Um amor intenso e livre como eu

 

 

(Imagem: Tumblr)

Sabia que a cada dia que passa eu me torno mais apaixonada por você? Cada detalhe seu me encanta, a sua cara séria enquanto dirige, a sua boca bem desenhada pelo meu corpo, a maciez da sua pele contra a minha, a delicadeza dos seus traços, o cheiro suave de perfume do seu cabelo e contrapartida ao teu cheiro de homem do restante do corpo.

O seu beijo amoroso na minha bochecha até o seu beijo faminto quando me pega com desejo.

Me sinto perdida nos teus braços,  na ânsia de naufragar em você inteiro e de me agarrar nos teus cachos como uma tentativa de provar a mim mesma que tudo isso não é um sonho.

Sinto você em mim quando fecho meus olhos, e meu corpo estremece quando te vejo parado em meu portão com esses olhos profundos de menino.

Eu não me encontro em outro abraço,  nunca me encontrei em outro beijo e não sei lidar muitas vezes com as neuroses que o medo de te perder me traz.

Quero você como meu menino, meu homem, sem metades. Não me tire dos teus braços e nem dos teus pensamentos, preciso de você desesperadamente como uma necessidade básica, como um fruto maduro que que não aguenta o próprio peso em si e se derrama pelo o chão.

Teu peito é o meu chão, a segurança que eu preciso para continuar, para não me derramar, para não chegar ao fim.

Eu te amo por tudo aquilo que se atreve a ser teu, tudo que não te pertence, tudo que te constrói. E te amo mais ainda por esse sentimento não me podar de ser eu mesma.

Sobre ser exatamente como as outras

Em algum momento das nossas vidas, as seguintes frases já passaram pelos nossos lábios:

 

“Eu prefiro ter amigos homens.”

“Não consigo ter amizade com outras mulheres.”

“Homens são amigos mais sinceros, mulheres são muito falsas.”

“Na minha turma, sou como um dos caras.”

 

Durante alguma fase da infância ou adolescência, um somatório de fatores da socialização pela qual passamos dá muito errado, e nós começamos a ver o nosso gênero com desdém, com aversão. Nós queremos nos assimilar ao masculino, absorver o masculino de alguma forma, para assim absorver também suas vantagens, seus privilégios, seja copiando seus hábitos, seja encarnando os hábitos da feminilidade que mais os agrada.

 

Nós dizemos “eu não sou como as outras”, nós gostamos de ouvir dos lábios masculinos que somos “diferente das outras”, nos sentimos seguras quando os ouvimos contar da ex “que era louca”, e evitamos cometer todos os “erros” que a ex cometeu: ser chata demais, exigente demais, louca demais. Nós falamos mal de outras mulheres para nos sentirmos mais bem-quistas pelos homens, mais integradas em sua sociedade.

 

Em algum momento, se temos sorte, percebemos que ao invés de sermos diferentes, somos exatamente como as outras. Eles riem da gente como riem das outras. Da mesma forma que eles objetificam, menosprezam, diminuem as outras, eles objetificam, menosprezam, diminuem a nós e às nossas irmãs, de sangue ou não. E lá estamos nós, por um motivo ou outro, um medo ou outro, sendo coniventes.

 

“O opressor não seria
tão forte se não tivesse cúmplices
entre os próprios oprimidos.”
Simone de Beauvoir

 

O que nos salva? Nós mesmas, ao estendermos a mão umas às outras.

 

Há algo de muito poderoso em buscar cercar-se de mulheres. Percebemos que compartilhamos de muitos dos mesmos medos, que passamos por muitos dos mesmos constrangimentos, mas ao mesmo tempo abrimos o nosso olhar para outras partes de suas vivências femininas que podem ser muito distintas das nossas. Ao nos cercarmos de mulheres, temos a oportunidade de vê-las como pessoas completas, com seus defeitos e qualidades, seus privilégios e opressões, e assim, em contraste com as vivências delas, reconhecer os nossos próprios privilégios.

 

Ao convidá-las a ocupar o mesmo espaço que conquistamos, nos engrandecemos, nos tornamos mais do que nós mesmas, nós nos tornamos exatamente como as outras em toda a nossa diferença.

 

Para mim, essa certeza tem se tornado cada vez mais forte, e cada vez mais parte da forma como escolho viver minha vida. Escolhi me cercar de mulheres, escolhi me deixar permear por elas, por suas vivências, por seus conhecimentos, e oferecer de volta o pouco que tenho: algum acesso, alguma instrução e diversos privilégios, dos quais não posso me livrar pois foram impregnados em mim, mas dos quais apenas saberei fazer melhor uso se me deixar instruir, se me obrigar a ouvir.

 

A maioria de nós já se sentiu bem, se sentiu mais amada, mais segura, mais feliz por não ser como as outras. Mas esse é um bem-estar emprestado, ilusório, e que compensa desconstruir. Que a presença de outras mulheres no seu grupo de amigos não seja uma ameaça, mas uma adição. Que ser a única mulher no seu ambiente de trabalho ou de estudo não seja uma vitória, mas um sinal de que algo precisa mudar. Que busquemos nos cercar de mulheres sempre, e que isso nos faça entender melhor suas lutas, a respeitar melhor seus espaços e a ceder a elas, quando possível, os nossos.

