Leitura necessária: Chimamanda Ngozie Adichie

(Foto: Divulgação)

 

Chimamanda Ngozie Adichie  é uma das escritoras nigerianas mais influentes e jovens da atualidade. Sua obra tem um enfoque feminista didático responsável por atrair cada vez mais a atenção das Africanas. Trata a importância dos temas de extrema importância com a leveza da literatura, sua escrita envolve ao mesmo tempo que mostra a partir de suas vivências os desafios sociais que a mulher vive na Nigéria de antes e de agora.

 

Conheça um pouco de sua obra, que já foi traduzida para mais de trinta línguas:

 

Meio sol amarelo: O livro agradou tanto que virou filme, conta a história de  irmãs gêmeas que não são nada parecidas. Enquanto uma abandona os jogos sociais de sua influente família para dar aulas e viver a revolução, a outra participa de todas as situações possíveis para se favorecer. O livro ilustra bem a divisão social da Nigéria, inclusive nos tempos da ditadura.

Meio sol amarelo, Companhia das letras

Americanah: Conta a história de amor entre dois jovens nigerianos em meio ao cenário da ditatorial. A menina passa por cima de todos os preconceitos e consegue estudar em uma das mais aclamadas universidades Dos EUA, porém quando retorna às suas raízes já como uma conceituada blogueira, se choca com a mudança do cenário e o que deixou para trás.

O livro vai bem além de uma história de amor, ele faz uma crítica social importantíssima de maneira inspiradora.

 

Americanah, Companhia das letras

Hibisco Roxo: Narradora e personagem, Kambili conta a sua história mostrando as opressões que sofreu por seu pai que abominava as raízes nigerianas e idolatrava o segmento católico, tal opressão religiosa o levou a negar o próprio pai e sua outra filha, porém ao decorrer da história a jovem se apaixona por um padre, e sua falta de perspectiva faz com que ela seja obrigada a sair da Nigéria.

Hibisco roxo, companhia das letras

Sejamos todos feministas: Uma palestra da autora que virou livro, e trata da importância da igualdade de gêneros, a partir de situações que ela mesma viveu durante o decorrer da sua vida em uma nigeria machista;  além de contar a experiência de outras mulheres e expor os julgamentos que sofreu.

Um livro super curtinho e gostoso de ler, fundamental para quem quer compreender um pouco mais sobre igualdade.

Sejamos todos feministas, companhia das letras

Extremamente inspiradora, Chimamanda tem uma escrita necessária, inclusive um de seus discursos foi musicado pela Beyonce, (https://www.youtube.com/watch?v=IBe9Vtodzg4)

Uma obra útil apenas para  maior conhecimento da Nigéria, mas sim livros  que mostram os desafios de ser mulher em países de construções machistas e preconceituosas, valorizando e apresentando o poder do feminismo e da liberdade de qualquer preconceito.

Site oficial: http://chimamanda.com/

Outros jeitos de usar a boca de Rupi Kaur – (des)fazendo os nós na garganta

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

 

O livro, originalmente publicado com o título milk and honey da escritora e artista Indiana Rupi Kaur, traz a cada poema um soco e, por vezes, um abraço.

Imagem: divulgação

Éle propõe ao leitor quatro momentos: a dor, o amor, a ruptura e a cura. Em cada um deles encontramos histórias de família, de relacionamentos, histórias que doem em mulheres, histórias que falam daquele relacionamento abusivo disfarçado de amor, daquela ruptura que antes de mais nada é um acordar para um mundo onde conseguimos perceber o abuso psicológico que sofremos diariamente e que por mais libertador que seja, não deixa de ser sofrido. Então vamos lá, vejamos mais detalhadamente o que ela está dizendo e se tu realmente sente esses socos que eu falo.

Todas nós já sabemos que ninguém precisa ser estuprada para sentir o que é a dor de um estupro, além disso, o estupro é diário e, infelizmente, poucas são as mulheres que nunca sofreram nenhum tipo de abuso (ou seria – nenhuma?!). No segundo poema temos:

“o primeiro menino que me beijou

segurou meus ombros com força

como se fossem o guidão da

primeira bicicleta

em que ele subiu

eu tinha cinco anos” (Kaur, 2017, p.12)

Não chegamos ao final, mas aí já temos bastante discussão e questionamentos – afinal de contas em que momento meninos aprendem que ‘podem’ nos segurar dessa forma?, e que lugar é esse que vivemos, e que parece não ter fronteiras, onde o corpo de crianças é sexualizado?

