Imagem: Pexels/reprodução

A Filha do Vento

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Este é um texto em prosa inspirado pela música “The Blower’s Daughter”, de Damien Rice. Para uma experiência mais completa, leia enquanto escuta o player no final do post. Você também pode ler a tradução aqui.

Depois de tanto tempo, foi engraçado perceberem naquela reunião que continuavam os mesmos. Haviam tido um rápido mas marcante encontro anos antes. E aquele dia parecia, se não um flashback, uma remontagem com a essência original.

Tudo bem, as mudanças eram grandes. Além de não estarem mais juntos, ele encontrara uma nova pessoa que o fazia muito bem. Como ela previra à época do rompimento, ele superou e soube tocar a vida como antes dela.

Já ela mantinha o mesmo espírito. Sempre fora livre. Agora ainda mais, já que ele fora o último homem a quem se ligou com alguma amarra.

Mas algo mantinha-se. E ele sentia culpa por ter de admitir que superara, mas não a esquecera. Vê-la reavivou o sentimento apenas adormecido dentro dele.

O reencontro se deu no litoral, na praia onde costumavam frequentar em períodos diferentes, um sem saber do costume do outro. E a inevitável coincidência aconteceu. Chegava a ser estranho que ambos tenham ido à costa em pleno inverno.

Mesmo estando ao lado da noiva, para ele foi inevitável se distrair ao vê-la. Gastou um pouco de seu tempo para apresentá-las, e todo o resto relembrando o passado e se inteirando sobre a vida da ex-namorada.

Ele podia ver em seus olhos que ela conseguira o que tanto queria, que seu espírito voava livre. Mas também notava que faltava algo… Um brilho… Faltava-lhe amor?

Mas o que fosse, ele não podia fazer nada. Ela fizera sua escolha. Entre pertencer a ele e não pertencer a ninguém, escolhera a segunda opção.

E ele podia perceber isso enquanto ela era a única a mergulhar nas águas gélidas do mar, sem medo. De fato, em nada ela se parecia com os outros.

Assim era ela… De alma solta, tanto que era impossível pegá-la. Afinal, era a filha do vento. E o vento não se prende.

Alguma coisa sobre mãe

Mãe e Filho/Picasso- 1906

 

Poderia discorrer sobre as construções e desconstruções que o termo “mãe” vem sofrendo ao longo do tempo, sobre este assunto não faltam explicações, sejam elas de ordem histórica, psicológica ou social- todas de grande relevância. Poderia ainda discorrer sobre as imposições feitas às mulheres para que estas se tornem mães “perfeitas” ou até mesmo mães e sobre os efeitos de tais imposições, mas resolvi associar livremente e compartilhar um poema que pari faz algum tempo.

O objetivo ao compartilhar este fruto não gira em torno de explicações e justificativas, é apenas uma demonstração decorrente de uma nova forma de ver uma mãe – uma mãe possível.

Por fim, o mais próximo de uma justificativa a que posso chegar, é que tal poema é relativo a algo que eu como filha tive que aprender. Segue o poema:

 

 

MÃE

 

A-MÃE-É-SER

O BRILHO DO SOL

UMA FLOR

UM ESPINHO

E UM TANTO DE DOR

 

AMOR.

 

MÃE NÃO VEM DE FÁBRICA!

 

A- MÃE- É-SER

A- MÃE-É-SENDO.