música começa.

Essa música me fez ter gotas maiores de amor próprio e me preparar para as pessoas que vêm e vão (“Você está sempre indo e vindo, tudo bem/Dessa vez eu já vesti minha armadura”), mostrando também que, independente do que aconteça, eu sou mais do que isso (“E mesmo que nada funcione/Eu estarei de pé/De queixo erguido”). Me fez ver que eu não sou troféu de ninguém (“Eu não ficaria bem na sua estante”) e que eu sou suficiente, mesmo que demore, mesmo que doa, mesmo que seja difícil, um dia de cada vez (“Só por hoje não quero mais te ver/Só por hoje não vou tomar minha dose de você/Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam/ E essa abstinência uma hora vai passar”).

5 – Seu Mestre Mandou

Do álbum “Des{concerto}”, de 2007, ela nós trás um tapa ainda maior do que em “Admirável Chip Novo” porque, convenhamos, me sinto submissa só de ler o nome da música.

A letra fala sobre nós, no sentido de sociedade, e em como somos mandados a tudo, indo da parte pessoal (“Pra que emprego? Que coisa chata/Aproveite o carnaval/Mesmo sem luz, proteção nem dinheiro/Por favor, não mude o canal”) passando pela política (“Vote em mim/Não discuta”) e uma cutucada em religião (“Tenha fé/Carregue a cruz”). A música termina com “E daqui a pouco vão querer/Morar em você.” Sim, sobra tapa e falta luva.

4 – Todos Estão Mudos

Do álbum “Chiaroscuro”, de 2009, “Todos Estão Mudos” me disse, com todas as letras, que era hora lutar.

Com frases como “Não parece haver mais motivos/Ou coragem pra botar a cara pra bater” e “Não espere, levante/Sempre vale a pena bradar/ É hora/ Alguém tem que falar” ela acendeu uma luz dentro de mim que eu não sabia que existia. Pela primeira vez eu havia sentido um sensação de que eu posso, sim, lutar contra as coisas que eu considero errado, e me orgulhar de lutar.

3 – Desconstruindo Amélia

Também do álbum “Chiaroscuro”, “Desconstruindo Amélia” afoga aquela famosa música que diz “Amélia que é a mulher de verdade”. Não, não é. Ouça o hino:

(Informação inútil²: Nunca vi tanto sentido na frase “Hoje aos 30 é melhor que aos 18/ Nem Balzac poderia prever”)

Não comentarei, apenas deixarei o refrão:

“Disfarça e segue em frente, todo dia, até cansar (ÔH-ÔH)

E, eis que, de repente, ela resolve então mudar

Vira a mesa, assume o jogo, faz questão de se cuidar (ÔH-ÔH)

Nem serva nem objeto, já não quer ser o outro

Hoje ela é um também”

2 – Pra Onde Ir

Faixa do DVD “Chiaroscope”, também de 2009, “Pra Onde Ir” me deixou menos perdida e mais tranquila para enfrentar o começo da vida adulta.

Cada ônibus que eu peguei na vida, depois dessa música, me fez sentir leveza e pensar que tudo bem ficar meio perdida as vezes, porque “A vida, as vezes, cansa por demais/Dispersa e enlouquece até o mais capaz”. Eu senti muito o peso que eu colocava nas coisas e o quanto a minha auto-cobrança me endoidava e que, com o tempo, eu saberia para onde ir (“Endurecer sem perder a ternura jamais/E descobrir pra onde ir”).

1 – Serpente

Do último álbum de estúdio chamado “SeteVidas”, que saiu em 2014, “Serpente” é a música que fecha.

Me vem uma sensação de evolução, de crescimento, de recomeço. Aquela sensação de ser sobrevivente e que “O que sobra é cicatriz/A sustentação é que o amanhã já vem”. É quase a vida me dizendo que as mudanças acontecem, nós gostando ou não, e temos que fazer o melhor (“Chega dessa pele, é hora de trocar/Por baixo ainda é serpente e devora a calda/Pra continuar”).

Porque “Logo mais o amanhã já vem”.

Gostou da lista? Mudaria alguma coisa? Conta aí!

Virgínia Woolf e a luta pelo espaço da mulher – Parte I

Como seguir o caminho do feminismo sempre remendado pela sociedade? 

