Sobre ser exatamente como as outras

Em algum momento das nossas vidas, as seguintes frases já passaram pelos nossos lábios:

 

“Eu prefiro ter amigos homens.”

“Não consigo ter amizade com outras mulheres.”

“Homens são amigos mais sinceros, mulheres são muito falsas.”

“Na minha turma, sou como um dos caras.”

 

Durante alguma fase da infância ou adolescência, um somatório de fatores da socialização pela qual passamos dá muito errado, e nós começamos a ver o nosso gênero com desdém, com aversão. Nós queremos nos assimilar ao masculino, absorver o masculino de alguma forma, para assim absorver também suas vantagens, seus privilégios, seja copiando seus hábitos, seja encarnando os hábitos da feminilidade que mais os agrada.

 

Nós dizemos “eu não sou como as outras”, nós gostamos de ouvir dos lábios masculinos que somos “diferente das outras”, nos sentimos seguras quando os ouvimos contar da ex “que era louca”, e evitamos cometer todos os “erros” que a ex cometeu: ser chata demais, exigente demais, louca demais. Nós falamos mal de outras mulheres para nos sentirmos mais bem-quistas pelos homens, mais integradas em sua sociedade.

 

Em algum momento, se temos sorte, percebemos que ao invés de sermos diferentes, somos exatamente como as outras. Eles riem da gente como riem das outras. Da mesma forma que eles objetificam, menosprezam, diminuem as outras, eles objetificam, menosprezam, diminuem a nós e às nossas irmãs, de sangue ou não. E lá estamos nós, por um motivo ou outro, um medo ou outro, sendo coniventes.

 

“O opressor não seria
tão forte se não tivesse cúmplices
entre os próprios oprimidos.”
Simone de Beauvoir

 

O que nos salva? Nós mesmas, ao estendermos a mão umas às outras.

 

Há algo de muito poderoso em buscar cercar-se de mulheres. Percebemos que compartilhamos de muitos dos mesmos medos, que passamos por muitos dos mesmos constrangimentos, mas ao mesmo tempo abrimos o nosso olhar para outras partes de suas vivências femininas que podem ser muito distintas das nossas. Ao nos cercarmos de mulheres, temos a oportunidade de vê-las como pessoas completas, com seus defeitos e qualidades, seus privilégios e opressões, e assim, em contraste com as vivências delas, reconhecer os nossos próprios privilégios.

 

Ao convidá-las a ocupar o mesmo espaço que conquistamos, nos engrandecemos, nos tornamos mais do que nós mesmas, nós nos tornamos exatamente como as outras em toda a nossa diferença.

 

Para mim, essa certeza tem se tornado cada vez mais forte, e cada vez mais parte da forma como escolho viver minha vida. Escolhi me cercar de mulheres, escolhi me deixar permear por elas, por suas vivências, por seus conhecimentos, e oferecer de volta o pouco que tenho: algum acesso, alguma instrução e diversos privilégios, dos quais não posso me livrar pois foram impregnados em mim, mas dos quais apenas saberei fazer melhor uso se me deixar instruir, se me obrigar a ouvir.

 

A maioria de nós já se sentiu bem, se sentiu mais amada, mais segura, mais feliz por não ser como as outras. Mas esse é um bem-estar emprestado, ilusório, e que compensa desconstruir. Que a presença de outras mulheres no seu grupo de amigos não seja uma ameaça, mas uma adição. Que ser a única mulher no seu ambiente de trabalho ou de estudo não seja uma vitória, mas um sinal de que algo precisa mudar. Que busquemos nos cercar de mulheres sempre, e que isso nos faça entender melhor suas lutas, a respeitar melhor seus espaços e a ceder a elas, quando possível, os nossos.

 

Dedico esse post às mulheres que me cercam e que me engrandecem, em especial ao incrível e diverso grupo de deusas que compõe o Elas por Elas, e à Luana, que compartilhou há alguns dias esse poema de abrir os olhos.

Poema: Rupi Kaur

Jade

Jade Arbo, 24, feminazi esquerdopata louca da problematização (mentira, sou pós-moderna cirandeira, mas vai ter crítica sim). Estudante de Bacharelado em Letras, interessada em feminismo, filosofia, história e o gênero dos anjos.

Comentários

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One comment

  1. Por que é mais fácil achar produções sobre rivalidade do que sobre amizade feminina? - Elas por Elas - Projeto Literário Elas por Elas – Projeto Literário

    […] Uma das formas de chegar a essa constatação é pensando no poder que a união e a amizade feminina podem ter. A forma como a naturalização da rivalidade feminina sabota a criação desses laços é apenas um dos problemas, sobre o qual a Jade já falou nesse post aqui. […]

    Responder

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