Resiliência: A arte de sobreviver

O dia aberto me chama através da porta, mesmo eu não querendo ir. Ouço uma voz interna dizendo que eu preciso continuar, mesmo sabendo que essa voz interna é um pedaço meu, não tão quebrado quanto o resto, eu escolho ignorar. Sério, ver pessoas? Explicar o inchaço nos meus olhos ou repetir que eu não estou fumando, apesar dos olhos vermelhos? Não, obrigada. Me parece um cansaço mental totalmente desnecessário e que não irá ajudar a me manter de pé. Apesar que, nessa altura do campeonato, a única pessoa que pode me manter de pé sou eu mesma.

Mas talvez amanhã.

Mesmo sem querer, me lembro de todas as outras vezes que me tornei melhor amiga da minha cama, enquanto perdia peso e via meu cabelo se desmanchar em meio as cobertas. As frases prontas choviam como folhas secas flutuando com o vento de outono e, na mesma pegada das folhas secas, eu não me importava. Eu não me importo.

“São coisas da vida”, “Aconteceu comigo também”, “Você precisa continuar” e, o que eu mais sinto vontade de jogar uma bazuca, “Não precisa ficar assim”. “Não precisa”?

O riso irônico se mantém fixo no meu rosto, mas me jogo do outro lado da cama enquanto aquela voz reaparece dizendo que eu preciso continuar. Ok, talvez eu precise. Talvez tudo isso seja mesmo coisas da vida, talvez tenha mesmo acontecido com outras pessoas, talvez eu não precisasse ficar nesse poço infinito de tristeza e vontade de chorar eternamente, mas talvez esse tenha sido o molde que eu criei para sobreviver. Talvez essa seja a minha forma de ser resiliente.

Em um devaneio longo e detalhado, todas as coisas ruins passaram pela minha cabeça e, logo em seguida, veio a mulher que eu me tornei com o que a vida jogou no meu colo. Assumo que não escolhi nem metade daquilo tudo, mas era o que tinha, então tinha que ser feito alguma coisa. Minha cabeça foi invadida por situações de quase morte, divórcios, perdas, lutos e, principalmente, luta. Luta essa que, no meu caso, não foi nada físico. Luta essa que me ensinou a valorizar noites de sono e comidas gordurosas nos fins de semana. Que me ensinou a falar, a abraçar, a não fugir e, a segunda palavra mais linda do mundo, empatia. Se colocar no lugar dos outros, usar o sapato dos outros, respeitar a escolha dos outros.

Talvez a vida tenha, sim, jogado várias merdas a esmo em cima de mim e, talvez, eu tenha mesmo fugido para o meu lar doce lar – minha cama –, mas talvez eu só precisasse de tempo. Não de cigarro ou de pessoas sem empatia vendendo frases prontas na fila do pão. Talvez eu só precisasse de tempo.

Fecho os olhos, respiro fundo e, ao me preparar para enfrentar sabe-se lá o que estava por vir, eu sinto seu cheiro. Forte, presente. Por vários momentos, eu respirei só para continuar sentindo seu cheiro, e parecia um sinal, sabe. Parecia um “Eu sempre vou estar aqui.” seguido de um “É hora de voltar”.

Você tem razão.

Chuto a coberta, abro a janela, esfrego a cara e vejo suas coisas enquanto sento na cama. “Eu te amo” é a primeira coisa que eu penso.

Amor: a palavra mais linda do mundo.

E o que você faz com o que a vida fez de você?

Silêncio na tarde das mulheres

Foto: Ana Luiza Calmon

 

até outro dia, outro lugar,
eu daria tudo para não ver você calado, pra ver o que há.

é que eu passei um mês inteiro sem te ver, meu bem!
e sem compreender,
eu tava doente do peito, do coração.

o olho do amor desconhece a magia,
mas quem manda em mim sou eu!

por isso eu quero pedir para você se mandar,
quem sabe até outro dia, outro lugar.

permanece o silêncio na tarde das mulheres,
silêncio porque eu quero passar,
porque está passando.

eu escuto Sérgio Sampaio para cicatrizar as feridas.