 

Foto: Google Imagens

 

Mudar a opinião comum de uma sociedade requer séculos de insistência, argumentação e luta. É como lutar contra uma árvore plantada e cuidada diariamente desde o século 19, criando suas raízes hoje inabaláveis. Assim foi com o machismo. Assim é o preconceito em geral, bem como as crenças populares – manga com leite. E por mais que exista um grupo forte, consolidado na sensatez, a cegueira permanece. Lidar com uma nova verdade, a cegueira branca, desperta medo, raiva e violência.

O feminismo é uma prova disso. A inserção da mulher no mercado de trabalho, no seu reconhecimento enquanto cidadã, eleitora, consumidora ativa, formadora de opinião e líder, são acontecimentos presentes no mundo que tiveram o start na era industrial, no século XVIII. Ainda assim, presenciamos declarações impostas e generalizadas sobre o verdadeiro lugar e função da mulher para com ela mesma, a família e humanidade.

Avançamos em diretos cidadãos, retrocedemos quanto a violência doméstica. Avançamos no mercado de trabalho, retrocedemos na disparidade salarial. Avançamos na Lei Maria da Penha, retrocedemos nos casos diários de assédio e estupro.

Trata-se de um trabalho de costureira. Você faz o corte e começa a costura, mas a linha arrebenta. Refaz a linha, refaz o caminho, mas novamente arrebenta. Começa de novo. Refaz. Refaz. Refaz. Vamos remendando até um dia chegar lá. E é um remendar que está sendo feito há séculos.

Virgínia Woolf, ensaísta, escritora e editora britânica, observou e escreveu sobre essa luta constante em um momento importante da Inglaterra. Em 21 de janeiro de 1931, ano em que muitas mulheres começaram a ingressar no mercado de trabalho do país monarca, Woolf foi convidada para um encontro na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, onde leu o texto Profissões para Mulheres. Publicamos hoje a primeira parte, sendo a segunda disponibilizada na próxima quarta, sempre na coluna Entendendo o Feminismo.

 

Profissões para mulheres

Parte I

 

Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer. Minha profissão é a literatura; e é a profissão que, tirando o palco, menos experiência oferece às mulheres – menos, quero dizer, que seja específicas das mulheres. Pois o caminho foi aberto muitos anos atrás – por Fanny Burneym Aphra Behn, Harriet Martineau, Jane Austen, George Eliot ¹ -; muitas mulheres famosas e muitas outras desconhecidas e esquecidas vieram antes, aplainando o terreno e orientando meus passos. Então, quando comecei a escrever, eram pouquíssimos os obstáculos concretos em meu caminho. Escrever era uma atividade respeitável e inofensiva. O riscar da caneta não perturbava a paz do lar. Não se retirava nada do orçamento familiar. Dezesseis pences bastam para comprar papel para todas as peças de Shakespeare – se a gente for pensar assim. Um escritor não precisa de pianos nem de modelos, nem de Paris, Viena ou Berlim, nem de mestres e amantes. Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras, antes de dar certo nas outras profissões.

Mas vamos à minha história – ela é simples. Basta que vocês imaginem uma moça num quarto, com uma caneta na mão. Só precisava mover aquela caneta da esquerda para a direita – das dez à uma. Então ela teve uma ideia que no fundo é b em simples e barata – enfiar algumas daquelas páginas dentro de um envelope, colar um selo no canto de cima e pôr o envelope na caixa vermelha d esquina. Foi assim que virei jornalista; e meu trabalho foi recompensado no primeiro dia do mês seguinte – um dia gloriosíssimo para mim – com uma carta de um editor e um cheque de uma libra, dez xelins e seis pences. Mas, para lhes mostrar que não mereço muito ser chamada de profissional, que não conheço muito as lutas e as dificuldades da vida de uma mulher profissional, devo admitir que, em vez de gastar aquele dinheiro com pão e manteiga, aluguel, meias e sapatos ou com a conta do açougueiro, saí e comprei um gato – um gato lindo, um gato persa, que logo me criou sérias brigas com os vizinhos.

Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento? Mas esperem aí. Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre um romance de um homem famoso. E quando eu estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, “O Anjo do Lar”. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era exatamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo. E, quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto.

Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura”. E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro – digamos, umas quinhentas libras anuais? –, e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir. Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela.

Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo em busca de aventuras. Mas foi uma experiência real; foi uma experiência inevitável para todas as escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atividade de uma escritora.