 

Dedico esse post às mulheres que me cercam e que me engrandecem, em especial ao incrível e diverso grupo de deusas que compõe o Elas por Elas, e à Luana, que compartilhou há alguns dias esse poema de abrir os olhos.

Poema: Rupi Kaur

Essa beleza de corpo

Projetos fotográficos exaltam a diversidade do corpo feminino

 

Ocupa Corpos – Foto: Thais Carletti

 

 

– Você ama o seu corpo do jeito que ele é?

 

Começar a matéria com uma pergunta dessas não tem como intenção te afastar das linhas a seguir. Na verdade, é um questionamento, que essa autora sempre procurou fazer e percebeu que todas as respostas, suas e de algumas amigas, são negativas. As imperfeições estão lá e sempre são apontadas. Estria, celulite, espinha, assimetria, gorduras localizadas, coxas finas ou grossas demais, pouca cintura, braço largo, pouca bunda, muito seio – nada belo o bastante para se admirar.

Mas se são as imperfeições que nos definem, deveríamos nos enxergar naturalmente belas. Afinal, não há perfeição. “O que a mídia impõe para a gente são corpos esculturais de revistas. O padrão é absurdo, impossível de alcançar, até por que essas imagens vinculadas não são corpos reais de mulheres, mas sim vítimas de um tratamento de imagem irreal”, afirma a fotógrafa Thais Carletti.

Foi através desse questionamento, sobre objetificação da mulher e os casos de revenge porn, que Thais criou, em 2015, o projeto fotográfico Ocupa Corpos. Com a proposta de valorizar e refletir sobre a libertação sexual e corporal, a fotógrafa produz ensaios nus de mulheres das mais diversas imperfeições. Não há correção ou camuflagem. É o corpo ocupando seu espaço, a mulher presente como ela é.

Outro que surgiu no mesmo ano com a proposta de libertação do corpo feminino, também em Vitória (ES), é o Corpos Libres, da curitibana Juliana Guariza. Na época em que fixou residência na capital capixaba, Juliana criou o projeto inspirada em suas amigas locais – uma delas, inclusive, a própria Thais Carletti –, voltado para esse outro olhar mais generoso com o próprio corpo. “Minhas amigas realmente transformaram minha ideia do que é ser mulher em sociedade. Além delas genuinamente se apoiarem entre si, elas não pediam desculpas por serem o que elas são. Elas não se encaixam em padrões e lutam pelo direito de ser o que elas quiserem ser. Para mim essa autenticidade é inspiradora”, reflete.

 

 

Libertar-se
A naturalidade e o conforto da modelo são prioridade para ambas fotógrafas. Juliana busca ambientes acolhedores e externos, onde a luz natural seja trabalhada – “acho que combina com essa natureza selvagem da mulher”. A espontaneidade e a identificação com o espaço também importam no momento do ensaio, “para se sentir confortável com as fotos e mais importante consigo mesmas. É uma espécie de conversa com o próprio corpo, e o que eu faço é registrar essa conversa”, explica Thais Carletti.

 

 

 

Nos ensaios, vemos mulheres de todas as formas, tamanhos e perfis. Não há padrão e nem restrição, apenas o libertar-se. De tantas belezas femininas que suas lentes registraram, as fotógrafas não carregam apenas a experiência profissional, mas também subjetiva, de mulher para mulher, Afinal, conforme colocado nas primeiras linhas dessa matéria, amar nosso corpo do jeito que ele é não é uma realidade majoritária. Mas o que é a beleza feminina?

“Autenticidade. Estar confortável na própria pele. E todas as pequenas peculiaridades do corpo de cada uma que as fazem únicas. Eu percebo que essas mulheres que fotografei têm tem muita vontade de abraçar e amar suas imperfeições. São elas que as fazem únicas. Falo também por mim mesma, eu precisei me libertar de muitas questões que eu tinha com meu corpo para ter mais sensibilidade para fazer esses retratos“, conta Juliana Guariza.

“Todas as vezes que eu fotografo eu aprendo principalmente a me relacionar melhor com meu próprio corpo. A gente precisa se amar muito e sempre, e com todas essas mulheres eu repenso que tipo de relação eu tenho comigo mesma. E o objetivo do projeto é criar essa discussão: é preciso falar de nudez, é preciso falar de feminismo, é preciso naturalizar e amar os corpos”, Thais Carletti. Amar os corpos. Amar nosso corpo. Amar-se. Uma atividade tão complexa que requer exercícios diários. Uma vez que que você se liberta, no entanto, você enxerga. É uma beleza de corpo. E é só seu.

Ocupa Corpos e Corpos Libres são projetos autorais que seguem em atividade no ano de 2017. Visite a página de cada e conheça mais:

Ocupa Corpos
Instagram: @ocupacorpos
https://ocupacorpos.wordpress.com/

Corpos Libres
Facebook / Instagram: @corposlibres
https://corposlibres.tumblr.com/