Não é bonitinho ver o menininho agarrando a menininha, é deprimente. Isso é o início da iniciação machista, isso é o inicio da opressão de mulheres e também do silenciamento de muitas delas, que se sentem perdidas e amedrontadas com a normalidade social de um abuso.

“ele tinha cheiro

de fome nos lábios

algo que aprendeu com

o pai comendo a mãe às 4h da manhã” (Kaur, 2017, p.12)

Esse cheiro de fome, lembra esse lado animalesco masculino, já discutido por muitas feministas e nada admirável. Não precisamos ir muito longe pra ver homens achando bonito ser um animal, eles se comportam assim.

 “ele foi o primeiro menino

a ensinar que meu corpo foi

feito para dar aos que quisessem

que eu me sentisse qualquer coisa

menos que inteira

 

 e meu deus

eu de fato me senti tão vazia

quanto a mãe dele às 4h25” (Kaur, 2017, p.12)

Sentir-se vazia, parece que é algo que só pertence à mulher, porque não é só o poema que diz isso, todas nós em algum momento sentimos. Há muitos homens que dentro de famílias, com suas mães sofrendo, reproduzem o mesmo com mulheres na rua. Eu não estou dizendo que eles não sofram, mas estou dizendo que a ideia de empatia entre os dois sexos não parece ser uma via de mão dupla, e se a mãe precisa ter compaixão com o filho, esse mesmo não precisa ter com ela, muito menos compreendê-la antes mesmo de mãe, como mulher.

No amor, ela diz:

“toda revolução

começa e termina

com os lábios dele” (Kaur, 2017, p.48)

Achou bonito? Romântico? Olha, numa primeira leitura é, e eu realmente acho que muitas pessoas podem romantizar tal poema, mas tu já parou pra pensar no significado da palavra revolução? E uma revolução ser motivada por um ‘ele’ e acabar pelo mesmo ‘ele’ não parece ser algo de um universo masculino e dominado por um homem?

Eu não acredito que a revolução tenha que começar e terminar por um ‘ele’, um ‘ele’ que parece ser tão poderoso a ponto de mandar eu agir e parar. Homem não tem que mandar e amor não deveria ser motivado e decidido atráves de um – muito menos um ‘eu – homem’ que historicamente não tem provado muitos atos de amor genuíno pelas mulheres. E falando nesse amor a eu-lirico diz:

“ele só sussura eu te amo

quando desliza a mão

para abrir o botão

de sua calça

 

é aí que você tem

que entender a diferença

entre querer e precisar

você pode querer esse menino

mas você com toda certeza

não precisa dele” (Kaur, 2017, p.86)

Uma ruptura libertadora, afinal de contas, não é facil perceber e se descobrir sendo usada diariamente e abusada emocionalmente. Quantas mulheres já ouviram uma palavra de carinho e logo em seguida um toque malicioso? Muitos homens usam disso para ter o que querem, usam isso, principalmente, em um momento de fragilidade a mulher. Os homens definitivamente não são burros – são maldosos, e pra isso, muito espertos -, mas a ruptura deixa claro que não vamos aceitar esse tipo de comportamento, pois:

 “o amor fez com que o perigo

em você parecesse seguro” (Kaur, 2017, p. 104)

Mas agora não parece mais! E por fim, a cura:

“perder você

foi o que levou

a mim mesma” (Kaur, 2017, p.174)

Aqui ela mostra o quanto juntas podemos ser mais fortes:

“você olha pra mim e chora

tudo dói

 

eu te abraço e susurro

mas tudo pode curar” (Kaur, 2017, p. 181)

Imagem: divulgação

Além de trazer a perspectiva da cura desses ditos ‘amores’, ela também traz a cura atráves da libertação dos padrões sociais que fazem as pessoas achar que devemos ter sempre alguém e que

somos inimigas umas das outras.

Esse livro abre espaço para questionamentos, com poemas curtinhos Kaur nos leva a olhar não só com olhos, ela traz essa sororidade que tanto precisamos, ela traz a empatia que devemos exercer e mostra com toda lírica que esse espaço (dentro e fora da gente) não é determinado por homens e pelos padrões sociais machistas que ainda existem.

E a cura, essa cura que faz com que prestemos atenção em quem realmente importa, nós – e aqui o ‘nós’ é feminino, porque eu falo de nós mulheres.