Mas continuando minha história: o Anjo morreu, e o que ficou? Vocês podem dizer que o que ficou foi algo simples e comum – uma jovem num quarto com um tinteiro. Em outras palavras, agora que tinha se librado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é “ela mesma”? Quer dizer, o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato esta é uma das razões pelas quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da maior importância.

 

*Virgínia Woolf leu esse texto para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Foi publicado postumamente em A morte da mariposa, 1942.

** Continua na próxima quarta-feira (19), na coluna Entendendo o Feminismo

 

Homem, você tem medo de quê?

Em uma sala de aula de inglês, dividi os oito alunos em dois grupos – quatro mulheres e quatro homens – e pedi para que eles conversassem entre eles sobre quais seriam as vantagens de ser do sexo oposto. Os homens conversaram sobre as vantagens de ser mulher, e as mulheres sobre as vantagens de ser homem. Até então, havia sido uma aula bem leve, engraçada, sobre os estereótipos de gênero presentes na sociedade e o quão distantes da realidade eles de fato são. A maioria das minhas alunas, por exemplo, não gostava de crianças e não pretendia ser mãe. Meus alunos todos gostavam de cozinhar e eram responsáveis por afazeres domésticos. Até aí, ok.

A discussão em grupos, no entanto, tomou uma proporção que talvez eu já devesse ter esperado. Ao listarem as vantagens de ser mulher, meus alunos – talvez inocentemente – apontaram que mulheres pagam menos para entrar nas festas, recebem bebidas e geralmente não precisam pagar a conta em um encontro. Da mesma forma, mulheres não são obrigadas a se alistarem, se aposentam mais cedo e etc.

Podemos discutir sobre a forma como meus alunos, enquanto homens, são alheios ao real significado dessas supostas vantagens: pagamos menos em festas pois somos a mercadoria da festa; recebemos bebidas pois os homens tendem a esperar receber algo em troca; não pagamos a conta pois o cavalheirismo assim o dita, e o que é o cavalheirismo se não uma forma de afirmação de superioridade, de dominação?; podemos dizer que o alistamento não é obrigatório a mulheres por que, majoritariamente, não nos querem lá, porque não somos consideradas fortes o suficiente, boas o suficiente; nos aposentamos mais cedo pois vivemos, ainda, uma dupla jornada que nos liquida no decorrer dos anos e, muitas vezes, impede o nosso progresso profissional. Mas não é sobre isso que precisamos conversar.

É sobre as vantagens de ser homem.

Minhas alunas, todas novas, adolescentes e jovens adultas, entre risadas desconfortáveis, sorrisos resignados e olhares para mim – como elas, uma mulher – listavam as vantagens de ser homem: as pessoas te respeitam sem você precisar fazer nada de mais; você pode andar na rua de noite sem ter medo de ser estuprada; se é um assalto, só levam as suas coisas, você não corre outros riscos; você pode beber em festas sem ser julgada por isso e sem se tornar vulnerável aos avanços de homens ao redor.

Se algum leitor homem chegar a esse texto, gostaria que me respondesse essa pergunta: Qual é o seu maior medo? Por que o nosso, claramente, é você.

Me chocou naquele momento, como sempre me choca quando escuto relatos de mulheres sobre as batalhas de se ser mulher, a quantidade extrema de medo com a qual convivemos diariamente. Temos medo de sair de casa, temos medo, em alguns casos, de voltar para casa. Temos medo no nosso ambiente de trabalho, de estudo, de lazer. Carregamos esse medo conosco todo o dia, e ele pesa, e ele nos limita. Me pergunto agora, assim como me perguntei naquela hora, olhando para os meus alunos calmos e leves, e para as minhas alunas que traziam um misto de tensão, tristeza e revolta, se os homens fazem ideia do medo que sentimos, do que é viver com pavor.

Me lembrei, compartilhei com eles, e venho aqui compartilhar com vocês, uma frase da maravilhosa Margaret Atwood que resume bem a discrepância entre os pesos que sujeitos masculinos e femininos carregam na nossa sociedade, na esperança de gerar uma reflexão da importância do feminismo como um movimento filosófico e político, e do longo caminho que ainda temos a percorrer para que uma total igualdade seja alcançada:

“Homens têm medo que mulheres riam deles. Mulheres têm medo que homens as matem.”

Stella Gibson,  The Fall – BBC