Sobre ela…

   São 2:29 da madrugada e não sei como começar, por onde começar, não consigo lembrar exatamente como começou. Só me lembro que de orgulho, passei a ser o motivo das piadinhas na mesa, nos almoços de domingo. Eu fui até meus 19 anos bem atlética, sempre fui padrão, praticava esporte. Aos 15 anos me chamavam de Viviane Araújo, pela semelhança.

     Altura, cabelos, perna grossa, acinturada.

     Ela, que me vestia, queria mesmo é que eu morasse o quanto era bonita, o quanto meu corpo era bonito.  Sempre calças justas, saltos, blusas decotadas.

     Aos 19 anos, engravidei. Tive minhas primeiras crises de ansiedade e pânico quando minha filha nasceu.

     Tive meus primeiros miomas, cauterizados, muito anticoncepcional pra regular.

     Engordei.

     Já era de se esperar. A genética da família também não ajuda. O gosto por cozinhar também contribui.

     De repente, eu estava gorda. E isso era o assunto principal de qualquer pessoa que me encontrasse. Antigos amigos de escola, familiares. E dela.

      Todo mundo que se aproxima ela faz questão de falar – ela era tão magra, tão bonita, agora é gorda. -, é o único assunto dela.

      Eu tentei de tudo para emagrecer. Quanto mais tentava mais engordava, mais as pessoas comentavam.

     No começo me doía, me angustiava. Eu chorava.

     Foi um longo processo até eu olhar no espelho sem chorar. Foi um longo caminho.

     E pasmem, meu maior apoio nesta jornada foi um homem.

     Durante anos eu me fui me escondendo em roupas de senhora, fui perdendo a vaidade.

     Até o dia em que lembrei que não era feliz magra. Eu vivia contando calorias, fazendo dias de jejum antes de festas, pra entrar numa roupa. Eu vivia com o estômago doendo de fome, mas não comia porque não queria engordar.

      Eu vivi de macarrão instantâneo por meses, apenas um por dia para não engordar.

     Eu não era feliz. Eu não era.

     Foram anos até olhar no espelho e não me incomodar com o braço grande, com as costas largas, com o quadril largo, com os seios enormes.

     Foi um processo doloroso até eu parar de ouvir a voz dela ecoando na minha cabeça todo dia, rindo, contando cada grama que aumentava no meu corpo.

      Foi um longo caminho até eu me impor, parar de aceitar calada as piadas e os insultos e falar que eu sou feliz, hoje, gorda.

     Foi difícil falar que gorda, e aceitar essa característica, sem pensar em perjúrio.

     Foi difícil. Mas eu consegui.

     Foram 10 anos.

     Foram longos anos, superados e comemorados com um cropped, um maiô branco na praia, um vestido de malha colado ao corpo, um top que deixa parte da barriga de fora, minha carta de alforria das dietas. Minha liberdade.

     Ela foi por muito tempo a causa do meu desgraçamento mental.

     Mas eu te agradeço hoje mãe, porque eu me torno a cada dia o melhor que eu poderia ser.

Ilustração by Rachele Cateyes
Desirre
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Desirre

Paulista, 28 anos. Ariana simpática não praticante.
Necromaquiadora, mãe, feminista, body positive.
Apaixonada por palavras, gatos, girafas e cordeiros.
Estudante de necrofotografia e perícia criminal.
Viciada em seriados criminais, sobrenaturais e macabras e em café ❤
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